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(Helene Schferbeck 1915, Auto Retrato, Museu Nacional da Finlândia)

 

 

Pepo pensou em ir embora, voltar a caminhar pelo mundo como fizera anteriormente, esquecer tudo, como quando saiu da casa de seus pais. Vender o humilde casebre. Entretanto o destino lhe apontaria nova direção.

 

 

 

Pepo
do livro "O Resgate de Verônica", por Vera Krausz


Abonado comerciante do porto de Torku, seu mercado era ponto de renome entre todos que atracavam diariamente. Mercadorias das mais diferentes eram ali comercializadas com fartura e prosperidade. Pepo era um homem descontraído, gostava de conversar com todos que lá chegavam, contando e ouvindo histórias, transmitia notícias e cativava seus clientes com quem mantinha relacionamentos festivos e espontâneos.
Pepo nascera na Grécia, país longínquo, terra quente e próspera, aprendera a arte de comercializar com seu pai, e que desde menino ensinara-lhe o ofício.
Saiu muito cedo de casa, conheceu o mundo, comprava, vendia, trocava de tudo com todos e sobrevivia com certa dificuldade.
Seu pai fora contra sua saída de casa e somente lhe permitira levar poucas moedas de ouro que lhe garantiriam a sobrevivência por alguns meses. Entretanto, Pepo sabia multiplicar as moedas, seu carisma pessoal, era um atributo importante e mesmo com as mulheres irradiava forte energia, o que lhe possibilitava deitar-se com aquelas que escolhesse.
Após longa peregrinação, uma jovem lhe encantou com seus predicados de mulher. Havia chegado fazia poucos dias naquelas paragens, terras geladas da Finlândia, e resolveu permanecer naquele lugar...
Foram tempos difíceis para o jovem Pepo, que procurava seduzir sua escolhida e proporcionar-lhe tudo aquilo que seu coração galanteador e generoso gostaria de ofertar para uma mulher. Contudo o inverno rigoroso dificultava que pudesse sair e efetuar suas atividades como de costume.
Viveram num pequeno casebre, simples e humilde, quando sua amada comunicou-lhe estar grávida de um filho seu. Pepo, não se conteve de felicidade, afinal aquele amor seria agora abençoado. Tinha saudades da vida familiar, seu pai, sua mãe e irmãos todos reunidos.
No passado distante, sua mãe contava-lhe histórias, era mulher trabalhadeira e respeitada. O relacionamento com Judith fazia com que revivesse estas lembranças, apesar da preocupação com a sobrevivência, pois seriam três para alimentar e vestir, sua esperança na vida renascia...
Entretanto a falta e a aspereza da vida foram tão fortes naqueles tempos, que poucos meses depois, Judith levou embora sua menina, sem muita satisfação, como se o amor simplesmente tivesse se esvaído. Seguiu outro homem, que lhe prometeu uma vida mais fácil. E com eles também suas esperanças...
A mágoa e o ressentimento invadiram o coração de Pepo, que havia depositado em Judith seus sonhos, a dor pungente de saber que sua filhinha de cabelos encaracolados seria criada por outro homem, tornavam suas noites cheias de tumultuados pesadelos. Pepo pensou em ir embora, voltar a caminhar pelo mundo como fizera anteriormente, esquecer tudo, como quando saiu da casa de seus pais. Vender o humilde casebre. Entretanto o destino lhe apontaria nova direção.
Numa manhã quando a neve caía em abundância e o frio enregelava todos que não buscassem abrigo, uma jovem senhora teve sua carruagem atolada numa fenda na neve, muito próxima a sua casa. Pepo aproximou-se oferecendo ajuda aos serviçais que a acompanhavam, pois percebeu que os mesmos não tinham destreza e conhecimento necessário para tirar sua patroa daquela situação. Assim que a carruagem estava pronta para seguir viagem, a jovem senhora com muita generosidade retirou de uma pequena sacolinha, algumas moedas de ouro e ainda informou seu endereço para que em outro momento pudesse retribuir-lhe tão nobre gesto.
Pepo aturdido com a situação agradeceu a generosidade da oferta e imediatamente lhe informou que necessitava de uma oportunidade de trabalho. A jovem senhora desconcertada com a inesperada recusa, prontamente comunicou-lhe que estaria providenciando um trabalho digno com sua firmeza de caráter.
No mesmo dia, quando o sol já estava se pondo, um homem de idade avançada, bate à sua porta dizendo ali estar em nome da Srta. Fhaãyna, dizendo-lhe:
- Minha jovem patroa me pediu para avisá-lo que já providenciou sua solicitação e que deseja falar-lhe amanhã logo pela manhã.
- Pediu-me ainda que procure arrumar seus objetos pessoais e de sua família, pois, pretende fornecer-lhe uma moradia que esteja de acordo com a atividade que irá executar.
