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Para Susana Campanhã,
guardiã dos meus sonhos e atual
Senhora do Lago,
e para Vera Krausz,
companheira de infância no Castelo.
24 de fevereiro a
7 de agosto de 2019.

 

 

 

 

Esclarecimento necessário:

Essa aqui é uma história de ficção, calcada

em alguns fatos reais e outros inventados.

Os personagens da ação da história são fictícios. Os personagens periféricos à ação podem ser, ou não, reais. O mais real, na história toda, é a magia que de fato existe nesse Castelo...

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Castelo, Clube de Campo, leia também a nossa história lá, de 1959 a 1987 e, depois, 2017, com muitas fotos e vídeos.

 

 

1983

2017

 

 

 

2017

1959

 

 

 
Um Castelo Além do Tempo

por Isabel Fomm de Vasconcellos

 

 

Índice:

Capítulo 1 - Tempo e Lugar

Capítulo 2 - São Paulo, 1910

Capítulo 3 - Magia de Mulher

Capítulo 4 - Verde Mar dos Vagalumes

Capítulo 5 - O Futuro Presente
Capítulo 6 - Tempo e Espaço São Ilusões

Capítulo 7 - De Táxi

Capítulo 8 - A Loucura

Capítulo 9 - De Volta ao Castelo

Capítulos 10 a 16

Capítulos 17 a 24

Capítulos 25 a 31

 

Capítulo 1 - Tempo e Lugar

No tempo em que ali reinavam mulheres e homens de verdade, pensava ela, mulheres e homens que traziam a Força em suas almas e em seus corações, a alameda de pedras que descia, do alto da colina que coroava a península, até a praia, era ladeada por árvores muito grandes, de troncos robustos e largos.

Fôra uma surpresa perceber que aquelas frondosas árvores haviam se reduzido, em apenas duas décadas, a uma fileirinha de árvores fraquinhas, que se equilibravam sobre uns troncos cambitos e que já não configuravam, então, um corredor majestático, por onde deveriam desfilar, no mínimo, algumas das mais altas mentes que viviam sobre a Terra.

Compreendeu, num repente, outra vez com surpresa porque, depois de compreendido, agora parecia tão evidente, tão óbvio: eram elas, as mentes, que projetavam a realidade. Se antes, grandes almas caminhavam por ali, também eram grandes e cheias de realeza as árvores.

Essas árvores de hoje, bonitas sim, mas tão sem grandeza, nada mais eram do que o reflexo das almas que agora transitavam no vasto corredor que descia até a praia: almas simples, vivendo pela primeira vez, tendo o mundo a decifrar e apreender. Para estas – sorriu ela – árvores da mesma dimensão de seus seres, de raízes curtas e com a Terra toda ainda por compreender.

Lugares não são apenas lugares. São lugares e mais as pessoas que os habitam. A mente humana tem o poder de moldar a realidade. Por isso é que se diz que algumas casas são parecidas com as pessoas que as habitam. São mesmo-- concluiu.

Estava pensando nisso quando, de repente, uma neblina inesperada invadiu rapidamente toda a paisagem. Assustada, ela se perguntava que diabo era aquilo, nunca vira nada igual, nem mesmo em Londres. Quase tão rápida quanto viera, a neblina se dissipou. E ela viu, completamente estarrecida, que as velhas árvores da alameda ali estavam e percebeu que a paisagem era outra, embora fosse o mesmo lugar. Estarei sonhando? – ela se perguntou.
 

Nesse instante, sentiu que alguém a tocava de leve, gentilmente, no braço. Voltou-se para ver o dono da voz suave e melodiosa que perguntava:
-- Perdão... A senhorita está passando bem? Pareceu-me muito pálida, quase assustada, e confesso que não sei bem de onde surgiu...Posso ajudá-la de alguma maneira?

 

Era um homem lindo, muito bem vestido, em trajes talvez do final do século XIX ou início do século XX. Tinha uma barba negra, muito bem aparada, a pele levemente morena e os olhos azuis.

-- Não sei – respondeu ela ainda atônita e sem entender como as antigas árvores poderiam estar ali, de volta – Acho que tive uma vertigem, tive a impressão de que tudo fora invadido por uma densa neblina...

-- Uma tontura, certamente – disse ele – Afinal, como a senhorita mesma pode ver, não há sinal de nuvem no céu, uma coisa muita rara em São Paulo, um dia de sol, para nós, paulistanos, é um raro privilégio.

Susana não pôde deixar de pensar no verão escaldante, certamente fruto também do Aquecimento Global e não só da impermeabilização da metrópole, que estavam vivendo naquele janeiro de 2019. Do que ele estava falando afinal?

Foi então que notou a represa. As margens completamente despovoadas. Onde estava a selva de prédios que podia ser avistada, lá, à direita, para além da barragem? Onde, as muitas ruas e casas que podiam ser vistas na margem oposta?
 

Instintivamente levou a mão ao rosto, na altura dos olhos, imaginando que estava com óculos virtuais, que alguém estava lhe pregando uma peça, que a paisagem era uma projeção..., mas não estava.

 

O homem gentilmente a conduziu:
-- Senhorita, venha até a casa, vou pedir que lhe sirvam um copo d’água, quem sabe um chá, vamos sair debaixo desse sol que certamente não está lhe fazendo bem...


-- Não entendo... – disse ela – De repente a paisagem parece ter se transformado... Onde estamos afinal? Não estamos no Castelo, na represa do Guarabitinga?

-- Sim, estamos, é claro – respondeu ele. E continuou:

-- A senhorita deve ser a amiga da minha irmã, ela me disse que viria nos visitar – e enquanto falava, subia com ela a rampa de pedras em direção à porta principal do Castelo -- e estava muito contente em poder mostrar-lhe a nossa nova residência –riu – Minha mãe fez todos os marceneiros a nosso serviço assistirem filmes que ela trouxe da Alemanha para que pudessem reproduzir os móveis exatamente como eram em sua terra natal. Mas eu, eu nasci aqui, sou paulistano e brasileiro, sou urbano e, sinceramente, preferiria morar naquela avenida onde estão se instalando, em mansões ecléticas, as mais nobres famílias dessa cidade, em vez de morar aqui, nesse final de mundo, no meio do mato...

-- Mas o Castelo é um lugar maravilhoso—disse ela --numa localização privilegiada, no topo dessa leve colina, no meio dessa península maravilhosa, quase uma ilha, cercado de água e com esse gramado que desce até a praia, com essas árvores magnificas... O senhor certamente é um ser privilegiado! Deveria ser grato por morar aqui – respondeu ela, já assumindo que, em sonhos ou não, tinha recuado 100 anos, ou mais, no tempo.

-- Ainda assim, eu preferiria ir morar nessa Avenida Paulista..., Mas a senhorita ainda não me disse seu nome.

-- Sou Susana Expedito – respondeu.

-- E eu sou George Meyer – disse ele e já acrescentando – mas aí vem minha irmã... Evelyn, encontrei a sua amiga aí na alameda.

A moça sorriu.
-- Meu irmão querido, não é essa moça que eu estou esperando... Quem é ela?

-- Senhorita Susana Expedito, essa é Evelyn Meyer, minha irmã.

Trocados os cumprimentos formais, Susana percebeu que teria que improvisar.
-- Desculpem-me... Estou de fato confusa, não me lembro de como vim parar aqui... Eu lamento se os estou incomodando..., Mas estou mesmo confusa.

Evelyn sorriu:
-- Uma dama de sua classe é sempre benvinda em nosso lar... descanse um pouco, talvez tenha sido esse sol, tão pouco comum na província de São Paulo... Logo se lembrará... Venha, a mesa do chá está posta. Vamos nos servir.

Susana foi conduzida à grande sala de vidros, que, do lado oposto à porta do Castelo, se descortinava para a grande grama verde que descia até a praia, com algumas árvores à direita, o corredor formado pelas grandes árvores à esquerda e outras, também majestosas, árvores bordando as margens da represa. Uma grande mesa de jantar, com 12 cadeiras, estava sendo abastecida, por criados, com pães, bolos, manteiga, finos doces austríacos e chá num samovar russo.

-- Seu vestido é deveras interessante – disse Evelyn – Diferente de tudo o que já vi... Esse tipo de seda e essa estampa... E essa sua bolsa... Deve ter sido comprada fora do Brasil, não? – e suspirou corrigindo-se – Oh, me perdoe, a senhorita ainda não está lembrada...

Susana deu graças a Deus por estar usando um vestido comprido, com estampa de flores, e saia godê, que poderia ter sido usado no tempo em que estava... Imagine se ela tivesse ido parar no início do século XX com uma daqueles mini saias ou calça jeans...

Sim, Susana já compreendera que estava no início do século XX.
Como a Claire, do Outlander. A diferença fôra que não passara through the stone, mas by The Mists of Avalon... Sorriu ao pensamento e sentou-se à mesa com seus gentis anfitriões, para o chá.

-- Meu Deus – exclamou a jovem Úrsula, ao ser apresentada à Suzana e depois de desculpar-se com Evelyn e George pelo atraso – Mas a senhorita é igualzinha à minha amiga Carmen. Nossa. Se eu não a conhecesse bem, diria que são gêmeas! Devem ser, no mínimo, da mesma família... O sobrenome dela, no entanto, é Fomm de Vasconcellos.

Susana deu um pequeno salto, surpresa e quase deixa escapar: “Claro, ela é minha bisavó”
Disse apenas:
-- Sim... Creio que possamos ser parentes, embora distantes. O nome me parece familiar.

-- Posso contar, Susana? – perguntou Evelyn e recebeu um olhar duro, reprovador, de George.

-- Hum... algum segredo? – fez Úrsula com um muxoxo.

-- Susana não se lembra de muita coisa além de seu nome. Nem sabe como veio parar aqui.

-- Oh... – disse Úrsula – sinceramente constrangida – Mas certamente deve ser uma amnésia temporária... Então está hospedada aqui?

Susana balançou a cabeça, confusa, sem saber o que dizer, mas George respondeu por ela:
-- Sim, é claro! Susana ficará conosco pelo tempo que precisar. Mas, certamente, alguém há de procurar por ela, ficaremos atentos aos anúncios de O Estado de São Paulo, amanhã e nos próximos dias.

-- Vocês certamente assinam também O Diário Popular... – disse Úrsula --Minha amiga Carmen (deve ser sua parente, minha cara Susana) escreve lá, crônicas semanais.

-- Escreve-as, inclusive, muitíssimo bem-- disse George.

E Úrsula, toda coquete:
-- Um passarinho me contou que aqui mesmo nessa mesa temos um grande talento literário, que se isola no escritório que montou na torre de seu Castelo para escrever e escrever...

-- Apenas um passatempo, querida amiga – respondeu George— A senhorita bem sabe que passo meus dias no escritório da firma da nossa família e nosso pai não aprovaria um filho escritor.

-- Ele está escrevendo um romance sensacional – disse, toda animada, Evelyn – Eu leio cada capítulo e depois tenho que esperar que ele tenha tempo para escrever outro, fico ansiosa, querendo saber a continuação da história...

-- Não é um romance – protestou George – É apenas ficção, uma história talvez bem escrita, mas indubitavelmente sem nenhum talento literário.

-- Bobagem – respondeu Evelyn – Ele é um escritor nato. Imagine, está escrevendo uma história que se passa daqui a 110 anos, no ano de 2019.

Susana estremeceu na cadeira.

-- Está se sentindo bem, senhorita? – preocupou-se Úrsula -- Gostaria que chamássemos um médico? Meu pai é um excelente médico. Posso pedir ao nosso chauffeur que nos leve diretamente ao consultório dele, agora mesmo. O consultório tem telefone, nossos amigos aqui também, uma linha absolutamente exclusiva, aliás...

-- Não é necessário – respondeu Susana – e a senhorita é muito gentil ao preocupar-se com a minha saúde. Mas, tirando essa amnésia temporária, tenho certeza que não existe mais nada errado comigo.

-- Mas a senhorita – respondeu Úrsula – certamente não é paulistana de origem, seu sotaque me é muito estranho, nunca ouvi ninguém falar dessa maneira e olhe que conheço o Brasil todo, pelos menos as capitais mais importantes, e nunca ouvi esse sotaque.

-- Será de algum país de língua portuguesa, alguma colônia de Portugal em África? – arriscou Evelyn.

-- Sim... – fingiu Susana – agora me lembro vagamente... Moçambique... Se não nasci lá, vivi lá.

George olhou para ela, com surpresa e reprovação no olhar, e os olhos dela captaram-lhe o pensamento. Ele sabia que ela estava mentindo. Mas não disse nada.

Susana lembrava-se muitíssimo bem de sua bisavó, Carmen Fomm de Vasconcellos Expedito. Conhecia muito bem as fotos dela. E era voz comum na família que Susana era a cara dela, parecia ser um clone dela. Lembrava-se de uma vez, num baile à fantasia, ter se vestido exatamente como sua bisavó estava vestida em 1915, ter se maquiado e penteado exatamente como a antepassada aparecia numa foto e, para gaudio de sua costureira, de seu cabeleireiro e de seu maquiador, e também do fotógrafo, ela ficara absolutamente igual e se deixara fotografar, mas a cores, num ambiente muito semelhante ao que aparecia na foto de sua bisavó. A foto de 2015 parecia apenas ser a versão em cores da foto de 1915. Mas agora, por causa do comentário de Evelyn sobre o livro do irmão, ela sabia que estava em 1910. Sua bisavó, naquele momento, era solteira, não se casara ainda com aquele que viria a ser seu bisavô e nem se tornara a escritora famosa que fôra, lida e relida, principalmente depois da segunda metade do século vinte. Susana sempre se compadecia ao lembrar-se de que, em vida, Carmen Fomm de Vasconcellos Expedito jamais encontrara o reconhecimento verdadeiro de seu talento, embora tenha sido relativamente bem-sucedida, na carreira de escritora, em sua própria época. Certamente, porém, estava à frente do seu tempo. Duas gerações a sucederam até que fosse plenamente compreendida.

