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Um Castelo entre as Árvores

Por Isabel Fomm de Vasconcellos

 

Para Susana Campanhã, atual guardiã do meu sonho.

 

 

clique na foto ou aqui para assistir um compacto de filmes feitos no Castelo, por meu pai e por meu irmão Alvan, desde 1937 até 1967, com fotos minhas da década de 1980.

Introdução –

O Tempo Não Existe

 

São Paulo, Represa do Guarapiranga, Julho, 1959
-- Você está vendo lá adiante, uma ponta, uma leve colina, que avança da margem esquerda para dentro d'água? Está vendo como há árvores no topo da colina?
-- Sim – respondi – Estou vendo, pai.
Estava olhando pelas potentes lentes do binóculo dele, que eu mantinha junto aos olhos com a dificuldade de qualquer criança de 8 anos que manuseia um objeto pesado como eram os zeiss dos anos 1940.
-- Agora repare, acima das árvores, mais para dentro da terra – disse ele – O que vê?
 

-- Parece um telhado.
Ele riu, dando um tapa na coxa.
-- Isso mesmo, minha filha, é o telhado de uma torre. Lá, entre as árvores, se esconde um castelo.

Olhei para ele, incrédula. Estávamos de pé na barragem da represa do Guarapiranga e quem acreditaria que ali havia um castelo escondido?
O meu espírito de leitora voraz, que eu já era então, ficou encantado. Um castelo em São Paulo, junto à represa, escondido por altas árvores me pareceu um mistério digno de “A Ilha do Tesouro”, o livro de Robert Louis Stevenson, que eu acabara de devorar naquela semana.

-- A gente pode ir lá? – Perguntei, louca para ver de perto o Castelo misterioso que eu já julgava alguma espécie de lugar mágico, encantado.
-- Ainda não – disse ele, subitamente sério.

 

Voltando para casa, na velha perua Hansa Borg Ward, insisti:
-- Por que a gente não pode ir lá, pai? Por que ainda não?
-- Porque esse Castelo, que foi construído para ser uma residência, agora vai se transformar num clube. A partir de agosto, poderemos frequentar esse clube. Eu já comprei um título familiar. Seu tio Otto Krausz também comprou um. Toda a nossa família passará a ir lá com frequência.
-- Mas esse clube é de quem? – Perguntei.
-- É de todos os dois mil sócios proprietários.
-- Ah... – fiz eu decepcionada -..., mas é muita gente!
-- Não, minha filha. É uma grande propriedade, de três alqueires, tem lugar para todos nós. Mas ainda também vai demorar para atingir o número limite de sócios. Nós somos número 630.
-- Que dia de agosto? – Insisti eu.
Ele riu.
-- Logo no começo do mês.

Se, antes, eu achava que as férias de julho passavam depressa demais, aquelas férias, de julho de 1959, levaram uma eternidade para passar. Eu só pensava no dia em que descobriria o Castelo encantado.
 

 

Anúncio no jornal O Estado de São Paulo, de 1 de dezembro de 1940

 

 

 

1956, Cena do filme Quem Matou Anabela, note o Castelo ao fundo -  (clique na foto para assistir um clip com imagens originais desse filme de cinema, estrelado por Procopio Ferreira) ou clique aqui

 

 

 

Mais tarde, na mesa repleta de amigos e primos, reunidos em torno da nossa avó Amélia, para o tradicional almoço de domingo em nossa casa, meu pai soltou toda a história.

Ele já estivera lá, no Castelo, em 1937, quando ali era a residência do homem que mandara construí-lo: Robert Kutschat, um alemão que viera ao Brasil para dirigir a cervejaria Brahma em São Paulo e escolhera aquela colina, que avançava como uma península, uma colina cercada de água por todos os lados, menos um.
-- A represa do Guarapiranga,-- explicava meu pai -- onde fica o Clube de Campo do Castelo, foi construída em 1908. Logo, os paulistanos endinheirados viram, em suas margens, uma oportunidade de lazer e começaram a construir mansões de veraneio. Na Riviera, os Ramenzoni, os Caravellas, erguiam suas casas. Estive lá algumas vezes com meu cunhado Augusto Bitelli e minha irmã, Bebé. Eu ainda era solteiro... –riu ele, olhando de esguelha para minha mãe.

-- Lá pelos anos 1920, Elsie Von Bullow, a filha do dono da Cervejaria Antártica, já tinha erguido uma bonita mansão, com colunas clássicas na varanda, que dava para a praia. Robert Kutschat, um alemão que viera ao Brasil para dirigir a Cervejaria Brahma, encomendou ao escritório do arquiteto Francisco Beck a construção de um castelo, na margem da represa, margem oposta à casa de Elsie. Para mobília-lo sua esposa, Augusta, fez com que os marceneiros da Casa Alemã assistissem filmes da sua terra natal para reproduzir fielmente o estilo do mobiliário.

-- Mas em 1948, com a morte de Robert Kutschat, a família vendeu o Castelo a Luis Romero Sanson, o engenheiro que criou o bairro de Interlagos. Ele alugou o Castelo a uma missionária escocesa e ela fez dele uma escola de moças, a Saint Georges School. Uma década depois de ter comprado a propriedade, Sanson, endividado, entregou-a ao banco AE Carvalho que junto com o tradicional Clube Piratininga de São Paulo, lá onde sua tia Jeannette conheceu o seu tio Otto – explicou ele – resolveram fundar um clube. Essa é a história.
- Ah... e no Castelo foi filmado, em 1956, pela Companhia Cinematográfica Maristela, e lançado em 16 de maio daquele ano, “Quem matou Adele?”, Filme policial, estrelado por Procópio Ferreira, que investigava a misteriosa morte de uma bailarina, num lago... adivinhe qual?

-- Como você sabe tudo isso? – perguntei, curiosa.

-- Bom, parte disso eu soube quando estive lá, em 1937. Um pouco me foi contado pelo Carlos, um dos fundadores e que será o presidente do Castelo, o clube, claro. Outra parte me foi narrada pelo Fatorelli, um historiador que conheci num réveillon no Clube Italiano. *

Então, a menina que eu era, no Castelo, quando andava pelos salões, subia as escadas, saía às sacadas ou me aventurava a escalar os muitos degraus até a torre, parecia trazer comigo uma grande turma de fantasmas. E eu sabia que, muitos deles, tinham sido ali tão felizes quanto eu o era agora, que estava, enfim, dentro do Castelo misterioso da represa do Guarapiranga.
 

 

 

 

São Paulo, Avenida Paulista, agosto de 2017

Abri a minha agenda de papel, a única coisa não eletrônica em minha mesa de trabalho e, lá de dentro, saltou uma foto do Castelo. Uma foto que eu mesma fizera em 1982...

O Castelo envolto em neblina, atrás das árvores. Foi aí que me dei conta: entra ano, sai ano, eu conservo essa foto, já meio desbeiçada, mudando-a de uma agenda para outra. Por que?

Afinal, lá se vão três décadas que eu deixei o clube e nunca, nunca mais pisei lá. A desculpa que sempre dei a mim mesma é que essa foto é lindíssima. A verdade nua e crua é que a ausência do Castelo em minha vida, dói.
Trinta anos... deixei o clube em 1987.
Dez anos depois – me lembro muitíssimo bem – em 1997, sonhei com meu pai. Estávamos ao lado de nosso barco, em um dos barracões improvisados como hangar, como era no Castelo na década de 1960, antes da construção da casa de barcos e da náutica nova.

Meu pai morrera em abril de 1987, dez anos antes e pouco antes de meu marido e eu deixarmos de frequentar o clube. No sonho de 1997, eu estava triste demais por ter perdido o barco, o clube, a represa.... Então meu pai, no meu sonho, fazendo um gesto que abrangia toda a bela paisagem em torno, me disse:
-- Besteira, minha filha. Você está vendo isso aqui? A lancha? O bosque? O Castelo?
Tudo isso também é seu. Será sempre seu.

Agora, me maquiando para ir, como convidada da presidente do Clube de Campo do Castelo, Susana Campanhã, à festa dos 58 anos de fundação, eu pensava que, afinal, passara mais tempo da minha vida fora do Castelo do que no Castelo. No entanto, era como se tivesse se vivido lá toda a minha história.
Agora, esperando, com mais ansiedade do que previra,o carro que viria nos buscar para ir ao Baile de 58 anos, 2017, trinta anos sem pisar naquele solo amado... sentia-me confusa, sem saber direito como a emoção me dominaria, ou não, ao voltar para lá.
Só então, nesse exato momento, percebi todo o meu amor e toda a saudade que me amargurara por tantos e tantos anos. Imediatamente lembrei do meu amigo e parceiro de livros, o psiquiatra Kalil Duailibi que, um dia, me dissera:
-- Bel, para os sentimentos o tempo simplesmente não existe.

*de fato, meu pai nunca conheceu esse historiador. Fui eu que o encontrei pela Internet. E tomei essa liberdade poética para poder citá-lo.

 

 

 

 

1956, Cena do filme Quem Matou Anabela (clique na foto para assistir um clip com imagens originais desse filme de cinema, estrelado por Procopio Ferreira) ou clique aqui

 

 

 

 

 

 

Capítulo 1 – Minha Primeira História no Castelo

 

1959, no caminho que seria, anos depois, a movimentada Av. Atlântica

O dia era lindo, mas o caminho... uma lástima! A nossa perua – a USV dos anos 1950 – chacoalhava na estradinha estreita, de terra.

São Paulo, a terra da eterna garoa, de dias eternamente cinzas, nos presenteava então com o céu azul e o sol deslumbrante. À nossa direita, a represa, refletindo o céu como se espelho fosse. Mas a terra ainda não secara. De repente, um atoleiro.

Meu pai disse: -- Vamos ter que passar. Só existe esse caminho.

Atolamos. As rodas da Borg Ward deslizavam em falso, espalhando lama para todo lado. Ai – pensava eu – será que não vamos, afinal, conseguir chegar ao misterioso e encantado Castelo?

Mas alguns generosos homens, das imediações, e algumas tábuas, estrategicamente colocadas, sob as rodas, nos tiraram da armadilha. Mais adiante viramos à direita e perdemos de vista a represa. Enveredamos por uma magnífica estradinha coberta por pedregulhos e totalmente ladeada por enormes eucaliptos. Era como estar em um túnel verde. Uma subida leve e, de repente... ei-lo! Lindo! Majestoso! Imponente! Cercado de árvores e de flores... lá estava, afinal, o Castelo!

