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TEATRO DO COTIDIANO  Jornal O Diário Popular - (algumas) Crônicas de Isabel Fomm de Vasconcellos

                              publicadas de 1977 à 1984

Índice

1. 1983 10 02 - Mais Uma Espécie em...

2. 1977 10 23 - Em Branco

3. 1982 10 31 - Transferências

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1983, Outubro, 02

 

1983 , outubro 02

Mais uma espécie em extinção
(Nesse caso, porém, graças a Deus!)

Esses homens — essa paródia de homem — esses que vivem em função do dinheiro, atrás do poder, essas aberrações da natureza, a eles devemos tolerá-los com paciência e compreensão. O mesmo se estende a todo o séquito de imbecis menores que lambem as botas dos imbecis maiores. Devemos ser tolerantes para com eles. E compreender a necessidade de sua existência assim como podemos compreender a necessidade do macaco ou do homo abilis na escala evolutiva.

Dentro da loucura que significa passar, em pouco mais de um século, da tração animal ao componente eletrônico que leva e traz um pouco do Cosmos, à era do computador e da nave interestelar, é possível compreender a perplexidade do homem. Diante do que ele mesmo cria.

É possível compreender a corrida desenfreada por um poder que, de repente, será subitamente revelado e poderá não estar na "sua" mão. É a máquina. É a ciência deste século que criará um homem melhor.

Não me parece ilógico que, para chegar a esse hipotético homem que construirá um hipotético mundo melhor, tivéssemos realmente que passar pelo homem mercenário, obcecado pelo poder. Mas é o filho desse homem quem vai ajudar a destruir uma mentalidade retrógrada. Essa, que vê na vida apenas um eterno jogo, um palco para um contexto sem sentido, uma busca idiota desse poder que é, na verdade, um poder menor. Extremamente frágil. Inseguro e gerador de úlceras, infartos e dos mais variados tipos de câncer.

As crianças da era da máquina terão, certamente, um cérebro adaptado a outras funções. Reaprenderão o diálogo com tudo o que está vivo. A máquina, a convivência com a dinâmica moderna da comunicação, liberará os cérebros. A criança da era da eletrônica será mais poeta, mais artista. Por isso, tenhamos paciência com os inescrupulosos idiotas. Atenção, porém, para eles, quando manejam armas atômicas, por exemplo. Ou manobram a vida e o destino de milhões de outros homens.

Sejamos pacientes, afinal: vamos enforcá-los lentamente. Eles já são uma espécie em extinção como um dia o foram os homens de cro- Magnon.

 

 

 

 

 

 

 

 

1977, outubro, 23

Em branco
 

Estava incrivelmente distraído naquele fim de dia. Dia besta, igual a ,todos os outros dias. Estava tão distraído que nem olhou para o carro parando junto ao seu, balbúrdia da estação.

 

Tivesse reparado, a teria visto.

 

Desceu o poço escuro em direção ao trem. Quase esbarrou nela quando colocou o bilhete para passar pelo bloqueio. Enfiou a cara no jornal e ela não o percebeu na mesma composição. Saiu depressa. Muita gente. O subterrâneo sufocava. Ajudou com os músculos o trabalho da escada rolante, saltando degraus, como se tivesse pressa, como se alguém o esperasse. Besteira. Não havia nada, ninguém. Mania mesmo, de andar apressado. O tempo, devagar. Fôra ao centro da cidade apenas para se enfiar num cinema, pro tempo passar. Dia besta. Tudo sempre tão igual.

 

Atravessava a avenida quando ela o avistou.

 

O sinal fechado impediu-a de, ao menos, tentar gritar-lhe o nome. Ele... Ah... Seria inútil gritar. A rua cheia de gente. Ela nem mais lembrava o nome dele... Ficou ali, vendo sem ver, o vulto dele sumindo, fugindo, misturando-se à massa, cabeças, pernas, bolsos. Ficou ali, os braços desajeitados, pesando nos ombros, compridos e inúteis braços. Ficou. O coração querendo sair, espalhar-se pela avenida, na repentina avalanche de recordações. Os olhos querendo detê-lo.