-- Por falar em continentes – disse Úrsula – os pais de vocês ainda estão na Europa?

-- Já estão no navio – afirmou Evelyn – Nos telegrafaram avisando e também recebemos maravilhosos cartões postais deles. Mas só chegarão ao porto de Santos em três semanas.

...

Naquela noite, vestida com a camisola e peignoir da Evelyn, preparando-se para dormir em lençóis de cetim e enorme cama, com dossel e cortinado do mais fino tule, no grande quarto de hóspedes do Castelo, Susana afinal lembrou-se que não apareceria no escritório na manhã seguinte, que seria segunda-feira, em 2019, e que seus sócios ficariam extremamente preocupados se ela não comparecesse à audiência do milionário divórcio que estava capitaneando... Bem – pensou com esperança – talvez amanhã de manhã eu acorde em minha própria cama.

Capítulo 2 - São Paulo, 1910

Os Bem-Te-Vi de peito amarelo cantavam ao amanhecer. Um raio de sol, enviesado, entrou no quarto de hóspedes do Castelo e despertou Susana de um sonho maravilhoso, onde ela, vagando por entre as estrelas, era capitã de uma nave estelar.
Bem, acordara, afinal, entre lençóis de cetim, e sabia que ainda estava no Castelo de 1910.

Evelyn prometera levá-la ao centro da cidade de São Paulo, ainda nas primeiras horas da manhã. Iriam providenciar roupas e sapatos e mais o que fosse necessário ao bem-estar de Susana. Mas Evelyn imaginava que a visita à cidade talvez pudesse despertar na amiga (sim, Evelyn a sentia, já, como uma amiga) algumas lembranças.

Uma criada bateu à porta do quarto. Para atender Susana, trouxe um vestido de Evelyn, uma bacia com uma jarra d’água para que ela pudesse lavar o rosto e avisou que o café seria servido, na sala de vidros, dali a vinte minutos.

Susana sentiu falta de George à mesa do desjejum.
-- Ah – explicou Evelyn – ela já foi para a firma. Quando nosso pai não está, ele faz questão de estar lá, desde a hora em que chegam os operários, para mostrar a estes que eles não estão sozinhos. George tem um amigo, chamado Edvard Stretti, que tem ideias muito avançadas sobre as relações patrão-empregado. Hoje eles já tinham combinado de tomar juntos o café na casa da família Stretti, na Avenida Paulista. Você já deve ter percebido o quanto meu irmão admira esse empreendimento de Joaquim Eugênio de Lima. Quando ele, o Sr. De Lima, morreu, em junho de 1902, George tinha apenas 20 anos e ficou profundamente abalado. Eugênio de Lima, você sabe, era um empreendedor de grande visão, à frente do seu tempo, tinha ideais progressistas, escrevia muitíssimo bem... Era um ídolo e um modelo para George.

Para Susana, no entanto, Joaquim Eugênio de Lima era apenas o nome da Alameda que cruzava a Paulista e exatamente onde ficava o edifício do escritório de advocacia do qual ela era uma das sócias. Sabia vagamente quem era ele, pois lera algo na Internet sobre um romance que falava de um suposto fantasma desse senhor, que viajava no tempo, sempre na Paulista. Por sorte, Evelyn era do tipo que fala muito e, em sua fala, lhe deu as informações que lhe faltavam.

-- Ah... Havia muitos que duvidavam do sucesso da Avenida criada por Eugênio de Lima. Diziam que era uma obra grandiosa demais para uma cidade como São Paulo. Acharam absurdo que ele tivesse aterrado o vale para unir as duas pontas do alto do Caaguaçu, reclamaram quando ele chamou o tal paisagista francês para preservar as espécies nativas do local num parque... E George o defendia com unhas e dentes. Chegou a brigar seriamente com um dos seus amigos de infância, defendendo a obra de Eugênio de Lima. Mas, por fim, menos de duas décadas depois da inauguração, passear na Avenida Paulista e ver algumas das mansões que já erguidas lá, se tornou uma atração de domingo para as famílias paulistanas.

Aqui, Susana pensou: E ainda é assim, uma grande atração de domingo para muitas famílias paulistanas...

-- Hoje – continuou Evelyn – é o metro quadrado mais valorizado da cidade.

Susana pensou de novo: E continua assim até o meu hoje de 2019...

Nesse momento, a governanta da casa, Matilde, veio avisar que o chofer – que fora levar George à residência dos Stretti e, depois ao seu escritório, na fábrica, no distante bairro da Mooca, já retornara e estava à disposição da Srta. Evelyn.
...

-- Reconhece o caminho? – perguntou Evelyn.

Estavam -- percebia Susana – na antiga Estrada de Santo Amaro, um trilha no meio da mata, com algumas chácaras e que, 109 anos depois, seria a movimentadíssima e povoadíssima Avenida Santo Amaro. Tinham saído da represa por ruas sem calçamento, e ela só conseguira reconhecer a velha e abandonada (em 2019) ponte sobre o Rio Pinheiros. Reconhecia a topografia. Logo acima, seria construído o Autódromo de Interáguas, em 1940. No entanto, ali onde a paisagem era toda verde, com algumas poucas casas e chácaras, algumas plantações, em pouco mais de um século todo o entorno da ponte seria um enorme paliteiro de prédios residenciais e, mais para a o norte, modernas torres corporativas e o rio, que corria absolutamente azul, seria um escuro, quase preto, esgoto a céu aberto.

Passaram também pelo centro da então cidade de Santo Amaro, com sua Igreja Matriz, ou Catedral, que Susana percebeu bem diferente da dos anos 2000, parecendo muito imponente com sua torre já erguida, seu relógio doado por Manoel de Borba, mas sem parte das alas que, certamente, foram sendo acrescentadas como passar dos anos. Em 2019, a Igreja, embora bem maior, estava sufocada entre tantos edifícios que fazia com que essa, erguida quase solitária sobre a colina, parecesse muito maior.

A Estrada de Santo Amaro terminou numa rua muito larga, de paralelepípedos, que passava pelo antigo matadouro (o mesmo prédio onde está, em 2019, a Cinemateca Brasileira no Largo Senador Raul Cardoso... – pensou Susana -- Daqui a 38 anos o prédio será restaurado e se tornará um importante ponto cultural). Logo depois do matadouro se iniciava uma subida, onde as casas estavam, em ambos os lados, poucos metros acima do leito de pedras por onde o carro dos Meyer subia derrapando um pouco, na lama ocasional e nos dejetos deixados pelos bois que carroceiros conduziam ao matadouro. Aqui será a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio – pensou Susana. Para ir ao centro, teremos que cruzar a Avenida Paulista... Como seria essa Paulista de grandes mansões, uma avenida que ela conhecera apenas admirando as antigas fotos que muitos estabelecimentos comerciais da avenida estampavam em suas paredes, como a Drogasil, aquela em frente ao Edifício Paulicéia.

-- Sim – respondeu Susana à Evelyn – Estou reconhecendo parte do caminho.

-- Ótimo – disse Evelyn – e percebo que você deve estar acostumada aos automóveis, sua família certamente deve ter um, porque você não fez nenhum comentário. Quem nunca andou num desses, faz muitos comentários – e riu -- Sabe, apesar da carta de Bilac ao diretor da Light, já existem quase duas centenas de automóveis circulando por São Paulo.

Susana sorriu. Era famosa a carta que o poeta Olavo Bilac escrevera, em 1908, reclamando da “invasão” das carruagens motorizadas que sujavam o ar puro da cidade e ofendiam aos sensíveis olfatos dos cidadãos paulistanos e que deveriam ser detidos, antes que se tornassem uma verdadeira praga. Ela até se lembrava dos termos da carta: “máquina inadequada e indesejável ao bem-estar do povo paulistano”.

Passaram toda a manhã na costureira de Evelyn, cujo atelier ficava no ponto mais chique da cidade, o chamado “triângulo”, formado pelo caminho da três principais ruas do, no tempo em que Susana nascera, chamado Centro Histórico de São Paulo: as ruas Direita, São Bento e XV de Novembro. No atelier, tomadas as medidas de Susana, Evelyn encomendou três trajes de meia estação: um vestido elegante com casado de albene, um tailleur de casimira com duas blusas de seda e um vestido de festa. Susana protestava, não poderia aceitar...

-- Depois, quando você descobrir quem é de fato, você pode me dar algum belo presente também – retrucou Evelyn – Mas por enquanto, eu vou cuidar para que você se apresente à altura de uma moça com a sua educação e cultura. E é melhor aderir também ao espartilho. Notei que você não está usando nenhum, embora tenha o corpo muito firme. Mas ficamos muito mais elegantes com eles...

Madame Celina, a costureira que dirigia o atelier, olhou para Susana, espantada:
-- A senhorita certamente é da família Fomm de Vasconcellos. Parece-se muito com a jovem Carmen, aquela que escreve em jornal. Ela também se recusa a usar espartilhos... Oh, desculpem-me, não pretendi ser indiscreta...

-- Sim, já me disseram isso, que sou parecida com ela, não sobre os espartilhos – retrucou Susana, rindo.

-- Escute – disse Evelyn, enquanto escolhia os modelos de roupas íntimas, anáguas e combinações para Susana – Vamos até a casa de Úrsula. Ela pode nos levar até essa Srta. Carmen que eu, infelizmente, não conheci ainda e, se vocês forem da mesma família...

-- Não sei se estou preparada para isso – disse Susana. Perdoe-me, Evelyn, eu não poderia ser mais afortunada do estou sendo ao encontrar você e seu irmão nesse momento tão difícil para mim... Tenho certeza que, aos poucos, minha memória voltará e eu poderei retribuir...

-- Nem pense nisso! – exclamou Evelyn – Estou plenamente convicta de que, se fosse o contrário, você faria o mesmo por mim. Só falta agora escolher alguns pares de sapatos para você e, depois, iremos almoçar nessa absoluta novidade trazida pelos imigrantes italianos... Conhece? Uma cantina, aberta no ano passado, a Cantina Capuano. Já comi lá, é uma comida diferente e muito saborosa! Mas eles só abrem para almoço. Tomaremos chá na Confeitaria Leão mais tarde, mas antes vamos passar pela Casa Eclética, a melhor livraria de São Paulo, ali na Rua São Bento. Não é possível que todos esses lugares tão tradicionais não acabem por lhe despertar alguma lembrança... Lembranças são como novelos de lã de tricô, puxa-se uma ponta e o resto vem – e gargalhou, deliciada com sua própria comparação.

Susana teve que rir também. Jamais conhecera, em toda a sua vida, na época agitada e individualista em que nascera, ninguém tão alegre assim.



Capítulo 3 – Magia de Mulher

Na livraria, Susana surpreendeu-se com o interesse de Evelyn pelas questões esotéricas. O livreiro – que importava regularmente para Evelyn as mais respeitáveis obras lançadas fora do Brasil – dissera às moças que tinha chegado, de navio, dos Estados Unidos um livro lançado no mês anterior naquele país: “Conceito Rosacruz do Cosmos”, de Max Heindel. É claro que não havia tradução em língua portuguesa ainda, mas o livreiro sabia que Evelyn era fluente em inglês e alemão. Saíram da livraria carregando essa obra e mais uma, de Emmeline Pankhurst, sufragista inglesa famosa em todo o mundo, “The Importance of the Vote”, publicada na Inglaterra em 1908.

Susana havia se interessado pelas escolas esotéricas, mormente a Ordem Rosacruz, na juventude. Também alinhara seu pensamento às feministas brasileiras que se manifestavam nas redes sociais a partir da segunda década dos anos 2000 e fôra, por isso, estudar a história das mulheres, desde aquela que era considerada a primeira feminista, Mary Wollstonecraft no século XVIII, até as brasileiras, como Bertha Lutz e Eva Blay, que brilharam em congressos internacionais de mulheres no século XX.

Depois de ter lido, no original, num velho e estragado livro de bolso de mais de 1000 páginas, que pertencera à Isabel, sua mãe, “The Mists of Avalon” finalmente compreendera porque o feminismo e o esoterismo tinham tanto a ver um com o outro. Ambos pertenciam, na raiz, ao lado direito do cérebro humano, o lado onírico, intuitivo e a intuição era, nas mulheres, muito maior do que nos homens. Agora, para sua absoluta surpresa, estava em 1910 ao lado de uma brasileira, de origem austríaca, esotérica e feminista. Ah! Que maravilha era a vida! De fato, uma aventura.

Por causa de seus interesses em comum, Evelyn e Susana passaram horas, numa mesa da Confeitaria Leão, naquela tarde, conversando sobre feminismo e esoterismo.

-- Só um ponto eu não compreendo – dizia Evelyn – como você relaciona o feminismo, que para mim sempre foi algo extremamente material, político, racional mesmo, com o esoterismo e a intuição feminina?

-- As feministas – explicou Susana – buscavam uma igualdade social na diferença. Homens e mulheres são naturalmente diferentes (embora as feministas dos anos 2000 – acrescentou ela em pensamento – queiram ser iguais aos homens no mundo corporativo e queiram que eles sejam iguais a elas na vida sexual). Mas foi o advento do cristianismo, do catolicismo em primeiro lugar, que colocou a mulher um passo atrás dos homens. Tornou a mulher o tal “sexo frágil”, cujas únicas competências eram procriar e servir aos homens, na cama e na mesa. Veja, há apenas 20 anos em 1889, Emmeline Pankhurst fundou sua Liga para o Progresso Feminino, na Inglaterra. Nos Estados Unidos, feministas históricas como Elizabeth Stanton davam seus primeiros passos em termos de visibilidade, apenas, da luta sufragista, pelo direito de votar, de opinar nos rumos da política e da sociedade. As mulheres foram, por mais de dois milênios, consideradas incapazes. A nossa legislação no Brasil e hoje, em pleno século XX, ainda nos compara aos silvícolas e às crianças...

