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Uma Anunciação
Conto de Natal de ISABEL FOMM de Vasconcellos, 2015
 

 

 

 " Ela me chamou de Maria por causa da Nossa Senhora, aquela, a que é cheia de graça, como a Garota de Ipanema. "


Precisava dar um jeito de sair dali, ter nascido ali parecia um castigo de Deus.

Ela sempre se perguntava como faria isso, pois queria ser estrela de novela na TV Globo, queria andar naqueles iates que ela via passar, lá de cima do morro, do alto da laje da sua casa. Até que a laje era uma benção. Por causa dela, seu pai conseguia faturar uma boa grana em dolar, quando chegava o fim do ano. Os turistas estrangeiros achavam sensacional passar o Reveillon na laje. De lá, avistavam toda a baía de Guanabara, assistiam ao show de fogos de artifício, aquele espetáculo de formas e luzes coloridas que saíam das balsas atracadas em frente à praia de Copacabana... E tudo por um preço que, para eles, era barato, mas para a família dela, uma pequena fortuna. Seus pais tinham mandado construir cercas em volta da laje pra que seus clientes não caíssem de lá de cima, quando tomassem muito champagne.

 

 “Pró-seco”, corrigiu-se em pensamento, era proibido – e ela não sabia porque – chamar aquele vinho branco, espumante, de champagne. Sua mãe sempre errava, sempre falava o nome antigo e o irmão dela vivia corrigindo... Aliás, aquele seu tio era mestre em viver corrigindo os outros. Nada de dizer “conjunto”, músicos em grupo agora eram “banda”. Nada de dizer “favela”. Casas e barracos amontoados em vielas e construídos sobre os morros, agora eram “comunidades”. Nada de dizer “povo”, o certo é “população”... Glorinha ria de seu próprio pensamento, enquanto subia a viela que levava até sua casa.
 

Hoje, na escola, a professora avisara que haveria uma ação de uma ONG, uma semana antes do Natal. Até o Natal de pobre era uma semana antes do que o dos ricos. Claro. Quem iria querer sair lá debaixo, do conforto da cidade e das praias, para vir aqui em cima fazer caridade em pleno Natal? A turma de baixo vivia muito ocupada no Natal, era aquela correria com compras e festas... Ela sabia. Quando tinha 5 anos uma madame levara ela pra passar o Natal numa casa enorme lá na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rua Resedá n.8. Nunca esquecera. Também nunca vira um lugar tão lindo, uma mesa tão linda, umas comidas tão diferentes... Puseram um vestido nela e todo mundo olhava e dizia “que gracinha de menininha”!

 

Foi assim que ela descobriu que o mundo tinha muito mais coisas do que o morro. E ficou muito brava mesmo. Tambem que ainda trazia viva, dentro de si, a lembrança de outro desses natais caridosos. Ficara numa fila enorme, debaixo do sol, de olho numa Barbie lindona, mas, quando chegou a sua vez de ganhar presente, todas as Barbies já tinham sido dadas para as meninas que chegaram antes dela. Passou a noite chorando e, no dia do Natal de verdade, sabe-se Deus como, seu tio aparecera com uma Barbie igualzinha pra ela... Ai! Ficara tão feliz, tão feliz, que até tinha começado a acreditar que Deus existia mesmo e que, um dia, a tiraria dali, a levaria para a cidade, para o estúdio de novelas que ela, que não era boba nem nada, já sabia muito bem como se parecia, vira nas revistas velhas do salãozinho de beleza da Cleide.

 

É, porque ela, Glorinha, tinha só 12 anos, mas, a despeito do que dizia o estatuto da criança e do adolescente, já trabalhava sim, aos sábados, no cabeleireiro, era a “encarregada da limpeza”. Riu de novo: outro novo nome, ninguém queria mais dizer o nome certo das coisas. Encarregada da limpeza... uma ova! Faxineira, isso sim! No Brasil – ela estava cansada de ver na TV – era tudo assim agora: nomes bonitos para esconder feias realidades e estatutos e leis para fingirem que um monte de coisas ruins não estavam acontecendo. Imagine se fosse mesmo proibido trabalhar... Quase toda a turminha da idade dela fazia alguma coisa pra conseguir dinheiro, ali na fave...hum... co-mu-ni-da-de. Isso sem contar a turma “de menor” que trabalhava pro tráfico de drogas e era sempre quem fazia o serviço pesado, o serviço sujo, mesmo que não fosse. Quer dizer, os adultos matavam e os menores se entregavam “pros homem” assumindo o crime. Para eles, os “de menor” a pena nunca passava de três anos. Além disso, eles quase nunca ficavam presos pra valer porque a turma do lado de cá dava um jeito de organizar uma fuga...
 

