voltar para a página inicial do Portal    voltar para a página de textos Isabel  voltar para a página do livro

 

(Algacyr da Rocha Pereira, Catedral de Santo Amaro)

 

 

(Algacyr da Rocha Pereira, Santo Amaro em bico de pena)

 

(Isabel com a família Donadio: Orlando Filho e sua gêmea, Vera, os filhos da Vera -- Daniel e Lucas, com a namorada) e Orlando, do alto dos seus 98 anos de idade)

 

 

NOITE DE AUTÓGRAFOS - Sucesso e casa lotada!! Cervejaria S.Francisco, em Santo Amaro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Carnaval em Santo Amaro, anos 1940

 

 

Orlando na II Guerra

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Orlando, Santo Amaro e a Guerra (Trecho)

por Isabel Fomm de Vasconcellos e Orlando Donadio

 

Capítulo 5 – O Escudo da Alegria

Afinal, ficaram sabendo que desembarcariam na Itália. Mais precisamente, no porto de Nápoles. Naquele momento, uma cidade em parte ocupada pelos alemães, em parte pelas forças aliadas e que pareceu, aos homens, ao avista-la ainda do mar, muito destruída.

Berço dos papas Bonifácio V. Urbano VI, Bonifácio IX, Paulo IV e Inocêncio XII, Nápoles já fôra, na história, palco de inúmeras batalhas e já sofrera com dominações diversas, ao longo de séculos. Conquistada pelos romanos em 327 AC., no século VI estava sob o domínio bizantino, no século VII era um ducado independente quando, em 1139 passou a pertencer ao Reino as Sicília e teve sua universidade fundada em 1224. Em 1504, foi conquistada pelos reis católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, na verdade um reconquista para Aragão, sob o domínio de quem permaneceu até 1714. No século XIX se tornou independente e foi, afinal, anexada ao Reino da Itália, em 1861.
Menos de um século depois, era palco, outra vez, de guerra.
Fôra dali, de Nápoles, que saíra seu pai, Caetano Donadio, no ano de 1900, com apenas 14 anos de idade, para tentar a sorte no Brasil.

No entanto, ainda não seria ali que os brasileiros lutariam.
Ficaram um dia inteiro no porto de Nápoles. A comida, no navio, já acabara. Bolachas e chocolates, de quem tinha a sorte de os ter, resolviam a fome de alguns.

Depois, foram embarcados em barcaças malcheirosas, fedendo à óleo cru. Marinheiros americanos deram a eles algumas latas de comida. Mas antes não as tivessem dado. O mar era tão crespo, as barcaças jogavam tanto, que todos passavam mal. Para ir ao banheiro, tinham que esperar o momento em que as ondas não entravam na barca, para poder passar, sem ser derrubado pela força das águas. Foram 36 horas de absoluto martírio até chegarem a Livorno.

Atracaram no Porto Médici. Orlando olhava curioso para aquela arquitetura tão diferente, fortalezas, muralhas, a cidade toda cortada por canais e ruas que formavam verdadeiros labirintos.

Livorno é uma cidade que foi planejada, no século XVI, pelo arquiteto Bernardo Buontalenti e se expandiu rapidamente, tendo seu auge de crescimento quando foi decretada, na década de 1580, por Fernando de Médici, porto livre, ou seja, sem impostos, favorecendo as trocas comerciais internacionais. Em 1868 a cidade tornou-se parte do novo Reino de Itália e perdeu seu estatuto de porto livre (Porto Franco), perdendo assim parte de sua importância.

Orlando, porém, mal teve tempo de apreciar a cidade. Saíram do porto em caminhões, em meio à muita chuva e muita lama e foram levados à Pisa, onde seria o seu primeiro acampamento.

Para a maioria de seus companheiros de tropa, Pisa nada mais era do que a famosa torre inclinada, uma das principais atrações turísticas da Itália, comentada em quase todo o mundo. A torre, de pouco mais de 55 m de altura, começara a inclinar logo após a sua construção, em 1173. Ao saber disso, Orlando pensou em quanto o seu país era jovem, ainda não tinha 500 anos de história e ele, agora, ali, no Velho Mundo, onde o passado impunha sua presença a cada passo.

