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As Orelhas de Elefante, a Wanda e a Josefina

Memória de Isabel Fomm de Vasconcellos

(1958, as Orelhas de Elefante, no nosso jardim, foto do meu pai, Alfredo Fomm de Vasconcellos)

Para Wanda


Minha mãe sempre amou aquelas plantas de folhas enormes chamadas “Orelhas de Elefante” (Alocasia macrorrhizos  ou Taro Indiano ou Taioba). Ela plantou-as junto à parede do vizinho, no jardim da nossa casa. As folhas enormes logo tomaram toda a extensão do muro, cobrindo-o de verde e servindo de cenário para o tapete de grama que abrigava outras plantas.

 

Mas as Orelhas eram as queridinhas da minha mãe. Não sei porque ela não as levou para o jardim da nova casa, quando se mudou, em 1969. Eu estava na Bahia, com Alvan, e não participei da mudança, portanto, não sei.
 

(Kandinsky, 1910, Murnau, Jardim 1)

Imagino, porém, que minha mãe não tenha levado as Orelhas de Elefante pela mesma razão que eu não trouxe, do jardim, – embora quisesse muito – nenhuma muda delas aqui pro apartamento, nesses 35 anos em que moro no Paulicéia.

 

E tantas mudinhas de plantas já subiram do jardim para os meus vasos!

No nosso prédio existem vários canteiros de Orelhas de Elefante. Nenhum deles, porém, tão exuberante quanto o era o da minha mãe, na nossa casa da Antonio das Chagas. Mesmo assim, eu venho namorando-os há três décadas e meia, imaginando que, um dia, pudesse ter uma muda para trazer para o meu Jardim de Apartamento.
 

Não é difícil conseguir uma muda, mas, para tal, é preciso cavar a terra e desenterrar algum (ou alguns) dos bulbos de onde provêm as folhas.


Ora, não posso cavar o jardim do prédio e muito menos prejudicar os canteiros para arrancar um bulbo que certamente estará preso a outros, no emaranhado das pequenas raízes. Por isso, nunca trouxe nenhuma muda. Só trago mudinhas que possa obter sem afetar, de qualquer maneira, a planta mãe ou as plantas ao redor.

Lembro-me de que o jardineiro da nossa antiga casa -- isso nos anos 1950, quando eu era criança -- criara uma espécie de fosso separando o canteiro de Orelhas de Elefante do resto do jardim para que estas não tomassem toda a extensão do nosso horto. Assim, sob o canteiro das plantas queridas de minha mãe, formou-se o ambiente ideal para instalar-se o lar da minha pequena tartaruga.

O nome dela era Josefina e ela adorava folhas de alface e pedaços de tomate, que a Leca tratava de colocar para ela todos os dias. No inverno ela desaparecia, meu pai explicou-me então o que significava “hibernar”.

Num dia de Primavera, lá estava a Josefina passeando pela grama do jardim, e eu, feliz da vida, a observá-la. Pela grade que separava o jardim da calçada da rua, vi aquele menino – que eu sabia morar algumas quadras adiante – a observá-la também intensamente.

Não deu outra. No dia seguinte, a Josefina das Orelhas de Elefante desaparecera. Nem pisquei. Caminhei até a casa do tal menino, bati. A mãe dele atendeu, eu disse:
-- Seu filho pegou minha tartaruga e eu a quero de volta.
Lembro-me de não ter usado o verbo “roubou” para não ofender a jovem senhora. É claro que ela tinha visto a tartaruga e o garoto deve ter dito que a encontrara “por acaso”. Em menos de um minuto ela voltou, com a Josefina na mão, e me devolveu a bichana.

Não me lembro mais o que houve com a Josefina. Tenho uma vaga memória de, anos depois, ela ter sumido de novo. Mas não posso jurar.

Perdi a Josefina e as Orelhas de Elefante.

Mas essas plantonas sempre me lembraram a minha mãe, sempre as associei a ela e vivia namorando as que estão no nosso jardim aqui no prédio.
 

 

Hoje é aniversário de morte da minha mãe. Wanda nos deixou em 17 de junho de 2007, há exatos 13 anos.

Estamos em isolamento desde 17 de março, por causa do Novo Corona Vírus, mas todos os dias eu vou buscar, na portaria da Rua São Carlos do Pinhal (porque a portaria da Paulista – que é a do meu prédio – está fechada desde o começo da quarentena) as compras que faço pela Internet e a comida pronta que vem do restaurante. Aproveito para caminhar um pouco pelo jardim, com caminhos cheio de meandros e voltinhas, por entre os canteiros.

Hoje, quando passei por um viveiro de Orelhas de Elefante, havia algumas, espaçadas e parecendo recém plantadas, pequenas e com os bulbos na superfície. Incrível! Mudas perfeitas e acessíveis, dezenas dela. Escolhi um bulbo que tinha uma única e pequena folha e retirei-o sem causar dano algum nem aos seus pares nem à terra, nem ao próprio canteiro. Nossa! Que felicidade! Levei 35 anos para conseguir essa muda!

Lavei-a com água e sabão neutro, por causa dos vírus, e plantei-a num substrato maravilhoso, com uma camada de cascas de ovos antes da última camada de terra, o bulbo enterrado, a folha, essa ainda pequena (afinal é um bebê) exuberante. Cobri a terra com lascas de pinho polidas e cá está ela, no parapeito da Janela da Paulista, pronta a crescer e se multiplicar e, daqui a uns três anos, ser transplantada para um vaso tão grande como ela será então. É um presente do nosso jardim, no aniversário da morte da minha mãe.

Tenho agora, no meu Jardim de Apartamento, após 35 anos de espera, minha Orelha de Elefante. E ela se chama Wanda Josefina.

(Wanda Gonçalves de Almeida Vasconcellos –
1912, fevereiro, 22 – 2007, junho, 17)

Comente

  • Sheila Santos Adorei
  • Evaldice Maria Ruck Cassiano Vc me encanta com suas lembranças, me lembro bem do jardim da Antônio das Chagas.
  • Elizabeth Krausz Que história linda, Hoje pela manhã não sei o porquê, mas pensei tanto na sua mãe, em quanto me lembro dela e ainda me questionei qual era a data de aniversário de morte dela. Que coisa mais louca.
    • Isabel Fomm de Vasconcellos Porque o seu subconsciente sabia a data, querida. E vc a amava tanto quanto eu amo a sua mãe. Somos privilegiadas, uma família de mulheres muito fortes!

          Iva Maria Gannuny Muito linda sua história. Um beijo grande