voltar para a página de escritos da Isabel ou para a página Memória ou para a página inicial do Portal

 

 

 

 

 

Esclarecimento necessário:

Essa aqui é uma história de ficção, calcada

em alguns fatos reais e outros inventados.

Os personagens da ação da história são fictícios. Os personagens periféricos à ação podem ser, ou não, reais. O mais real, na história toda, é a magia que de fato existe nesse Castelo...

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Castelo, Clube de Campo, leia também a nossa história lá, de 1959 a 1987 e, depois, 2017, com muitas fotos e vídeos.

 

 

1983

2017

 

 

 

2017

1959

 

 

 
Um Castelo Além do Tempo

por Isabel Fomm de Vasconcellos

 

Aqui, do Capítulo 10 em diante.

Para ir ao Capítulo 1, clique aqui.

 

Índice:

Capítulo 10 - Porque a Vida Continua

Capítulo 11 - Porque a Vida Continua Sempre

Capítulo 12 - Tudo É Possível

Capítulo 13 - O Legado de George

Capítulo 14 - Superação

Capítulo 15 - 1919

Capítulo 16 - Tempo Não Linear

 

Capítulo 10 –

Porque a Vida Continua

Susana e Leo ficaram até bem tarde no Castelo. Ela mostrou tudo a ele, as piscinas, com seu bar exclusivo, o pub (onde antes era a adega), as quadras esportivas, o ginásio com sua piscina coberta, a área dos quiosques entre as árvores, a casa de barcos, as quadras de tênis, os salões de festa e, de propósito, deixou para o fim o Castelo, a casa como fôra construída pelos pais de George e Evelyn e que nunca tinha sido reformada. O hall de entrada, a sala principal com sua lareira e escadaria e mezanino com um púlpito, a sala de vidros. Depois, o segundo andar. Os quartos e banheiros, que hoje eram, o do frente, sala de jogos, o do fundo, sala de bilhar, com seu enorme terraço que ficava exatamente sobre a sala de vidros e o pequeno quarto do meio, onde hoje funcionava a secretaría do clube, onde ela ficara hospedada, na sua viagem ao passado. Depois galgaram os grandes degraus da escada estreita que levava à torre. De lá, descortinava-se, nas janelas em 360 graus e dos dois pequenos terraços em meio círculo, todo o entorno do Castelo, toda a vasta península verde e, para além, as margens da represa do Guarapiranga, outrora virgens, hoje coalhada de prédios e de loteamentos habitados. Leo disse, com um suspiro:
-- Então foi aqui que meu bisavô escreveu seu livro premonitório...

-- Sim – respondeu ela. – Ele transformou a torre em escritório...

-- Como você sabe disso? – riu ele.

-- Imaginei – respondeu rápida, mas morrendo de vontade de contar a ele que estivera ali, em 1910, no escritório onde George escrevia seu romance. Porém, sabia que ele jamais poderia acreditar nela. Talvez acreditasse, se ela dissesse coisas que estavam no livro. Mas, mesmo assim, ele julgaria que, de alguma maneira, ela tivera acesso a um dos 500 exemplares editados e, por isso, agora brincava com uma hipotética viagem ao passado.

Calou-se. Talvez um dia...

Agora, quase 11 da noite, dirigindo seu carro de volta à casa, pensando que, afinal, amanhã seria segunda feira, 7 de janeiro de 2019, e que ela ainda teria que, ao menos, antes de dormir, passar os olhos pelos autos do processo que capitaneava e, cuja audiência principal seria às 15 horas. Pensava também em Leo. Ah, ela diria que o amava. Mas, de fato, não era Leo quem ela amava, e, sim George. Ou seriam Leo e George apenas duas versões da mesma pessoa, da mesma alma, no tempo? Nesse caso, seria ela outra versão de sua bisavó, Carmen? Lembrou-se de que todos, no fórum, no escritório, admiravam os textos de seus processos, sua defesas... Todos comentavam que eram extremamente bem escritos, diferentes do usual... Teria ela, apesar de ter optado pela carreira jurídica, a mesma veia literária de Carmen?

Estava mergulhada nesses pensamentos, dirigindo no trânsito congestionado, quando seu celular tocou. Era sua mãe.
-- Susana, minha filha – disse Isabel – estou há horas ligando pra você.

-- Desculpe-me, mãe, o celular estava descarregado. Acabo de carregá-lo no pub do clube.

-- Enquanto você estava no clube, minha filha, seu pai passou mal.

-- O que houve? – perguntou ela já aflita.

-- Ele teve um AVC.

-- Meu Deus! – exclamou ela – já dirigindo o carro para uma transversal e estacionando, para poder conversar – Como ele está, mãe?

-- Inconsciente, Susana, na UTI. Mas os médicos garantem que ele não terá grandes sequelas porque corremos para o hospital a tempo.

-- Mas que espécie de sequelas, mãe? – perguntou ela, já em pânico, pensando que seria terrível para seu pai, um homem de grande capacidade intelectual, sofrer algum problema cognitivo.

-- Os médicos dizem que é cedo para afirmar qualquer coisa. Vamos esperar.

-- Ele está no hospital do Morumbi?

-- Sim, nós estamos aqui. Mas não adianta você vir aqui, minha filha. Só se pode entrar na UTI em horas determinadas. E, agora, é tarde da noite. Eu vou dormir no quarto para onde ele será transferido quando sair da UTI.

-- Mas eu vou assim mesmo, mãe. Vamos tomar um café juntas. Não vou abandonar vocês num momento desses.

Quando desligou, Susana lembrou-se das fotos que fizera com George, no cosmos dos vagalumes da grama do Castelo. Será que estariam ainda em seu celular? Checou. Lá estavam. Numa delas, era possível ver as margens da represa, em total escuridão, completamente diferentes do que eram hoje, cercadas de prédios e casas e ruas iluminadas. Poderia ser uma prova para Leo. Mas, ainda assim, fotos, hoje em dia, são manipuladas, alteradas... Nem mesmo aqueles flagrantes seriam prova de que ela estivera no passado, para Leo.
Bom, seja o que Deus quiser – pensou Susana – e saiu na Ponte da Cidade Jardim, em direção ao hospital.

Capítulo 11 –

Porque a Vida Continua Sempre

No momento em que viu Carmen, George sabia que aquela mulher não era apenas fisicamente igual à Susana. Ele soube que ela era a mesma alma, num tempo diferente e que a amaria, como amava Susana, porque, gracias a la vida, seu amor estava presente, aqui e agora.
Sentou-se à mesa do chá, completamente transtornado, imaginando como teria voltado no tempo, como seria possível que a viagem da Susana, de 2019 a 1910, tivesse sido afinal apagada da realidade em que ele se encontrava agora. Foi então que Evelyn contou que tivera um sonho muito estranho com uma mulher que viera do futuro.