Em Pisa, muita coisa mudou. Se, no Rio de Janeiro, os oficiais eram de brutal arrogância, tratando os praças quase que como escravos, ali se tornaram subitamente gentis. Era o comando americano em ação. Quando chegaram cada soldado tinha meia barraca e todos estavam passando frio. Mas logo os americanos lhes deram roupas muito mais adequadas, ceroulas e luvas de lã, também luvas de couro e capotes, botas... além de fornecerem ótimas refeições e dois maços de cigarros por dia. Era um paraíso. Agora dormiam em confortáveis barracas para 10 ou 12 homens e os dias eram de treinamento de tiro.

Chegou, afinal, a hora de partir para o front. O tenente Miranda que liderava a tropa da qual Orlando fazia parte, perdeu o rumo e de repente os homens se viram entrando na pequena aldeia de Cascina.

-- Acho que não deveríamos estar aqui – murmurou entredentes Orlando, ao companheiro que marchava ao seu lado.

Mal acabara de falar e uma chuva de flores e aplausos os atingiu.
Era o povo local, agradecendo e creditando aos brasileiros, a retirada das tropas alemãs que haviam partido havia poucas horas.

Sem saber bem se a recepção calorosa os alegrava ou envergonhava, trataram de seguir viagem, depois que o tenente achou seu rumo no mapa, para Riola Di Vergato, outra pequena cidade localizada nos Apeninos, onde chegaram depois de algumas longas horas de marcha por entre as montanhas.

Ali ao lado, fica a cidade de Grizanda Morandi, onde, em 1850, o médico, político e escritor italiano, o Conde Cesare Mattei construiu uma enorme fortificação, um castelo com pórticos que lembram a arquitetura russa, misturando os estilos mourisco e medieval: o castelo Rochetta Mattei. Antes do Conde Cesare, já havia ali um castelo medieval que serviu a diversos senhores. Agora, porém, a imponente construção, dava abrigo ao comando das tropas da FEB e alguns batalhões de americanos, que a encontraram já bastante danificada pela presença anterior, e recente então, das tropas alemãs.

Orlando pertencia o grupo de Topografia. Eram apenas sete homens: um tenente, dois sargentos e quatro soldados. Seu grupo foi instalado, não no Castelo, mas numa casa de campo, bastante ampla e bonita, cuja família, ante a ameaça alemã, se mudara para a adega, no subsolo, onde a temperatura ambiente beirava os 15ºC negativos.

A FEB estava unida, então, às tropas do 5º Exército dos Estados Unidos, comandado pelo General Mark Clark, e que, por sua vez, integrava o 10º Grupo de Exércitos Aliados. Naquele momento, sua missão ali era impedir o deslocamento das tropas alemãs para a França e, para isso, era preciso manter a pressão sobre o exército alemão. O segundo escalão da FEB, onde estava Orlando fazia parte do 3º Grupo de Artilharia, comandado pelo Tenente Coronel José de Souza Carvalho.

Mussolini, o ditador italiano, fôra deposto em 25 de julho de 1943 e ninguém sabia onde ele estava, dizia-se que fôra resgatado pelos alemães.

A Itália se rendera, de fato, em 8 de setembro de 1943, mas alguns rebeldes italianos se uniram ao exército nazista e continuaram a lutar contra os Aliados. Os nazistas tinham recuado, deixando livres o Norte da África e o Sul da Itália, mas se alojaram, então, na defensiva, no norte italiano, tomando as melhores posições no topo das montanhas. Estavam em poder dos nazis um cordão de montanhas, entre elas o famoso Monte Castelo, e a esse cordão chamavam de “Linha Gótica”, que cortava o país de oeste a leste.