-- Sim, compreendo – interrompeu Evelyn – Mas...

-- O que tem a ver o feminismo com o esoterismo e a intuição feminina, é isso que você quer saber, desculpe, eu sempre me entusiasmo quando falo na luta das mulheres. Veja bem, Evelyn, as mulheres desse século estão brigando para conseguirem o que já tiveram antes, antes dos cristãos classificarem povos culturalmente diferentes deles como “bárbaros”, antes de começarem a queimar, vivas, nas fogueiras da Inquisição, as mulheres sábias e poderosas que, em suas respectivas sociedades, desmentiam completamente o mito dessa mulher moldada pelo cristianismo: frágil, dependente, incapaz. As celtas, por exemplo, ocupavam altas posições em suas sociedades e eram respeitadas politicamente, tinham poder de fato. Mas, além de poder, elas tinham conhecimentos que hoje seriam considerados mágicos, ou feitiçarias, e eram apenas fruto de sua capacidade intuitiva e de conhecimento empírico. Por isso, eu creio que, quando as mulheres de hoje lutam para conseguir um lugar de igualdade social e política com os homens, elas estão lutando para recuperar as suas capacidades mágicas e esotéricas, que, num passado distante, lhes conferia o poder.

-- Mas que capacidades seriam essas, afinal? – perguntou Evelyn.

-- A visão, coisa que Santa Clara, companheira de São Francisco, também tinha – disse Susana – (e quase deixa escapar que a santa foi, por isso, eleita pelo Papa Pio XII, a Padroeira da Televisão... Imagine... Evelyn nem sonharia com televisão em 1910...)— A visão, a capacidade de manipulação de ervas medicinais para cura e alívio das dores do corpo e doenças em geral, os segredos do parto, a aplicação da intuição na tomada de decisões racionais (Coisa que, em 2019, muitas startups estão usando, acrescentou em pensamento).

-- Você acredita que a luta pela igualdade social das mulheres desembocará numa retomada desses esquecidos, ou sufocados, poderes femininos? – perguntou Evelyn.

-- Sim – respondeu Susana – acredito que as mulheres conquistarão o seu lugar no mundo produtivo e no mundo político, mas logo depois perceberão que esses mundos não são exatamente o que elas almejavam, já que foram construídos e estruturados por valores estritamente masculinos e, então, voltar-se-ão para a reconquista dos velhos poderes femininos que a religião sufocou. Eu vi, inclusive, no canteiro que ladeia uma das paredes do seu Castelo, aquela flor que alguns chamam de beladona, outras, de trombeta-dos-anjos. Aquela é a flor típica dessas sábias bruxas que os cristãos eliminaram. Passaram 600 anos queimando mulheres...

-- Minha amiga, você é mesmo surpreendente. Não se lembra de sua própria identidade, mas lembra-se tão bem de fatos históricos e considerações filosóficas! – exclamou Evelyn.

Nesse instante o garçom se aproximou, pediu licença para que o motorista se aproximasse, pois necessitava falar com sua patroa. Estava na hora de ir buscar George na fábrica.

-- Mas já? – espantou-se Evelyn – Nossas conversa estava tão boa! Há momentos em que o tempo parece não passar.

E há outros, pensou Susana, em que nós é que passamos por ele...

...
Saíram do centro, foram à Mooca buscar George e voltaram para a represa. Em 2019, com o trânsito paulistano, um trajeto desses poderia levar de 3 a 5 horas. Em 1910, apesar das vias pouco convidativas para o tráfego dos automóveis e da baixa velocidade conseguida por estes, levou apenas uma hora e meia. Mas a conversa – e a magia – com a presença de George no carro, passou para assuntos mais racionais, mais masculinos, como as adaptações que ainda estavam sendo feitas no funcionamento da fábrica dos Meyer, não só operacionais como principalmente econômicas e financeiras, devido à conquista, no ano anterior, pela Federação Operária de São Paulo, da jornada de trabalho de apenas 8 horas.

-- Mas, que eu me lembre – disse Evelyn – e até por influência do seu amigo Edvard Stretti, que já tinha feito isso em sua fábrica, papai e você já tinham reduzido essa jornada, muito antes de serem forçados por Leis.

-- Sim – respondeu George – Nossas tecelagens com suas máquinas modernas, que trouxemos da Áustria, são mais eficientes e lucrativas do que a maioria das velhas fábricas que nos fazem concorrência. Pudemos, sem prejuízo, reduzir para 10 horas a jornada dos nossos operários (que, aliás, são operárias na sua maioria, mulheres). Fizemos isso em 1907. Mas não devemos ter conversas tão maçantes diante da nossa encantadora hóspede. Já ouviram que São Paulo teve, recentemente, fundado o primeiro Automóvel Clube do país? Para ver a importância que os automóveis ainda terão em nossa sociedade.

De volta ao Castelo, foram todos para seus aposentos, prepararem-se para o jantar. O vestido que Susana usara no dia anterior, com o qual viera do ano de 2019, estava limpo e estendido sobre sua cama, mas, na lavanderia, que funcionava numa edícula mais para perto da praia, entre as árvores (onde, depois estariam as piscinas, um bar, os vestiários principais – pensara Susana quando a vira) as empregadas comentavam o estranho tecido do traje da hóspede, que secara muito rapidamente e não precisou sequer ser passado a ferro.

Depois do jantar, os dois irmãos e Susana, foram para a bem iluminada, por gasogênio, sala principal, onde cada um pegou um livro para ler. Havia muitos, nas estantes sob a escada, mas eram poucos os exemplares em português e Susana escolheu Luzia-Homem, do escritor brasileiro Domingos Olímpio, pois lhe parecera ter muito a ver com a conversa que tivera, horas antes, com Evelyn.

De repente, é Evelyn quem solta um “Oh!!!” de surpresa e pede licença à George e Susana para ler um parágrafo da obra que adquirira antes, Conceito Rosacruz do Cosmos, de Max Heindel. E exclama, antes de iniciar a leitura: -- Susana, preste atenção. Parece, em palavras completamente diferentes, o que você estava falando nesta tarde sobre a diferença do mundo racional dos homens e do mundo intuitivo das mulheres. Escutem:

“Em nossa civilização, o abismo que se abre entre a mente e o coração torna-se maior e mais profundo e, enquanto a mente voa de uma a outra descoberta nos domínios da ciência, o abismo aprofunda-se e amplia-se ainda mais, ficando o coração cada vez mais distante. A mente busca com ansiedade e satisfaz-se apenas com explicações materialmente demonstráveis acerca do homem e demais seres do mundo fenomenal. O coração sente instintivamente que algo de maior existe, e anela por aquilo que pressente como verdade de ordem tão elevada que só pode ser compreendida pela mente. A alma humana subiria nas asas etéreas da intuição e banhar-se-ia na eterna fonte de luz espiritual e amor; mas os modernos pontos de vista científicos cortaram-lhe as asas, deixando-a acorrentada e silenciosa, atormentada por aspirações insatisfeitas, tal como o abutre em relação ao fígado de Prometheus. É necessário que seja assim? Não haverá um terreno comum onde possam encontrar-se cabeça e coração, a fim de que, ajudando-se mutuamente, possam tornar-se mais eficientes na investigação da verdade universal, satisfazendo-se por igual?”

George olhou, surpreso, para as moças, enquanto elas caíam naquela risada feliz como quem encontra uma confirmação ao seu próprio ponto de vista. Então explicaram a ele tudo o que haviam conversado.

-- Não sei – disse ele, ao término das explicações – Parece difícil ver mulheres, por exemplo, no comando da nossa fábrica ou mesmo dirigindo automóveis ou qualquer outra atividade tipicamente masculina.

-- Que tal uma mulher discursando no Parlamento? Uma mulher na presidência da República? – provocou Susana

-- Depois da regência da Princesa Isabel, já não soa tão absurdo. Mas é preciso lembrar que a princesa foi educada como um homem, para reinar, já que Pedro II perdeu seu único filho varão.

-- Pois então – respondeu Susana – É mesmo uma questão de educação. Num futuro nem tão distante, meninas e meninos receberão o mesmo tipo de educação e poderão exercer as profissões para as quais suas vocações os dirigirem, independentemente de gênero... – e corrigiu-se – digo, independente de serem de qualquer um dos sexos.

-- Seria possível? – perguntou George – Mas com as mulheres atuando no mundo fora do lar, a quem caberá a criação dos filhos?

-- A ambos, pais e mães, e também às instituições – respondeu Susana, mas pensando que, de fato, a mudança do papel social das mulheres, em seu próprio tempo, havia deixado a desejar no quesito “criação das crianças” e só muito recentemente estavam sendo preparados adequadamente profissionais, como cuidadores e recreadores, que pudessem suprir essa lacuna.

O café foi servido e George convidou:
-- Queridas moças, vamos dar uma volta lá fora? A grama está coalhada de vagalumes, parece um céu na terra e é noite de lua cheia, estrelas acima de nossas cabeças, um mar delas... Isso é raro na nossa cidade.

Evelyn, que estava completamente absorta na visão Rosacruz do Cosmos, respondeu distraída:
-- Vão vocês dois, eu não quero parar a leitura.



Capítulo 4 -

Verde Mar dos Vagalumes

Lá fora, já que era verão, um resto de crepúsculo ainda tingia de vermelhos as águas da Represa do Guarapiranga. George e Susana desciam lentamente a rampa de pedras, cercada pelas árvores que, no dia anterior, para Susana, já não estavam mais ali, as majestosas árvores da sua infância, no começo dos anos 1990...

-- Venha – disse George dando-lhe a mão – vamos descer pelo meio da grama, podemos apreciar melhor a dança dos vagalumes.

Jamais, em lugar algum em que estivera, no mundo, Susana tinha visto uma cena como aquela: milhares de vagalumes, voando baixo sobre a grama, piscavam, cintilando como estrelas. Era mesmo como se eles estivessem caminhando no Cosmos. Imediatamente, ela lembrou-se do sonho que tivera, quando estava na ponte de uma nave estelar e o infinito era o espetáculo à sua frente. Como que adivinhando-lhe os pensamentos, George disse:
-- Agora que o sol já se foi de vez, olhe para o céu, senhorita.

Ela já se esquecera de como o firmamento podia ser denso, coalhado de estrelas. As luzes das cidades normalmente escondiam isso, mesmo nas cidades menores. Lembrou-se de que vira, em algum lugar na Internet, uma cidade europeia, pequena, que fizera com que as luzes das suas ruas fossem colocadas em postes menos altos do que as próprias pessoas, para não estragar a beleza do céu.

-- É interessante imaginar que a senhorita não sabe, no momento, quem é, não consegue se lembrar de nada da sua vida particular, mas discorre tão bem sobre as questões mundanas – disse George. Parece também tão segura com relação ao futuro das mulheres na nossa sociedade...

Susana titubeou antes de falar. No bolso da saia de seu vestido, seu celular desligado, mas, ela sabia, ainda com carga suficiente na bateria. Riu para ele:

-- Sua irmã fez uma observação semelhante... E se eu lhe dissesse que não pertenço a esse tempo, apenas a esse lugar?

-- Desculpe-me. Creio não ter compreendido o que disse.

-- Viajei no tempo – ela afirmou – olhando bem diretamente nos olhos dele.


Ele riu:
-- A senhorita, já percebi, é uma amante da leitura e certamente está brincando comigo, baseada em A Máquina do Tempo, de H.G. Wells. – respondeu ele.

-- Não estou brincando – disse ela, com seriedade. Você é um especialista em tecidos, não é?

-- Sim, trabalho com eles há anos e anos...

-- Já viu algum como esse, do meu vestido?

-- Com licença – pediu ele – e tocou de leve uma prega do godê do vestido, esfregando-a entre dois dedos da mão. -- Não – respondeu – Nunca vi nada igual.

-- É porque ainda não foi inventado – disse ela. Assim com um telefone que tenho aqui no bolso...

-- Um telefone sem fio? – perguntou ele, espantado, sem saber bem que tipo de peça ela estava tentando lhe pregar.

-- Muito mais do que isso. Chama-se telefone celular. Com ele falo com e vejo qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo. Mas evidentemente, só funciona no meu tempo.

Ele riu, um riso debochado:
-- Evidentemente.

-- No entanto, ele não é só isso. Ele também é máquina fotográfica e faz filmes, na verdade agora se chamam vídeos. Ele funciona com uma bateria que está apenas com 24% da sua capacidade e eu preciso de eletricidade para carrega-la. Veja.
E sacou seu Iphone, do bolso.

Ele olhava, espantado.
-- Que espécie de truque é esse? É uma caixinha luminosa...

-- Veja – mostrou ela – aqui estão as minhas últimas fotos. Essa sou eu, esse aqui é meu sócio, temos um escritório de advocacia numa travessa da sua querida Avenida Paulista, num prédio na Alameda Joaquim Eugênio de Lima, que faz esquina com a Paulista. Esse aqui é o nosso escritório. Essa aqui é a avenida Paulista como ela é hoje. Vê ali? Sobrou um casarão antigo que não pode, por lei, ser demolido. Mas tudo hoje são prédios na avenida...

-- Moça – disse ele com ar sério – eu já vi fotografias coloridas à mão e já vi também caixas luminosas com projeções de imagens, mas isso que você está me mostrando é bem novo e bem mais nítido do que tudo o que já vi...

-- Veja – disse ela – isso aqui é um filme, do batizado da minha sobrinha... está vendo? Estou aqui ao lado dela... Ficou uns quinze minutos mostrando imagens e mais imagens para ele e disse: -- Esse aqui é o meu carro. É um Ford Focus, Ford como o seu, mas 110 anos mais avançado... E agora, veja – ligou a câmera e fez uma selfie com ele e lhe mostrou. Então ainda acha que é um truque?