-- Teria sido do ano de 2019? – perguntou Carmen com ar zombeteiro.

-- Bem... Não sei..., Mas, agora que você falou nisso – respondeu Evelyn – penso que o sonho possa ter tido uma causa específica...

-- O livro que seu irmão está escrevendo! – riu Carmen.

-- Desculpem-me – fez George – mas causa-me espanto que as senhoritas, a quem acabo de ser apresentado, saibam que estou escrevendo um livro...

Agora foi a vez de Úrsula rir:
-- Senhor George, graças ao entusiasmo de sua irmã, que o chama de Júlio Verne Paulistano, toda a sociedade dessa província sabe que o senhor está escrevendo um livro que se passa em 2019.

George corou. Jamais poderia imaginar que ele próprio fosse alvo das futricas da sociedade local.

-- Não precisa ficar encabulado, meu irmão—disse Evelyn – Você tem muito talento literário e isso deve ser reconhecido. Quando o livro for editado, será um sucesso! – disse Evelyn.

-- Diga-me, Sr. George, como viveremos no Brasil do ano de 2019? – perguntou Úrsula.

George ia abrindo a boca para responder, mas a irmã se adiantou:
-- Será, segundo George, um mundo de grandes avanços científicos e técnicos. Os automóveis voarão pelos ares, as pessoas se comunicarão por sofisticados aparelhos telefônicos sem fio, muito diferentes dos de hoje, e poderão se ver, umas as outras, em pequenas telas, como hoje temos a grandes telas de cinema.

As moças riram.

-- Serão todos felizes nesse novo mundo, então? – perguntou Carmen.

-- Longe disso – respondeu George – O planeta sofrerá as consequências de todas essas novas invenções. Enormes e complexas indústrias serão erguidas em todos os continentes. A terra abrigará a espantosa cifra de mais de 7 bilhões de habitantes, todos eles precisando e exigindo bens que essas indústrias fornecerão. A matéria prima para tantos produtos esgotará a terra, assim como a produção de alimentos necessários para todos esses seres humanos, esgotará também os solos. Espécies animais serão extintas. E o planeta acabará por revoltar-se porque, afinal, toda a energia necessária para a fabricação de tantos e tantos bens de consumo, isso sem contar a imensa quantidade de veículos, como os nossos carros, funcionando à base de combustíveis extraídos da terra, principalmente o petróleo e, ainda, as milhares e milhares de chaminés da milhares e milhares de fábricas, acabarão por sujar o ar que respiramos e causarão um grande aquecimento nas temperaturas médias da Terra. Esse aquecimento derreterá, aos poucos, as geleiras dos mares, causando inundações nas cidades costeiras, maremotos, com ondas imensas e devastadoras; terremotos serão frequentes, dada a extrema manipulação dos terrenos...

As moças olhavam para ele, assustadas.

-- Deus nos livre viver num mundo assim! – exclamou Úrsula.

-- George! – disse Evelyn, não sem certa irritação na voz – Eu li toda essa parte do livro que fala nas catástrofes naturais, mas você não estava atribuindo essas catástrofes ao progresso técnico e científico e muito menos falava nesse número absurdo de pessoas sobre o planeta...

George quase respondeu: “É que eu ainda não sabia...”, mas lembrou-se imediatamente que não poderia explicar como soubera. Então disse:
-- É, minha querida irmã, porque eu ainda não escrevi essa parte, apenas a imaginei.

-- O senhor – disse Carmen – como o fez Júlio Verne em sua obra “Da Terra à Lua” e H.G. Wells no livro “Primeiros Homens na Lua”, também imaginou que, em 2019, a humanidade estaria viajando pelo espaço sideral? Inclusive, baseado nesses dois livros, o seu xará francês, o cineasta Géorges Mélliès, lançou, com grande sucesso, há alguns anos, creio que em 1902, o seu filme de cinema “Viagem à Lua”. O senhor teve oportunidade de ver essa película?

-- Sim – respondeu George – eu estava em Paris quando esse filme foi lançado. Foi um grande sucesso! Mas, no meu livro, o homem chegou à Lua lá pelos anos 1960 ou 70 e, depois disso, não alcançou nenhuma conquista tão espetacular. Em 2019 (George sabia, pois Susana lhe contara, quando estiveram naquela bolha temporal) existirão, creio eu, satélites, como a nossa Lua, mas artificiais e bem pequenos, se considerarmos o tamanho da Lua, enviados ao cosmos pelos homens, onde algumas pessoas especialmente treinadas, passarão temporadas lá, para estudar os mistérios do Universo. Mais longe que isso, porém, apenas máquinas inteligentes irão. Máquinas que transmitirão imagens das estrelas distantes para outras máquinas aqui na Terra.

-- Que coisa impressionante de se imaginar! – exclamou Úrsula.

-- Paradoxalmente – disse Carmen – o senhor George imagina um mundo onde a humanidade domina a natureza e, ao mesmo tempo, sofre com as catástrofes naturais causadas por esse mesmo domínio da natureza. Entendi corretamente?

-- Perfeitamente – disse George com um sorriso. – Mas permita-me chamar atenção das senhoritas para o maravilhoso espetáculo do crepúsculo sobre as águas. Vejam como o céu e a água estão completamente vermelhos.

As moças, que até então só tinham olhos para George, voltaram-se em suas cadeiras para observar a paisagem pelas enormes janelas da sala de vidro.

-- Sim, é mesmo maravilhoso! – exclamou Carmen – E que privilégio têm o senhor e sua família em morar aqui, no alto da colina, nessa verde península e, ainda por cima, num Castelo!

-- E, daqui a pouco, assim que o sol finalmente se esconder, chegarão até nós as estrelas! – exclamou George.

Carmen olhou para ele, intrigada. Ele riu e logo explicou:

-- São os vagalumes. Logo depois do crepúsculo, em dias quentes como hoje, esses insetos, em bando, invadem toda a extensão do gramado que desce até a praia. Voam baixo, quase se pode tocá-los, estão à altura dos nossos olhos. Então, é como se caminhássemos no céu, entre as estrelas. Se as senhoritas quiserem ver de perto, terei prazer em acompanhá-las, daqui a pouco, por um passeio pela grama...