Já os aliados, e os brasileiros com eles, estavam nos vales, muito mais desprotegidos, portanto. Aos brasileiros cabia cobrir 18 quilômetros da Linha Gótica.

Toda a região estava sob a iminência de ataques dos alemães, que haviam recuado, como já se disse, mas não desistido. Durante o dia, o grupo de Orlando se entrincheirava para vigiar as tropas inimigas. Ficavam sabendo, assim, se havia movimentação das tropas alemãs. Havia muitas casamatas encravadas nas rochas, (inclusive naquele que se tornaria, pouco depois, o famoso Monte Castelo, da batalha de 5 de março de 1945) e de onde, inclusive, os alemães podiam também observar as tropas aliadas.

O grupo a que Orlando pertencia, sob o comando do Tenente Miranda, tinha por função reconhecer terreno para colocação de materiais, como os canhões. O grupo precisava cavar um buraco, mais ou menos da altura de um homem sentado, com o formato de uma trincheira, onde se colocavam as lunetas. O grupo de Orlando passava o dia todo observando o território inimigo e o único recurso, que tinham aqueles soldados, para gravar o terreno que observavam era a própria memória. Assim, no dia seguinte, podiam saber se houvera alguma alteração nas imagens que tinham visto no dia anterior e, com isso, concluíam se houvera movimento de tropas inimigas. Muitas vezes Orlando e seus companheiros enfrentaram o mau tempo e a eterna preocupação em saber se eles próprios não estariam sendo também observados pelo inimigo. Viveram essa rotina centenas de vezes, retornando ao comando apenas para fazer suas refeições. Foi assim até o término do conflito. Essa era a missão da sua tropa.


Mas nem tudo era guerra. Muito embora a ordem, às tropas aliadas atuantes na Itália, fosse de não interagir com a população local, a família italiana que os instalara em casa, via com bons olhos a presença dos brasileiros, aliados, lutando contra o eixo. Com a energia elétrica cortada e um frio de meter medo, os brasileiros resolveram com praticidade o problema da ausência de lenha para a lareira. Simplesmente derrubaram os postes de luz, feitos de madeira, e os serraram para fazer um belo estoque de lenha.

As noites eram frias e difíceis?
Logo os brasileiros descobriram, numa cidadezinha vizinha, um sanfoneiro cego e iam, de jipe, sem acender os faróis, dirigindo por dez quilômetros na total escuridão do Black out, buscar o homem para alegrar-lhes a vida e as noites da família que os hospedava. Assim, em meio ao barulho dos tiros e das bombas, na adega que ficava no porão da casa, havia música, canto e dança.

Porém, houve também o terror de um bombardeio maciço. O barulho ensurdecedor dos aviões da Luftwaffe voando baixo e, imediatamente depois, o horror das bombas que caíam a poucos metros da casa, destruindo todo o bosque ao redor, abafando a música da alegria e as substituindo, no coração de todos, pelo terror da proximidade da morte violenta.

Mas talvez a alegria e a música tivessem magicamente criado um escudo protetor em volta da casa... Apesar de todo o entorno destruído, não houve sequer um abalo nas paredes que sustentavam aquele teto protetor.

Os mais racionais diriam que foi apenas uma questão de sorte. Os poetas, porém, preferem acreditar nos protetores poderes da música e da alegria.





Capítulo 6 – Santo Amaro nas Guerras

A companhia de Orlando ficou três meses entrincheirada ali, vivendo naquela casa de campo, até que se deu a Batalha de Monte Castelo.

Naqueles três meses, tendo por companhia, na maior parte do tempo, a dor, a morte, o futuro incerto e tendo que espantar a angústia na benvinda música do sanfoneiro, o consolo de Orlando vinha em forma de cartas, que recebia de sua amada Conceição e de seus muitos parentes e amigos do Brasil e, sem saber se voltaria ou não a ver a sua terra, em muitos momentos de calmaria, em meio à tempestade da guerra, Orlando viajava. Em sua mente visitava, amiúde, o passado e revivia seus momentos felizes junto à terra e aos entes queridos.