Ele olhou estarrecido... Fotografia colorida e no escuro, com uma nitidez sem tamanho... Não poderia, de jeito nenhum, ser alguma espécie de truque. Era técnica. E do futuro!!
-- Você está dizendo que veio de 2019 para cá? Se eu acreditar – e estou quase acreditando, depois de ver a mim mesmo registrado nessa pequena máquina mágica... Se eu acreditar, devo supor que vocês construíram então uma máquina do tempo?

Susana riu:
-- Infelizmente não. Eu sinceramente não sei como vim parar aqui e nem sei se poderei voltar ao meu tempo. Para ser exata, eu estava no domingo, 6 de janeiro de 2019 e vim parar – sei porque vi os jornais quando Evelyn me levou à cidade – no domingo, 10 de janeiro de 1910...

O luar e os vagalumes compunham uma sinfonia de luz na paisagem, as estrelas agora diminuídas pela luz da lua que nascera radiante, cheia.
Lágrimas brotaram nos olhos de Susana, ao imaginar que talvez não pudesse voltar. Tinha seus pais, seus irmãos, sua vida, as aulas que ministrava na faculdade São Francisco, seus alunos, seus clientes, amigos, família... Com voz embargada, ela continuou:
-- Eu estava aqui, na alameda do Castelo. Eu cresci aqui nesse Castelo...

-- Você é minha descendente, então? É alguém da nossa família futura?

Ela balançou a cabeça em negativa:
-- Infelizmente a sua família acabará vendendo essa propriedade.

-- E construirão mais um desses monstros compridos que você me mostrou, caixas com centenas de janelinhas? – conseguiu ele rir, zombando.

Susana teve que rir também.
-- Não. O Castelo se transformará numa escola e, por fim, num clube. O clube será fundado em 1959 e, em 2019, estará meio decadente, como todos os clubes na cidade, mas ainda vivo. Eu estava aqui, na tarde de ontem, para mim, em 2019. Como eu disse, passei minha infância e juventude nesse clube, tínhamos barcos, havia festas, quadras de esporte, piscinas... era lindo. Mas, em 1999, minha família mudou-se para a região mais próxima da Paulista e o clube ficou distante demais da minha casa...

-- Distante como? – espantou-se ele -- São apenas vinte e poucos quilômetros.

-- Mas com trânsito. As ruas e avenidas são entupidas de carros e mais carros e todos andam muito devagar. Com esse trânsito, eu levaria mais de uma hora para vir, nas horas de maior movimento, quase três horas...

-- Isso é uma insanidade! – exclamou ele. – Você está me dizendo que todas as vias são tomadas por automóveis e que eles andam tão devagar por isso?

-- Às vezes nem andam... – riu ela. Mas te explico melhor depois.

-- Sim, perdão – disse ele – você ia me contar como chegou aqui, no passado.

-- Pois é. Eu vim ao Castelo depois de ter ficado 20 anos sem pisar aqui. E estranhei muito essa alameda de árvores. Vê como ela é maravilhosa, majestosa? São árvores enormes, de copas frondosas e troncos fortes... Ainda eram assim quando eu deixei o Castelo. Mas 20 anos depois, em 2019, eram apenas uma fileirinha de pinheirinhos mirrados... Senti muito a falta das minhas árvores. Eu as amava. Desde criança me acostumei a abraça-las e nelas medir o comprimento dos meus braços. Cresci abraçando essas árvores até que, um dia, finalmente minhas duas mãos quase se encontraram do outro lado... E riu... Estava pensando que, 20 anos antes, as pessoas que circulavam por aqui talvez fossem outras, majestosas como o eram as árvores e que, em 2019, talvez as pessoas fossem assim, almas pequenas, pinheirinhos tímidos e nada sábios... Pensava que a realidade refletisse nossos pensamentos quando fui envolvida por uma densa neblina, que não sei explicar de onde veio e, quando a neblina se dissipou, as árvores majestosas estavam de volta e você estava ao meu lado...

Num impulso, ele a abraçou. Estavam sentados num dos bancos de pedras, exatamente sob uma daquelas árvores.
-- Você é a personagem que criei – disse ele. Venha, vamos subir até a torre e eu lhe mostrarei como imaginei o mundo exatamente em 2019, no ano em que você estava. Na verdade, não é muito diferente desse mundo do qual vi um pouco aí nessa sua maquininha mágica.

-- No meu celular – riu ela. – Mas poderíamos ver muito mais se pudéssemos ir até uma tomada elétrica para eu recarregar a bateria dele.

-- Nós temos um gerador elétrico. Nessa semana os técnicos virão instalar lâmpadas elétricas nos lustres – afirmou George.

-- E poderão fornecer energia para o meu telefone!

-- Sim -- disse ele. – Mas na fábrica temos energias e conectores para fios...

-- Tomadas? Buracos na parede para conectar aparelhos movidos à eletricidade?

-- Isso mesmo. E então você me mostrará mais do seu mundo. Por enquanto, venha conhecer a heroína que criei na minha máquina de escrever, que se chama Ana e vive num mundo de grandes invenções técnicas, com automóveis que voam e caixas enormes de concreto, cheias de janelas... como alguns prédios que já se pensa em erguer aqui mesmo, em São Paulo. Os Guinle estão com um projeto arquitetônico ousado, para construir um prédio de 7 andares, mas a prefeitura teme que ele não seja estável.

Ela riu:
-- Eu conheço a história, o edifício Guinle é o primeiro edifício de São Paulo. Terminado em 1913. Depois, vieram muitos outros. Em 1924, o Sampaio Moreira, na Rua Libero Badaró, foi considerado o primeiro arranha-céu da cidade, com apenas 12 andares...

-- Apenas? Arranha-céu... que expressão maravilhosa e poética!

-- Depois te conto a história dos prédios de São Paulo. Na Paulista, por exemplo, o maior deles tem 42 andares!

-- É inacreditável! – disse George – Talvez tudo isso seja apenas um sonho... Sim, devo estar sonhando.

Impulsivamente, ela lhe deu um beliscão na barriga, por sobre a camisa.
Pensou que ele fosse rir, mas, em vez disso, George a olhou bem dentro dos olhos e, ato contínuo, beijou-a, um beijo apaixonado, cinematográfico, ao qual ela correspondeu, percebendo que estava desejando isso desde que o vira pela primeira vez:

-- Ana – disse ele – Agora sei que não é sonho e que você não é apenas um personagem. De alguma maneira, quando comecei a imaginar o romance que estou escrevendo, eu a estava chamando, pedindo que você viesse do futuro para me encontrar.

E ali mesmo, sobre a grama, entre a luz dos vagalumes, sob as estrelas e sob as majestosas árvores, Susana, ou Ana, e George se amaram.

Capítulo 5 – O Futuro Presente

Susana passou grande parte do dia seguinte a ler o livro de George. No livro, a descrição de uma grande crise planetária no ano de 2019. As geleiras dos polos derretiam, enormes tempestades se abatiam sobre os cinco continentes. Maremotos. Terremotos. Incêndios florestais. Tudo, no livro, sem maiores explicações. Era como se a terra tivesse enlouquecido. Os animais, expulsos de seus habitat naturais, pelas catástrofes climáticas, invadiam as cidades e isso acontecia nos cinco continentes. Eram, no Brasil, jacarés, expulsos pela falta de água nos rios do Pantanal, aparecendo em quintais; eram, nos países gelados do Hemisfério Norte, ursos que migravam para os centros urbanos, por causa do derretimento das geleiras do polo; eram bugios e macacos que fugiam das florestas queimadas pelo intenso calor...

Susana viu, assustada, o quadro de horror que começava, de fato, no tempo em que ela própria vivia (ou deveria dizer vivera?), quadro causado pelo Aquecimento Global, coisa que George desconhecia. No livro – cujo título era “Quando o Homem Desequilibrou a Terra” – George não poderia mesmo, em 1910, imaginar que o progresso do século seguinte causasse algo como o Aquecimento Global, então ele certamente atribuiria todos esses fenômenos a outra causa.

Dizia ele que o clima da Terra mudara, que havia altas temperaturas nas capitais europeias, coisa jamais vista, como 40ºC em Paris ou Roma e invernos inéditos nos Estados Unidos e Canadá, por causa do vento gelado que se formava pelo desequilíbrio das geleiras. São Paulo, por exemplo, que sempre fora a Terra da Garoa e do tempo frio mesmo no verão, alcançava picos de 37º à sombra... e tinha aqueles dias de sol pleno, coisa raríssima, pela qual, inclusive os paulistanos de 1910 ansiavam grandemente, já que por ali só chovia e garoava, quase que o ano todo.

Susana lia avidamente, querendo até pular alguns capítulos, para tentar descobrir a que George atribuiria esses fenômenos, afinal. Achava incrível que ele tivesse tido essa premonição, 110 anos antes de começarem de fato os efeitos climáticos severos do Aquecimento Global.

A personagem principal do livro era a Dra. Ana, advogada como a própria Susana, que liderava um movimento para forçar os governos da América a instituir uma comissão científica, com membros de todas as áreas do conhecimento, que se encarregaria de investigar as causas de todas essas mudanças.

A partir do que 1910 conhecia do progresso científico, George imaginava automóveis voadores cruzando os céus, telefones com imagem, aviões e navios gigantescos fazendo rotas regulares de transporte por todo o globo.

Susana não podia deixar de pensar que George tinha o mesmo tipo de premonição de Júlio Verne, com seus livros que anteviam grande parte dos progressos científicos futuros.

Começara a leitura, acomodada num dos bancos de pedra sob o corredor de árvores, logo após o café da manhã.
Evelyn quisera que Susana a acompanhasse à cidade, onde iria a uma conferência de mulheres sufragistas, seguida de um almoço num dos mais conceituados restaurantes da provinciana São Paulo de então. Susana declinara do convite, pois temia que sua bisavó – Carmen Fomm de Vasconcellos Expedito – estivesse presente à reunião. Sabia que, além de intelectual, sua bisavó fôra uma perspicaz crítica da condição social das mulheres de seu tempo. Temia esse encontro. Temia não conseguir controlar a emoção, diante da ilustre antepassada.

Só interrompeu a leitura quando uma das empregadas da casa veio chamá-la para almoçar e almoçou sozinha na enorme mesa para 12 pessoas. Logo depois do almoço, a garoa gelada substituiu o morno sol que aparecia entre as nuvens, pela manhã. Com frio, Susana voltou à sede do Castelo e foi continuar a leitura na sala de vidros, com vista para o gramado e para a represa.

No fim da tarde, quando o carro da família apontou na entrada do Castelo, trazendo George e Evelyn, Susana terminara de ler o manuscrito, no ponto em que George parara de escrever, mas ainda não sabia, afinal, a que causas ele atribuiria os trágicos fenômenos que estava descrevendo.

....

-- Você está lembrada, Susana, do que me disse sobre o corredor das árvores? Você disse que as árvores eram grandiosas enquanto as pessoas que circulavam pelo corredor eram também grandiosas e que elas se tornaram mirradas quando as pessoas que passaram a circular por ali, eram também, de alguma forma, mirradas – disse George, quando Susana lhe perguntou sobre a causa dos tais desastres descritos no livro dele.

-- Pois bem – continuou George – eu acredito que a realidade é moldada por nossos pensamentos, ou melhor, pela somatória de todos os pensamentos de todos os seres viventes sobre o nosso planeta. Por isso chamei o livro de “Quando o Homem Desequilibrou a Terra”. Imaginei que o progresso científico e técnico alcançado até o ano de 2019 teria tornado os seres humanos excessivamente racionais, distantes dos segredos da alma e do coração. Mais ou menos como as palavras daquele autor Rosacruz que Evelyn nos leu ontem à noite. Então, concentrados apenas no progresso material, os homens teriam se tornado extremamente individualistas e cruéis, como o são todos os seres excessivamente individualistas. Mais ou menos como os psicopatas descritos pelos psicanalistas, incapazes de empatia, incapazes de sentir ou de imaginar a dor do próximo. Nessa condição, haveria muita violência, muito descaso, muito ódio e incompreensão. Esse ódio moldaria a realidade. Esse ódio tornaria o planeta desequilibrado e começaria a causar fenômenos naturais atípicos, coerentes com as almas e os corações atípicos.

-- Sim – respondeu Susana – isso também, certamente. Mas a verdade é que, no meu tempo, em 2019, estão começando a ocorrer todos esses fenômenos que você descreve em seu livro. As geleiras dos polos derretendo, os furacões, as tempestades, o calor excessivo, o frio excessivo..., mas a causa disso tudo é mais material do que os pensamentos e sentimentos humanos. Agora me ocorre que isso também entra em conta.

-- Existe um fenômeno natural capaz de causar tais desequilíbrios? – perguntou ele, não sem um certo ar assustado.

-- Não. Nunca é natural... A real causa – que quase todos reconhecem no ano de 2019 – é o que se convencionou chamar de Aquecimento Global. Lembra quando eu te falei dos automóveis, do trânsito congestionado em todas as cidades do mundo? São Paulo, por exemplo, terá, em 2019, mais de 12 milhões de habitantes. As cidades incharam. O mundo tem, no meu tempo, quase 8 bilhões de pessoas. Para fabricar coisas como o meu telefone celular e milhares de outros produtos que todos consumimos então, os veículos, as indústrias, toda a infraestrutura necessária acaba lançando no ar inúmeros poluentes que resultam num aquecimento brutal da atmosfera, além da destruição da camada de ozônio. Isso sem contar o acelerado desmatamento. Áreas enormes, tanto rurais quanto urbanas, onde destrói-se a vegetação nativa, diminuindo drasticamente as árvores, as florestas... Tudo isso é causa do tremendo Aquecimento Global. E o pior é que muitos negam a existência desse aquecimento, inclusive o presidente da mais poderosa nação do mundo, os Estados Unidos da América do Norte. Não veem, ou não querem ver, que os oceanos estão se enchendo com o derretimento das geleiras dos polos e que várias cidades litorâneas estão sendo lambidas pelas ondas e pelo aumento do volume das águas dos mares. No nordeste brasileiro mesmo, muitas edificações que estavam à beira mar, têm sido destruídas pelo avanço das ondas.