-- Bah! – fez Úrsula – Eu agradeço a sua gentileza, mas onde existem insetos, certamente existem também mosquitos. Tenho horror deles. Prefiro ver os vagalumes daqui mesmo. Além disso, não quero me atrasar para o jantar lá em casa e ainda tenho que ver os vestidos que Evelyn ficou de me mostrar, os que ela trouxe da Europa no ano passado. Estou à procura de inspiração, de algo que fuja dos modelos atuais, bem feitos é verdade, mas tão maçantes, da Madame Celina.

-- Gostaria de me acompanhar? – perguntou George à Carmen.

-- Mas é claro! – respondeu a moça – Diferentemente de Úrsula, não tenho medo de insetos!

Todos riram.

Lá fora, observando Carmen que rodopiava pela grama, como a dançar com os vagalumes, George pensou, não sem amargura, que os olhos dela brilhavam da mesma maneira que ele vira brilhar os olhos de Susana... E, Deus Meu! – pensava ele – Como são parecidas as duas!

Capítulo 12 – Tudo É Possível

Quando Susana chegou ao hospital encontrou sua mãe profundamente envelhecida. Como se a dor e a preocupação com seu marido, a quem ela amava profundamente, tivessem passado por cima de todas as plásticas, cremes anti-idade, muita atividade física e tratamentos estéticos com os quais Isabel parecia, do alto dos seus 68 anos, jovem e cheia de vitalidade.
-- Mãe, os médicos já têm um prognóstico? – perguntou.

-- Sim. – respondeu Isabel – Eles dizem que seu pai terá que se submeter à muita fisioterapia para recuperar os movimentos. Mas já sabem também que não aconteceram, graças a Deus, danos cognitivos. Seria uma coisa inimaginável e terrível se o prestigiado Professor Gaetano se visse reduzido a um vegetal... Eles agora mapeiam o cérebro e sabem quais áreas foram afetadas pelo AVC. É interessante com o nosso cérebro é compartimentado. Uma área é a da fala, outra dos movimentos, outra da cognição, outra da memória...
E outra, da percepção temporal – pensou Susana, mas não disse.

-- Amanhã de manhã ele será transferido para o quarto. —Continuou Isabel -- Ficará em observação e, depois disso, terá alta. Poderemos levá-lo para casa, mas ele não irá andando. Andar, só depois de muita fisioterapia – disseram os médicos.

-- E os outros movimentos? – perguntou Susana.

-- Também comprometidos. Vamos ter que usar de muita paciência... Já contratei fisioterapeuta e cuidadores para ele, ele não conseguirá fazer as atividades básicas de higiene sem ajuda.

-- Meu Deus! – exclamou Susana – Ele vai se sentir humilhado...

-- Não sei – disse Isabel – Seu pai é muito forte e, antes de se humilhar, sentir-se-á desafiado. Ele vai superar o desafio, como sempre os superou a todos, na vida.

-- Ele irá sim. Tenho certeza. Mãe, mudando de assunto, eu estava no clube hoje e, de repente, me ocorreu que eu nunca soube como nós fomos parar lá... Parece que, desde que nasci, frequentei o Castelo..., mas como foi que começou?

Isabel riu:
-- Seu avô, meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcellos, que, como você está cansada de saber, foi um pioneiro nas artes cinematográficas, foi, como convidado, ao Castelo, em 1937, e lá, fez um dos seus primeiros filmes.
Ficou encantado com o lugar. Vinte e dois anos depois, soube que aquele Castelo se transformara em um clube. E correu para comprar um título. Você sabe que os títulos de sócios proprietários já estão hoje na casa dos 11 mil, embora nunca passem de 2 mil, é que novos sócios têm novos números, os cancelados não retornam. Nós somos número 630... Desde 1959 somos sócios, já são 60 anos...

-- Então o título do meu avô passou para você...

-- E eu o passei para o seu pai, assim nossa família continuou lá...

-- E como o Castelo se transformou em clube, você sabe?

-- Sim. Em 1948 o proprietário original, que o tinha construído, senhor Meyer, morreu. A família então vendeu o Castelo para um empreendedor, o mesmo que construiu o bairro de Interlagos. Este o alugou a uma missionária alemã que instalou lá um colégio. Mas o homem tinha dívidas com o Banco AE Carvalho que tomou dele a propriedade. O banco era dono do Clube Piratininga, um clube social muito popular nos anos 1940 e 50. Assim, resolveram fazer daquela propriedade, um clube e fundaram o Clube de Campo do Castelo em 25 de agosto de 1959. E seu avô logo comprou um título...

-- Sim – disse Susana – e você era uma menina... Cresceu no clube, depois eu mesma, cresci também no Castelo... É claro que eu sempre soube disso, mas parece que só agora estou tomando consciência de como esse local está presente em nossas vidas, como se fosse o quintal da nossa casa.

-- O que houve hoje no Castelo? – perguntou Isabel, intrigada.

-- Nada, não, mãe... Por que?

-- Porque você está muito interessada numa história pela qual jamais demonstrou interesse algum...

-- Bom, eu conheci hoje lá o George... quero dizer o Leopoldo Alfredo Meyer, descendente direto do homem que construiu o Castelo no início do século XX, logo que a represa do Guarapiranga foi criada. Esse George, era o filho do sujeito que construiu o Castelo e ele escreveu um livro, ficção científica, que se passa exatamente no ano de 2019.

Isabel deu um tapa na própria coxa:
-- Ah! – exclamou ela – Eu tinha certeza que alguma coisa de diferente tinha acontecido lá hoje...

-- Mas não foi só isso... Mãe, você vai achar que eu estou louca se eu te contar..., No entanto, sempre te conto tudo, agora que não sou mais adolescente ou jovem, que já sou quase uma quarentona e estou mais próxima de você...

-- Obrigada pela parte que me toca! – disse Isabel, zombeteira.

-- Você tem a cabeça aberta, é escritora, Rosacruz, sabe que a vida é mais que isso...

-- Me conte logo – respondeu a mãe, já impaciente – Não precisa ficar enrolando...

-- É que o meu domingo, hoje, mãe, durou 15 dias.

-- Como assim? Você viveu um dia tão intenso que pareceu ser duas semanas?

-- Foram duas semanas, mãe. Eu viajei no tempo e...

O sol já despontava no horizonte, pelas janelas do, agora vazio, restaurante do hospital quando Susana terminou de contar tudo à Isabel.

-- Minha filha! – exclamou ela – Isso dá um livro!