Pepo mais uma vez ficou surpreso e disse:
- Pois não, diga a Srta., que estarei lá e que estarei arrumando minhas coisas, mas, por favor, comunique também que sou sozinho nesta vida.
O velho homem saiu de sua casa e Pepo acompanhou com seus olhos o direcionamento da carruagem, até que esta desapareceu no horizonte. Mal podia acreditar no que estava acontecendo. Um trabalho digno, com uma jovem senhora que parecia querer apadrinhá-lo. Como fora oportuno sua gentileza naquela manhã e como um simples gesto poderia modificar a sua vida. Pensava em Judith e na sua filhinha. Onde estariam neste momento?
Se estivessem aqui agora poderiam partir juntos para este caminho, afinal o ancião, havia lhe dito para levar toda a família. Não conseguiu dormir, a ansiedade, as recordações do passado e a possibilidade de um futuro diferente, invadiam seu corpo e sua alma num colorido que jamais sentira antes.
Muito cedo, suas roupas já estavam numa grande sacola e também alguns objetos de uso pessoal, conversou com sua vizinha que estaria viajando e que não sabia quando ao certo voltaria, mas que em breve mandaria notícias.
Encaminhou-se para o endereço que lhe fora fornecido e logo estava na presença da mulher que o auxiliara no dia anterior.
Somente agora podia aperceber-lhe a formosura.
Fina residência em localidade próspera, já havia entrado em lugares tão finos, mas há tempos atrás, quando de suas andanças em outras paragens, mas não ali em Torku, pois até então somente conhecera os escombros desta cidade, somente as dificuldades desta terra tão fria.
- Bom dia senhorita, aqui estou como me pediste.
Falou Pepo, com aparente tranquilidade.
- Pois bem, fico contente. Como se chama o senhor?
- Pepo é assim que todos me chamam, e como posso chamá-la?
- Meu nome é Fhaãyna, seja bem-vindo a esta casa.
- Eu falei com meu pai. Sr. Pepo, sobre as ocorrências de ontem pela manhã e de como lhe sou grata pelo cuidado e por sua honradez, pois não aceitou as moedas que lhe ofereci, mesmo não sendo um homem rico e que com certeza tem suas necessidades de sobrevivência.
- E como o senhor manifestou seu desejo de trabalhar, meu pai concordou em permitir que o senhor trabalhasse em seu mercado, talvez no balcão ou com entregas de mercadorias.
- Sim senhora, tenho muita experiência no comércio e creio que não vou decepcionar seu pai.
- Ele já tem certa idade, e o peso dos anos já diminuíram suas forças para o trabalho, há tempos ele quer encontrar alguém de confiança para auxiliá-lo na lida, e ficou muito bem impressionado com o que lhe contei sobre sua conduta.
- Obrigada senhora, pode ficar certa de que farei o possível para corresponder às expectativas e anseios de seu pai.
Neste momento era inevitável observar os dotes femininos atraentes da senhorita Fhaãyna, e não podia deixar de perceber que ela olhava-o com cuidado.
Pepo foi apresentado ao pai de Fhaãyna e rapidamente estabeleceu-se entre os dois um vínculo de confiança.
Sr. Rolphir era um homem severo, de princípios rígidos, muito responsável e dedicado em seu trabalho, mas tinha em seu coração uma preocupação muito grande com sua única filha, que crescera na riqueza e ostentação, apesar da família ser de origem humilde. Pepo passou a morar numa pequena casa, nos fundos do mercado. Desde que foi residir lá, tinha a responsabilidade de abrir e fechar o mercado, o que era uma segurança a mais para o Sr. Rolphir, visto que toda a clientela sabia de sua permanência no mercado evitando assim, a possibilidade de saques e roubos, que anteriormente aconteciam com frequência durante a madrugada. Certa noite, após a lida intensa de um dia muito movimentado, pois vários navios atracaram no porto, vendendo e comprando mercadorias, Sr. Rolphir chamou Pepo para tomar um gole de rum e aquecer um pouco o corpo cansado.
- Pepo, há muito queria lhe contar de minha preocupação com minha filha, ela é uma moça atraente, recebeu a melhor orientação que um pai pode dar a uma filha. Estudou música, sabe falar vários idiomas e tem muito gosto pelas artes, mas parece guardar um ressentimento ou dor muito grande em seu peito.
Pepo ouvia com muito interesse o que seu patrão lhe contava, até porque aquela mulher com olhar penetrante sempre o perturbara, e com certeza lhe era muito grato por tudo que estava vivenciando. Além do digno salário, que lhe possibilitava guardar algumas moedas, percebia o reconhecimento de todos no mercado, inclusive do Sr. Rolphir.
Aquele momento em que conversavam sobre questões pessoais pela primeira vez, realmente lhe comovia muito.