1. Santo Amaro, década de 1930.

O assunto no bar de Caetano e Maria Paladino Donadio, naquele 9 de julho de 1932, não poderia ser outro: a grande festa que estava se preparando então no Município de Santo Amaro, que, no dia seguinte, completaria o seu Primeiro Centenário de Fundação.

Durante o dia, o bar ficava sob a responsabilidade de Maria, pois Caetano dava seu expediente no frigorífico. Quando ele chegava do trabalho, lá se ia a Maria, fazer suas obrigações domésticas, a lida de sempre: cozinha, faxina, lava, passa, costura... Como muitas mães daquele época, todas as roupas da família saiam daquela velha máquina Singer.

Orlando teve 13 irmãos. Dos 14, apenas 7 sobreviveram: dois irmãos mais novos que Orlando e cinco irmãs. Mas, ainda assim, era um bocado de crianças para Maria dar conta de alimentar, vestir, educar e, ainda, passar o dia cuidando do estabelecimento comercial da família. Por isso, como também era o hábito daqueles tempos, as meninas, ainda pequenas, já ajudavam a mãe nas tarefas do lar.

O Bar dos Donadio ficava no coração da cidade, na Praça Floriano Peixoto, que, naquele julho festivo, estava toda enfeitada por bandeirinhas. Ali ficava, desde 1931, a delegacia de Polícia, no número 341, e, ali bem pertinho, o Cine Teatro São Francisco, um espaço para 3 mil lugares. Mas a grande estrela da praça era a sede da prefeitura, prédio luxuosamente adornado, conforme o projeto do ex-prefeito Isaías Branco de Araújo, cujo mandato durara 12 anos, sendo depois substituído por Paulo Goulart e, em seguida, por Francisco Ferreira Lopes. A cidade, então, naquele momento, respirava festa. Em meio ao cotidiano de muito trabalho e pouco lazer, todos esperavam ansiosos pelas comemorações e, no bar, não se falava mesmo de outra coisa:

-- O cine São Francisco vai lotar no dia da festa. Imagine, vai virar Teatro de ópera! – dizia um dos irmãos Branco de Araújo, saboreando sua cerveja no balcão. Rigolleto, de Verdi, em Santo Amaro! Quem diria!

-- Está ficando lugar de gente fina—comentou um dos Amorim Cortez – Antes, virava no máximo, salão de arrasta-pé.

Os homens caíram na risada.
-- Deixa o Salles saber que você está falando assim do empreendimento do qual ele tanto se orgulha! – disse Caetano – despejando mais cerveja nos copos.

-- Parece que o prefeito gastou bem os 50 contos réis que o Governo do Estado arranjou pra ele bancar essa festa – disse, irônico, Araújo.

-- Bem, nem é tanto dinheiro assim – zombou Cortez – Se você dividir pelos nossos 25 mil habitantes dá 2 mil réis pra cada um...

E todos riram de novo.
-- É. Vai ter ópera no São Francisco, desfile militar logo cedo e missa campal às 10 horas. Mas dizem que o grande sucesso do dia vai ser essa exposição que o professor Rosa de Abreu montou lá no Grupo Escolar. Tem muita fotografia e vários objetos que contam a história da nossa cidade – disse Caetano.

-- Você conhece a história? – perguntou Araújo.

-- Um pouco – disse Caetano – Sei o que o povo fala: tudo começou com uns índios que tinham aldeias aqui às margens do Rio Jurubatuba.

-- Muito mais do que isso – disse Araújo – Há cem anos passados o nosso imperador, Pedro I, estava preocupado com as invasões castelhanas por aqui e determinou que os governantes de São Paulo, então província de São Paulo, trouxessem para cá colonos alemães. Aqui foi fundada a primeira colônia estrangeira do Brasil... – E riu – Por isso é que está cheio de mulato bastardo de olho azul por essas bandas...

-- E dizem que o professor também descobriu que Santo Amaro era um santo nascido na Itália, lá pelo ano 500 depois de Cristo, e que ficou conhecido por proteger os carroceiros e os fabricantes de velas – completou Cortez.