-- Cruzes, mãe! Eu te conto a aventura mais louca de toda a minha vida e você só pensa em transformá-la em livro?

Isabel riu:
-- Vou escrever essa história, sim. É maravilhosa! Mas e o tal Leopoldo então é mesmo a cara do bisavô dele?

-- Como eu sou a cara da minha bisavó Carmen...

-- Ah, minha filha, então vocês dois são as mesmas almas que habitaram os corpos de seus respectivos bisavós. E você, então, finalmente encontrou o amor?

-- Sim, mãe. Mas não é o Leopoldo. É o George que eu amo, e ele já morreu, ele já viveu toda uma vida sem mim e eu não tenho mais como encontrá-lo...

-- Ah, mas você já o encontrou. Você vai ver que amará esse tal Leopoldo exatamente como amou o avô dele e, por sua vez, aposto que o avô dele se engraçou com a sua bisavó Carmen.

-- É verdade aquele velho boato que corre na família, que Carmen teve um amante antes de se casar com o meu bisavô, Antonio Expedito... Meu Deus! – exclamou Susana de repente – Já são quase 6 da manhã, eu tenho uma audiência às 3 da tarde e preciso me preparar... Mãe, desculpe, tenho que ir voando pra minha casa.

-- É melhor não ir voando, afinal, você pode, sem querer, voar de volta para os braços do George em 1910... – respondeu rindo Isabel, recebendo no rosto o beijo apressado de Susana.

Depois, ainda cercada pelo encanto e pela magia da história que ouvira da filha, Isabel encaminhou-se para o quarto para onde seu marido, Mário Gaetano, seria levado às primeiras horas da manhã. Se era possível viajar no tempo, não seria impossível recuperar-se de um AVC e ela sabia que Mário não era homem de se deixar abater. Ele venceria, tinha certeza, ele venceria!


Capítulo 13 – O Legado de George

Leopoldo, quando voltou para casa, naquela noite de segunda feira, depois de um dia relativamente difícil na agência de publicidade de sua família, bastante contrariado pela resistência que sentia nos sócios em aceita-lo na direção, substituindo seu pai que falecera recentemente, bateu os olhos no livrinho do seu bisavô, George Meyer, que deixara jogado sobre a mesa de centro da sala. Estava sozinho no grande casarão da família. A mãe, dizendo-se abalada pela morte súbita do marido, decidira se refugiar na casa da família, em Campos do Jordão. As irmãs, àquela hora da noite, deveriam estar em suas respectivas universidades. Evelyn Cristina cursava direito na USP, na São Francisco e Augusta Marta, psicologia na FMU. O jantar foi servido e ele comeu, sozinho, na grande mesa de 12 cadeiras, com a cara enfiada no livro do bisavô. Leu-o inteirinho, novamente. O enredo era incrivelmente premonitório, mas o que mais intrigava a Leo não era nem isso, mas sim a introdução. Nela, George falava do Castelo de sua família, do escritório que montara na torre para escrever em paz e na mulher dos seus sonhos, Susana, que, segundo ele viajava no tempo, aparecendo-lhe em sonhos, para lhe contar fatos da vida no planeta, fatos que ainda estavam por vir. A viajante, explicava George na introdução, era descendente da misteriosa mulher da sociedade local que ela amava torridamente, mas que estava comprometida com outro homem, um noivo muito mais conveniente aos grandes negócios da família dela do que George, um simples industrial, descendente de imigrantes alemães que fizeram fortuna trabalhando com tecidos e, mais tarde, fabricando-os.

Foi então que ocorreu a Leo, procurar pelo antepassado na Internet. Ele lembrou-se que um irmão do seu pai havia construído um site com a história da família. Acontecera mesmo um jantar, que reuniu grande parte de todo o clã, inclusive parentes de fora de São Paulo, para o lançamento do tal site. Leo não aparecera no tal jantar, achava tudo aquilo pouco mais que uma palhaçada, quem se importaria com a história de sua própria família? Agora, porém, arrependia-se. Deveria ter ido. Deveria ter se interessado. Nesse momento, estava completamente fascinado pela história de George, seu bisavô, pelo livro que escrevera, pelo Castelo e também por Susana... a moça que ele encontrara e que, por uma enorme coincidência (mas coincidências não existem, refletia ele) era a cara da mulher da capa do livro e tinha o mesmo nome da heroína do livro de seu bisavô.

Ligou o laptop no escritório e lá estava, a biografia de George Meyer, com os dados que seu tio recolhera da memória da família e da FIESP, já que os Meyer tinham sido grandes industriais da área têxtil no começo e até a metade do século XX, mais precisamente até os primeiros anos da ditadura militar.

De repente, deu de cara com a foto de George Meyer. Um homem elegante e extremamente parecido com ele próprio, Leo. George, no entanto, nascera na Alemanha em 17 de julho de 1882 e viera para o Brasil, com seus pais e irmã, no começo do século XX, onde o patriarca dos Meyer se estabelecera, primeiro como comerciante de tecidos e depois como industrial.

Vinha, em detalhes, a história da Represa do Guarapiranga, inaugurada em 1908 e, depois, a construção do Castelo, numa das margens mais privilegiadas, por sua localização e flora, da represa.

George jamais se casara e morrera muito jovem, com apenas 37 anos, num trágico acidente de automóvel. Era fato conhecido em toda a provinciana cidade de São Paulo, à época, que George e a escritora Carmen Fomm haviam mantido um tórrido romance, à revelia de suas famílias, já que a moça estava prometida a um jovem rebento do prestigiado clã dos Campos Expedito, milionários descendentes de antigos Bandeirantes, legítimos paulistanos quatrocentões. Carmen, porém, só se uniria a Antonio Expedito depois da morte de George. As más línguas locais diziam que o primeiro filho do casal era, na verdade, filho de George e não de Antonio. Nesse caso – concluía Leo, que descendia diretamente de Evelyn, a irmã de George, esse seu tio-avô teria deixado um parente seu, um parente dos Meyer, bastardo, mas carregando o nome dos Campos Expedito.

Hoje, o maior bem dos descendentes dos quatrocentões milionários, era o nome. As gerações que se sucederam nessa família tradicional trataram de ir dissipando todo o imenso patrimônio familiar. Leo nem poderia desconfiar que Susana, a jovem mulher que conhecera no dia anterior, no Castelo, era descendente de Carmem Fomm e de Antonio Campos Expedito. Só quando foi procura-la no Facebook, pelo nome que ela lhe dera, Susana Gaetano, é que viu que ela era filha de Isabel Fomm de Vasconcellos Campos Expedito Gaetano, também escritora como sua xará antepassada, e o pai de Susana, marido de Isabel, era o Professor Mário Gaetano, que dera aulas à Leo na escola de administração da Fundação Getúlio Vargas. E ainda existia quem acreditasse que o mundo não era pequeno!

