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(Leonid Afremov, Hard Rain)

 

 

God Save the Trees

por Isabel Fomm de Vasconcellos

 

Enchentes na cidade de São Paulo não são nada de novo, acontecem hoje, aconteciam no começo do século passado e, muito provavelmente, continuarão a acontecer.

Em 1978 e em 1980, escrevi, numa coluna semanal que eu tinha no jornal O Diário Popular (então um dos três maiores jornais da nossa metrópole), crônicas sobre enchentes assustadoras, de proporções que me pareciam inaceitáveis para uma capital tão produtiva como a nossa e que não deveria ter seu ritmo perturbado por acontecimentos passíveis de prevenção e/ou controle.

Foi apenas quase duas décadas depois que o então prefeito da cidade, Paulo Maluf, começou as obras do primeiro “piscinão” – hoje existem 32, insuficientes como se viu nesse 10 de fevereiro, que são considerados pelo Prof. Engenheiro Júlio Cerqueira Cesar Neto, como “mitos” – caros, complicados, exigindo desapropriações e ocupação de um subsolo já bastante lotado na cidade – é a opinião dele.

São Paulo precisa de mais árvores e mais cuidado com elas, para que não caíam, às centenas, na primeira tempestade de verão. Por que será que elas não caem com as chuvas nas matas? As árvores de São Paulo caem porque são maltratadas. Muitas têm pragas e consequente corrosão nos

troncos e galhos. Outras são mutiladas por funcionários de dezenas de companhias que precisam passar seus milhares de cabos antiestéticos pelos postes das ruas e, consequentemente, entre os galhos das árvores. Podadas sem qualquer técnica, elas se desequilibram, um vento mais forte as derruba.

Sonho com a ocupação do subsolo, não pelos piscinões, mas sim pelos cabos, como é aqui na Paulista. Nada de milhares de cabos se amontoando e enfeiando as ruas, pelos postes. Há dez anos fui parada por um repórter de TV que perguntava aos transeuntes se deveríamos enterrar os cabos.
-- É claro – respondi.
E ele:
-- Mas levaria 10 anos.
E eu: --
E daí? Se começarmos agora, daqui a 10 anos estará pronto.
Ninguém começou, porque nenhum prefeito colherá os louros de uma batalha que só será vencida dali a uma década.

Sonho com a ocupação de todas as calçadas da cidade por árvores e mais árvores. Sonho com grandes condomínios que, além de grandes casas e/ou grandes prédios tenham também grandes árvores.
Isaac Asimov, um dos mestres da literatura de ficção científica, certa vez esteve numa feira de inventores nos EUA e viu um sujeito que criara uma máquina de despoluir o ar. O escritor disse a ele:
-- Ué! Pra que isso? Já temos as árvores.
Árvores são máquinas de despoluir o ar. Árvores são refrescantes e combatem o calor excessivo, assim como seguram parte da chuva em seus galhos e folhas.

Nosso prefeito, Bruno Covas, disse ontem em coletiva de imprensa: as medidas preventivas que a administração municipal vem adotando, como o maior cuidado com as árvores e a limpeza dos piscinões, evitaram que a tragédia fosse ainda maior.

Vivemos, esse 10 de fevereiro, sob a mais forte chuva registrada, nesse mês, em 37 anos. Foi exatamente nos anos 1980 que escrevi a minhas indignadas crônicas sobre a cidade espetacular, progressista, trabalhadora, que parava por causa da água que o céu nos mandava.
Não pensei que, quatro décadas depois, ainda estaria escrevendo a mesma coisa, com a mesma indignação.

Colégios sem aula, rodízio suspenso, mercadorias e alimentos perdidos em feiras, casas, centrais de abastecimento. Um homem de 33 anos, morto, arrastado pela enxurrada. Horas e horas estancadas no trânsito. Transporte coletivo caótico, trens imobilizados. Famílias perdendo bens, móveis, roupas, eletrodomésticos e o grande saldo da sujeira, sujeira nas ruas, nas casas, nas lojas, nas praças, em todo o lugar.
Assim como precisamos de árvores, precisamos de educação, cidadania, espírito de coletividade. Somos todos interdependentes, não apenas uns dos outros, mas de toda a Mãe Natureza. Somos irmãos de tudo o que está vivo sobre o planeta.

Infelizmente, a maioria não se dá conta disso. Uns poucos é que têm que lutar com afinco para impedir que esse Aquecimento Global prossiga matando flora, fauna e humanos também.

A elevação do nível dos oceanos mostra sua cara no enorme iceberg – do tamanho da cidade de São Paulo, 1500 km2 – que se desprendeu e vem flutuando à solta pelo mar e mostra sua cara nas casas à beira mar, que desabam, porque a praia sumiu, coberta pela água que subiu seu nível, no nordeste brasileiro. Em Berlim, 2019 não teve neve e a temperatura ficou apenas 2 graus abaixo de zero. Em Paris e Roma, nos últimos verões, os europeus – que outrora viajavam aos países tropicais para saber o que é calor – derretem sob condições meteorológicas antes impensáveis para essas cidades, beirando os 40 graus à sombra em verões escaldantes.

Tempestades, terremotos, tsunamis, ciclones, furacões, tornados, cada vez mais fortes e frequentes são anunciados pela maior parte da mídia mundial como “desastres naturais” coisa que já foram um dia. Hoje não são mais. Hoje são desastres artificialmente incrementados pela ação humana sobre o planeta, pela destruição do verde, pela poluição do ar, pelo desmatamento constante e mercenário.

Sou apenas uma jardineira de apartamento, em constante comunhão com a Natureza, através das minhas humildes plantinhas.

Mas a menina Greta fala por mim, fala por muitos.

Quando nossos descendentes perceberem que o tal do progresso transformou a terra em um lugar inabitável, talvez ainda haja uma chance de retroceder e de reconquistar o respeito que devemos à toda a vida que aqui, conosco, habita.

Deus salve as árvores.
Isabel Fomm 2020 02 11