-- Para uma menina de 12 anos, você raciocina com um clareza de doer. – disse uma voz firme de homem que caminhava quase ao lado dela.
-- Mas, moço – respondeu Gloria – todo mundo é que nem eu, hoje em dia. Meu tio mesmo diz que a Internet, a TV a cabo, todo esse progresso faz progredir também as nossas cabeças... Ei! Pera aí... Eu estava pensando e não falando! – gritou ela, assustada, de repente se dando conta que aquele homem havia conseguido ler seus pensamentos...— Nossa! Será que já inventaram isso também? Um leitor de pensamentos?
-- Não – respondeu ele.—Ainda não inventaram não. Na verdade, isso continua sendo privilégio dos anjos.
-- Sai prá lá, gabiru! – você vai querer me convencer que é um anjo? Com essa cara de malandro?
-- Se não existisse celular e viva voz – disse ele – todos por aqui achariam que você enlouqueceu, que está falando e gesticulando pra ninguém...
-- O trouxa aí – disse ela para uma terceira pessoa inexistente – vai querer me convencer não só que é um anjo, mas que é invisível. Deve ser um pedó.. como é mesmo? Pedóssilo!
-- Pedófilo – corrigiu ele. – Não. Eu não sou pedófilo coisa nenhuma. Você duvida? Tente me pegar.
Gloria estendeu a mão e seu braço passou por ele, como se ele não estivesse ali.
-- Bom, então você é uma projeção holo... holográfica! Ufa... Essa eu acertei!
-- Não, não, Maria da Glória, eu sou mesmo um anjo, juro por Deus!
-- Tá bom seu anjo sabe-tudo! Então também deveria saber que eu detesto, de-tes-to!!!, está entendendo? Que me chamem disso aí.
-- Maria da Glória?
-- Aie!!! Para com isso, seu Anjo de merda! Meu nome é Glorinha, no máximo, Glória. Minha mãe pos esse nome em mim em homenagem à Glória Pires, a atriz. Eu também vou ser atriz.
-- Mas a sua mãe não a chamou de Maria a troco de nada, não é?
-- Bom, aí você tem razão. Ela me chamou de Maria por causa da Nossa Senhora, aquela, a que é cheia de graça, como a Garota de Ipanema.
-- Então você sabe como é: o Senhor é com ela e bendita ela é entre as mulheres.
-- Mas eu não, moço. Eu sou, mas é maldita! Nasci pobre, preta, negra como dizem que a gente tem que falar agora, negra, não preta, mulher. Meu tio diz que sou três vezes discriminada, sacou? E sei que sou.
-- Dos pobres é o reino dos céus – Respondeu o anjo.
-- Olha, seu anjo, não me venha com essa. Eu não quero saber de reino dos céus. Eu já moro pertinho do céu e o reino da terra, que eu saiba, é um inferno pra uns, mas é um céu muito do bom pra outros. Vem cá, chega aqui ao lado do barranco. Tá vendo lá embaixo aquele barco enorme? Aquilo é um iate e lá dentro os ricaços gastam num dia o que o meu pai leva cinco anos pra ganhar. Eles é que estão no reino dos céus.
-- Talvez não – disse o anjo—você está julgando pelas aparências, você não tem ideia do que se passa em suas mentes e em seus corações. Você não sabe nada de suas aflições, de seus medos, do que rola em suas consciências... você não sabe.
-- O meu tio disse que tem uma francesa famosa que, muitos anos antes de eu nascer, falava que é melhor chorar num Mercedes do que num buzão.
O anjo teve que rir, capitulando:
-- Nossa, Glorinha, você tem resposta para tudo, não é?
-- O meu tio...
-- Pelo jeito, esse seu tio é quem ensina muitas coisas a você, né?
Ela riu:
-- Só pra mim não. Ele ensina todo mundo aqui na comunidade. Ele aprende essas coisas nos livros que ele vive lendo e o que ele quer saber procura no google e pronto.
-- E você? Gosta de ler?
-- Aprendi a gostar, por causa do meu tio. Ele me trouxe da biblioteca da escola uns livros legais de um tal de Jorge Querido, não, Amado... – e riu de novo – uma coisa muito velha mesmo, mas eu gostei, aprendi pra caralho...ops... desculpe o palavrão.