Leo descobriu ainda que o livro de ficção de George Meyer fôra editado, pelos pais deste, após a sua morte, e seus quinhentos exemplares distribuídos entre familiares e amigos próximos. No entanto – refletia ele – se o filho de Carmen fosse mesmo de George, isso fazia com que ele, Leo, e Susana, fossem afinal, primos de sangue, ainda que distantes.

São Paulo, década de 1920

George comprara um terreno na margem oposta ao Castelo, na Guarapiranga e construíra um bangalô que ficava a cargo de uma família de caseiros, empregados de absoluta confiança da família Meyer e fiéis ao patrãozinho George. Mandara escavar um pequeno canal, profundo o suficiente para fazer passar a quilha de seu barco à vela e também a rabeta do motor de popa do barco que ela mandara fazer para Carmen. O canal, que levava da margem à casa, cercado por densa vegetação e árvores de médio porte, escondia dos curiosos, que porventura navegassem por ali, os barcos ancorados nele.

A propriedade ostentava o romântico nome de Villa Rosa da Manhã e era o refúgio de George e Carmen. Ali, eles se amavam. Ali, ela escreveu alguns de seus mais famosos romances. Ali, era o mundo particular dos dois amantes. Viveram juntos dias e noites de amor, na Villa, por quase uma década. Oficialmente, Carmen era a noiva do poderoso Antonio Campos Expedito e, com ele, comparecia aos muitos eventos sociais obrigatórios para as mais nobres famílias da província. Mas, quando se falava em casamento, Carmen sempre dava um jeito de adiar a cerimônia. Antonio gostava dela e sabia que ela tinha um caso com o alemão da tecelagem. Só não sabia da existência da Villa Rosa da Manhã. Mesmo assim, se casaria com ela. Ela, além de ser a escolhida por sua família, seria a esposa ideal para ele; a mãe ideal para os filhos dele. Pouco importava que ela tivesse suas aventuras. Afinal, ela também as tinha, mantendo inclusive uma jovem amante em uma casinha escondida na cidade de Santo Amaro.

Quando, naquele dia chuvoso, em abril 1919, o carro que George fazia questão de dirigir ele próprio, despencou por um desfiladeiro do Caminho do Mar, a estrada velha de Santos, Antonio estivera pensando em como faria para abrir-se com Carmen e pedir a ela que, afinal, marcasse uma data para o casamento deles, dizendo francamente que ele não se oporia ao romance extraconjugal, que ela poderia manter seu amante.

Então, os jornais da manhã seguinte estampavam a morte do promissor industrial paulistano, de origem germânica.

Carmen se pôs em luto profundo, por dentro e por fora, os olhos secos, a alma em prantos. Como era o mais conveniente, foi ao velório de George no automóvel da família de seu noivo. Evelyn, inconsolável, entendia, porém, a dor de Carmen, pois sabia que a moça o amava tanto quanto ela própria amava seu irmão. Para ambas, era inaceitável que uma alma como a de George se fosse tão cedo embora da Terra.

Depois da missa de sétimo dia de George, Antonio disse francamente à Carmen: -- Seu amor se foi, eu lhe proponho não ocupar o lugar dele, pois sei que você não me ama como eu a amo. Mas eu lhe proponho ser seu companheiro fiel pela vida afora, dar-lhe os filhos que você quiser ter e amá-la, como o próprio George a amaria, pela vida afora.

Comovida, Carmen o aceitou.
Quinze dias depois, aberto o testamento de George, Carmen ficou sabendo que herdara o bangalô da represa e resolveu continuar a fazer dele o seu refúgio literário. Muitas vezes passou fins de semana ali, com Antonio, como antes os passara com George. De fato, o amor e a fidelidade, de Antonio a comoviam. Ficaram mais de 40 anos casados e tiveram 6 filhos. Por fim, Carmen reconhecia que aprenderia a amá-lo, mas quem tinha lhe ensinado a amar... ah, fôra George!

Capítulo 14- Superação

Mário, o pai de Susana, teve alta do hospital cinco dias depois de sofrer o AVC. Contrariando todos os prognósticos médicos, foi de cadeira de rodas apenas até o estacionamento e, para a surpresa de todos os que o cercavam – esposa, cuidadora e a própria Susana – levantou-se e andou até a porta aberta do carro, que o funcionário do estacionamento segurava. Sentou-se no banco do carona, afivelou o cinto de segurança e disse para Isabel, na direção:
-- Toca pra casa, que eu tenho muito trabalho me esperando lá.

Em vão, os médicos tentaram entender o milagre que se operara em Mário. Ele deveria, depois do AVC, enfrentar sérias limitações motoras, mas apresentava apenas um caminhar mais lento, uma certa dificuldade em usar os talheres à mesa, e, uma semana depois, estava de volta às atividades de sua cátedra na FGV. Ainda não conseguia dirigir o seu automóvel, ainda claudicava um pouco no andar, mas a cabeça continuava brilhante como sempre o fôra. Isso era um desafio ao entendimento dos eminentes neurologistas que cuidavam dele. Isabel, porém, sorria de lado, aquele sorriso de quem sabe que a força da alma está acima das limitações do corpo. Afinal, eles eram Rosacruzes...

Assim, Susana sentiu-se livre para marcar um encontro com Leo, no Castelo, no fim de semana seguinte. Pretendiam navegar pela represa, no barco cabinado do pai de Susana, e ir procurar o Bangalô que Leo descobrira ter sido o refúgio de George e Carmen. Não sabiam se ele ainda existia, ou quem seria seu atual proprietário, mas conheciam a sua localização, na margem oposta ao Castelo, exatamente em frente a ele.

Encontram-se no clube na manhã de sábado, muito cedo, e, como o dia prometia ser de sol, a neblina era bastante forte, quase escondendo a torre do Castelo. Começaram, de mãos dadas, a descer a rampa de árvores que levava à praia e, de repente, a neblina pareceu descer, pareceu tornar-se mais densa e Leo exclamou:

-- Susana... o que é isso? Estou vendo árvores de largos troncos a nos cercar, árvores diferentes...

Susana riu:
-- Você está vendo o passado. Antigamente, essa rampa era ladeada por árvores enormes, de largos troncos...