De repente, nesse exato momento, entra, completamente esbaforido, no bar, o jornalista Victor Manzini. Há muito Manzini vinha tentando estabelecer um jornal de Santo Amaro, seus planos mais recentes falavam em chama-lo de “A Tribuna”. A verdade é que Manzini sempre sabia dos fatos antes da maioria ter conhecimento deles.

-- Atenção pessoal – disse ele aos gritos – Lamento dizer isso, mas amanhã de manhã São Paulo estará em guerra contra o resto do país! Os paulistas decidiram lutar contra Getúlio, que rasgou a Constituição de 91 através de seu famigerado golpe! Assim, com a intenção de lutar pela recuperação da importância política de São Paulo e por uma nova constituição para o país, multidões se uniram às lideranças e às elites paulistas e, a partir dessa noite, estamos em guerra com o governo de Getúlio!

-- Mama mia! – disse Caetano – Acabou-se a nossa festa!
...
Enquanto isso, na cidade de São Paulo, membros da Força Pública, estudantes e políticos, invadiam as sedes dos meios de comunicação da época: estações de rádio, de telégrafos e telefônicas. Nascia ali a Revolução Constitucionalista de 1932.

Na manhã seguinte, os homens santamarenses, ouvindo discursarem os oradores da sacada da câmara municipal e tomando consciência do que ocorrera na capital do estado, na cidade de São Paulo, perceberam afinal que a festa se transformara em guerra e que trocariam os trajes de gala pelos uniformes e que suas mulheres, em vez de festejar com eles os cem anos da sua cidade, indo a uma missa campal e a um baile, iriam sim à Igreja Matriz, rezar por seus maridos e amantes na luta e trabalhariam dobrado para proporcionar tudo o que fosse necessário à infraestrutura de combate.

Em vez de velas comemorativas, armas.

O São Francisco, o Grupo Escolar, todos os locais onde haveria festa e comemoração, agora tinham, como num súbito e surpreendente passe de mágica, se transformado em quartéis, em centros de logística de guerra, em abrigo de soldados... A comissão responsável pelos festejos do centenário de Santo Amaro, o prefeito, vereadores, vão todos à sede do governo paulista, então o Palácio dos Campos Elíseos, para apresentar seu apoio à luta. Recebidos por Pedro de Toledo, este os apresenta ao General Euclydes Figueiredo, comandante operacional das Forças Constitucionalistas, que, ao ficar sabendo do desejo dos santamarenses de pegar em armas por São Paulo, declara: “-- Está organizada a Companhia do Exército Isolado de Santo Amaro”, o primeiro contingente constituído da Revolução de 1932. A companhia seria conhecida pela sigla CIESA e contou com mais de 300 homens.

Muitas famílias deram “ouro pelo bem de São Paulo”, na falta de outro, as próprias alianças de noivado ou casamento.

Santo Amaro estava na guerra.

2. Santo Amaro, 1944

Quando terminou a revolução constitucionalista, com a derrota dos paulistas, Orlando suspirou de alívio. Agora sim, a vida voltaria ao normal. Mal sabia ele que, em 1944, seria convocado para lutar também e, desta vez, numa guerra mundial.

Orlando, como todos os nascidos depois da Primeira Guerra Mundial, pertencia aquela geração culturalmente revolucionária dos anos 1920. A geração do Charleston, do samba-canção, dos modernistas e das letras ousadas nas músicas de Cole Porter. Não era um homem da guerra, era um homem da paz. Tinha apenas 12 anos na Revolução Constitucionalista, idade suficiente para avaliar os estragos causados por ela na sua pequena e próspera Santo Amaro.

Findo o conflito, tudo voltou à normalidade. O menino Orlando viu com alegria as ruas novamente movimentadas, a banda tocando no coreto do Largo Treze de Maio, aos domingos, os cinemas e, de novo, trazendo os grandes astros de Hollywood para perto dos fãs.