Era tudo diferente
Naquele tempo, era apenas a sede, o Castelo, e a “boate”, o bar abaixo do nível do jardim, que hoje se chama “pub”, com suas paredes de lambri, seus bancos altos, no balcão, imitando tonéis de vinho ou de uísque, as mesas laterais com seus assentos coletivos, o teto baixo, tudo muito lindo.
Não existia a piscina, nem o vestiário, claro, muito menos o terraço sobre o vestiário. Já havia uma quadra de tênis e também uma construção térrea, uma grande edícula, que me lembrou uma prisão ou um hospício.... Eram várias salas, coladas umas às outras, e lá funcionou por algum tempo, depois de construída a piscina e antes da construção dos atuais vestiários e sauna, o vestiário velho, se é que posso chamá-lo assim. Talvez originalmente aquela construção fosse um alojamento de empregados ou mesmo de alunos, quando o Castelo funcionou como escola, não sei, talvez ninguém saiba.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A piscina recém-construída, ainda com a edícula branca atrás dela.

 

A piscina hoje, e como já era em 1979, quando voltei ao clube, no lugar da edícula, o bar.

 

Na piscina antiga, a "ponte" e o "buraco" aos quais a Vera se refere em seu relato.

 


Já estavam, no entanto, lá, algumas árvores, a alameda cercada de pinheiros – onde antes eram gordos eucaliptos — que descia, da sede, à beira da represa.

 

 

Uma praia em 180 graus. Árvores também – como até hoje – bordando o limite da praia. Quando a represa estava cheia, a água chegava às raízes das árvores. Mais vazia, deixava uma borda de areia e tínhamos uma praia. Isso, é claro, não mudou.

Assim como não mudou a sede.
 

Ainda posso me lembrar da menininha, que era eu, atravessando os umbrais da porta principal e fitando encantada, a grande sala com sua escada e seu mezanino, um púlpito que lembrava uma igreja, outra sala à direita e, mais adiante, um salão envidraçado, de piso de mármore, grandes janelas para a maravilhosa e verde paisagem que se descortinava descendo até o azul das águas...
 


Subindo a escada, quartos enormes, banheiros lindos, sacadas e, nos fundos, o grande terraço que é a cobertura da sala de vidros...
O maior mistério e encanto, porém, estava na escadinha encaracolada que levava à torre.... De lá, da torre, 360 graus de janelas para toda a extensão do bosque encantado.
 

Ah... cenário perfeito para a imaginação da meninazinha que era eu, leitora voraz, que sonhava se transformar em escritora.
Já escrevia, naquele tempo. “Catava milho”, como se dizia na época, na velha máquina de escrever Olivetti, do escritório do meu pai.

Escrevia sobre tudo. Marcante a lembrança de uma redação escolar que contava a história de uma tarde no clube, onde, a família reunida, redes amarradas em árvores, caipirinhas nas mãos dos adultos, ali, à beira da represa, entre risadas, meu tio Otto Krausz contava como não conseguira uma ansiada comenda. Eu escrevera então que a ele, sem conseguir ser comendador, só restara ficar comendo a dor. A professora me deu zero. Disse que não era possível que uma menina de 10 anos tivesse escrito aquilo, que certamente fora escrito por meu irmão mais velho. Meus Deus! Foi a minha primeira grande decepção com a escola, que eu adorava. Hoje, muito provavelmente, os pais de uma criança assim injustiçada iriam fazer um escândalo. Naquele tempo, as pessoas eram mais sábias. Diante das minhas lágrimas de protesto, meus pais apenas riram:

-- Volte lá – me disseram – e diga a ela que lhe dê um tema para você desenvolver ali, na frente dela, para ela ver o seu real talento de escritora.

Não me lembro se fiz isso ou não. Assim também como não me lembro nem do nome nem da cara dela. Já, de várias outras mestras e outros mestres, que mereceram meu respeito, lembro-me muito bem!

 

Lembro-me ainda de ter escrito sobre outra minha indignação.
Por que não poderia eu conversar com as folhas, caídas dos eucaliptos, que boiavam nas águas da represa?

Não havia ainda piscina, nadávamos na represa.

Não sabíamos nadar, usávamos bóias de cintura.

Eu pegava as folhas que boiavam na água e perguntava a elas:

- Para onde a senhora quer ir? Quer que eu a leve?

Meu tio Otto Krausz, nadando conosco e nos ensinando a nadar, (ele que, na Áustria fora campeão de saltos ornamentais) ria de mim, dizia à sua filha, Beth, que eu era maluca porque falava com as folhas. Anos depois, quando o rei Roberto Carlos foi a primeira figura pública a admitir que conversava com as plantas, eu me senti vingada!
 

Então o clube construiu sua grande, linda, azul, piscina.
Havia uma senhora loura e gorda, muito simpática, que era a diretora social. Ela me ensinou, na piscina recém-inaugurada, a boiar. Depois, a nadar. Mulher maravilhosa e eu, ingrata, nem me lembro do nome dela. Nem me lembro direito da sua imagem.

Depois da piscina, começou a construção do novo vestiário.

Abaixo do velho vestiário, e para além da tal edícula, surgiram novas quadras de tênis. Quando chegamos, já havia uma, à esquerda da piscina, que está lá até hoje.

A melhor história da piscina é contada por minha prima Vera Krausz. Diz ela:

Aprendi a nadar, lá, sozinha e na piscina funda... Passava embaixo daqueles incríveis buracos por onde havia aquela "ponte"...
Pulei do trampolim alto e descobri que, quando subimos degraus, não podemos mais voltar atrás. Teremos que vencer o medo. E nos arriscamos: pular e mergulhar é a maior entrega a Deus e a nós mesmos, que fazemos.
Um frio na barriga e descobrimos que não morremos, que podemos mais que nossos medos.

Tanta coisa, no Castelo ...
Meu pai me levantando para o alto, pois não quis comprar sorvete. Desafiei meu pai. Uma única vez! E descobri que ele era maior que eu. Um limite fundamental... As redes dependuradas nas árvores com fortes e grossos nós...

Mas o mais marcante para mim é sobre o aprender a nadar.
Na verdade, esta história começa no Clube Banespa onde também éramos sócios como também um primo nosso, europeu casado com nossa prima, que vou chamar de Eddie. Estávamos na piscina ele, meu pai, Otto, Eduardo (Dado) meu irmão, e eu. Dado não sabia nadar e Eddie o jogou na água "para perder o medo e aprender".
 

Meu pai não gostou muito, pulou na água e pegou o Dado que já se engasgava.
Eddie então perguntou para mim, se eu sabia nadar. Respondi que sim.
 

De fato, não sabia, mas fiquei morrendo de medo que ele me jogasse também.
Eddie tinha umas brincadeirinhas perverso-sarcásticas que eu abominava.
Meu pai saiu da água e comentou comigo:
-- Vê se isso é jeito de ensinar alguém a nadar... coisa de estrangeiro mesmo... - bem Otto Krausz!
 

Foi esta situação e o medo dele se aproximar de mim em outro momento, que me fizeram querer aprender a nadar. Mas sozinha! Afinal vi que alguns poderiam me sacanear.
Assim, enquanto os ditos grandes iam para a náutica mostrar seus feitos, eu ficava criando coragem de passar da piscina média para a funda. Aquele incrível buraco... me permitia ver quando ela estava sem ninguém e eu poderia ir para o outro lado... e assim foi... Muitas tardes de domingo.

E passei a dar voltas inteiras me segurando nas bordas e batendo os pés... criando coragem de me soltar... Até que soltei! Lembro-me que de repente já me soltava e, numa tarde qualquer, Eddie estava lá e me viu nadando. Tive certeza de que ele não me jogaria.
Algum tempo se passou. Tornei-me íntima daquelas águas e arrisquei-me no trampolim. Primeiro o mais baixo. Depois  aquele que, para mim, imenso. Jamais vou me esquecer que subi. Mas quando lá em cima, aprendi que alguns passos na vida, não têm volta. Teria que seguir em frente agora que já subirá as escadas. E mesmo com muito medo, pulei!
Um segundo e uma eternidade.
Quando nos lançamos para a vida, cientes de que muito embora não saibamos como vai ser, temos certeza de que quando nos arriscamos, mergulhamos no novo. E são apenas alguns segundos para percebermos que sobrevivemos!!
Lição inesquecível: Nunca voltar atrás!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Clique na foto acima ou aqui para ver o filme da construção da lancha Bebel, pelo estaleiro Florio.

 

 

 

 

 

 

 

 

Meu irmão, Alvan, filma Tarcisio e Anik em locação no porão do Teatro Maria Della Costa.

 

 

 

 

Meus tios Otto e Jeannette Krausz e meus pais, Wanda e Alfredo Vasconcellos, numa festa de aniversário do Castelo, nos anos 1960.

 

 

Clique aqui ou na foto e veja clip sobre  filme produzido por nós, adolescentes, nos anos 1960, com cenas no Castelo.

 

 

 

 

 

 

Ludmila, com a rosa nos cabelos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto da Casa de Barcos, por página Facebook do Clube de Campo do Castelo.

Essa foto da Vera, abraçando minha mãe, Wanda Gonçalves de Almeida Vasconcellos, observada por minha tia, Jeannette de Almeida Krausz, é um fotograma de filme 16mm, feito na praia do clube, ao lado das queridas árvores, na velha náutica que continuava a ser uma série de barracões de madeira onde se guardavam os barcos, na praia imediatamente à frente do caminho das árvores, que descia da sede.

 

Ali, exatamente, meu pai filmara, em 1937, sua primeira estada no Castelo, então residência de Robert Kutschat.
 

Crescemos com ele

Nadávamos na represa e víamos os poucos barcos do Castelo descerem a rampa de cimento que avançava água adentro.

Depois, a piscina ficou pronta e, então, quando íamos até a praia, os barcos – guardados em improvisados barracos de madeira – já não eram mais poucos. Justificavam a construção de um baita quiosque, no meio da grama, onde funcionava o bar do Rodrigues.

Seu nome era Hipólito Frutuoso Rodrigues. Um sujeito baixinho, muito simpático, que fazia a melhor caipirinha das imediações. Isso a se crer na palavra dos adultos. Levei alguns anos para ter permissão de provar a tal da caipirinha do Rodrigues.

Nessa época, talvez 1961 ou 62, o salão de festas ficou pronto. Construído ao lado do Castelo, tinha uma passagem para a sala de vidro, tem um pé direito enorme e o telhado em forma de pirâmide, as vigas de madeira no teto, tudo combinando maravilhosamente com o Castelo.

Ali passaria então a funcionar regularmente o restaurante do clube, ali aconteceriam festas inesquecíveis.... Quem ficou com a concessão do restaurante? O Rodrigues, é claro, ajudado pelo irmão e um séquito de cozinheiros. Uma das minhas primas, que morava em Belo Horizonte, cidade de seu pai, Avani de Almeida Marques, quando estava passando férias escolares na nossa casa, costumava ir ao clube e se meter na cozinha do Rodrigues para preparar batidas de amendoim, com todo um ritual de grandes risadas.

Mais de vinte anos depois, como concessionário do bar e restaurante da náutica, Rodrigues pilotou a festa de Bodas de Ouro dos meus pais..., mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez.