-- Mas..., Mas como posso estar vendo o passado? – perguntou ele, incrédulo.

-- É porque estamos num Portal do Tempo.

-- Você está me gozando...

-- Não. É sério. Aqui onde estamos existe um Portal do Tempo... Eu já viajei por ele e não sei se, nesse momento, faremos a mesma coisa...

Leo estava assustado:
-- Parece que vejo, a cada vez que a neblina se torna mais densa, um corredor de árvores completamente diferentes das que realmente estão aqui... e, de súbito, elas voltam a ser apenas esses pinheirinhos...

-- Sim – respondeu Susana – também estou vendo... É uma oscilação entre o passado e o presente.

-- Não brinque comigo! – disse ele, irritado.

-- Não estou brincando. Esse lugar é mágico e você acabará por entender isso, do alto da sua masculina racionalidade.

Então, como a confirmar a magia, toda a neblina se dissipou e a luz do sol, por um momento, pareceu cegá-los.

-- Nossa, que coisa mais maluca – exclamou ele, olhando nos olhos dela, como quem espera uma explicação.

-- Não me peça explicações – disse ela, lendo-lhe os pensamentos – A única coisa que sei é que aqui, nesse ponto, parece haver uma porta para outros tempos e, às vezes, se consegue enxergar esse lugar como foi em outras épocas...

-- Você já passou por isso antes, então? – perguntou ele.

-- Sim – respondeu Susana – Conversaremos sobre isso depois. Agora temos que nos concentrar em encontrar o bangalô de Carmen e George, se é que ele ainda existe.

Existia.

Navegaram pela margem oposta a do Castelo, lentamente, até que encontraram um canal, muito, muito escondido entre a vegetação. Não tinha mais de 70 m de comprimento. Navegaram, com cuidado, por ele e chegaram em frente à casa de madeira, coberta por hera. Havia um pequeno ancoradouro e eles estavam atracando o barco ali quando um velho senhor se aproximou, abrindo a porta que dava para o pontão. Na porta, uma plaquinha de madeira, pirogravada com os dizeres “Villa Rosa da Manhã”. O velho tinha longos cabelos brancos, nenhum dente na boca e disse, com um sorriso gengival:
-- Finalmente os senhores voltaram! Agora sim, poderei descansar! Benvindos ao lar, senhor George, senhorita Carmen.

Susana e Leo desceram do barco e, seguindo o velho, se aproximaram da entrada da casa. Entraram. Um hall, de piso de pedras, cujas paredes reproduziam vários arco-íris, que eles logo perceberam ser a projeção de um prisma de cristal, pendurado junto a uma das janelas. O velho desaparecera. Exploraram a casa, havia uma cozinha, com fogão à lenha, um banheiro, de piso de mármore e enorme banheira, dois grandes quartos, com janelas para o jardim e para a represa, tudo impecavelmente limpo e brilhante. Procuraram pelo velho, para perguntar o que lhes ocorria: quem vivia ali agora, a quem pertencia aquela propriedade? Mas o velho desaparecera. Num dos cômodos, havia uma escrivaninha com uma antiga máquina de escrever. Noutro, uma luneta. Ficaram vagando pela casa, encantados, e ainda querendo perguntar tantas coisas... Uma luz enviesada, como se fosse um sol de abril, de outono, banhava o ambiente.

O sol não deveria estar ali – pensou Susana – estamos no verão... Imediatamente um brilho, reflexo da luz do sol, atingiu-lhe os olhos. Era o trinco de uma gaveta. Susana caminhou até o móvel, um aparador, e, sem pensar, abriu a gaveta. Lá dentro, impecável, um calhamaço de folhas datilografadas. Susana leu: Um Modo Esotérico de Vida, por George Meyer e Carmen Fomm.
-- George! – exclamou ela e logo se corrigiu: -- Leo! Veja o que encontrei...

Leo tomou-lhe da mão aquilo que agora sabiam ser os originais de um livro, talvez nunca levado a público.

-- Isso não pode ser antigo, Susana. É alguma brincadeira. Veja, as folhas estão impecáveis, branquinhas, parece ter sido escrito ontem e guardado aqui.

Susana deu um suspiro profundo:
-- Somos nós que estamos no passado, Leo. Talvez cem, cento e dez anos para trás no Tempo. Lembra-se que passamos por uma névoa muito espessa antes de encontrarmos a casa?

-- Isso simplesmente não é possível! – respondeu ele, mas já acreditando que poderia ser. E continuou – Veja nosso barco lá fora... é a prova de que não viajamos no tempo, como você está supondo... Uma poderosa embarcação moderna como essa não existia...

-- Nós também não existíamos nesse tempo em que estamos, George... Leo!

-- Por que está me chamando de George, Susana? Sua voz até parece outra quando você diz o nome dele, do meu tio bisavô, ou sei lá que grau de parentesco temos de fato!

-- Olhe – disse ela – George e Carmen eram intelectualizados, bem informados, em algum lugar, nessa casa, deve haver um jornal, uma publicação qualquer que tenha a data do dia, ou do mês, alguma revista...
Correram os olhos pelo cômodo. Nada. Mas, na cozinha, jogado sobre uma das cadeiras da pequena mesa que havia no canto, sob a janela, estava um jornal. Era O Estado de São Paulo, estalando de novo, com a tinta ainda soltando nos dedos, quando o pegaram, datado de 10 de abril de 1919. Dobrado e aberto na página dos obituários.

-- George morreu hoje – disse, pensativa, Suzana.

-- Ontem – corrigiu-a Leo – Esse jornal tem que ser, no mínimo, de um dia antes daquele em que estamos.

-- Venha – respondeu ela – Vamos embora. Já fizemos o que tínhamos que fazer aqui.

Antes de sair, porém, Susana percorreu novamente a casa, fotografando todos os cômodos, a paisagem, o jardim, os móveis... tudo, enfim,
com seu celular.

Quando derem ré pelo canal, perceberam que o mesmo se fechava e, quando o barco atingiu a margem, viram que não havia canal algum, que, ali, naquele local, existia apenas uma casa moderna, de largas janelas, onde se via uma placa com os dizeres: Windsurf Classes.

No banco de couro, entre Leo e Susana, que estava ao leme, o jornal e o manuscrito lentamente se amarelavam, mas lá estavam as fotos que haviam feito da casa, uma casa que não existia mais havia muito, muito tempo.

-- Vamos à torre do Castelo – disse Leo. – Pedimos para servir um café da manhã lá, para nós, naquela pequena mesa e, ali mesmo, vamos ler juntos esse manuscrito.