-- Se você vai ser atriz, deve ler muito. Deve adquirir muita cultura para poder vivenciar os papeis que vai representar no palco ou no estúdio com muita verdade, muita compreensão. Os livros trazem o mundo até nós.
-- Ah... mas a Internet e os vídeos e as novelas também – retrucou ela.
-- Só que tem uma grande diferença – explicou ele – quando você assiste a uma história, ela vem pronta pra dentro da sua consciência, mas quando você lê um livro, é você quem cria a imagem dos personagens, da cena descrita... Por isso nenhum livro é só do autor, mas é também do leitor.
-- Nossa! – exclamou Glorinha – que máximo, cara! Nunca tinha pensado nisso. Será que eu posso ser atriz e escritora também?
-- Você pode ser o que quiser ser e, com a sua determinação e vivacidade, vai conseguir isso mesmo!
-- Agora, me conta uma coisa. O que é que um anjo como você veio fazer aqui na nossa comunidade? Vai salvar alguém? Parar uma bala perdida, é isso?
O anjo riu:
-- Não, não, isso é missão pros anjos da Guarda.
-- Guarda metropolitana?
-- Não Glorinha – respondeu o Anjo morrendo de rir – você não finja que não sabe quem são os anjos da guarda.
-- Bom, eu sei. Mas tava tirando uma com a sua cara. Pensei que todos os anjos podiam fazer o papel de anjos da guarda, oras!
-- Eu sou um anjo natalício. Um anunciador. Você sabe, no Natal, Primeiro Chegam os Anjos.
-- Então veio pra festa da ONG da Dona Mariana e do padre Tião?
-- Não. Eu vim por você.
-- Nossa, o que é que eu fiz de errado agora?
-- Nada. Você quase sempre faz tudo certo. Eu só vim pra te contar um segredo.
-- Ué... Um segredo? Pra mim? Criança, pobre, negra e mulher? Acho que sou quatro vezes discriminada.
-- Só vim pra te dizer que um dos seus filhos será um grande líder político e...
-- Ah, essa não! Meu tio diz que político nenhum presta, é tudo uma cambada de filhos você sabe de que... Eu vou ser uma você-sabe-o-que, então?
O anjo riu de novo.
-- Não é nada disso! Você vai ser mãe de uma pessoa muito legal, uma pessoa que vai trabalhar pelo bem da humanidade, entendeu? Não é todo dia que essas pessoas vêm à Terra e você precisa saber disso. Mas é um segredo, só entre nós.
-- Olha aqui, seu anjo, é claro que é só entre nós. O pessoal vai achar que estou louca ou drogada se eu sair por aí que um anjo desceu do céu e veio aqui na terra pra me dizer que o meu filho...
O anjo a interrompeu:
-- Ou será uma filha?
-- Filha?
-- Nunca se sabe...
-- Ah, já tô com pena dela, coitada. Outra mulher preta... Bom, pelo menos não vai ser pobre porque até lá eu já serei escritora, atriz e rica... mas mesmo assim...Ninguém vai dar bola pra ela, não, seu anjo...
-- Nunca se sabe... Bom, chegou a minha hora. Fica com Deus, Glorinha. Vou embora.
-- Ué, não vai ficar pro Natal?
-- Não pra esse. Daqui a alguns anos eu volto.
-- Prazer então em conhecer você.
Ele desapareceu e Glorinha continuou o seu caminho, subindo o morro, agora com a certeza absoluta de que seria atriz... e mãe de alguém muito importante.
Pra uma preta, pobre, mulher e criança até que isso vai ser um grande negócio – pensou, satisfeita.
 

 

conto de Natal dE 2014. LEIA.

 

Portinari, Menina Sentada

 

 

 

C. Nascimento, Favela

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Conheça os contos de Natal (para adultos)

de ISABEL FOMM de Vasconcellos,

reunidos no livro

Primeiro Chegam os Anjos,

com ilustrações de Suely Pinotti.

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COMENTE

Vera Krausz Lindos!

Diva I. Jacinto Muito lindo e peculiar ! Parabéns.
 

Magali Belfort Parabéns pelo conto. Muito bonito!