O Castelo, assim, estava crescendo. E nós com ele.


Um dia, um barco

Eu devia ter uns dez anos quando vejo entrar no escritório do meu pai uma enorme caixa de papelão com o desenho de um motor de popa: Singer, 40 cavalos... a mesma marca da máquina de costura da minha mãe. Estava eu acostumada a ver entrarem grandes caixas de madeira pela entrada lateral da nossa casa, que levava ao escritório e ao laboratório de cinema do meu pai. Filmar era um processo ótico e químico, bastante complicado. Exigia várias máquinas, também complicadas. Muitas delas, meu pai construía, outras, tinha que importar.
Mas aquela caixa não era uma máquina... era um motor... só estava faltando o barco!

Durante alguns meses, em absoluto segredo, meu pai filmava, em cores, a construção da lancha que ele encomendara ao Flório, dono de um estaleiro ali ao lado da Barragem da Guarapiranga, bem no comecinho da avenida do Socorro.

Era uma lancha incrível, com um design incrível e com uma técnica de construção mais incrível ainda.

Graças a Deus que temos o filme para provar porque, contando, quase ninguém acredita.

O casco era feito de ripas de madeira, colocadas sobre uma forma, em três camadas em sentidos diferentes. Depois lixava-se tudo, envernizava-se e tirava-se da forma. Pronto. Um barco muito mais leve do que os pesadões de madeira maciça (fibra de vidro estava para nascer ainda). Tudo isso eu só vim saber muito depois.

Um dia, meu pai me disse: -- Vamos até a represa.

Fomos. Estávamos de pé na barragem, exatamente como no dia em que, havia dois anos, ele me mostrara a torre do Castelo pelo binóculo. Naquele dia um lindo barco de madeira escura e motor de popa fazia piruetas bem perto de nós. O seu casco, em V profundo, permitia que ele fizesse curvas quase a tombar de lado.
-- Nossa! Que legal aquele barco! – Exclamei.
E ele:
-- Você gostou?
-- Gostei!
-- Ótimo. Porque ele é seu.

Era meu. Chamava-se Bebel e depois do Singer 40 teve um motor ainda mais possante, um Mercury 60. Pode parecer pouco, para os acostumados ao grande número de cavalos dos motores de centro dos barcos modernos. Não era. Para uma lancha leve como aquela, perfeito!
Na Bebel uma geração de primos e amigos -- e eu também, claro -- aprendeu a esquiar.

Meu pai tinha 53 anos quando saiu esquiando pela primeira vez. Naquele tempo, nessa idade, a maioria dos homens se portava como um velho e cansado avô.

Mas meu pai tinha esse encanto, essa generosidade e uma profunda alegria em fazer felizes os que estavam por perto. Não apenas os da família, mas todos, os empregados, os que prestavam eventuais serviços....

 


Lembro-me o dia em que ele trouxe um funcionário do Jockey Club para a nossa casa. Um homem humilde. Apresentou-o a nós e disse que o homem era músico. Meu pai e minha mãe gostavam de fazer música, ela ao piano, ele no violão, no cavaquinho, na flauta transversal ou no saxofone. Tinha três saxofones. Naquela noite mostrou-os ao tal músico e perguntou: -- Qual deles combinaria melhor com você? E o homem: -- O dourado. Meu pai disse apenas: -- OK.
Pegou o instrumento, colocou no estojo, entregou-o a ele e disse: -- Então ele é seu. Pode levar.
Foi a primeira vez que vi um homem com lágrimas nos olhos.
-- Mas, seu Vasco, eu não tenho como pagar ao senhor por um instrumento desses...
-- Pagar o que? É um presente.

Era assim o meu pai. A alegria dos outros o gratificava.
As crianças e os bichos se aconchegavam perto dele. O Velho Vasco, o tio Alfredo, era o querido de todos. E não era diferente com os empregados do Castelo. O clube ficava fechado às segundas feiras, como era o costume da época. Mas ele, que era o Diretor de Patrimônio, ia lá. Era o dia em que checava tudo, até os trincos das portas, trincos de vidro, que deveriam estar sempre brilhando... Ás vezes eu ia com ele, aprendi então a sua maneira de relacionar-se com seus subordinados. Se era exigente para com o cumprimento das tarefas, era também atencioso e sempre procurava saber um pouco da vida de cada um deles. Todos o amavam.

Também era às segundas-feiras que, nos dezembros, ele organizava a festa de Natal dos funcionários. Havia presentes para as crianças e até eu, numa dessas ocasiões, me vesti de Papai Noel para entregar os mimos aos filhos dos empregados.

 

O Castelo, a TV e a esnobada no Jô.

 

Em 1960, graças a uma lei protecionista do Jânio Quadros, todos os produtores de cinema corriam atrás de roteiros para séries brasileiras de TV; só uma vingou: a famosa "Vigilante Rodoviário" de Alfredo Palácios.

 

A Vascotécnica Filmes, empresa de meu pai, começou a produzir duas séries.

 

Uma, com Tarcisio Meira e Anik Malvil, como protagonistas, direção de Antunes Filho, ficou com seu primeiro episódio quase pronto.

 

A segunda, ficou só papel.

 

Todos os produtores pararam suas séries quando Jânio renunciou à presidência do Brasil e a lei protecionista caiu junto com ele. Naquele tempo, um episódio nacional sairia por X dólares, mas as series estrangeiras saiam por X/3... só mesmo com a lei!

 

No entanto, a segunda série que meu pai e meu irmão Alvan estavam preparando seria toda filmada no Clube de Campo do Castelo.

 

Assim, a menina que eu era em 1961, acompanhava de perto os movimentos dos artistas e fui com toda a equipe examinar de perto os cenários que seriam usados no Castelo.

 

Os protagonistas dessa série seriam os estreantes Regina Duarte e Jô Soares, que estiveram no Castelo. Eu tinha uma caderneta de autógrafos com a assinatura dos grandes nomes da TV Excelsior, então líder de audiência, onde meu irmão Alvan trabalhava. Ele me disse, naquele dia: -- Você não vai pegar um autógrafo do Jô? E eu: -- Imagina, nem sei quem é esse gorducho!

 

Trinta anos depois, Alvan encontrou o Jô num vôo da ponte aérea e o convenceu a dar uma das poucas entrevistas que ele deu na vida para o programa Papo&Repapo, nossa produção na TV Gazeta. Contei esse lance pra ele e acho que foi por isso que ele resolveu dar o nome de "Isabel" a uma cachorrinha que ele tinha... hahaha!

 

 

Todos os Comêços

Cresci. Virei adolescente. O primeiro amor? No Castelo, é claro.
A primeira caipirinha? Feita pelo Rodrigues, é claro.
E o primeiro baile?

Eu tinha 14 anos. Meus pais saíram, todos chiques e bem produzidos, de terno, ele; de vestido de festa, ela. Iam para o baile de gala do aniversário do clube. Implorei para me levarem junto. Necas. Inflexíveis: “é só para maiores de 16 anos”.
Argumentei: Mas eu já sou grande, pareço ter 16, me levem...
Não teve jeito. Fiquei lá, triste, vendo TV.

De repente, visitas. Era o Sr. Camargo, com seus dois filhos, Carlinhos e Maria do Carmo, nossos amigos da náutica do Castelo. Carlinhos, talvez 17. Minha amiga Carmo, a minha idade. O pai deles me disse:

-- Vá se arrumar. Você vai com a gente. Não concordo com essa história dos seus pais deixarem você para trás.

Uau!!! Que felicidade! Escolhi o mais belo vestido de festa, me maquiei e lá fui eu, para a surpresa dos meus pais, ao meu primeiro grande baile, de adultos, no Clube de Campo do Castelo!

O passar dos anos, então, passou a ser marcado pelo calendário de festas do Castelo. Réveillon. Pré-Carnavalesco. Carnaval. Aleluia. Festas Juninas, com quermesse e fogueira de verdade. Na primavera, Baile do Hawaii. Em outubro, festa da cerveja. Em novembro, Baile das Debutantes... O nosso, onde “debutei”, foi o primeiro deles.

Os muitos amigos que frequentavam a nossa casa – uma espécie de “clubinho” dos adolescentes dos anos 1960 – também iam sempre ao Castelo. Aprenderam a esquiar. Frequentavam as festas. Almoços enormes aos domingos, no salão, com o Rodrigues servindo a garotada. Festa eterna.

Éramos os jovens que iriam mudar o mundo. “Faça amor, não faça a guerra”, make love, not war. Não confie em ninguém com mais de 30 anos. As cordas dos violões cantavam o amor, o sorriso, a flor, nos versos bossanovenses de Vinicius e Tom.

Havia uma enorme efervescência cultural na juventude dos anos 1960. No Brasil e no mundo. Era tempo de grandes discussões, de grandes pensadores, de inesquecíveis poetas. Tempo dos Beatles. McLuhan previa que todos teriam, no planeta, seus 15 minutos de fama, muito, muito antes da Internet e do Facebook.

Simone de Beauvoir e Sartre. Roberto Carlos e Caetano Veloso. As cabeças ferviam, muitas vezes antagônicas. Era a geração que procurava caminhos, que ia à lua e que não queria que o mundo acabasse sob a explosão de uma grande bomba atômica.
Tudo isso rolava lá, entre amassos, encontros e desencontros, na praia, na torre, no bosque e nos salões do Castelo.

As árvores nos observavam. E aplaudiam.
 

Uma árvore que se chama Ludmila

 

Nos seus últimos meses de vida, minha mãe morou numa casa de velhos, em Moema. Era a casa que menos se parecia com um depósito de velhos. Ficava bem pertinho da Rede Mulher de Televisão, onde eu tinha meu programa diário e ao vivo.

 

Todos os dias eu ia vê-la. Ela tocava piano no caramanchão e depois nos sentávamos a uma mesa de jardim, branca, que ficava sob uma linda árvore florífera.

 

Era o ano de 2006 e, em junho de 2007, aos 95 anos de idade, minha mãe morreria.

 

Mas, sob aquela árvore, tomamos muita cerveja, rimos bastante e comemos batatas noisete quentinhas, que eu preparava no forno da cozinha da TV, para a delícia das cozinheiras: uma apresentadora no fogão!

 

Um dia, perguntei à Graça, a dona da casa, se a árvore, cuja sombra nos abrigava, perfumando o ar, tinha nome. Não tinha. Eu disse:

-- Peço sua licença então para batizá-la como Ludmila.

 

Até hoje, dez anos depois, a árvore é conhecida por esse nome. Foi uma homenagem, com três décadas de atraso, a uma pessoa muito querida para mim.

 

Ludmila foi a minha grande amiga no Castelo, nos anos 1960. Mais velha do que eu, que tinha 15, talvez tivesse ela 19 ou, no máximo, 20 anos. Mas, para mim, naquela idade, era uma enorme diferença e eu a tinha por velha e sábia. Ela sempre me dizia:

 

-- Bel, peça pro seu pai te emancipar, faça exames de madureza e vá para a Universidade. Você já deveria estar lá. Está mais que pronta para isso.