-- Você acredita agora, então?

-- Sim – respondeu ele – Acho que acredito pois não consigo – por mais que tente – imaginar como tudo isso poderia ser um truque, uma brincadeira, um cenário ou uma projeção virtual...

Susana riu, quase gargalhou:
-- Também pensei, da primeira vez, que alguém tivesse me colocado um par de óculos virtuais, sem que eu me desse conta.

-- Primeira vez? – fez ele, intrigado.

-- Sim, já me aconteceu, aqui, antes. Aliás, no mesmo dia em que nos conhecemos.

-- Me conte! – ordenou ele, em tom autoritário.

-- Agora não – riu ela, já atracando o barco no pontão do clube – Agora vamos pedir ao filho do Rodrigues que leve uma cesta de café para nós lá na torre e vamos ler esse manuscrito, e fotografá-lo, antes que ele se desfaça.

-- Incrível! – exclamou Leo – Os papeis estão ficando cada vez mais amarelos... deve ser algum tratamento químico – disse ele, ainda supondo novamente que tudo aquilo fosse uma grande armação moderna.

-- É o tratamento químico do Tempo – riu Suzana.

-- Quem é o filho do Rodrigues? Quem é Rodrigues? Esse “filho do Rodrigues” não tem nome?

-- É o concessionário do bar da náutica. Minha mãe, Isabel ou Bebel, como era conhecida por aqui, cresceu no Castelo. Ela conta que era tudo ainda bem primitivo. Na praia, os barcos ficavam guardados em improvisados barracões de madeira, não nesse lugar onde está hoje a casa de barcos, mas ali quase no centro da praia, na ponta da península e trinta metros à esquerda, para quem desce, da rampa, no gramado, havia um enorme quiosque e era ali que o Rodrigues trabalhava, já como concessionário do bar da náutica. Minha mãe foi se afeiçoando a ele. Hipólito Frutuoso Rodrigues, era o nome dele. Mais tarde, quando foi construído o salão de festas que até hoje é também restaurante, o Rodrigues e seu irmão ganharam a concessão do negócio. Mais tarde ainda, uns vinte anos depois, com a nova náutica e a construção de um restaurante só para esse setor, Rodrigues passou a explorar apenas o bar e o restaurante da náutica. Eu o conheci nesse época e ele me contou que minha mãe tomou sua primeira caipirinha, pelas mãos dele, aos 13 anos de idade... em 1964, portanto.

Leo riu:
-- Bons tempos, politicamente incorretos! Imagine, se fosse hoje, se ele servisse uma caipirinha a uma menina de 13 anos, seria preso ou, pior, linchado!

-- A diferença – afirmou Susana – é que, em 1964, minha mãe e as outras moças de sua geração, aos 13 anos já eram adultas, eram moças feitas e não meninas tolas, como as de hoje.

Subitamente, Leo perguntou:
-- Você tem filhos, Susana?

-- Não. Nem pretendo tê-los. Como minha mãe. Ela não esconde que eu fui apenas um acidente na vida dela, sou filha única e quase fui abortada – e riu... – Minha mãe sempre disse que não desejava ser definida pela maternidade. Ela acredita que nem todas as mulheres trazem em si, além dos aparelhos físicos para tal, a vocação para a maternidade. Sou uma dessas mulheres.

-- Já foi casada? Ou ainda é? – perguntou ele.

-- Não, nunca. E você?

-- Tenho uma filha de 13 anos, que vive com a mãe, da qual me separei há
bastante tempo. Mas a minha filha não toma caipirinha... Pelo menos, não ainda.

E riram.

Capítulo 15 –

1919, Fantasmas do Futuro

Carmen jogou o jornal sobre a cadeira ao seu lado. Acabara de tomar o café da manhã, como tantas vezes fizera ali, no bangalô, com George e agora... ele se fôra para sempre. Isso era alguma coisa muito difícil de se acreditar, mas o exemplar de O Estado de São Paulo, que ela acabara de jogar na cadeira, trazia um longo obituário do importante industrial George Meyer.
Como agora viver sem ele? Desde o dia em que o conhecera – 10 de janeiro de 1910, jamais se esqueceria – naquele chá no Castelo, Carmen o amara. Jamais poderia imaginar que ele viveria apenas mais 10 anos... 10 anos, meu Deus, é pouco tempo... Algumas parcas lágrimas rolaram-lhe pelas faces e turvaram-lhe a visão. Ainda não conseguira sequer chorar. De repente, imaginou ver, entre o desfoque causado pelas lágrimas, duas pessoas ali com ela, andando pela cozinha. Enxugou as lágrimas, mas continuava a vê-los como num véu de neblina... Eram eles – reconheceu – eram os seres do futuro, dos quais George tanto lhe falara. A mulher, Susana, que seria sua descendente e que viera de 2019 e aparecera para George, segundo ele próprio contava, em 1910. O homem ela não sabia quem era, mas evidentemente, só poderia ser um neto de George: era igualzinho a ele! Tentou chamá-los, mas eles não a estavam vendo. Carmen delirou: aquela coisa com a qual a moça – certamente era Susana--parecia fotografar o ambiente só podia ser o tal do celular, que George tantas vezes descreva e tentara fazer com que Carmen compreendesse o que era. Agora, Carmen se arrepende de, frequentemente, ter duvidado dele. Ele contara a ela aquelas duas semanas, que na verdade, segundo ele, eram um “lapso” no tempo, em que convivera com Susana, a bisneta de Carmen que viera do ano de 2019.

Carmen, porém, acreditara sem nunca acreditar completamente, até ter aquela visão de um casal, exatamente igual a eles, Carmen e George, com roupas estranhas e aquele retângulo luminoso que George explicara a ela ser a tela do artefato chamado celular. No entanto, refletia Carmen, por que não estava conseguindo se comunicar com aqueles seres que ela via claramente e reconhecia como sendo do futuro? George se comunicara, segundo ele, sem problemas, com Susana. Então, de repente ela percebeu que deveria haver vários níveis no compartilhamento dos tempos. E que, talvez, a escolha desses níveis se desse pelo grau de envolvimento das pessoas com o ambiente, os protagonistas, o cenário... Carmen acreditara na aventura atemporal de George, mas não acreditara totalmente. Agora estava tendo a prova, um dia depois da morte de George, de que ele dissera a verdade. De fato, ela nada teria a dizer ao casal do futuro, que via como sombras transparentes, como fantasmas, a circular pela cozinha de seu bangalô. Por isso, por não ter nada a dizer a eles, não podia se comunicar. Compreendeu, de repente, que aquela linha imaginária que passava pela rampa de árvores do Castelo e estendia-se além, passando também pelo bangalô, era de fato um portal do tempo. George não mentira..., No entanto, Carmen era um espírito prático, nada romântica, bastante racional e acreditava que viver num único tempo – esse – já era trabalhoso o suficiente para que se tentasse entender outras épocas. Para ela, 1919 já era de bom tamanho, 2019 que esperasse—talvez, julgava ela – por uma das suas próximas encarnações. Por isso, levantou-se e, ignorando aqueles fantasmas do futuro, foi-se para a máquina de escrever, onde um dos seus livros a esperava, largando sobre a cadeira o jornal que trazia o obituário de George.