E ele continuava...
- Eu perdi minha esposa querida, quando minha filha era ainda muito nova, praticamente ela não soube o que seria o cuidado de uma mãe carinhosa e zelosa.
- Minha mulher sofria de uma doença muito séria, em diversos momentos tinha dores muito fortes na cabeça, chegando a perder o sentido durante estas crises intermináveis de dor.
- Numa destas crises ela morreu, gritando e gemendo muito, perto de minha filha que nesta época não tinha mais do que três anos de idade.
- Eu estava aqui no mercado trabalhando como sempre e na verdade os serviçais com as quais contava nestes momentos demoraram muito tempo para me avisar do ocorrido e quando cheguei em casa, encontrei-a numa situação lastimável.
- O corpo de minha mulher estava caído no chão e minha filhinha estava gritando pelo nome da mãe, enquanto todos choravam em desespero.
- Na verdade, hoje percebo que ninguém teve a iniciativa e o discernimento de vir até o meu encontro! Quando cheguei, provavelmente haviam se passado muitas horas desde a terrível ocorrência...
Pepo permanecia atônito com tamanha revelação, e ouvia tudo atentamente.
- Assim meu amigo, não sei bem ao certo o que esta terrível situação influenciou em minha filha, mas o que percebo é que ela apresenta comportamentos muito diferentes das demais moças.
- Praticamente não se interessa em namorar e encontrar um companheiro. Tenho me preocupado muito com isso, pois não tenho herdeiros, e agora que ela está com 19 anos, creio que já seria oportuno seu casamento.
- Por outro lado ela é sempre muito voluptuosa, desde criança tinha que lhe fazer todas as vontades, comprar-lhe tudo o que desejava e nada a satisfazia, mesmo seu comportamento com as empregadas que lhe servem desde menina, é muito contraditório, ora deita-se no colo destas mulheres e pede chamego e carinho, e em outros momentos humilha-as veementemente com muito rancor, como que se desejasse se vingar de todas elas...
- Comigo mostra-se ressentida, sinto-me muitas vezes como se fosse um cofre que guarda sua fortuna e herança, e não seu pai.
- Em alguns momentos chego a sentir que deseja a minha morte para reinar sozinha.
- Entretanto, não cabe a uma mulher desempenhar a administração de um grande mercado como este, e desde que minha filha conheceu o senhor e solicitou-me que o empregasse que me senti aliviado, com relação às responsabilidades deste pequeno império construído durante uma vida inteira de intenso labor.
- Tenho que lhe ser sincero neste momento, e dizer-lhe que venho acalentando dentro de mim, o sonho de quem sabe um dia, o senhor vir a desposá-la.
- Tenho observado que ela demonstra grande admiração por sua pessoa, e sempre ouve atenta, quando falo de seu nome. Quem sabe os céus, permitiram que sua carruagem quebrasse em frente ao seu casebre, justamente para proporcionar-me este alento e descanso na velhice que se aproxima.
Pepo agora estava aturdido com o que ouvia, afinal já era muito grato aos céus por estar ali, mas pensar em casar-se com aquela mulher belíssima e por anseio do próprio pai e quem sabe com o desejo dela mesma, isto realmente era muito além de suas expectativas.
Foi com dificuldade que articulou algumas palavras:
- Sr. Rolphir, eu fico extremamente sensibilizado e lisonjeado, com tudo o que o senhor acaba de me falar. Em primeiro lugar pela confiança que deposita em mim, confidenciando-me seu passado e com certeza todo o seu sofrimento de homem e de pai, que teve que assumir sozinho toda a responsabilidade de provedor da casa.
- Em segundo lugar por considerar-me digno de pertencer a sua família.
- É certo que apesar da condição humilde que me conheceste, meu pai, o qual não tenho notícias há muito tempo, mora em um país longínquo e possui muitas terras, e um considerável patrimônio, oriundo de seu trabalho no comércio.
- Na verdade, foi com ele que tomei gosto pelo ramo do comércio, e é por isso que desde que a Srta. Fhaãyna, ofereceu-me esta oportunidade de trabalho, quis corresponder-lhe às expectativas.
- Mas e sua família Pepo? Seus pais devem sentir muita falta de sua presença?
- Imagino que para um pai ver seu filho partir deva ser muito difícil?
- Sim senhor, imagino que tenha sido para ambos, mas sempre quis trilhar o meu próprio caminho e conquistar o meu destino. Sou herdeiro de uma grande fortuna Sr. Rolphir, mas tal fortuna pertence aos meus pais e agora é tempo de trabalhar e construir o meu futuro...
- Mais uma vez, te admiro meu jovem, e sinto que seja o homem certo para acompanhar minha filha e administrar minha fortuna quando eu lhe faltar, até porque vocês me darão netos e espero que seja homem, para dar sequência a tudo isto que iniciei.