-- Mas como, não querem ver? Não está evidente? – perguntou George.

-- Reverter isso causaria enormes danos econômicos – respondeu Susana. — Os países se unem para lutar contra o Aquecimento Global, fizeram um pacto de redução da emissão de poluentes do ar, o Acordo de Paris, mas Donald Trump, ao assumir a presidência dos Estados Unidos, pulou fora do acordo.

-- Susana, eu ouvi direito? Você disse que São Paulo, terá, daqui a um século, mais de 12 milhões de habitantes? Como isso será possível?

-- Essa São Paulo da garoa, que você conhece, desapareceu. São Paulo é hoje uma cidade tórrida, com verões extremamente quentes e grandes tempestades que causam enchentes constantes, com um inverno com poucos dias de frio e clima extremamente seco, desértico mesmo. Nesses dias de inverno, secos, existe uma absurda amplitude térmica. De manhã cedo, 9 ou 10 graus C, à tarde, 28 ou 29. A cidade tornou-se um grande centro de produção e negócios. Sua população inchou, migrantes e imigrantes chegaram aqui em busca de melhores oportunidades na vida, de trabalho, de estudo. Nas próximas décadas, imigrantes italianos, alemães, japoneses virão aos milhares e formarão colônias, bairros próprios e muita contribuição cultural legarão à cidade, inclusive. Na Segunda Guerra Mundial virão os judeus, fugindo dos nazistas alemães que, sob o comando de um aloprado chamado Hitler, queriam exterminar todos os judeus e criar uma raça pura, ariana. Depois, nos anos 1950 e 1960, atraídos pela expansão imobiliária da cidade, virão os migrantes nordestinos, em massa, para trabalhar na construção civil. Entre eles, virá um menino muito pobre que se tornará líder operário e, mais tarde, presidente do Brasil, o Lula. Ele hoje... ops, quero dizer em 2019, está preso, acusado de corrupção. Todo esse chamado “progresso” foi destruindo o cinturão verde que agora ainda cerca a cidade. São Paulo se impermeabilizou, com milhares de quilômetros de ruas asfaltadas e com calçadas de concreto, milhares de arranha-céus... Ocupa hoje uma área de mais de 1.500 quilômetros quadrados...

-- Você vai me enlouquecer, Susana. Eu sempre imaginei que a minha cidade cresceria, se expandiria..., mas isso que você está me contando... tudo isso parece uma absoluta insanidade. E essa história de um alemão querer exterminar judeus para criar uma raça pura... Eu descendo de alemães, jamais poderia imaginar um futuro tão vergonhoso para o país dos meus ancestrais...

-- A Alemanha é hoje, quero dizer em 2019, uma das maiores potências mundiais. Saiu da II Guerra destruída e derrotada. Mas isso foi em 1945. O povo alemão reergueu-se e ao seu país. É governada por uma mulher, chamada Ângela Merkel.

-- Uma mulher? Uma mulher à frente do que você chama de uma das maiores potências mundiais?

-- As mulheres ainda têm, na Terra, um vasto caminho a percorrer para superar dois milênios de condição social de inferioridade. No mundo ocidental e também em alguns países do Oriente, como o Japão, elas chegam sim ao poder e competem, no mercado de trabalho, com os homens. Estão avançando em todas as carreiras, todas as profissões, mas ainda são vítimas de discriminação e violência doméstica e sexual. Tivemos uma mulher presidente no Brasil, mas ela foi deposta. Elegeu-se pelo prestígio e força política de Lula – o tal migrante nordestino que chegou à presidência – mas não tinha articulação política nem competência para o cargo. Mas, por exemplo, na longa história da monarquia britânica, além dos 64 anos que a Rainha Vitória esteve no poder, hoje, em 2019, temos outra monarca, no poder há muito tempo também, a Rainha Elizabeth II que tem mais de 90 anos de idade...

-- Você falou em Segunda Guerra Mundial... Portanto, deve ter havido uma primeira...

-- Sim, de 1914 a 1919, com um número recorde de mortos.

-- Daqui a 4 anos apenas... Meu Deus! E o Brasil? Também estará nessas guerras?

-- No final da segunda, sim, mas com um contingente de apenas 25 mil homens. Não precisa se preocupar muito, George, seu mundo não será destruído por essas guerras. O Castelo continuará aqui, com toda a sua beleza, embora as margens da Guarabitinga já não terão tantas árvores e sim prédios enormes até a barragem e, depois, na margem oposta ao Castelo, grandes loteamentos de casas residenciais e também no entorno do Castelo, muitas bonitas residências. Quando eu era criança, nos anos 1980, havia apenas uma residência construída vizinha ao Castelo. Mas agora, em 2019, são muitas e muitas, formando um condomínio chamado “Parque Castelo”.

George e Susana haviam começado essa conversa, logo após o jantar, quando ele foi fumar seu charuto no grande terraço do segundo andar, que fica exatamente sobre a sala de vidros. Depois, ele mandou abrir um vinho, dois, três... Passaram toda a noite conversando sobre a história do século XX, mas Susana sabia que, por mais que falasse, por mais que tivesse mostrado centenas de imagens em seu celular, enquanto este ainda tinha um resto de carga, jamais conseguiria explicar a ele (e, de fato, nem mesmo a si própria) toda a evolução tecnológica, todo o avanço e, paradoxalmente, todo o retrocesso social que separavam 1910 de 2019.

Os primeiros raios de sol ainda surpreenderam os dois a conversar.
George disse:
-- Vá dormir, minha amada – Eu vou me preparar para sair para a fábrica. Mas não sei se conseguirei simplesmente seguir a rotina depois de saber tudo o que o futuro nos reserva. E, sinceramente, passarei todo o dia temendo que, ao voltar ao Castelo, não a encontre mais. Por favor, não volte para 2019, não agora, não ainda...

Ela riu:
-- Não faço a mais mínima ideia de como vim parar aqui e também não sei como voltar. Na verdade, nem mesmo sei se quero voltar...

Capítulo 6 –

Tempo e Espaço São Ilusões

Quando desceu para o café, George encontrou Evelyn à mesa e ela perguntou:
-- Onde está a nossa Susana? – e acrescentou com uma risada maliciosa – Vocês dormiram juntos de novo?

George corou até a raiz dos cabelos, aquela diaba da sua irmã percebia tudo ao seu redor, por mais que se tentasse esconder qualquer coisa dela.

-- A nossa hóspede pode estar desmemoriada, mas isso não seria motivo para que eu me aproveitasse...

Evelyn deu uma risada franca e pousou sua mão sobre a dele:
-- Meu querido irmão, não há nenhum problema em se apaixonar. Vocês dois juntos são o casal mais apaixonado que eu já vi. Fico feliz que tenham encontrado o amor. E não sou puritana, como muitas das minhas amigas. Só me preocupa o fato de que talvez ela já tenha compromissos amorosos na vida que esqueceu e, quando se lembrar...

George a interrompeu:
-- Ela se lembra muito bem de tudo.

-- Mas que boa notícia! A memória voltou?

-- Na verdade, ela nunca perdeu a memória. Teve que inventar isso para justificar sua presença aqui, entre nós.

-- Mas como?! – perguntou Evelyn, já indignada por ter sido vítima de um engodo – Ele mentiu todo o tempo? Por que?

-- Porque, se dissesse a verdade, naquele primeiro momento, nós a levaríamos para o manicômio mais próximo.

-- Não entendo, George! O que você está dizendo, afinal?

-- Prepare-se, minha irmã. Susana é uma viajante do Tempo. Ela veio de 2019 para cá.

Evelyn riu:
-- Que espécie de brincadeira é essa? Algum laboratório para o seu livro?

-- É sério. Eu também não acreditei quando ela me contou. Mas aí ela tirou do bolso do vestido uma pequena caixinha...

E, assim, George contou tudo à Evelyn, inclusive que ele e Susana haviam passado aquela noite no terraço, ela lhe contando muitos dos fatos corridos desde 1910 até 2019.

-- Você é uma Rosacruz – disse George diante da incredulidade que via nos olhos da irmã – Você sabe que o tempo e o espaço são apenas ilusões. Susana não sabe como veio parar aqui, estava na nossa alameda das árvores, no tempo dela, quando uma névoa a encobriu e, quando esta se dissipou, ela estava aqui, nesse tempo, e eu, ao seu lado, imaginando que ela fosse a Úrsula, sua amiga.

-- Mas uma mulher de 2019 em 1910... Tem tudo a ver com o seu livro.

-- Sim. E ela me confirmou que a Terra sofrerá as mesmas mudanças que imaginei, mas não porque a mente dos homens criará essa trágica realidade e sim porque o progresso técnico e a enorme expansão causarão um fenômeno que será chamado de Aquecimento Global, que mudará o clima do planeta, causando grandes problemas ambientais, subindo a temperatura no verão, descendo no inverno, derretendo as geleiras dos polos...

-- George, essa mulher é uma impostora! Ela inventou isso porque, de alguma maneira, alguém lhe contou sobre o livro que você está escrevendo! Eu vou chamar o Delegado Almeida para tirá-la da nossa casa!

-- É verdade, minha irmã. Você também acreditaria se visse a tal maquininha que ela trouxe do futuro. Chama-se telefone celular e, segundo ela, com ele é possível se comunicar instantaneamente com qualquer pessoa que tenha um igual, em qualquer lugar da terra. Esse aparelhinho tem armazenadas centenas de fotografias e ela me mostrou todas. Ela própria, no futuro, a avenida Paulista, completamente transformada em um imenso corredor de edifícios muito mais altos do que esse que os Guinle querem construir em São Paulo agora. Ela até tirou uma foto de nós dois e eu estou lá, com ela, guardado no aparelho...

-- Então eu também quero ver isso – disse Evelyn, irritada e desconfiada.

-- O aparelho funciona com uma espécie de mínimo gerador elétrico, chamado “bateria” e esta tem duração limitada...

-- Então não está funcionando, é claro, e vocês não podem me provar nada dessa história insana.

-- Mas ele vai voltar a funcionar. Só precisa ser ligado à energia elétrica. Eu já vi acumuladores de chumbo e você também, afinal eles foram inventados há meio século pelo francês Gaston Plante. Temos um desses na nossa fábrica. Mas o do aparelho de Susana é menor do que uma caixa de fósforos e o carregador dele é uma coisa pequena também, com um fio que liga o aparelho a uma tomada elétrica. Podemos carregá-lo lá na fábrica e você verá que não estou mentindo. E o vestido? Você viu a fazenda do vestido dela? Eu fabrico tecidos, já vi todo o tipo de fazendas com os mais diversos fios, mas nada igual ao do vestido dela.

Nesse momento a governanta da casa veio avisar que o chofer já estava à espera de George.

-- Mande-o ir até a fábrica dizer ao Mendes que eu não poderei estar lá hoje – respondeu George e logo emendou – Apenas aguarde um pouco e mande-o aqui para que eu possa instrui-lo.

-- Como? Você não vai trabalhar hoje? —espantou-se Evelyn.

-- Eu não deveria ter contado, minha irmã. Você ainda não acredita e temo que, se eu não estiver aqui, você a expulse, tomando-a mesmo por uma impostora...

-- Bom, se ao menos essa tal maquininha, celular você disse? – George fez que sim com a cabeça e Evelyn continuou: -- Se ao menos eu pudesse ver e tocar essa coisa, talvez chegasse a acreditar... Você não disse que hoje seria um dia decisivo para o destino da nossa fábrica? Não é hoje a tal reunião com o exportadores?

-- Sim, você tem razão. Eu tenho que ir. Mas você vai me prometer que não a tratará mal, quando ela acordar. Você tem que acreditar nela, Evelyn. É verdade! Ela veio mesmo do futuro. Passou toda essa noite me contando como será esse século e o início do próximo. Ela não seria capaz de inventar tudo o que me descreveu.

-- Bem, talvez ela seja uma tão boa ficcionista quanto você. Deveria escrever seu livro em coautoria com ela...

-- Evelyn por favor, eu tenho que ir, mas jure por Deus que você não vai trata-la mal ou expulsa-la daqui... Procure dar um voto de confiança a ela, depois, quando a tal maquininha, o tal celular, voltar a funcionar, você acreditará nela, tenho certeza. Você tem uma mente tão aberta, você estuda os mistérios do Universo, não é possível que não possa entender que esse véu que separara os tempos seja um desses mistérios. Foi você mesma quem disse que os rosacruzes afirmam que o tempo e o espaço são ilusões!

-- Ainda acredito que seja mais lógico entender que ela não passa de uma vigarista e esse tal celular, um truque.

-- Evelyn! – exclamou exausto, George – Você está duvidando da minha palavra?

-- Da sua palavra, não. Mas do seu julgamento. Você se apaixonou por ela. Nessa condição, é natural que não consiga raciocinar com clareza.

-- Santo Deus! – explodiu George – Por que, afinal, fui contar tudo a você? Foi um erro!

-- Pense bem, meu irmão – disse Evelyn amansando a voz – Por que ela contou a você e não a mim? Afinal, ela passou todo um dia comigo, na cidade, conversamos muito, eu até já a estava considerando com uma amiga...

-- Então! – exclamou ele – É isso! Fale com ela, peça a ela que conte a você o que me contou, veja o vestido dela, você também conhece bem os tecidos, vai ver que aquilo é feito com uma técnica que ainda desconhecemos. Olhe para a pele dela, para o cabelo brilhante... Muito diferente do que vemos nas mulheres do nosso tempo... Ela me disse que, no tempo dela, há inúmeras preparações químicas em forma de cremes e sabonetes que conservam nos corpos humanos muito do viço da juventude. Ela tem 39 anos! E um corpo de 20.

-- Ela mentiu. Deve ter pouco mais de 20. Como você pode saber que ela tem a idade que diz ter? – exclamou Evelyn – Quanto mais você fala, mais eu me convenço que você está apenas cego de paixão, que foi enfeitiçado por essa impostora. Tomei horror dela.