 

Ela me apresentou a Herman Hesse, algo realmente inesquecível.

 

Seus pais haviam escapado da Tchecoslováquia, então sob a bota da União Soviética.

 

Do alto da nossa extrema juventude, filosofávamos, ela e eu.

Tínhamos a fórmula para salvar o mundo.

 

Não sei como ela saiu da minha vida. Lembro-me vagamente de, mesmo depois de deixar o Castelo, termos nos encontrado várias vezes e, mais vagamente ainda, creio que ela tenha ido estudar no Rio, ou nos Estados Unidos, não sei.

 

O fato é que, como é tão comum na vida, nossos caminhos se distanciaram. E não consigo mais me lembrar qual era a fórmula para salvar o mundo.

 

Minutos Eternos

 

Às vezes vivemos momentos de um súbito encanto, momentos que sugerem aventura, amorosa ou sexual. Mas que nunca se concretizarão porque os impedimentos sociais são muitos.

Porém, na memória, continuam esses momentos nos encantando quando, sem motivo aparente, nos lembramos deles.

Talvez se impedimentos não existissem e os momentos se tornassem mais que momentos, a lembrança se perdesse entre tantas outras semelhantes e, banalizada, perdesse também o encanto.

Esse momento, que encontrei em meus antigos diários, aconteceu quando eu tinha 16 anos. O personagem principal já deve ter partido dessa vida...

 

Segunda feira, 02 de outubro de 1978 escrevendo sobre

ALGUM DIA EM 1967

Lembrei, para Beth, ontem à noite, uma história deliciosa.

 

Eu teria uns 16 anos. Estávamos na represa numa tarde de verão. Dois amigos, o pai deles (que era um coroa lindo, de arrepiar os cabelos) e eu, numa craker box de fundo v. Uma lancha muito potente mas com um casco horrendo. Lugar, mal e mal, para duas pessoas e os esquis.

Os dois meninos, meus amigos, treinando na pista, o coroa e eu na lancha.

 

De repente, uma tempestade de verão com um noroeste de fazer a represa parecer oceano, ondas mil. Vento e chuva. Seria impossível voltar ao clube com quatro pessoas dentro do barco. Ninguém, por mais equilibrista que fosse, conseguiria, em tais circunstâncias, manter-se em cima do deck. A única solução seria voltarmos assim: dois dentro do barco e dois esquiando.

 

Éramos todos bons de esqui. Ninguém morreria por esquiar no meio das marolas. Mas os meninos estavam cansados, então... Então fomos para o clube, debaixo da tempestade, assim: os dois meninos na lancha e o coroa lindíssimo e eu esquiando.

 

Quer dizer; o coroa e eu, tentando nos manter sobre o esqui, mal podendo abrir os olhos, a 20 milhas por hora, os terminais das cordas unidos, a mão esquerda dele na minha mão direita a água machucando os rostos e risadas, meu Deus, risadas...

 

Um Fim

 

Em 1970, meu pai se desentendeu com a diretoria do Castelo.
Uma grande casa de barcos – a nova náutica – seria erguida no canto esquerdo da praia que cercava o clube. Mas lá, dizia meu pai, era o primeiro lugar onde a água sumia, nos tempos de seca, quando a represa baixava e, às vezes, deixava ver os velhos “tocos” das antigas árvores que lá estavam, antes do vale ser inundado, em 1908, para a construção da Guarapiranga.

Não foi apenas isso. A chegada da inflação galopante, a proibição das importações pelo governo da Ditadura militar – que arrochava cada dia mais as liberdades –
Tudo isso fazia com que a nossa família passasse por dificuldades, afinal, o laboratório de cinema do meu pai, vivia basicamente de matéria prima importada.

Ele engoliu o voto vencido que foi, na construção da nova casa de barcos.
Mas um dia, quando o guincho, já na nova rampa da nova casa de barcos, puxava a carreta da nossa lancha para fora d’água, nós dois dentro do barco, ele me disse:
-- Minha filha, pegue tudo o que é seu aqui no barco porque eu acabo de vende-lo.


 

Lembrei da Maysa: Meu mundo caiu!

-- O que? Você vendeu o meu barco?

-- Sim. E também o título do clube. Vamos passar, a partir de agora, nossas férias e feriados em outro lugar, no apartamento da sua tia Bebé na praia de Itararé, na fazenda da família de sua mãe, em Juiz de Fora, mas não mais no Castelo.

Acho que foi ali, naquele momento, que eu aprendi a não me desesperar com as perdas que a vida nos impõe. Acho que foi ali, naquele momento, que eu aprendi a engolir o sapo, por mais indigesto que esse me parecesse. Dignamente, aceitei a nova realidade: sem barco, sem represa, sem Castelo.
“Nenhuma lágrima derramei por você.”
Mas, por dentro, meu coração começou a sangrar.
Sobrevivi.
Afinal precisava viver ainda, a segunda e a terceira histórias...

 

 

 

 

Capítulo 2 – Minha Segunda História no Castelo

 

A noite e o dia

Troquei o dia pela noite. Com meu primeiro marido e com minha grande amiga, Diná Lopes Coelho, diretora do Museu de Arte Moderna, aprendi a beleza da vida noturna em São Paulo.
 

Bares onde se cantava música popular brasileira, como o Jogral e o Menestrel. Lugares onde se reunia a intelectualidade paulistana, como “clubinho” da Avenida São Luiz ou o próprio bar do MAM, no Ibirapuera, um bar concebido e decorado pelo grande mecenas, Ciccillo Matarazzo, e que sempre me lembrava a boate (hoje PUB) do Castelo. O Balacobaco, da Rua Santo Antônio, onde desfrutávamos da maravilhosa companhia do costureiro Denner e da musa de Noel Rosa, Aracy de Almeida.
 

Eram os anos setenta. Os anos da grande repressão ao pensamento, da censura à imprensa, inclusive ao jornal, é claro, onde eu escrevia. Censura até na TV Globo, que todo mundo acreditava aliada da ditadura e onde meu irmão Alvan era executivo. Havia a guerra Mackenzie-USP. Havia a notícia, velada, subversiva, de amigos da adolescência sendo presos e exilados. Havia os dedos-duros nas salas de aula das nossas universidades...

Um dia, me enchi! Já tinha me divorciado (aliás, desquitado... o divórcio só chegou às leis brasileiras em 1977), já tinha morado na Bahia, já tinha cansado de censura e de autocensura, de amigos sumidos, do terror por detrás do “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Não. Não quero mais salvar o mundo, quero voltar para o mundinho encantado da minha infância.

-- Pai, com o que eu ganho hoje, não posso. Mas, se você me ajudar, podemos comprar um título do Castelo para mim? Quero trocar a noite pelo dia...
 

O Velho Vasco ligou para o clube, comprou um título para mim. Agora eu era a sócia-proprietária, número 3413.
 

São do meu diário, daquele tempo, os textos abaixo:

 

*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1979 agosto 03


Tem um pouco de mim -- e muito, mas muito mesmo, da minha vida—naquelas arvores, naquela alameda de eucaliptos que desce até a praia. Ah. Quanto de mim tem naquela praia de areia artificial e na água imunda e marrom da represa do Guarapiranga.

Tem muito do que eu sou naquela grama imensa onde, em noites, quase noites, de entardecer vermelho e lua cheia despontando, os vagalumes viram estrelas.
E, então, caminhamos pelo Cosmos.

Tem uma história. Tem a minha história, pequena e imensa. A minha infância. A adolescência. A descoberta do amor e da sacanagem das pessoas, a nossa.
E tem Beatles, tem Sartre e Herman Hesse.

Naqueles salões e naquele barzinho-boate tem a descoberta do vinho, do tempero, do papo.
Lá tem muito de mim.

Então aquele pedacinho do planeta se torna meu. Meu, de um jeito que só eu é que sei, só eu é que posso saber. Eu não disse. Eu nunca digo. Sou uma orgulhosa. Mas eu sei bem a falta que aquilo me fez.

Voltar para lá, voltar ali, eu, mais velha, mais madura, milhares de anos luz depois, vai ser bom. Vai ser lindo. 50 mil cruzeiros, afinal, é um preço bem baixo para poder renascer...

 

“Por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha no ar” – Roberto Carlos
 

1979, agosto, 30


Esta tarde fui ao clube. Embora tivesse dito que só iria ao clube quando pudesse frequentá-lo realmente, isto é, quando acabassem as transações burocráticas legais. Mas fui. O dia estava um tanto enfarruscado, só meio azul. Sou inegavelmente uma vaca sentimental. Pergunte se eu estava emocionada... estava.

Comecei pelo começo mesmo.
Entrei no castelo, vi as salas de baixo e subi. No segundo andar, na sala de jogo, escorreguei na cera molhada e acabei conhecendo uma funcionária que me ofereceu um café e quando soube que havia quase dez anos que eu não ia lá e que meu pai foi diretor do clube por muitos anos, resolveu mostrar-me pessoalmente as mudanças da sede.

Há um salão novo onde funcionam discoteca e cinema.

No lugar da cozinha, sala de exposições. O salão de festas também está diferente. O palco cresceu e mudou de lugar. Construíram novos sanitários e camarins. Onde ficava a cozinha do Rodrigues, uma sala de TV e uma de exposições.

A piscina agora tem uma parte olímpica e mais uns 5 ou 6 m para saltos. Há nova piscina para crianças, uma vez que a dos adultos ocupa toda a área onde antes estavam as duas.

Ainda o mesmo número de quadras de tênis, basquete, bocha, etc. Ao lado da piscina (onde era o antigo vestiário) há um barzinho genial que serve tanto à piscina quanto às quadras, onde tomei meia cerveja gelada por 10 cruzeiros.

Na Praia não mudou nada. Exceto que há um novo bar, bem grande, que é do Rodrigues. Rodrigues já tinha ido embora. Pena.

 

Andei por toda a área da represa, de ponta a ponta. Sai da casa de barcos e fui andando até o portão oposto.

Foi aí que bateu um vento de passado.

A represa está bem baixa e quando cheguei à praia onde, antigamente ficavam os barracões dos barcos e dei de cara com a velha rampa que o papai construiu e com aquelas árvores ande a gente estacionava os barcos quando a represa estava alta (para comer empadinhas...) e senti o vento no rosto...poxa vida! Parecia que eu estava vendo a gente ali, os esquis, o pessoal todo, os almoços improvisados e a caipirinha do seu Oscar....

Ainda está lá também aquele quiosque onde o Rodrigues montou seu primeiro boteco. Foi ali, bem naquele pedaço, que eu tomei a minha primeira bebida, que eu me apaixonei pelo primeiro cara.

