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Milagres do Antônio

Memória de Isabel Fomm de Vasconcellos

 

 

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Antônio, o casamenteiro, como é chamado por aqui, foi, acima de tudo, um intelectual. E muito bem relacionado: era amigo do próprio Francisco e foi morrer na casa de suas devotas – lideradas por Clara – as Clarissas. Ele morreu dia 13 de junho de 1231 e nascera em 15 de agosto de 1191.

 

Todos eles – Antônio, Francisco e Clara – são santos da Igreja Católica. Mas chamá-los de Santo Antonio, São Francisco e Santa Clara os distancia de nós.

 

Foram, os três, jovens excepcionalmente avançados para a sua época. Precursores dos ecologistas, eram ligados na Terra e em todos os seus frutos, bichos, plantas e pedras. Francisco, mais velho que os outros dois, era uma espécie de hippie do seu tempo. Vivia próximo à natureza, cercado de animais que considerava como seus iguais e não, como muita gente os considera até hoje, bestas irracionais e sem alma. Clara era uma patricinha, rica e mimada. Mas não se conformava em levar uma vida de privilégios e abundância enquanto tantos e tantos ao seu redor viviam na mais abjeta miséria. Por isso Clara renunciou à sua vida farta e foi viver com a turma hippie de Francisco, que pregava a paz e amor e ajudava como podia os descamisados de então. Eu não sei, mas tenho a impressão que eles não confiavam em ninguém com mais de 30 anos.

 

Clara também foi eleita, pelo Papa Pio XII em 1958, como a santa Padroeira da Televisão, já que um dos seus milagres foi, acamada e doente, ter “assistido” a uma missa inteirinha, que se realizava bem longe dela. Se você acreditar em Marion Zimmer Bradley, a autora de “As Brumas de Avalon”, ou no meu livro “Todas as Mulheres São Bruxas”, logo perceberá que Clara, como tantas e tantas mulheres de sua época, tinha o nosso perdido e esquecido poder da Visão. Clara foi canonizada, mas todas as outras “visionárias” de seu tempo corriam o risco de  morrer ( e muitas morreram) na fogueira da Inquisição, acusadas de feitiçaria.

Bom, estou fugindo do assunto. Meu negócio hoje – 13 de junho de 2013 – é falar mesmo do nosso Santo António (agora com acento agudo, como em Portugal), casamenteiro e intelectual.

 

Professor de Teologia, chamava-se Fernando, mas mudou seu nome para Antônio quando se uniu aos Franciscanos. Dele, só dizem maravilhas. Era a personificação da Bondade, mas também da Inteligência. Contam dele muitos milagres, sendo mais conhecido o episódio em que ele viu o Menino Jesus (Visão não é privilégio das mulheres, né?). Por isso a maior parte da sua iconografia traz o Santo carregando o filho de Deus, menino, no colo.

Dentre as milhares e milhares de simpatias feitas para e por Santo Antônio, as mais conhecidas são: tirar o Menino Jesus dele ou colocar uma imagem dele de cabeça pra baixo.

Tudo isso deve se manter até que ele resolva dar a pessoa o que ela está pedindo, quase sempre um marido.

 

Minha mãe, Wanda, e meu pai, Alfredo, se conheceram em 1927. E se apaixonaram. Mas o meu avô, pai da minha mãe, não queria saber do meu pai. Dizia que o Alfredo não passava de um “dandy”, um janota, ( o equivalente ao metrossexual dos anos 1990), que não tinha futuro, só queria saber de patinar, fazer serenatas pra Wanda e descobrir as engenhocas inventadas no Exterior e que não serviam para nada, como rádios, máquinas de fotografar e filmar. Além de tudo, tocava violão.Tenho até uma carta – datilografada e assinada de próprio punho – onde meu pai assegura para a minha avó Amélia (mãe da minha mãe) que não tinha a menor intenção de raptar-lhe a preciosa filha, como andavam dizendo as más línguas do bairro.

 

Os dois namorados de então, a Wanda e o Alfredo, tinham que fazer o diabo pra se encontrar. Inventavam mil coisas, histórias, compromissos... Mas, quando a Wanda atingiu a maioridade – fez 21 anos em 22 de fevereiro de 1933 – avisou aos seus pais que, ainda naquele ano, se casaria com Alfredo, o que efetivamente aconteceu em 23 de dezembro de 1933.

 

Mas foram seis anos de namoro enrustido, ansiedade, preocupação, lágrimas, esperanças... Vai imaginando o que fez, nessa época, a Wanda: uma promessa. Prometeu ao Santo Antônio que, se ele a fizesse esposa do Alfredo, ela conservaria a imagem dele, emoldurada em oval, na cabeceira de sua cama até o dia de sua morte. No entanto, enquanto isso, o coitado do santo passou seis anos pendurado na parede de cabeça para baixo... Por outro lado, como a Wanda só morreu em 2007, ele ficou mais 74 anos, de cabeça pra cima, nas muitas cabeceiras que ela teve na vida, inclusive na última, quando estava no ambulatório da casa de velhos onde morava, já inconsciente. Isto porque eu, sabida da história, fui ao quarto dela pegar o Santo Antonio e tive quase que brigar com as enfermeiras para conseguir bater um preguinho na parede, acima da cama dela, para pendurar o Santo.

 

Meus pais tiveram um casamento feliz, de 1933 até 1987, quando o Velho Vasco (como era chamado então o Alfredo) morreu de tanto fumar. A Wanda, fumante apenas passiva, ainda viveu mais 20 anos sem ele. Ou com a lembrança dele.

E eu, bem, eu sou uma privilegiada que nasci e cresci num lar abençoado pelo amor.

Quanto ao Santo Antônio, está aqui, na parede ao lado do meu escritório, onde escrevo essas maltraçadas linhas, e desconfio que ele tenha alguma coisa a ver com a paciência que o Caetano, meu marido, tem – e sempre teve, há 30 anos – com uma fulaninha difícil e temperamental como eu. Então, só me resta dizer: Obrigada, meu Santo Antônio!

 

2013 06 13

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Tina Hengles Que história liiinda! Amei. Beijos