-- Então eu não posso sair antes que ela acorde. Tenho certeza que você a expulsará, minha irmã, com a melhor das intenções, achando que é para o meu bem.

-- Pode ir, George. Essa reunião na fábrica é o mais importante no momento.



Capítulo 7 – De Táxi

Susana acordou por volta da uma da tarde. Vestiu o elegante casaco de albene, que Evelyn mandara fazer para ela e que o chofer trouxera no fim da tarde do dia anterior, sobre o vestido florido com o qual viajara no tempo.

Quando desceu as escadas, Evelyn estava ainda à mesa do almoço, mas já tomando café.
-- Perdoe-me por não ter acordado a tempo para vir almoçar com você. George e eu passamos toda a noite conversando no terraço.

-- Sim, eu sei – disse Evelyn com um tom de voz tão gelado que fez Susana estremecer... Algo aconteceu, pensou ela e Evelyn continuou: -- George me contou que você descreveu para ele muito do que acontecerá no futuro.

-- Ah... – Disse Susana – Então você sabe e, pelo seu tom de voz, percebo que não acredita em mim.

-- Oh, mas eu acredito – respondeu Evelyn, com ironia – Acredito em você. Acredito que seja uma aventureira, uma impostora, que, sabendo que George escrevia um livro que se passa em 2019, forjou toda essa história para conquistá-lo e, com ele, nossa fortuna e nossa posição. Eu não quero saber quem você é, se é uma criada, uma operária, uma professorazinha de bairro. Que você tem estudo, isso é inegável. Mas é inegável também que todo o estudo do mundo não mudou o seu caráter. Você não presta, mocinha. E vai sair daqui da minha casa imediatamente. Nossa governanta já está descendo com a sua bolsa esquisita e só isso e a roupa que está vestindo que você vai levar daqui. Há um chofer de táxi esperando por você logo aí fora. Diga a ela para onde quer ir e ele a levará. O serviço será pago, depois, por nós. Estou pagando, como você pode notar, para me livrar da sua vigarice.

Susana estava pálida. Nesse instante, Matilde, a governanta, entregou-lhe sua bolsa e disse, com voz gélida:

-- Acompanhe-me, por gentileza, Senhorita Susana.

-- Não!! Espere!! – quase gritou Susana – O que George lhe contou é verdade e, por isso, não tenho para onde ir...

Evelyn levantou-se e saiu da mesa, dando às costas à Susana que não teve alternativa senão seguir a governanta e entrar no táxi.

-- Para onde devo levá-la, senhorita?

-- Para a Mooca, à fábrica dos Meyer.

-- A senhora Evelyn me disse para levá-la onde quiser ir, menos à fábrica da família dela. Não posso desobedecê-la.

-- Mas eu não tenho para onde ir! – exclamou Susana – Eu perdi a memória, não sei quem sou, onde moro, não tenho dinheiro, nem documentos... Para onde iria?

O chofer sentiu a sinceridade no tom desesperado de Susana.

-- Olhe, moça, se perdeu a memória talvez seja melhor eu levá-la para as irmãs da Congregação Santa Marianita. Elas dedicam sua vida aos desamparados e aos doentes. Há quatro anos passados fundaram, com o Dr. Waldo Song, um hospital e uma capela num grande terreno bem no começo da Avenida Paulista. Eu a levo para lá, a moça conta sua história e certamente elas a ajudarão, lhe darão abrigo e, quem sabe, até os médicos de lá possam ajudá-la a recuperar sua memória. Pelo jeito da moça falar, vestir-se, logo se vê que é uma dama. As irmãs recebem auxilio financeiro das grandes famílias aqui de São Paulo. Certamente a moça deve pertencer a uma dessas famílias... Elas a ajudarão.

Assim, o chofer conduziu Susana até a Avenida Paulista, entrou pelo vasto portão e conduziu Susana até um balcão, onde um freira escrevia alguma coisa num grande livro. Explicada a situação, o chofer se despediu e Susana foi conduzida à madre superiora da Congregação que escutou a versão da história da perda de memória e da expulsão de Susana do Castelo, por Evelyn, expulsão essa que Susana atribuiu aos ciúmes de Evelyn por seu flerte com George.

-- Muito me admira que um membro da honrada família Meyer a tenha deixado desamparada!

-- A madre conhece os Meyer?

-- Por sua reputação. Augusta Waltman Meyer é uma mulher muito generosa, faz muita caridade, é católica... Como permitiu que a filha a expulsasse?

-- No Castelo, atualmente, estão apenas George e Evelyn. Os pais deles estão voltando da Europa, estão no navio.

-- E George?

-- Ele nunca me expulsaria. Está na fábrica a essa hora, trabalhando. Eu pedi ao chofer do táxi que me levasse até ele, mas Evelyn já o tinha alertado para não fazer isso.

-- Bem, teremos que descobrir quem é você, minha filha. Mesmo que você não se lembre de nada, acolhida no seio de sua família, certamente sua memória voltará, ainda que aos pouquinhos. Enquanto não encontramos sua família, vou pedir ao próprio Dr. Waldo que examine você, vamos ver se está tudo bem com a sua saúde.

Não demorou muito para que, por todas as mansões da Avenida Paulista, circulasse a notícia de que as irmãs Marianitas abrigavam em seu convento um jovem muito linda, muito bem vestida e muito culta, mas completamente esquecida de seu passado e de sua origem.
Os criados das mansões se encarregaram de espalhar a notícia pelos bairros mais pobres e outros criados, de famílias abastadas, comentaram entre si e com seus patrões. Logo as autoridades policiais também estavam informadas, mas família alguma dera queixa de alguém desaparecido. Também não demorou muito para que todos os transeuntes da avenida, começassem, ao passar em frente ao hospital das freiras, a olhar lá para dentro, na esperança de avistar a tal moça.

Susana, em troca do abrigo, ofereceu às freiras os seus serviços. Ela poderia ensinar às crianças da creche que a congregação mantinha, poderia auxiliar a cuidar dos doentes do hospital, poderia auxiliar até na limpeza. No entanto, a madre superiora julgava que uma moça do nível de Susana não poderia fazer os trabalhos mais humildes e a colocou no escritório do hospital como auxiliar de serviços gerais. Agora, ela tinha onde morar, tinha um ordenado modesto e um trabalho. Poderia se manter, poderia até começar uma outra vida, uma nova vida. Porque, de alguma maneira, sabia que não conseguiria voltar para o seu tempo, a menos que conseguisse estar novamente na alameda das árvores, no Castelo.
...
Na tarde em que Evelyn expulsou Susana do Castelo, George fechara um grande negócio de exportação de algodão que exigiria uma expansão imediata dos negócios de sua família. Chegou radiante à casa, querendo contar à irmã e à namorada o seu sucesso. Sua alegria, no entanto, transformou-se em cinzas que lhe amargaram a boca, quando soube que Susana partira, de táxi, pouco depois do almoço e que Evelyn, por sua vez, fôra resolver algumas questões que exigiram sua presença na casa de praia que a família Meyer mantinha na cidade de São Vicente, às margens da baía.

Em vão, George interrogou os empregados, mas eles pouco sabiam.
-- Minha irmã a expulsou não foi assim? – perguntou à governanta.

-- Não sei de nada, senhor George. Sei apenas que chegou um táxi à porta do Castelo e a senhorita Susana foi-se embora dentro dele, levando apenas a bolsa e a roupa do corpo. Talvez, senhor, ele tenha afinal recuperado a memória.

Os dias que se seguiram foram de grande angústia para George que se sentia de mãos atadas. Teria ela achado uma maneira de voltar ao seu tempo? Mas não seria num táxi... Talvez tenha descoberto algum lugar onde houvesse alguma passagem para outras épocas..., Mas por que teria fugido, sem sequer se despedir? Não...—pensava George – Evelyn a expulsou, estou certo disso e obrigou os criados a nada me dizerem, ou talvez eles mesmos nem saibam o que houve... Ele queria descer a Serra do Mar para ir exigir de sua irmã uma explicação. Mas como abandonar a fábrica naquele momento, um momento crucial, de expansão, com muitíssimas providências a tomar? Ir à São Vicente lhe tomaria todo um dia, um dia que ele não tinha...

Mil coisas lhe passavam pela cabeça e pelo coração. Pensou em colocar um anuncio nos jornais..., Mas o que diria? Como a encontraria? Ir à delegacia de polícia, pedir ajuda, denunciar um desaparecimento? Também não funcionaria. Até que, passando por uma livraria, no centro da cidade, viu exposto um livro policial “As Aventuras do Detetive Dick Peter” ... Era isso! Um detetive, um investigador particular! Mas será que existia alguém assim em São Paulo? George sabia que em 1850, em Chicago. Allan Pinkerton, fôra o primeiro detetive particular do mundo, que fundara a agência de detetives que levava seu nome..., Mas existiria alguém assim aqui no Brasil? O amigo de seu pai, o chefe de polícia aposentado, Dr. Almeida, acabou lhe contando a história de Joaquim Ganância, o homem que se tornara, no final do século XIX, detetive, para investigar o rapto de seu próprio filho, insatisfeito com o trabalho policial. A secretária de George conseguiu localizar o homem pela lista da companhia telefônica. Foi uma sorte, porque, dos 239 mil habitantes da cidade, só cerca de 4 mil possuíam uma linha e um aparelho telefônico.

Ganância cobrou uma pequena fortuna pelo serviço, mas concordou em procurar por Susana. Perguntando aqui e ali no entorno do Castelo, descobriu que o chofer que a levara era o mesmo que sempre atendia à família Meyer. Interrogado, o chofer disse que se lembrava sim da moça e que a deixara na Praça da Sé. Mas Ganância, que era treinado em ler a expressão corporal dos indivíduos, soube que ele estava mentindo porque ele olhara, ao responder, para os próprios pés.
-- O senhor está mentindo – disse o detetive.

-- Olhe – começou o chofer – eu tenho 5 filhos para criar e a família Meyer é a maior fatia do que eu ganho num mês. Jurei fidelidade a eles.

-- Mas o senhor admite que não deixou a moça na Praça da Sé. Onde a deixou então?

-- Eu já lhe disse – retrucou o chofer – não vou comprometer a família que praticamente sustenta a minha própria família.

-- Fui contratado pelo sr. George Meyer para descobrir o paradeiro dessa moça. O senhor também serve a ele, não é assim? O que acha que ele fará quando eu disser que o senhor não quis me dar a informação correta?

-- Moço, o senhor está tornando a minha vida muito difícil. Isso é uma briga de irmãos. Se eu agradar Sr. George, desagradarei a Srta. Evelyn...

-- Foi a Evelyn que contratou seus serviços naquele dia?

-- Não vou responder mais nada! – disse o chofer, irritado.

-- O senhor já se comprometeu, vai acabar ficando desmoralizado com os dois irmãos. Se eu fosse o senhor, ficaria do lado de George, afinal ele é o homem nesse caso. Evelyn é apenas uma mulher. A palavra dela vale menos.

-- Está bem – suspirou o chofer—eu deixei a moça na avenida Paulista.

-- Mas onde, na Avenida Paulista?

-- Na calçada, ora bolas!

-- Em que ponto da calçada?

-- Ah... eu não sei mais! Moço, eu levo e trago muita gente todos os dias, para a Paulista e outros lugares. Não posso me lembrar de cada detalhe!

-- Muito bem, -- disse o detetive – eu vou descobrir. Mas, se estiver mentindo, pode dizer adeus aos serviços à família Meyer.

-- Eu a deixei na Avenida Paulista! – esbravejou o chofer.
...
-- Esse será o dinheiro mais fácil que ganhei na vida – comentou o detetive, com um amigo, no bar – Na Paulista, todos sabiam a história da moça desmemoriada que foi acolhida pela freiras do Santa Marianita. Amanhã logo cedo estarei lá com o Sr. George.

Mas quando George chegou, radiante, ao Santa Marianita ficou sabendo que Susana não estava mais lá. Fôra encaminhada, a pedido do Dr. Waldo, para um tratamento psiquiátrico, a fim de recuperar a memória.


Capítulo 8 – A Loucura

Quando o Dr. Waldo falou em levá-la para um moderno tratamento psiquiátrico, a fim de restaurar-lhe a memória, Susana não sabia o que fazer. Primeiro disse que não seria necessário, mentiu que a memória lhe estava voltando aos poucos, recordava-se de alguns momentos com sua família, algumas imagens que lhe pareciam familiares, vinham-lhe sempre à mente e que ela acreditava que, em breve, poderia recordar-se de tudo.

-- Mais um motivo para fazer o tratamento, Susana! – disse ele, entusiasmado. O Dr. Francisco já conseguiu inúmeros sucessos com muitos pacientes através desse tratamento.

Susana não teve outra saída senão concordar. Se contasse a verdade aí sim o prestigiado doutor a levaria correndo a um manicômio.

Quando, porém, sentada ao lado do médico, no carro que o chofer dele dirigia, percebeu que estavam saindo da cidade, um arrepio de horror e medo passou-lhe pela espinha.

-- Quem é mesmo esse Dr. Francisco que estamos indo ver? – perguntou ela ao médico.

-- É o mais importante psiquiatra de São Paulo, Dr. Francisco Franco da Rocha.