Tratei de ir embora depressinha. O clube está mais bonito. A piscina, a parte da piscina, principalmente.

Sabe, parece que estou sonhando.

Sempre fui orgulhosa demais, para admitir a falta que o clube me fez. Não sou dessas pessoas que se desliga facilmente das coisas. Aquele lugar, para mim, é o "meu" começo.

Ah.... Quando eu saí da casa de barcos, disposta a fazer a volta completa da praia, tinha um sujeito atrás de mim, caminhando também, em direção às quadras de tênis. Ele vinha assobiando o “Força Estranha”.
Ele não, sabe, mas me fez o favor de fornecer o fundo musical perfeito. Bem isso.

Agora, pelo menos, já posso ir à Guarapiranga sem ficar deprimida, sem ter a sensação de aquele lugar, aquela represa nada tem a ver comigo.
Alguns anos longe do Castelo. Não conte para ninguém..., mas foi uma barra!

1979, setembro, 29, sábado,
10h00 da manhã, no clube

Há seis dias estou aqui.

Revendo coisas, gente, e fazendo conhecidos, até amigos. Hoje é sábado, o dia está lindo. Minha disposição é aproveitar todas as possibilidades.
As árvores que até dia destes se escondiam no fundo da minha memória, sabem tudo de mim.

E me fitam, em sua superioridade secular, com uma condescendência cheia de carinho, paciência e -- por que não? --amor.

Este chão é meu. Não apenas porque eu o possuo de direito (eu e mais 1.999 pessoas), mas porque sou eu, eu que pertenço a ele.
Estou de volta. Estou em casa.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jorge Tarcha e Wolker
Amigos do Danilo, tinham barcos cabinados também. Wolker, alemão, então diretor da Mercedes, tinha uma namorada mulata e não dava bola para os preconceituosos.
Jorge, engenheiro de formação, teve um problema legal e se decepcionou com a atitude dos advogados que contratara. Por isso, resolveu ele mesmo se tornar um advogado. Entrou na Faculdade do Largo São Francisco, USP, aos 56 anos de idade e formou-se com distinção.

 

 

 

 

 

Rita e Gene, Rita era a companheira que Gene dizia ter esperado por toda uma vida. Ele, um outro touro de forte, como o Douglas.

Fora piloto na Guerra da Coréia.

Nascera na Manchúria, filho de russos.

Contava, divertido, que um dia, na Av. Ana Costa, em Santos, um guarda de trânsito o levara preso por acreditar que sua carteira de habilitação era falsa, porque dizia que ele era chinês e, para o guarda, não existiam chineses louros de olhos azuis.
Rita era doce e querida e nos deixou prematuramente.

 

 

“Voltei. Aqui é o meu lugar.”
 


Quando voltei a frequentar o clube, meu primo Eduardo Zocchi, um dos que aprendera a esquiar na nossa lancha Bebel, tinha seus barcos lá. Uma lancha para esqui, um barco cabinado. Começamos a esquiar juntos. Só eu tinha paciência para dirigir a lancha, em dias gelados e cinzas de inverno, para que ele treinasse. E vice-versa.

Também encontrei velhos amigos do meu pai:
Alfredo Newman, o piloto de avião, casado com uma das pioneiras da TV, grande estrela de teleteatros da TV Tupi, Ana Maria Dias.
Danilo Lemos, ex-piloto de corridas de Interlagos, com seu maravilhoso barco Morning Star.
Gene, piloto na Guerra da Coreia, forte e musculoso depois dos sessenta, e sua esposa Rita.
E fiz uma amiga maravilhosa: Marinês, casada com Neils, então engenheiro da Boeing. A palavra “piloto” é comum a todos... Fui fazendo novas amizades na náutica.
 

Um dia, tomando sol na Grama UM, como chamávamos o espaço elevado e gramado sobre a praia, ao lado da rampa, na náutica, Marinês me disse uma coisa que me surpreendeu:
-- Você viu, Bel, o que fez depois que chegou aqui? Você uniu as pessoas, você criou laços onde esses não existiam. Hoje somos uma turma porque você fez de nós uma turma. Antes, éramos apenas conhecidos.

Uma turma na náutica, nos anos 1980

Turma do motor, não da vela. Mas não havia briga, não. Naquele tempo se aceitava com mais facilidade do que se aceita hoje, as opiniões e preferências alheias, diferentes umas das outras. Tinha também quem pertencesse aos dois grupos: motor e vela. Pois é, era sem briga.
Aqui, alguns deles, porque “Recordar É Viver”, não é?
Alguns, eu sei, já foram para o andar de cima. Um dia, nos encontraremos por lá.

 

Marinês, uma mulher à frente de seu tempo. Generosa. Mãe de dois filhos. Sempre em forma. Frequentava academia, coisa que, naqueles anos 1980, era hábito de pouca gente. No clube, enquanto Neils, seu marido, curtia o barco a motor, o negócio dela era WindSurf. Inúmeras conversas e confidências nas tardes de sol, na Grama Um. Aprendi muito com ela, sobre a vida.

 


Douglas, um touro de forte. Self made man, halterofilista e um tremendo esquiador. Uma das lembranças mais bacanas que tenho dele são os seus olhos brilhando, numa noite de festa na sede do Castelo, feliz da vida porque sua filha entrara na escola de Medicina.
 

Um dia, estávamos todos esquiando na Praia Azul (do outro lado do morro, um lugar protegido dos ventos, que deixava a água lisa como um espelho, ideal para se esquiar).

 

 

 

De repente, lá, naquelas duas ilhotas entre o Castelo e nós, um sujeito, num barco, tentava atirar nos gaviões. Dois gaviões. Douglas enlouqueceu: Aquele cretino! Tentando acabar com os poucos gaviões que restam.... Subiu na sua lancha e disparou para lá. Logo, vimos o barco do tal cara sumir do mapa... Sabe Deus o que Douglas disse a ele, mas boa coisa, certamente não foi.

Esse episódio me lembrou um outro. Muitos anos antes, meu pai levara um homem a passear na Bebel. Lá pelas tantas, o cara tira um revolver do bolso e começa a mirar nos pássaros. Meu pai, indignado, simula um defeito no motor do barco e volta para o clube, espumando de ódio.
O que há, no ser humano, que leva a esse desejo delirante de morte?
Lembrei-me que se comentava: Na ilha, a grande ilha à esquerda da baía do Castelo, houvera, um dia, uma grande população de bugios, macacos. Diziam então que os “caçadores” haviam exterminado todos.

Morrer na ilha.... Talvez o destino de Lucrécia, quem sabe? Quem é Lucrécia? Depois eu conto.


Danilo Lemos, quando o conheci não me lembrava de que ele fora um dos amigos do meu pai, na náutica. Era vinte anos mais velho que eu, desquitado, lobo solitário, sempre enfarruscado em seu barco cabinado, o Morning Star.

 

Nunca entendi como poderia haver tanta coisa num espaço tão pequeno. Tinha tudo lá: de artigos de toucador a primeiros socorros, fora as eternas garrafas de cerveja. Tudo na mais absoluta ordem.

 

Fora piloto, no autódromo de Interlagos, parceiro de Camilo Chirstofane, o homem das carreteiras. Ficou horrorizado quando eu disse que “Morning Star” era o nome do jornal do partido comunista inglês. Para ele, era apenas a estrela da manhã. Saía conosco quando íamos procurar águas livres de vento para esquiar. Seu barco era então uma espécie de “base” para os esquiadores.

 


Marilene, companheira de esqui, formada em Física pela Universidade Mackenzie.
Às vezes, sob o sol, estava estudando alguma coisa complicada, cheia de códigos e símbolos que nada mais eram do que as primeiras linguagens de computação. Marilene é pesquisadora e professora, hoje, na USP.


 

 

Cláudio Ferraz, mestre que formava mestres Arraes no clube, era o dono da única casa, que havia então ao lado do clube. Também era músico amador e me deu a honra, no dia 13 de maio de 1983, quando comemorei meu aniversário na boate do clube, de fazer a trilha sonora, ao órgão.

 

 

 

Meus pais, Wanda e Vasco, revendo o clube, com nossos amigos, em novembro de 1980.

 

 

 

 

 

Uma amiga bem diferente

O nome dela era Lucrécia, uma gata.

Uma gata vira-lata que apareceu do nada. Ficava vagando pela praia e pela grama Um.
Rodrigues, que agora era concessionário do Bar da Náutica, levou um susto quando viu que ela estava no meu colo.

Eu escrevia numa mesa ao ar livre, protegida pelo guarda sol, numa máquina vermelha que eu guardava no meu armário, no vestiário da náutica. Quase todos os dias, no clube vazio, eu escrevia lá. Minhas crônicas para o jornal, meus anúncios, releases, roteiros de filmes publicitários e até meus poemas, era ali que eu escrevia. Almoçava lá também.

Estava almoçando quando aquela gata, subitamente, pulou no meu colo.

É claro que ela estava de olho no meu bife. Cortei um pedacinho, dei para ela e ficamos ali, eu e ela, almoçando juntas ao lado da máquina de escrever vermelha, as folhas de papel quase voando ao vento, presas pela garrafa de cerveja. Foi então que o Rodrigues se espantou:

 

 

 

 

 

 


-- Bebel!! O que você fez para conseguir pegar essa gata?

-- Ué, não fiz nada. Foi ela que saltou para o meu colo querendo bife...
Ele balançou a cabeça, incrédulo:

-- Não.... Essa gata não. O pessoal aqui da cozinha põe comida para ela e sai de perto. Porque, quanto tem alguém próximo, ela não vem, nem quem esteja há dias sem comer...
Satisfeita, a gata em questão se aninhava nas minhas coxas, feliz da vida, sossegada e ronronando.

Fiz um carinho na cabeça dela e, desta vez, eu é que estava incrédula:
-- Tem certeza que é a mesma gata?
-- É – fez ele – aí no seu colo nem parece a mesma..., mas só tem ela aqui. E, pode crer, é arisca como o diabo.... Não sei o que ela viu em você.
-- Foi o maravilhoso cheiro do bife que você tempera... – respondi rindo.
-- Ah, não foi não. Ela não chega perto de ninguém, nem para comer. Tem medo de gente.
-- Ah, Rodrigues! Corta essa! Onde já se viu gato ter medo de gente?
-- Ela tem – disse ele limpando a mesa –e é fácil saber porque.
-- Por que?
-- Ela está aqui desde pequena e os marinheiros odeiam ela. Batem nela, jogam ela longe. Só não matam porque eu não deixo.
-- Mas por que, Deus meu? – Perguntei, agora acariciando com mais vigor os macios pelos dela.
-- Porque ela se enfia dentro dos barcos e faz xixi às vezes. Você imagina o trabalho que dá para os marinheiros eliminar o cheiro de xixi de gato de dentro de um barco...
Caí na risada, compreendendo o drama dos marinheiros. A (já naquele tempo) poluída água da represa do Guarapiranga deixava um cheiro horrível no estofamento dos bancos dos nossos barcos, imagine o cheiro de xixi de gato...