Graças a Deus – pensava ele – lembrando-se do quanto se encantara nas quermesses da Festa do Divino, que sempre aconteciam no Largo Treze, com seus jogos de roleta, de argola, e a alegria das pessoas, ao conseguir marcar um tento e levar para casa uma prenda.

Mas, durante a Revolução, Santo Amaro ficou parecendo estar numa eterna quaresma: triste, macambuzio, desanimado. Na guerra, as janelas ficavam fechadas, com medo de bala perdida. Só se saía à rua em caso de absoluta necessidade e não tinha baile, nem cinema, nem festa. Muito menos alegria! Parecia a quaresma – pensava o menino Orlando – Depois de três dias de folia do Carnaval, de corso dando a volta pelo bairro, com lança-perfume, confete, serpentina... Depois das ruas lotadas de serpentinas, onde a criançada mergulhava, como o Tio Patinhas mergulhando na sua piscina de dinheiro... Depois dessa alegria vinha a quaresma. Então, nada de música, nada de canto, as rádios só tocavam músicas instrumentais... Era como se fosse o preço a ser pago pela alegria do Carnaval. A Revolução Constitucionalista, para o menino Orlando, foi parecida com os tempos de depois do Carnaval. Só que mais longo.

Em 22 de fevereiro de 1935, o então interventor Armando Sales de Oliveira resolveu anexar o munícipio de Santo Amaro à cidade de São Paulo, transformando-o num bairro, o que desagradou muita gente, principalmente os políticos locais. Com esses, Orlando conviveu enquanto passava de garoto à rapaz e de rapaz à homem feito. Grandes nomes da política local tiveram um papel na sua formação: João de Luca, Isaias Branco de Araújo – que ocupara a cadeira da Prefeitura por três mandatos seguidos, Ruy de Amorin Cortez, que foi pai do grande ator Raul Cortez e outros.*

De vez em quando, lá se ia Orlando Donadio, de bonde, para a “cidade”, capitaneando eleitores que, se não fossem ciceroneados, talvez nunca assinassem seus novos títulos, agora paulistanos.

Era dessa atividade que vinham os trocados que permitiam a Orlando comprar as muito famosas balas holandesas. Essas balas eram a febre do momento, pois traziam figurinhas para colecionar e montar um álbum. Barracas de troca de figurinhas enchiam as calçadas. Era mesmo uma febre coletiva.

O final da década de 1930 e o começo da de 1940 foram bondosas para com o nosso jovem Orlando. Em 1936, Victor Manzini conseguiu fundar o seu sonhado jornal “A Tribuna de Santo Amaro” e logo Orlando e seu amigo Arlindo Jardim de Almeida começaram a sua colaboração ao jornal com uma coluna chamada “Falando da Vida Alheia”, assinada pelos pseudônimos de Caranga, O Orlando, e Gazeta, o Arlindo, onde eles contavam tudo o que acontecia nos “footings” da Rua Direita (que depois veio a ser Rua Capitão Thiago Luz), no coração de Santo Amaro. E contavam em verso! Fizeram tanto sucesso que outras duplas apareceram para concorrer com eles, conta Orlando, dizendo que esse foi um bom combate, uma guerra onde não existiram mortos ou feridos.

A sede do clube do time de Futebol, do qual Orlando foi fundador em 10 de outubro de 1937, aquela mesmo, de onde ele ouvia sua musa Ana cantar as músicas de Orlando Silva, ficava na Praça Dona Benta, com a rua Campos Salles. Era o Grêmio União Santo Amaro, do qual Orlando, além de fundador, foi presidente e, mais do que o time Juvenil Santo Amaro, que disputava todas as partidas de várzea do bairro, o Grêmio ainda promovia corridas e campeonatos.

Com seu trabalho no frigorífico, suas atividades político-esportivo-culturais, e, ainda, com sua namorada Conceição, Orlando tinha uma vida boa, uma vida na qual não caberia, jamais, a guerra. Mas coube.