Capítulo 16 - Tempo Não Linear

-- Você entende agora que estivemos no passado? – perguntou Susana à Leo, quando se sentaram à pequena mesa da torre do Castelo, com os papéis que haviam trazido do passado, cada vez mais, se amarelando.

-- Você acha que perderemos esse manuscrito? – perguntou Leo.

-- Há papéis bem mais antigos, preservados em inúmeras bibliotecas e museus, pelo mundo – respondeu Susana, já rindo – Provavelmente esse aqui continuará amarelando até atingir a cor de um documento com 100 anos de idade.

Mas Leo já começara a fotografar todas as páginas, e, enquanto o fazia, batia os olhos nesse ou naquele parágrafo. O livro, basicamente, parecia falar sobre a força do pensamento humano, julgando-o capaz de transformar a realidade, principalmente quando muitas mentes se unem por um mesmo propósito. De repente, topou com um capítulo, deu um grito:
-- Susana, veja isso!

Ela, que estava ajeitando a cesta de café na pequena mesa que havia ali, deu um pulo, assustada:
-- O que foi, meu Deus?

Lá estava o capítulo 6 – “Tempo e Espaço São Ilusões” – começaram a ler juntos. Os autores afirmavam que a mente poderia se deslocar através do tempo e também do espaço. Que, da mesma forma como, nos sonhos, se vive outra realidade, seria possível para a mente humana transportar-se não só para outros lugares no Universo, como também para outros tempos, passados ou futuros. Afirmavam ainda que essas viagens no tempo se davam como um looping, uma linha que saía de um ponto no presente e traçava um círculo até se fechar no mesmo ponto de onde partira. Ou seja, esse círculo, onde uma mente se projetava em outro tempo, era a criação de uma nova realidade e todas as mentes que vivessem essa realidade fora do tempo comum, linear, voltariam exatamente para o mesmo ponto do tempo linear de onde tinham partido, não importando se esse “círculo” demorasse dias, horas ou anos para se fechar. Algumas pessoas se lembrariam muito bem dessa viagem no tempo. Outras, pensariam ter sonhado e se lembrariam vagamente.

-- Sim...—murmurou Susana – Foi assim mesmo que aconteceu comigo.

-- Bem, --disse Leo, já irritado – você vai me contar, ou não vai, essa sua viagem no tempo?

-- Foi no dia em que eu te conheci. Eu estava descendo a rampa de pinheiros pensando naquela outra rampa, de eucaliptos, que estavam ali, no lugar dos pinheiros, vinte anos atrás e então, mais ou menos como aconteceu hoje de manhã conosco, uma nevoa envolveu todo o ambiente e, quando se dissipou, eu estava em 1910, na rampa de enormes eucaliptos... Fiquei 15 dias em 1910 e voltei para 2019 no exato instante em que partira. Aí você estava ao meu lado. Aqueles 15 dias simplesmente não existiram, mas eu os vivi. Só não podia imaginar que tinha sido a mesma coisa para George. Quando eu cheguei a 1910 era George, o seu avô, quem estava a meu lado. Mas, pelo o que ele está afirmando nesse manuscrito, de alguma maneira ele também voltou, no tempo, para o dia 10 de janeiro de 1910, o dia em que eu cheguei do futuro. É muito maluco isso. Isso supõe que, em muitos de nossos sonhos, nós realmente tenhamos nos deslocado no tempo e/ou no espaço...

O sol já estava começando a avermelhar as águas da represa quando Susana terminou a narrativa, sempre respondendo às perguntas de Leo que, como qualquer pessoa, com exceção da própria mãe de Susana, hesitava em acreditar em tudo que ela contava. Primeiro pensou que estava diante de algum tipo de transtorno de personalidade, que Susana seria alguém que criava fantasias e passava a acreditar nelas. No entanto, a riqueza de detalhes, a incrível coincidência do nome dela com a heroína do livro, a semelhança física da mulher, na capa do livro, com ela e ainda certos fatos da própria família dele – a viagem dos pais de George e Evelyn à Europa, o começo da exportação de algodão que dera novo folego à tecelagem da família – tudo isso ele sabia porque eram histórias que seus pais sempre contavam à mesa de jantar. Mas não estavam em nenhum livro, nem mesmo no livrinho de seu avô... Como ela poderia saber de tudo, com tantos detalhes? Muitas das coisas que ela descrevia do próprio Castelo eram as mesmas coisas que o avô de Leo, que passara a infância naquele Castelo da família, descrevia. A adega, a sala de vidro, os móveis replicados de filmes alemães... Como ela poderia saber disso? – ele se perguntava... E, mesmo que tivesse algum tipo de acesso a toda aquela informação, por que inventaria essa viagem no tempo? A experiência que tiveram eles dois, Leo e Susana, naquela manhã, naquele bangalô que de repente não estava mais onde estivera minutos antes... Aquilo fôra uma viagem no tempo, ele próprio sabia que era alguma coisa muito difícil de se forjar... E quem forjaria tudo aquilo? E por que? Não fazia sentido. A única coisa que fazia sentido era acreditar.

Quando terminou de contar, Susana tinha lágrimas nos olhos. Leo a abraçou e disse:
-- Venha, minha amada, vamos descer e almoçar, ainda devem estar servindo no restaurante e, além da fome, estou sentindo também muitos, muitos ciúmes do meu avô... É a ele que você ama, mas eu, como ele, também estou ficando apaixonado por você.

Susana olhou bem dentro dos olhos dele e queria dizer: “Você é ele, em outro tempo” – mas, com toda a força do seu coração, sabia que ele estava certo, era a George que ela amava, um homem que morrera há cem anos passados. Então desabou no abraço dele e chorou, chorou perdidamente.


CONTINUA...

em breve: Capítulo 17 –

Um Modo Esotérico de Vida