E esse foi o começo de uma grande amizade entre Lucrécia, a gata, e eu.

Ela não tinha nome e sabe Deus porque eu resolvi chamá-la de Lucrécia.
A partir desse dia, ela vivia ao meu lado. Se eu estava tomando sol na grama Um, com a minha amiga Marinês, ela vinha se deitar na minha esteira.

Se eu estava escrevendo na máquina vermelha, ela pulava no meu colo. E, quando eu saía para esquiar, ela ficava me olhando, parada no pontão, como se dissesse: estarei aqui quando você voltar.

Foi um louco e maravilhoso caso de amor: a gata Lucrécia e eu.

Nessa época eu ia todos os dias ao clube. Lá era o meu escritório, de segunda a sexta, e o meu lazer, nos fins de semana. Chegava cedo, de manhã. Entrava pela portaria “lá em cima”. Então de lá “de cima” eu gritava:
-- Lucréééciaaa...
E, acreditem ou não (não me importa, na minha idade, o que vocês acreditam) ela vinha – como se fosse um cão – ao meu encontro.

Mas eu era jovem. Não poderia mesmo entender que o meu amor por ela seria a sua perdição.
 


Foi assim durante alguns meses. Toda a nossa turma de esquiadores sabia que aquela gata vinha se enroscar em mim quando eu estava em terra. Ela me acariciava, passava sob as minhas pernas quando eu estava escrevendo, saltava para o meu colo e se esfregava em mim quando eu estava deitada ao sol (e ficava com os pelos oleosos de bronzeador).

Um dia, porém, chegando ao clube, gritei:
-- Lucréééciaaa...
E nada aconteceu.
De súbito, um negro silêncio invadiu-me a alma.

Corri em direção à praia.
-- Rodrigues, Abraão, cadê a Lucrécia?
Tinha sumido.
Nunca mais se soube dela. Alguns insinuaram que os marinheiros a tivessem levado para a ilha, aquela ilha isolada que fica em frente ao clube de Campo São Paulo. Outros disseram que um diretor do clube havia levado ela para casa... E outros ainda disseram que um tiro de espingarda e um saco de estopa tinham resolvido a questão.

Perguntei aos diretores. Ninguém nem sabia que ela existia. Fui à ilha com meu primo Eduardo Zocchi. Chamei por ela, procurei.... Nada. Tudo em vão.
Se, antes, os marinheiros acreditavam que, batendo nela, a manteriam longe dos estofamentos dos barcos que repousavam no estaleiro, agora sabiam que não podiam mais bater nela porque a Bebel, eu, a protegia...

Certamente o meu amor por ela a condenou.
E, até hoje, não me posso perdoar por esse amor.

 

Aquarela de Sérgio, diretor de arte da Solução Propaganda, 1980

 

foto algas anabaena -google

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Às quartas feiras

 

Os que moram em, ou os que conhecem a, São Paulo de hoje, terão dificuldade em acreditar nisso. Mas, no começo dos anos 1980, parte da nossa turma da náutica, às quartas-feiras, saía de seus respectivos trabalhos, na hora do almoço, pegava o carro, ia até o Castelo, esquiava e voltava – a tempo! – para o trabalho.

 

Era eu diretora de criação na Doxa Publicidade, do meu querido Chico Carvalho. A agência ficava no Largo Senador Raul Cardoso, bem em frente onde, até hoje, é a Cinemateca de São Paulo. Ao lado do Ibirapuera. Até o clube, são cerca de 20 quilômetros. Com o trânsito hoje, de uma hora e meia a três horas.
Naquele tempo, eu ia em 20 minutos, no máximo. E voltava no mesmo tempo. Na hora do almoço.
 

Não era, porém, apenas o trânsito muito diferente em São Paulo, nos anos 1980.

Por toda a minha vida, nas férias, no clube, na piscina da minha tia Jeannette, e em outras oportunidades de lazer na cidade, eu ansiava por um dia de sol. Um dia de sol era artigo raro na minha São Paulo, até o começo dos anos 1990.

 

Os dias eram cinza, de garoa, sempre muito frios, ainda que fosse verão. Por isso, quando a quarta feira era de sol, quase todos nós, os mais chegados da turma da náutica, zarpavam, voando baixo em seus automóveis, para dar uma esquiadinha no Castelo, na hora do almoço.

 

Numa dessas quartas-feiras, nos surpreendeu a água da represa, defronte ao clube, completamente parada, lisa, “um espelho”, dizíamos então, como nos dias, também raros, em que não havia absolutamente nenhum vento. Mas estava ventando! E bastante.... Chegando mais perto, vimos que a água estava espessa, coberta por uma camada verde, como se uma gelatina. Eram algas, soubemos depois, minúsculas algas que flutuavam criando aquele “tapete” verde.

 

Lá fomos nós, levando, com nossos esquis slalom, leques verdes de água... Aquele, porém, não era exatamente um fenômeno “natural”. Era resultado de extrema poluição na água já tão suja da represa do Guarapiranga. “Anabaena” – o nome, lindo, daquelas minúsculas plantinhas.

Passamos bons momentos esquiando no Castelo, não só nos anos 1960, como também no começo dos 80.

Eduardo Zocchi, meu primo, um dos que aprendera a esquiar com meu pai, na nossa lancha Bebel, já era um campeão do esporte. Assinávamos revistas americanas sobre esqui, revistas onde vi, pela primeira vez, um código de barras, hoje uma das coisas mais corriqueiras.

Como eu disse, fazia frio em São Paulo, mesmo no verão. No inverno então.... Estávamos no final de junho, 1981 e, no clube, acontecia uma festa junina, com quermesse, fogueira e muita gente encapotada, japonas e cachecóis.
 

Naquela tarde, Eduardo e eu estávamos sozinhos na água da represa. Só dois malucos como nós poderiam se aventurar na água gelada para treinar. Ele estava aprendendo a “solar” – esquiar sem esquis, na sola dos pés.
 

Acontecia assim: esquiando normalmente com um só esqui, ele colocava um pé na água até sentir uma certa sustentação e daí tirava o outro pé de cima do esqui para continuar esquiando... sem esquis. Um tombo atrás do outro. Ele conseguia, por alguns metros. Caía. Eu, pilotando a sua lancha, a Savage, dava a volta, pegava o esqui que ficara flutuando sozinho, trazia de volta para onde ele estava, ele calçava o esqui, saía de dentro d’água e começávamos tudo de novo.

 

Nós dois, de roupa de borracha, comendo chocolate e eu, tomando o conhaque que o Rodrigues colocava em pequenas garrafas de guaraná, para facilitar a minha vida.

 

De repente, cansamos. Assim, resolvemos amarrar o barco no pontão e subir pela grama até onde estava acontecendo a quermesse, com barracas que serviam coisas quentes e delícias calóricas típicas dos dias invernais de junho.

 

Imagine a cena. Eu, cabelos abaixo dos ombros, encharcados. Nós dois, descalços, com a água escorrendo de dentro das nossas roupas de borracha, aparecendo de repente entre as pessoas normalmente encapotadas, super agasalhadas.... Parecíamos dois ETs...
 


Bodas de Ouro

 

Outra boa lembrança, então, que me ficou do Castelo, aconteceu dia 23 de dezembro de 1983.
 

Nesse dia, meus pais completavam 50 anos de casados. Resolvemos fazer a festa no clube. Mas não no salão de festas, nem na sede e sim no restaurante que havia no segundo andar do bar da náutica.

 

Minha prima Avani veio de BH e ficou encarregada da decoração: o teto forrado por flores naturais.

Caetano encontrou, no Bexiga, alguns profissionais do chorinho para fazer a música, a música que meu pai tanto tocou em seus violões, cavaquinhos, flautas transversais e saxofones.

 

Todos os nossos parentes de fora de São Paulo vieram para a festa e todos os amigos do meu pai e da minha mãe. A diretoria do clube estava representada pelo Tirelli, também amigo do Velho Vasco.

Nessa foto, lá na festa das Bodas de Ouro, alguns primos, Caetano, meu pai e minha mãe, assistem a vídeos dos velhos filmes domésticos feitos pelo meu pai, da série que ele chamou de “Recordar É Viver”. Em 1983, o videocassete ainda era uma novidade e os filmes foram “telecinados” – passados para vídeo – na produtora do grande amigo da nossa família, Pedro Paulo Hatheyer.
 

 

 


Por Fim, Mais um Fim

A lembrança não tão boa é a de um dia, ter tido uma otite brava, daquelas que me fazia chorar de dor, apesar dos medicamentos receitados pelo otorrino do Hospital São Luiz. Lembro-me do meu pai, no meio da noite, chegando com uma bolsa de água quente para colocar sobre o meu rosto, na tentativa de diminuir a dor. Diagnóstico: inflamação causada por microrganismo presente em águas poluídas.
Eram os anos 1980 e a represa já estava parecendo impraticável.

Alguns anos mais tarde, Eduardo deixou o clube. Construiu uma casa numa represa afastada da capital, de águas mais puras, e levou seus barcos para lá.
 

Mas então, eu já estava casada com o Mauro Caetano – que não gosta de água, de barcos e nem sabe nadar – e já estava também mergulhada no mar da televisão brasileira, produzindo três programas e apresentando outro. Nos mudamos para a Avenida Paulista (onde moramos até hoje) em 1985. Fui me afastando do clube, que ficou cada vez mais “longe” por causa do trânsito que crescia assustadoramente na cidade.

Em 1987 me avisaram que eu perderia meu título, se não pagasse as manutenções atrasadas. Manutenções de que? – Pensei – Não tenho mais tempo para o Castelo, com tanto trabalho na TV, numa época em que nossos programas literalmente viajavam de avião, em enormes fitas de vídeo U-Matic para poder ser exibidos em outras capitais do país. Muito diferente de hoje, que qualquer pessoa pode transmitir ao vivo, por computador ou celular, para qualquer parte do mundo.
E nós viajávamos muito também, para fazer programas ao vivo, em outras emissoras, para fechar contratos de patrocínio, essas coisas. Perguntei se o valor do título cobria as manutenções atrasadas, eu me esquecera completamente do assunto e não pagava mesmo havia já algum tempo. Não só cobria, como ultrapassava. Assim, deixei de ser sócia do meu encantado Castelo da infância e da juventude. Meu encanto agora estava na telinha e na minha carreira na TV.

Isso foi em 1987. Nunca mais voltei lá até.... Até...

 

 

A mais bela foto de esqui que fiz em toda a minha vida. 1981.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo 3 – Minha Terceira História com o Castelo

 


Até....o amor esquecido reviver dentro de mim quando conheci, pela Internet, Susana Campanhã, a primeira presidente mulher do Clube de Campo do Castelo, três décadas mais tarde. E, então, acabar sendo convidada para ir à festa de aniversário do clube. Convidada e homenageada.