Susana pensou em saltar do carro. Sabia agora para onde estava sendo levada, o Manicômio do Juqueri, o famoso e desumano, por décadas, hospital psiquiátrico que, ela sabia, nada mais fôra do que um depósito de loucos. Susana conhecia a história. Fôra no final do século XIX que Franco da Rocha (que mais tarde daria nome ao hospital) encomendara ao famoso arquiteto Ramos de Azevedo a construção da Colônia Agrícola de Juqueri, onde toda e qualquer pessoa indesejável pelas famílias ou pela sociedade, tivesse ela ou não uma patologia mental, era internada. Um vez lá, dificilmente se saía. Se entrasse são, sairia louco, pelas experiências com as incipientes drogas, pela convivência com insanos, pelos maus tratos, pelos eletrochoques. Susana defendera, no início da carreira, uma mulher que matara o ex-marido que a internara numa clínica psiquiátrica para livrar-se dela. Mas isso fôra numa clínica moderna, não num depósito de loucos como o Juqueri. Mesmo assim, quando essa mulher saiu de lá, a primeira coisa que fez foi comprar um revólver e descarregá-lo no marido. Susana conseguira apenas que ela retornasse para a clínica, alegando problemas mentais. Fôra nesse processo que ela estudara a história dos manicômios no Brasil e sabia muito bem para que espécie de inferno estava sendo levada.

Quase entrou em pânico. Mas uma esperança brotou-lhe na alma. Ela conhecia o Dr. Waldo; naquela semana que passara trabalhando no hospital, o vira clinicando, atendendo as pessoas, conversando com familiares de pacientes. Ele era, sem dúvida, um homem de boa índole, de bom coração. Não a internaria num manicômio, claro que não. Perguntou:
-- O Dr. Francisco tem seu consultório fora da cidade?

-- Sim. Ele atende seus pacientes dentro do Asilo de Alienados do Juqueri.

-- Ai, doutor – disse ela com franqueza – o senhor não vai me internar num manicômio apenas porque perdi a memória, não é?

O médico deu um tapinha amigável na mão dela, sobre o assento do carro:
-- Claro que não, Susana. Você ficará lá apenas os dias necessários para completar o ciclo do tratamento.

-- O senhor tem coragem de me deixar lá, no meio dos loucos? Eu tenho medo.

-- Não há nada a temer – respondeu ele – Você ficará na ala dos pacientes sem gravidade.

Mas, quando entraram no pavilhão onde Dr. Franco da Rocha atendia, Susana estremeceu de pavor. Podia ver, pela janela da sala de espera do consultório, o pátio lá fora, com muitas mulheres, algumas deitadas, outros sentadas, todas no chão de terra batida, algumas com o olhar perdido, outras mergulhadas em evidente delírio, alucinadas.

O Dr. Waldo despediu-se dela:
-- Não precisa se assustar. Você está nas melhores mãos nas quais poderia estar.

Sentou-se num banco de pedra, na antessala, tentando ignorar a cena que a janela mostrava, mas ouvia os gritos de dor, de pavor, as risadas histéricas...
Finalmente a porta do consultório se abriu e uma enfermeira muito gorda a pegou pelo braço: -- Vamos entrar.

-- Posso caminhar sozinha – protestou Susana – diante da brutalidade que sentiu no gesto da enfermeira.

-- Mocinha, aqui ninguém pode nada, a não ser o que eu quiser que possa.

Susana imaginava que conversaria com o médico. Mas este mal levantou a cabeça ao perguntar: -- A senhora é a moça sem memória, indicação do Dr. Waldo, do Marianitas?

-- Sim – respondeu Susana.

O médico ergueu a cabeça e em vez de olhar para ela, olhou para a enfermeira:
-- Muito bem, Maria, você sabe o que fazer.

Susana foi levada a um aposento muito úmido, com as paredes mofadas e teve suas roupas praticamente arrancadas pela enfermeira. Queria gritar. Queria esmurrar a enfermeira, mas sabia que isso seria pior para ela. Se reagisse, seria realmente tratada como louca e teria o mesmo destino daquelas infelizes jogadas no pátio, sujas, descabeladas, algumas até feridas, as moscas pousando nas chagas. A enfermeira a prendeu contra a parede, pelos pulsos e pelos tornozelos, com cintas feitas de couro que deixavam algum espaço para que ela se movesse. Foi então que viu as grossas mangueiras penduradas na parede oposta. A enfermeira chamou alguém pelo vão da porta: -- Pode vir, a franga já está no espeto!

Um homem entrou e ficou observando, encostado à porta que a enfermeira fechara. Então Susana viu, com terror, que a enfermeira tirava do suporte uma daquelas mangueiras e, de repente, Susana sentiu uma dor descomunal na altura do peito, o feroz e grosso jato d’água a empurrava contra a parede e ela escorregou. Aí já não podia mais dizer qual parte do corpo doía. Tentou se levantar do chão, mas a enfermeira dirigia o jato para as suas pernas e ia subindo. A água entrava por todos os orifícios do seu corpo, pela vagina, pelo ânus, pelos ouvidos, pela boca e até pelos olhos. No meio do martírio conseguiu ver que o homem, encostado à porta, claramente se masturbava. Tinha prazer no sofrimento dela! Depois de uma eternidade, sentiu que a erguiam. Percebeu que tinha urinado e evacuado, a sujeira escorrendo por um ralo horizontal, no chão junto à parede imunda. A enfermeira a empurrou, dizendo:
-- Já tomou o banho, agora vamos pro barbeiro.

Chorando, Susana viu seus lindos cachos caírem no chão, o cabelo quase raspado, cortado rente ao crânio. Vestiram nela um daqueles uniformes, iguais aos das moças do pátio, a sentaram numa cadeira, amarram-na com cintas de couro e colocaram uma espécie de eletrodos em seu crânio. O choque percorreu-lhe o corpo numa dor insuportável e então ela não viu mais nada.

Acordou no pátio, junto às loucas. Todo o seu corpo doía, como se tivessem lhe triturado os ossos. Os lábios estavam feridos e ela pensou: Não. Isso não pode ser verdade. Eu devo estar sonhando..., Mas sabia que não estava. Preciso manter a calma. Se eu surtar, nunca conseguirei sair daqui. Não vão me abandonar aqui. O Dr. Waldo certamente virá me visitar e eu direi a ele..., Mas se não vier? Bem, George deve estar me procurando... E se não estiver? E se Evelyn tivesse dito que ela simplesmente se esvanecera no ar, voltando pro seu próprio tempo? E as freiras, tão gentis e simpáticas, como podiam permitir que a torturassem assim?

Estava pensando em tudo isso, quase entrando em desespero, quando ouviu a voz de George, aos gritos, exigindo que o levassem “até sua irmã” ... Susana quase riu, teria rido, se não estivesse tão destruída. O diabo do homem sabia que só mesmo dizendo que ela era da família é que conseguiria tirá-la dali. E isso porque ele era rico e poderoso. Se não fosse, certamente nem dizendo isso conseguiria.

Mais uma eternidade, em alguns minutos, se passou até que ele viesse até ela, a abraçasse, erguesse e dissesse: -- Vamos embora daqui...

-- O senhor não pode levá-la dessa maneira – tentou esbravejar a enfermeira gorda quando viu Susana, amparada pelos braços de George, entrar na antessala do consultório do Dr. Francisco.

George respondeu:
-- Posso e vou, imediatamente. E vocês se deem por felizes por eu não ir aos jornais denunciar esses maus tratos sofridos por minha pobre irmãzinha...

-- Nós estamos trabalhando – disse a enfermeira com arrogância – com as mais modernas técnicas de cura psiquiátrica, técnicas que visam, através do choque tanto elétrico quando físico, trazer de volta a preciosa memória da sua irmã.

Mas George já saía pela porta e, auxiliado pelo chofer, Otto, acomodava Susana no banco de trás do Ford, quase deitada e tendo o caríssimo paletó de George por travesseiro. Ele sentou-se no banco da frente e ordenou: -- Vamos para casa!

Sentado de lado no banco da frente, esticou o braço e segurava a mão de Susana. Ela desandou a chorar e chorou por quase uma hora. Mas, quando percebeu que já estavam saindo novamente da cidade, rumo ao sul, disse com voz fraca:

-- O celular... ficou lá... no hospital da Marianitas. Eu o escondi num fundo falso que fiz na gaveta da escrivaninha onde eu trabalhava.

O chofer fez meia volta, à mando de George. O sol já se punha quando o carro entrou pelos portões do hospital, na Avenida Paulista. George passou pela grande porta do hospital, com fúria, derrubando com um empurrão um porteiro que tentou detê-lo. Abriu com violência a porta do escritório central, onde uma freira, que escrevia, ergueu-se assustada:
-- O que é isso? Quem é o senhor?

-- Qual é a mesa de Susana? – perguntou ele.

-- Mas... o que significa isso? – perguntou a freira, assustada.

-- Qual é a mesa de Susana? – voltou a perguntar, dessa vez com um grito.

A freira apontou para uma escrivaninha que, por sorte, tinha uma única gaveta. George arrancou o fundo falso, pegou o estojo de couro onde estava o celular e seu carregador e saiu, não sem antes dizer:

-- Boa noite, madre!

A noite já ia alta quando o Ford dos Meyer chegou ao Castelo. Susana, tentando se recompor, já se sentara no banco do carro, os olhos agora secos. Sabia que demoraria a esquecer aquela horrível experiência traumática. Sentia muita pena das mulheres que vira no Juqueri e pensou, que em 2019, apesar do movimento antimanicomial, na sua opinião, ser de um radicalismo estúpido e sem fundamento científico, as pessoas com doença mental recebiam um tratamento muito mais humanizado e eficiente, em muitos casos. George ajudou-a a descer do carro e viu, horrorizado, os hematomas que a água deixara no corpo dela:
-- O que é isso, Susana? Essas manchas roxas? Você foi espancada?

-- Não. Pior que isso, eu acho. Foram poderosos jatos d’água que me empurravam contra uma parede.

-- Meu Deus! – fez George, horrorizado.

-- As marcas na cabeça – apressou-se ela em explicar – e esse elegante corte de cabelo foram coisas do eletrochoque.

A governanta veio correndo em direção ao casal e ajudou Susana a subir as escadas, dizendo solícita: -- Vou mandar ao seu quarto, imediatamente, uma boa sopa e uma refeição mais leve.

Susana disse, para o escândalo da governanta:
-- E, por gentileza, se for possível um dose dupla de uísque sem gelo.

George riu:
-- Uma para mim também.

Susana tomou um longo banho de banheira, ajudada por uma das criadas, vestiu seu traje de dormir e foi encontrar George, que não arredara o pé do quarto, esperando por ela.
Brindaram com o uísque e ele perguntou:

-- Ainda dói?
-- Não – respondeu ela – só na alma.

-- Mas por que você foi embora, sem nem ao menos esperar que eu voltasse para se despedir?

Susana ia dizendo: “Evelyn me expulsou” – mas percebeu que, se dissesse, criaria um abismo entre George e a irmã e entre Evelyn e ela própria.

-- Percebi que sua irmã não acreditara na minha história e decidi partir. Disse ao chofer do táxi que não tinha dinheiro, que perdera a memória e que não sabia para onde ir. Ele me levou para as freiras, que me acolheram e tentaram encontrar a minha família que, evidentemente, não existe nesse tempo. Enquanto isso, em retribuição à moradia, refeições e trajes que elas me deram, eu me voluntariei para trabalhar e elas me puseram no escritório. Tinham até estabelecido um ordenado – e aqui ela riu --, que no meu tempo seria “salário” – para que eu pudesse me manter com dignidade até a suposta volta da minha memória.

-- E, como, afinal te mandaram para o Juqueri, meu amor? – e então um pensamento horrível passou-lhe pela cabeça: -- Você não contou a elas que veio do futuro, contou?

Susana riu:
-- Seria motivo suficiente para me trancarem lá para sempre – Não foi isso. Quando perceberam que não conseguiam mesmo encontrar a minha família, o Dr. Waldo sugeriu um tratamento para me fazer recuperar a memória. E o tal “tratamento” deles passa por torturas aquáticas e eletrochoques...

-- Meu Deus! – exclamou George – Parece que loucos são esse médicos e não os seus pacientes.

Susana pensou no sadismo do enfermeiro que se masturbava enquanto ela, nua, era torturada pelos estúpidos jatos d’água. Não disse nada. Sabia que se dissesse, George era capaz de ir lá e matar o sujeito.

-- E como foi que você me encontrou, afinal? – perguntou ela.

-- Contratei um detetive que descobriu que você estava lá no hospital das freiras de Santa Marianita. Mas, hoje de manhã, quando cheguei lá, você já não estava. Fôra levada pelo médico para o Juqueri na tarde anterior.

-- Como? Isso significa que passei a noite de ontem lá?

-- Sim – respondeu ele.

-- Só me lembro do horror do eletrochoque e, em seguida, acordar no pátio.

-- É melhor não lembrar mais nada – disse ele. Amanhã mando o chofer buscar sua bolsa e seu vestido que estão lá nas freiras e tentaremos esquecer todo esse pesadelo.



Capítulo 9 – De Volta ao Castelo

George acordou antes de Susana. Ela dormia profundamente e ele deu-lhe um beijo no rosto, chamou uma das criadas para ficar ali, ao lado da cama dela e desceu para o café. Os exportadores de algodão que se danassem. Ele não deixaria Susana sozinha naquele dia, depois de tanto sofrimento que ela experimentara.

Estava terminando o café quando Evelyn entrou na sala, as malas sendo carregadas por Otto e pelo chofer de táxi, aquele mesmo.

-- Salve, minha amada irmã! – saudou-a George – Você saiu da praia de madrugada para estar aqui a essa hora?

-- Não. Saí ontem à tarde e dormi na cidade, fui jantar em casa de Úrsula.

George disse:

-- Posso lhe perguntar que fim, afinal, levou a nossa amiga Susana?

-- Ah... Ela desapareceu. Deve ter voltado para o lugar de onde veio. – respondeu Evelyn, sentando-se à mesa.

-- Bem, eu sinto decepcioná-la, minha irmã. Mas ela não desapareceu. Saiu daqui porque você não acreditava nela, foi se abrigar com as irmãs Marianitas naquele novo hospital da Avenida Paulista, passou lá mais de uma semana e foi internada, pelo benemérito fundador do hospital, Dr. Waldo Song, no Asilo de Alienados do Juqueri. Por sorte, e também por esforço, consegui tirá-la de lá, ontem. Ela está dormindo em seu quarto agora.