 

Ele seguia, rumo à escuridão, outra vez perdido dentro da escuridão da cidade, escuridão dos dias bestas, sempre iguais.

 

Estava incrivelmente distraído naquele fim de dia. Estava tão distraído que, ao entrar no cinema, não reparou nos pensamentos dela tentando alcançá-lo.

 

Não viu.

 

Não viu a tarde desabando em súbitos azuis e lilases e os sinos repicando e as bruxas cruzando o céu. Não viu dos muros crescerem as ervas, a terra de leve rachando sob o asfalto escaldante. Dia besta, pensou, sem ver que dos olhos dela o amor saía lentamente furando o trânsito congestionado.

 

Estava incrivelmente distraído naquele fim de dia. Caminhou pela escuridão, seguindo o rumo dos luminosos fantasmas da tela.

 

 

 

 

 

 

1982 10 31
Transferências

De repente, apareceu no meio do meu dia, urna borboleta -- disse o homem -- uma borboletazinha de três cores, chatinha, voando sempre em torno de mim. E tanto a danada voou e voou e dava de aparecer nas horas mais impossíveis, no meio de uma reunião, na sala de jantar, entre as páginas do meu livro, dentro do meu carro... E tanto apareceu, e tanto voou que eu acabei aprendendo a conversar com ela. Percebo as linhas que traça em seu vôo. Entendo-lhe os sinais. Decifro-lhe os símbolos. E vejo se lhe se confundirem as cores, as tímidas três cores, quando ela rodopia. E, na sua linguagem de símbolo e dança, ela me conta histórias de mim, que eu já esquecera por cansaço. Ou teimosia.

Ela é uma bruxa. Trouxe o polén das flores da memória e depositou-o em minha pele e fui fecundado pela magia dos pensamentos. O mundo cotidiano, o trabalho, tudo ficou choco. E me senti muito velho, apenas um homem e um remo num lago num jardim.

Foi então que percebi: estava vendo o mundo de outra forma, com novos olhos. E fiquei jovem outra vez. Só me falta descobrir como transformar essa bruxinha em gente.

E, enquanto leio antigas obras de ocultismo, magia negra, velhos textos de alquimia, até em sânscrito já estou lendo e, enquanto pesquiso de Walt Disney aos trombriandeses, ela simplesmente voa ao meu lado, gozadora, esperando... o que? Que eu a desencante com um beijo? Ora, sela fosse uma rã já seria bem difícil. Agora me diga, meu amigo, como é que se faz pra beijar borboletas? Ainda mais
borboletas como essa. Borboletas loucas, doidinhas de grade, borboletas rodopiantes, saltitantes? Ela está aqui ao meu lado, agora, voando ao redor do meu copo. Sim, __eu sei que você não a vê, não consegue vê-la. É outra de suas bruxices. (ela só faz bruxices, nunca bruxarias): tornar- se invisível para que as pessoas pensam que eu sou louco, que ela não existe, Porém isso foi uma das coisas que realmente aprendi nos últimos tempos, isto é, depois que ela apareceu: não me importa mais o que pensam os outros. Já não são mais o Inferno.

O que eu quero e preciso agora é desencantar essa bruxinha de três infinitas cores. Quero descobrir sua forma humana. Depois, certamente, ela irá bruxulear em outro careta, pra mostrar-lhe outro mundo. Não terei ciúmes. Afinal, é apenas uma borboleta.

E, depois disso, o homem levantou e se foi, perguntando por aí, a todo mundo, quem ouvira falar em lenda ou conto de fada que contasse, à semelhança do sapo que virou príncipe, alguma história de borboletinhas que viravam bruxas.

Mas essa história parece ter tido um happy end. Pois eu vi esse homem, dia desses, num engarrafamento de trânsito. Estava muito bem, jovem, com os olhos brilhando e tinha, junto dele, uma mulher morena, de olhos amendoados. Agora sou eu quem anda por aí olhando ao redor, atento ao menor sinal, ao menor indicio de um bater de asas de borboleta.