 

No final de 2016, Susana e eu nos tornamos amigas no Facebook. Ela falava em reconstruir a memória do clube. Falava, com entusiasmo, no trabalho de sua Diretoria, recuperando o que estava, há tempos, um tanto abandonado no clube todo.

 

Mas as páginas do Castelo, no Facebook, traziam imagens lindíssimas do clube.

 

Toda aquela conversa sobre o Castelo e sua história foram revivendo dentro de mim grandes momentos e grandes emoções que que vivera ali, não apenas da minha infância e juventude, mas também da enorme alegria que reinava, nos anos 1980, entre a nossa turma da náutica.

 

O Castelo é muito grande. Tinha (e certamente ainda tem) várias turmas: a da náutica, a do tênis, a da Bocha, a da piscina, a do jogo,a do churrasco, a das festas...

 

Todas certamente seriam alegres, num lugar mágico como aquele, que inspira em todos os melhores sentimentos, sentimentos que nascem da extrema beleza do lugar, de sua localização ímpar, de um bosque maravilhoso, em meio à uma imensidão de água...

 

Fui me lembrando, aos poucos, dos amigos, das horas felizes que passamos lá, da Lucrécia e do meu "escritório" numa das mesas do bar do Rodrigues, ao ar livre, à beira de represa, com minha máquina de escrever vermelha, de onde saíram tantos livros, textos, crônicas para o jornal, filmes de publicidade.

 

Lembranças que, de fato, há 30 anos me incomodavam. Como se fosse mais uma perda da minha coleção de perdas, pela vida.

 

Saí do clube, em 1987, por descaso, por estar mais encantada com a minha nova vida da TV e bastante desencantada com um mar de intrigas que começou a me envolver na náutica, a partir de telefonemas anônimos que alguém dava a todas as mulheres da náutica alertando-as para "o perigo" que eu significava para seus casamentos.

 

Hoje é de morrer de rir. Mas na época me pareceu provinciano, machista demais, e nublou, como que por encanto, toda a alegria que eu vivia ali, na turma da náutica.

 

No entanto, parecia uma perda. Como uma cicatriz que ainda dói quando se toca nela.

 

Por isso hesitei um pouco antes de aceitar o convite de Susana, em julho de 2017, para ir, como convidada especial dela, à Festa de Aniversário de 58 anos de fundação do clube. Até falei sobre isso com algumas pessoas. Meu amigo Volpi me disse:
-- Deixa de ser besta, Bel! Vá lá! Não vê que ela pode até estar querendo te homenagear?
 

A festa aconteceu no último sábado do mês de agosto, em 2017, dia 26.
Fomos.
 

E, em nenhum momento, me arrependi de ter ido.
 

Afinal, lá estava eu, de volta ao mesmíssimo salão onde vivera tantas festas, por tantos anos, na adolescência, depois na juventude e na maturidade.

 

Lembrei-me de um réveillon maravilhoso que passáramos lá, minha mãe, meu pai e eu, na virada da década de 1970 para 1980.

 

Agora, lá estava eu. De volta. De novo.

 

Sergio Sá, o Mestre de cerimônias, apresentador da TV ESPN, leu um texto escrito por mim, sobre a história do clube.

 

O filme que eu editara – 1937 a 1967 – ficou rolando nos monitores todo o tempo.

 

Fui entrevistada e fiquei contente.

 

Susana, maravilhosa, me deu de presente um kit com copos comemorativos e canecas das Festas de Cerveja.

 

Eu tivera algumas, dos anos 1960, mas se perderam no tempo, talvez algumas estejam com minha prima, Beth Krausz.

Eram quatro horas da manhã, quando saímos, Mauro e eu, da festa de 58 anos do Castelo. Um carro da Uber nos esperava lá fora. Antes de ir embora, entrei na sede para ver as salas do Castelo, um pouco diferentes, só um pouco, as fotos dos presidentes na parede, a sala de vidro, a lareira, a escadinha para a torre, as escadas, o mezanino... Lembranças correram pela minha mente, aceleradas, como aquele “filme” que a gente “vê”, uma espécie de resumo da vida, quando se passa perto da morte. Mas ali, era apenas o que vivi naquelas salas.

No carro, o motorista nos diz:
-- Fazia muito tempo que eu não vinha aqui.
Perguntei:
-- Ao Castelo?
-- Sim – ele respondeu—Eu vinha sempre aqui ajudar o meu tio, no bar da náutica, quando era mais jovem.
Meu coração bateu mais forte.
-- Você é sobrinho do Rodrigues?
-- Sou. Trabalhava com ele, no bar, quando os fins de semana eram de sol e o movimento aumentava.
-- Meu Deus! – exclamei – Seu tio... O conheci desde que eu era criança. Pergunte a ele, sou a Bebel, ela vai se lembrar.
-- Infelizmente ele já se foi.
Existem mais de 50 mil carros da Uber circulando em São Paulo.
Por que, justamente o carro do sobrinho do Rodrigues foi nos buscar naquela madrugada?
Ah... diriam os racionais, porque ele decerto é das imediações.
Mas quantos outros, dentre esses mais de 50 mil, também não o são?
 

2017, novembro, 18, Sábado

Esse foi o dia que a Diretoria do Castelo marcou para a minha entrevista de re-admissão como sócia. Às 11 da manhã. Não pude deixar de pensar que, um dia antes, se estivesse vivo, meu pai teria completado 109 anos de idade. Havia 80 anos que ele estivera pela primeira vez no Castelo, quando este ainda era residência dos Kutschat.


Às 9 e meia, para não correr o risco de atrasar, peguei o maridão e lá fomos nós. Dirigi os 26 quilômetros que nos separam, de casa ao Castelo. Não havia congestionamentos, daqueles monstruosos que a televisão mostra naquelas avenidas, em dias comuns de trabalho, era sábado, afinal. Mesmo assim, os caminhos todos me pareceram quase irreconhecíveis.

Quando fôramos à festa dos 58 anos, era noite e percebi muito menos a diferença dos lugares. Afinal, 30 anos são 30 anos. A cidade crescera.

 

1983

2017

 

 

 

 

 

Sidão na náutica em 1980, brindando.

 

 Clique aqui ou na foto e veja filminho sobre comercias de TV produzidos no Castelo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O velho caminho de terra, onde atolamos a nossa Borg Ward em 1959, nos anos 1980 já era uma avenida. Mas quase despovoada e o caminho que subia levemente para o clube ainda era de terra batida e cercado de árvores. Uma única casa, a do Claudio Ferraz, ao lado do clube, e, antes dele, uma casinha modesta, adaptada para funcionar como a secretaria do clube.

 

Agora, impensáveis semáforos, impensáveis estabelecimentos comercias, impensável faixa exclusiva de ônibus, impensáveis residências na subidinha para o clube.
Lembro-me de um dia, nos anos 1960, quando navegávamos na Bebel, meu pai e eu. Lembro-me de ele ter desligado o motor da lancha e dito: -- Preste atenção, minha filha, você está ouvindo esse zumbido grave e contínuo? Eu estava. E então ele disse: -- Você está ouvindo o ruído da cidade.
Era isso mesmo. Aquele zuuummm... distante era a trilha sonora daquela cidade que se via, da represa, também distante, uma selva de prédios mal delineados no horizonte.

Agora, para minha surpresa, os prédios tinham avançado, estavam praticamente às margens da represa. Para adiante, do outro lado, depois da Ilha, casas e mais casas, as ruas claramente delineadas... A cidade chegara ao que antes era um clube de campo.
Nada, porém, de surpreendente nisso. Afinal, havia um gap de 30 anos entre as minhas mais recentes lembranças daquele lugar e os dias de hoje.

 

A presidente, Susana Campanhã, parecia um anjo a me guiar por todo o clube.

 

Vi as corujas e os patos.

 

Ela me levou à torre, ao segundo andar do Castelo, me guiou com carinho.

 

Apresentou-me ao filho do Rodrigues, que é hoje quem toca o bar da náutica.

 

Os sócios mais velhos, o atual conselheiro, que havia sido companheiro de Diretoria do meu pai,  e dona Joana me entrevistaram, gentis e maravilhosos, falando na beleza daquele lugar.
 

Ah... mas faltava alguma coisa à beleza daquele lugar!
Faltava brilho!
 

Na náutica, me senti só.
Lembrei-me da efervescência, barcos subindo e descendo a rampa, o guincho funcionado à toda, gente aos montes, rindo, tomando sol na grama Um, esquiando, fazendo seu Wind Surf... Hoje não havia ninguém ali... Nem mesmo o pontão, que antes era defronte à rampa, agora estava deslocado para uma praia erma.


Era o Castelo.
Mas, de alguma maneira, não era o Castelo.
 

Tudo me parecia abandonado. Ou com um certo ar de abandono.
 

No entanto, eu sabia que Susana estava lutando, havia quase 3 anos, para recuperar o brilho e a beleza de todas as instalações. Sabia de sua luta para reerguer o clube e as contas do clube, talvez lesadas por gerações pouco sérias que exerceram ali – assim como em todo o país – o nada honesto hábito de achar que dinheiro público, ou coletivo, poderia servir aos privados interesses.
Queria ajudá-la.
Afinal, aquele era o meu clube.
 

Lembrava-me da alegria do Sidão, Sidney Victor, (foto na náutica, 1980), que, como eu, crescera no clube, quando eu disse a ele que iríamos escrever a memória do Castelo. Comentando, então sobre o comercial que a agência da NET gravara lá, os dos 15 mil buracos, ele me dissera:
 

-- Bel, não acredito que você não tinha reconhecido, nesse comercial, a “nossa grama”. Eu disse:
-- Po! Você não vai ao clube há 30 anos, apesar de ser sócio remido, e mesmo assim diz que essa é a “nossa grama”?
Sim. Sempre será.
 

A nossa grama.

A nossa rampa de árvores.

As nossas piscinas.

A nossa náutica.

As nossas quadras esportivas.

Os nossos vestiários...
 

No entanto, naquele sábado, de novembro de 2017, pareciam ser apenas uma sombra, um clone, um falso cenário, que queria imitar a “nossa grama”, coberta do cosmos das estrelas dos vaga-lumes, que queria imitar aquela energia incrível, que vivia pelos ares de lá, e que, agora, eu não conseguia encontrar.
 

Susana continuava, maravilhosa e solícita, a me guiar por aquele tour. Fomos à torre. Fiz mais fotos. Lindas, aliás, as fotos.
 

Mas fui-me embora carregando um enorme sentimento de nostalgia.

Como se, de fato, nunca se pudesse recuperar um passado.

Como se tudo aquilo fosse apenas uma sombra, uma reprodução malfeita, do lugar que eu amara.
 