-- Você ainda acredita nela, não é mesmo? – perguntou Evelyn.

-- Claro que acredito, minha irmã. Ela está dizendo a verdade. Confesso que seria difícil de acreditar se ela não tivesse esse vestido de estranho tecido e seu telefone celular.

-- Talvez se eu pudesse ver funcionando esse tal desse celular...

-- Você poderá – disse Susana, que descia as escadas em direção à mesa do café. – Eu lhe peço perdão, Evelyn, por ter tido que mentir. Mas você não acreditaria se eu contasse a verdade.

-- Mas contou a ele! – respondeu Evelyn irritada – Por que não a mim, então? Quem me garante que você não inventou isso para conquistar o meu
irmão?

-- Aqui está o meu aparelho celular – disse Susana – tirando o celular do bolso—Você pode ver que ele está apagado, está sem energia. Mas George me disse que vocês têm um gerador elétrico na casa. Levem-me até ele. Se eu puder tirar energia dele, se ele tiver um fio, com dois polos, positivo e negativo, eu amarrarei a ponta descascada desses fios a esses dois terminais da tomada do carregador e meu celular voltará a funcionar. Eu poderei então mostrar a você o que George já viu.

O gerador estava no porão da casa. Subterrânea também era a adega, com um elegante bar de paredes de lambri, onde Susana ainda não estivera, em 1910, mas onde seus pais haviam dado uma festa de aniversário em 1993. Entraram na sala do gerador por essa adega. O chofer, que entendia um pouco da coisa, conseguiu dois terminais de energia, um polo positivo e outro negativo. Estava curioso para saber o que os patrões estavam querendo com aquilo, mas George simplesmente disse:

-- É o bastante, Otto – Obrigado e pode se retirar.

Assim que foi estabelecida a corrente elétrica para o carregador, o celular acendeu com o desenhinho da bateria sendo carregada. Evelyn deu um grito de espanto. Alguns minutos depois, entrou a tela inicial e Susana foi direto para as fotos. Lá estava o selfie noturno dela com George, na grama coalhada de vagalumes. Evelyn olhava estarrecida. Viu as imagens de uma cidade futurística, coisa que ela jamais sonhara... Por fim, percebeu que aquilo tudo não poderia simplesmente ser um truque... Afastou-se e desabou num dos grandes bancos de madeira do bar da adega. George e Susana sentaram-se, quietos, ao lado dela.

Por um momento, que pareceu muito mais do que apenas um momento, havia apenas o silêncio. Por fim, Evelyn deu um profundo suspiro e disse:
-- Minha cara, se essa pequena máquina for um truque é o truque mais impressionante que já vi em toda a minha vida. Mais impressionante ainda que as façanhas do Mestre Houdini.

-- Então, agora você acredita em mim? – perguntou Susana.

-- Não sei – respondeu Evelyn – Ainda pode ser um truque, um filme aí dentro dessa caixinha e você pode ser qualquer uma, uma mulher do povo, uma criada, uma operária, que inventou essa história porque soube que meu irmão estava escrevendo sobre 2019...

-- Evelyn, -- disse Susana -- nós estamos em 1910. Não existem filmes pequenos o suficiente para caberem num celular. O cinema ainda nem tem som e você viu que todos os vídeos do meu celular têm som... Olhe, para ser sincera, nem eu mesma estava acreditando quando cheguei aqui. Pensei que também estivesse sendo vítima de uma brincadeira de mau gosto, que estivesse em um cenário... – aqui interrompeu-se, ia dizendo “cenário virtual”, mas, se dissesse, teria que se explicar ainda mais do que já fizera. Continuou: -- Vítima de uma ilusão, enfim. Eu estava aqui mesmo, em 6 de janeiro de 2019, no Castelo, que, no meu tempo é um clube. Não vinha aqui desde 1999 e fiquei assustada com as mudanças. Estava pensando nisso quando uma nuvem me envolveu e eu vim parar aqui, no tempo de vocês. Não sei como isso foi possível.

-- Realmente – disse Evelyn – eu também não sei e confesso que essa sua máquina me impressionou bastante, mas não sei se estou plenamente convencida. Para mim, é muito mais provável que tudo isso seja um engodo...

-- Se você ainda não acredita em mim, é melhor que eu me vá, então.
-- respondeu Susana, desanimada.

-- Vá para onde? – perguntou Evelyn, com certo sarcasmo – De volta para de onde veio?

-- Não sei se posso voltar ao meu tempo – respondeu Susana – Mas me reconheço capaz de viver em qualquer tempo. Sou forte, formada, posso trabalhar e me sustentar, posso dar aulas, qualquer coisa...

-- Nem pense nisso! – exclamou George – Não quero que você se vá, nem para o seu tempo, nem para longe dessa casa. Seu lugar é aqui. Case-se comigo e passará a ter o inquestionável direito de viver no Castelo.

-- Casar-se com ela? – perguntou Evelyn – Como? Ela não passa de uma Maria Ninguém, sem família, sem nome. Nossos pais jamais aprovariam esse casamento!

-- Evelyn, meu nome é Susana de Vasconcellos Expedito Gaetano, mas alguns dos meus antepassados levam o nome de família de Carmen Fomm de Vasconcellos, a escritora que sua amiga Úrsula e também sua própria modista, disseram que se parece demais comigo, é minha bisavó. Ela se casará com João Antonio Expedito, mas todos os seus descendentes farão questão de carregar seu sobrenome de solteira, porque ela ainda será uma figura importante no mundo literário. Corre, inclusive, na família, a lenda de que, antes de se casar, Carmen teria tido um tórrido amor, um amante que morreu muito jovem, antes de eles poderem se casar, e que o meu bisavô, filho dela, teria sido filho desse amante e não do Expedito. É uma lenda romântica, mas é uma lenda. Ah! Espere!! Eu tenho aqui, em alguma pasta, no celular, uma fotografia dela, em 1915 e também uma fotografia tirada quando eu me vesti e me penteei exatamente como ela... Veja, aqui está!

Evelyn fitou longamente as duas fotografias que Susana colocara numa única tela, em seu celular. Mais um momento interminável se passou. Outro profundo suspiro e Evelyn disse:
-- Sim. São extremamente parecidas, mas são sem dúvida, duas mulheres diferentes. Há pequenas diferenças, inclusive no porte, no olhar...Digamos que seja verdade – começou Evelyn a capitular -- e digamos que vocês dois estejam mesmo vivendo um amor de verdade, que queiram se casar e formar sua família, o que diríamos aos nossos pais? Como explicar a sua presença aqui, de onde você teria vindo, onde estariam os seus parentes? Em que escola você teria estudado? Qual seria a sua origem, a sua formação, a sua posição na nossa sociedade?

George disse impulsivamente:
-- Contaremos a verdade e está acabado.

-- Nossos pais diriam que enlouquecemos. Jamais acreditariam. Além disso, seria inevitável – continuo Evelyn – que, convivendo em nosso meio, Susana acabasse encontrando-se com Carmen e como explicaríamos tal semelhança física? Não, isso não é possível.

George, convencido de que Evelyn recuperara a confiança em Susana, foi, afinal para a fábrica. As duas mulheres passaram toda a manhã caminhando por entre as árvores, no bosque do Castelo, almoçaram juntas e Evelyn, ao ouvir Susana falar sobre o futuro, foi se convencendo de que tudo era, de fato, verdade. Uma verdade sem explicação. Mas que explicação tem a vida, afinal? – perguntava-se ela. No fim da tarde, estavam subindo a alameda das árvores, quando viram que George chegava.

-- Veio mais cedo para casa, meu irmão? – perguntou Evelyn – Como foi hoje a sua reunião com os exportadores?

-- Excelente! – respondeu ele, animado, dando um beijo no rosto de cada uma delas – Vamos certamente conseguir fazer grandes novos negócios! Papai vai adorar a notícia, quando chegar.

Nesse instante uma névoa baixou sobre eles e, quando se dissipou, George se viu sozinho, na alameda das árvores. A governanta aproximou-se dele:
-- Senhor, sua irmã o espera na sala de vidros para o chá. Ela quer que se junte às senhoritas que lá estão, senhoritas Úrsula e Carmen.

George, completamente desorientado, sem compreender ainda o que se passara, mas sabendo que a névoa levara sua amada de volta ao seu próprio tempo, recompôs-se do susto e dirigiu-se à sala de vidro onde as moças tagarelavam alegremente. Antes, porém, bateu os olhos num jornal que Evelyn deixara aberto sobre o sofá da sala: domingo, 10 de janeiro de 1910... Ele estava de volta a duas semanas antes, ao dia em que Susana viera para ele. À mesa estavam Úrsula, Evelyn e Carmen... Carmem, a versão 1910 da sua amada Susana. Quando seus olhos se encontraram, ele soube que Carmen e Susana eram a mesma pessoa, a mesma alma e que, independentemente do tempo e do espaço, aquela mulher era, fôra e sempre seria, o amor das vidas dele.

Então Evelyn disse:
-- Essa noite eu tive um sonho completamente estranho com uma mulher que veio do futuro...
....
Quando a névoa se dissipou, Susana percebeu que estava na alameda das árvores do Castelo, sim, mas que era de novo aquela alameda de mirradas árvores. Voltei – pensou – estou de novo em 2019... Estou exatamente onde estava antes de partir para 1910.
-- Que dia é hoje? – perguntou ela com ar casual a uma mulher que passava pela alameda.

-- 6 de janeiro de 2019 – foi a resposta.

Meu Deus... Tudo terá sido um sonho? Uma ilusão? Levou à mão à testa e percebeu que estava vestindo, sobre o seu vestido godê de flores, fabricado em 2019, o blazer de albene que Evelyn mandara fazer especialmente para ela em 1910. Passou a mão pelos cabelos: estavam compridos, como no dia em que partira para o passado. Sentiu que alguém lhe tocava de leve no braço. Quando se voltou lá estava ele, George! Os mesmos olhos azuis, a mesma barba negra, mas em trajes de 2019, jeans, camisa polo, jaqueta.
-- Você está se sentindo bem? – perguntou ele – Tive a impressão de que teve uma espécie de vertigem.

-- Sim, estou bem – respondeu ela – Mas você me parece estranhamente familiar. Seu nome por acaso é George? Eu o conheço daqui do clube ou de algum outro lugar?

Ele deu uma risada alegre:
-- Pouco provável. É a primeira vez que estou vindo aqui. George – disse ele tirando do bolso da jaqueta um pequeno livro de bolso, impresso em papel pardo, claramente tipográfico – foi esse meu antepassado, autor desse livrinho. Eu sou Leo, Leopoldo Alfredo, na verdade, nome do meu avô paterno. George, no entanto, era esse meu bisavô, cujo livro, de autoria dele, encontrei ontem na biblioteca de meu recém-falecido pai...

-- Oh, meus sentimentos... –disse Susana, estendendo a mão para o pequeno volume, mas já querendo arrancá-lo das mãos dele.

Ele continuou:
-- É engraçado... Agora percebo que você se parece muito com a mulher que ilustra a capa do livro. Veja, é um desenho, parece-se com você.

Susana viu-se retratada na capa do volume: “Quando o Homem Desequilibrou a Terra” por George Meyer....

--- Eu sempre soube... – continuou ele -- como é mesmo seu nome?

-- Susana.

-- Então, eu sempre soube, Susana, que esse Castelo, à beira da represa do Guarabitinga, fôra construído por um dos meus antepassados. Mas nunca me interessei muito por isso, até encontrar esse livro, escrito pelo meu bisavô. Nunca também tinha visto ou ouvido falar em nenhum exemplar dele, teve uma tiragem de apenas 500 cópias, como indicado aqui nessa última página. Impressionante como esse meu avô anteviu o futuro. Na primeira década do século passado, ele descreveu nesse livro os efeitos do nosso atual Aquecimento Global Quando eu li o livro soube então que esse meu antepassado o escrevera aqui, na torre do Castelo. Assim, resolvi vir conhecer o clube...

-- Posso ver o livro? – perguntou Susana tentando reprimir a emoção.

-- Claro – disse ele estendendo-lhe o exemplar. —É muita coincidência encontrar aqui no Castelo uma moça tão parecida com essa da capa.

Susana abriu o exemplar e leu a dedicatória: “Para Susana, o amor dos meus sonhos e para Carmen, grande amor da minha vida.”

-- Percebo que você se emocionou ao se ver retratada nesse livro tão antigo... – disse Leo.

-- Sim – respondeu ela – é bastante emocionante, talvez seja uma antepassada minha...

-- Você é sócia do clube? – perguntou ele.

-- Sou.

-- Se não tiver nada melhor para fazer, poderia me ciceronear por aí e me mostrar tudo?

-- Claro, terei muito prazer. Eu amo esse lugar e, há pouco, estava apenas lamentando que as árvores dessa alameda não sejam mais as mesmas árvores da minha infância, velhos e grossos troncos que talvez estivessem aqui desde o tempo do seu avô...

Saíram caminhando e, mais adiante, Susana tropeçou. Leo a amparou e suas mãos e seus olhos se encontraram. Daí em diante, caminharam de mãos dadas.



CONTINUA... Capítulos 10 a 16

 

 


 

COMENTE  Susana Campanhã Isabel, você é sensacional. Amo você

 

Angela Lopes De início já gostei, vou ler.

 

Vera Krausz -Consegui ler todo o livro do Castelo !! Amei !! Muito mesmo ... Obrigada pela homenagem ...
Adorei a reflexao sobre o tempo ... e tambem sobre a psiquiatria e o manicomio ...
Maravilhoso ... emocionante ! Amei a reflexao do tempo ... e a alusao a loucura e a psiquiatria.

 

 
 

Sergio Hamilton Angelucci Sensacional Bel ... Na primeira descrição identifiquei imediatamente o Castelo ... Tempos maravilhosos minha amiga ... Estou adorando !!!