Aquele podia ser o Castelo. Sim, lindo! Mas não era o nosso Castelo.
 

O nosso se fora para sempre, perdido nos momentos brilhantes do passado. Restara uma carcaça de sonhos, um tanto corroída pelo tempo, destruída pela extrema proximidade da grande metrópole – amada, sim, mas ali, pelo menos para mim, simplesmente indesejada.
 

Os dias foram passando.
Chegou o primeiro boleto de pagamento da mensalidade. Paguei. Recebi o meu terceiro número de sócia: 11.704... Já fora 630, depois 3.413...
 

Resolvi marcar um dia para voltar lá.
 

E o dia chegou: hoje, 30 de novembro de 2017.
Eu tinha pensado em ir hoje, para iniciar uma certa rotina de talvez duas vezes na semana. Mas a perspectiva, em vez de me alegrar, estava me angustiando, como se fosse uma espécie de obrigação chata que eu mesma estava me impondo.
 

E me angustiava por vários motivos, entre eles, o meu atual estilo de vida, de muito trabalho com nosso Portal SAÚDE&LIVROS, de muito trabalho, maravilhosos trabalhos, com meus livros, todo o meu dia tomado, agenda cheia... 40 a 50 minutos para ir da Paulista ao Castelo? 40 a 50 minutos para voltar?

 

Não... O Castelo ficou muito longe de mim, por causa do trânsito e da cidade. Mas não era só isso afinal: Eu não queria voltar no tempo. Eu queria voltar ao espaço que foi meu, no tempo. Mas o espaço foi-se embora com o tempo, como Avalon. Para o mundo das fadas, envolto em brumas. Deixou aqui apenas o seu esqueleto.
O meu Castelo sempre esteve e sempre estará comigo, certamente era isso que o Velho Vasco, meu pai querido, estava a me dizer naquele sonho de há 20 anos passados. Como aquela antiga foto que passava de agenda para agenda, a cada novo ano: um castelo envolto na neblina, atrás das árvores.
Mas nem são as mesmas árvores que estão lá.

 

Tudo fica agora, apenas aqui dentro, na minha lembrança e no meu coração.
 

Serei eternamente grata à Susana por ter me permitido fazer as pazes com o que eu, até então, julgava como uma grande perda.

 

Nunca foi uma perda, era isso que meu pai me dizia através do sonho. Ninguém nos tira nada. Nada do que vivemos se perde. Fica conosco. Como a suave lembrança de amores felizes, agora mortos.


Adeus, Castelo. Que outros sonhos possam trazer teu brilho a novos olhos, jovens olhos que te vejam, assim como és hoje, como um paraíso.

 

 

FIM

Isabel Fomm de Vasconcellos Caetano

São Paulo, Avenida Paulista, sábado,

2017 dezembro 02

 

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Evaldice Maria Ruck Cassiano Que lindo poder viajar ao passado pelas suas mãos.
Só posso agradecer

 

 
Susana Campanhã  — em Clube de Campo do Castelo

Ahh... o Tempo

Às vezes, encontramos alguém que não vimos há anos e temos a sensação de que foi há dias. Outras vezes estamos com alguém e percebemos quanto tempo estamos distantes, mesmo presentes. E hoje cedo li que todos que não estão na sua frequência evolutiva e espiritual vão se distanciar à medida que você descobre cada vez mais quem realmente é! E aqueles que estão na mesma frequência serão atraídos até você e você até eles.Você descobrirá quão incrível é quando as pessoas certas aparecem nos momentos certos da forma mais espontânea e divina! E agora, no fim do dia, li a publicação de minha amiga atemporal Isabel Fomm de Vasconcellos, uma das pessoas mais sensíveis que tive o privilégio de conhecer e pude ler o quanto o tempo passado, que não vivi, está presente nesse meu tempo. Sua história no Castelo se fundiu com a minha no mesmo sentimento nostálgico. Me sinto muito emocionada em ter sido personagem de sua Terceira História com o Castelo. E vejo, lá atrás no tempo, Cláudio Ferraz, meu vizinho, um Indiana Jones da represa, que guarda como o clube memórias de um tempo que ainda tem tempo. Leiam e se emocionem.

 
 

Isabel Fomm de Vasconcellos Susana Campanhã, querida, o Castelo nos une, para muito além das brumas das lembranças. Muito obrigada, querida, por ter feito com que eu me reencontrasse com o que eu pensava ser uma perda e era apenas, afinal, uma das mais maravilhosas lembranças!

Susana Campanhã Isabel Fomm de Vasconcellos, ser feliz é guardar somente as melhores lembranças.

Ann Viebig Bonita história do Castelo!

Angela Lopes Resgatando memórias do clube, muito legal!

Betty Lindenhayn Lindo, emocionante!! Já somos sócios do Castelo há 50 anos e muito do que ela escreve está em nossas lembranças.

Chris Donizete Bel, adorei! Bora fazer uma segunda edição?

Isabel Fomm de Vasconcellos Ainda não, Chris. Ainda faltam muitas histórias. Por enquanto, vamos editar O Espelho - ou a História quase Invisível... ?

Chris Donizete Combinado!

 

 

Elizabeth Krausz Que maravilha. Não conseguir parar de ler sua história.

Graça Teixeira Que lindo, amei! Bjshttps://www.facebook.com/images/emoji.php/v9/ff6/1/16/1f619.png😙https://www.facebook.com/images/emoji.php/v9/ff6/1/16/1f619.png😙

 

Vera Krausz

Vera Krausz

Só agora pude abrir e ler... E estou maravilhada! Ainda não li do jeito que quero... com o tempo que quero para saborear e rever cada palavra. Estou indo ao dentista. Dias difíceis por aqui... Mas estou maravilhada .... Você é abençoada por dar continuidade aos registros de teu pai !!! E que registros...

Vera

Te amo

 

Vera Krausz compartilhou a publicação de Pag do Portal Saúde&Livros by Isabel Fomm de Vasconcellos — sentindo-se agradecida em Rio de Janeiro.
3 h ·

Alguns momentos em nossa vida nos parece mágico! Outros como hoje me falou meu poeta ..." Parabéns, Krausz! Muito bom o seu aprendizado e as boas reminiscências de uma época que se perdeu entre a garoa e a neblina dos tempos pueris."
Sinto me honrada de ter meu Tio Alfredo Fomm de Vasconcellos, filmado o meu batizado, meu aniversário de 1 ano e o de 3 anos. Ter o registro do colo de meu pai dançando Catito mio... em tecnicollor !
Quantas pessoas terão aos 59 anos, no Brasil este privilégio ! Poucos. Muito poucos certamente ! Não se perdeu ...
Mas ter uma prima que dá continuidade a este feito raro, e edita e atualiza nossas histórias... Tão bom e terapeutico como um divã psicanalítico. Em miríades de formas posso ver minha trajetória. Sem dúvida está passagem de como aprendi a nadar e o aprendizado de sempre caminhar para frente. Foram de fundamental importância para minha superação.
Obrigada minha bruxa Bel em forma de flor ! Que Deus ilumine com muitas Luzes tua vida e teu Natal ! Não poderia receber presente e carinho maior.

 

Lânia Menezes Quanto amor tempo por este clube!!!!

Monica Strauss Ehrentreich Que lindo Susana, emocionante.

Susana Campanhã Também me emocionei, Monica Strauss Ehrentreich.

Joseli Marise Linda história de amor pelo CCC , li , revi antigos amigos, lembrei momentos emocionantes. O melhor , por do Sol lindo , amigos maravilhosos. Obrigada.

Susana Campanhã Para quem viveu tudo isso deve ser muito mais emocionante!

 

Ivan Cunha Bem, consegui finalmente ler esta magnífica história. Dizer que é emocionante não reflete a exata intensidade do sentimento, que foi muito maior do que apenas emocionante. Vi o meu reflexo em várias passagens que você descreveu, e em minha memória surgiram tantas lembranças que nem sei dizer quantas. Pessoas que você mencionou, como o sr. Otto, lembro me (meu "smart" não é tão "smart" assim, pois não entende nem aceita o hífen) perfeitamente dele. Quando não havia a casa de barcos, que ficavam sob as árvores, cobertos por lonas, os eucaliptos que margeavam o estreito caminho até chegar no portão de entrada e que continuavam até a beira da represa, onde havia uma pequena rampa por onde colocávamos os barcos na água, o antigo salão

Ivan Cunha ....onde passamos diversos carnavais, na mais pura diversão, festas magníficas com a presença de artistas famosos.....bem.....eu penso muito mais rápido do que falo ou escrevo. Tive o privilégio de te encontrar uma vez e conversamos apenas um pouco numa das reuniões do nosso não menos amado Colégio Estadual Professor Alberto Conte , somos parceiros no facebook já a algum tempo, e não imaginava que você tivesse uma história tão emocionante sobre o nosso clube. Eu também tenho uma história semelhante, e gostaria de um dia podermos bater um papo memorável sobre esse magnífico lugar. Estive afastado do clube por 40 anos, de 1974 a 2014, retornei e hoje vou ao clube pelo menos três vezes por semana. Durante o período em que fiquei afastado, estive lá por duas vezes, mas sonhei centenas, com o lugar onde curti tudo de bom por parte de minha infância e por toda a adolescência. Abraço.

Susana Campanhã Meu Deus, preciso juntar vocês dois!!!!

Isabel Fomm de Vasconcellos Ivan Cunha, vc tem dois perfis aqui no Face. Por isso, de cara, não te identifiquei, sou sua amiga no outro perfil e somos mesmo da turma do Alberto Conte. Sou da turma que entrou no colégio, em 1963, depois de vc, portanto. Não sabia que tínhamos, em comum, também o Castelo. Grata por sua emoção.

Ivan Cunha Incríveis suas histórias vividas no Castelo. Eu me lembro da Ludmila.

Isabel Fomm de Vasconcellos Ivan! Você se lembra dela? Que D+!!! Você precisa me contar umas histórias suas pra colocar no livro. Já imaginou? Se o Sidão me contar, se outros sócios contarem, fornecerem fotos, um dia isso vira um livraço grandão e a gente publica, impresso, pros sócios comprarem... hahaha!

Ivan Cunha .....mas eu ADORARIA contar histórias do Castelo pra você. Acho mesmo que vamos descobrir muitas coisas....

Ivan Cunha essa idéia de publicar é magnífica.

Isabel Fomm de Vasconcellos Não é legal? Vamos reunir o máximo possível de histórias, sem pressa, vamos descobrir novas velhas fotos e, um dia, publicaremos.

Ivan Cunha .....conte comigo.......

Isabel Fomm de Vasconcellos Dezembro é um mês difícil para todos. Em janeiro, marcaremos algo, um encontro no Castelo, ou aqui, com a Susana e o Sidão, pra gente trocar as primeiras histórias (sem plagio do Guimarães Rosa... hahahaha)

Ivan Cunha ....por mim está ótimo......