- Certamente, fico muito feliz, mas gostaria de saber se sua filha também compartilha de suas idéias.
- Pois bem, Pepo, a partir de seu consentimento, estarei conversando com ela, e caso Fhaãyna esteja de acordo, marcarei um jantar em minha residência a fim de formalizar o namoro.
Pepo mal podia acreditar em tudo aquilo, jamais sonhara desposar uma mulher tão fina. Pensou que talvez devesse contar para o Sr. Rolphir, sobre Judith e sua menina que partiram para longe, mas sentiu-se constrangido, e pensou que elas haviam traçado outro destino para elas mesmas e que, portanto, pertenciam agora ao passado.
Era a segunda vez que a Srta. Fhaãyna, conseguia roubar-lhe o sono, passou a noite inteira relembrando cada uma das palavras do Sr. Rolphir, e a ansiedade lhe contagiava. Mais uma vez sentia que aquela mulher estava transformando a sua vida...
Pela manhã, Pepo como de costume, abriu o mercado e logo se envolveu com a lida e todos os acontecimentos da noite anterior fugiram de seus pensamentos.
O mercado estava cheio de clientes e alguns falavam especialmente da chegada de um grande navio, cujo capitão era conhecido como o “Conquistador dos Mares”, falavam de lutas sangrentas. Muito ouro e prata que acumulava.
Pepo não conhecia muito sobre o mar e seus navios, mas durante este período, desde que começou a trabalhar no mercado, sua curiosidade foi ativada, afinal estes homens do mar, chegavam trazendo grande quantidade de mercadorias para trocar, mercadorias muitas vezes vindas de muito longe.
Compravam muito... Amontoavam de alimento e bebidas os porões dos navios, a fim de abastecer por meses, algumas centenas de homens.
Mas depois de longa jornada de trabalho, quando suas vísceras já apontavam para a necessidade de ingerir alguma coisa, foi surpreendido com a chegada do Sr. Rolphir e de sua filha Fhaãyna, que mais do que nunca se mostrava encantadora naquela manhã, denotando em seu sorriso altivez e coragem.
Ambos aproximaram-se de Pepo, que acabava de auxiliar no transporte de sacas de batata até um dos navios.
- Bom dia Pepo, falou o Sr. Rolphir...
Rapidamente Pepo respondeu:
- Bom dia, senhor e Srta. Fhaãyna. Em que posso ser útil?
- Estamos aqui Pepo, porque ontem após nossa conversa, dialoguei durante muitas horas com minha filha, sobre meus anseios de pai, sobre o futuro.
Pepo sentia o sangue ferver em suas veias, percebia suas faces ruborizarem e pensava que com certeza estavam ali para pedir desculpas sobre o que havia lhe dito.
Mas logo foi retirado de seus pensamentos, com a voz firme de Fhaãyna dizendo:
Quis eu mesma acompanhar meu pai até aqui hoje, é certo que depois da longa conversa que mantivemos, adormeci até a poucos minutos atrás, mas fiz questão de pessoalmente lhe dizer que considerei muito oportunas as considerações de meu pai, e na verdade elas atendem aos meus interesses.
- Desta forma Pepo, gostaria de saber se é de seu interesse este casamento, pois se for afirmativo, como falei com meu pai, creio que podemos dispensar as formalidades do namoro e num jantar amanhã à noite, marcarmos a data para nossas núpcias.
Pepo mal conseguia entender tudo o que a Srta. Fhaãyna dizia com tanta propriedade e desenvoltura, não lhe parecia uma moça ingênua, mas uma mulher decidida e que falava de seu próprio casamento como se adquirisse mais uma propriedade.
- Sim Srta. Fhaãyna, será com muita alegria e satisfação para mim esta união.
Não conseguiu dizer mais nada, até porque Fhaãyna virou-se rapidamente e se encaminhou para a porta...
Pepo estava perplexo com tudo aquilo, e com certeza deixou transparecer seu estado de ânimo, visto que o Sr. Rolphir bateu-lhe nas costas dizendo:
- Fique tranquilo meu amigo, ela é assim mesmo como te falei. Muito voluntariosa, mas posso te garantir que ficou muito entusiasmada com minha ideia. Enquanto lhe falava, senti que na verdade pela primeira vez consegui atender a um desejo de minha filha, sem que ela precisasse me dizer.
- Creio que ela já nutria um interesse especial pelo senhor.
- Estou muito honrado com tudo isto, mas confesso que aturdido também, visto que ontem estávamos conversando sobre esta possibilidade e amanhã estarei jantando em sua residência e marcando a data de nosso casamento.
- Não se preocupe, creio que poderão morar em minha casa, talvez reforme um dos quartos para melhor poder abrigá-los em sua privacidade, e quanto aos preparativos para a festa, Sra. Josrieth saberá cuidar de tudo com a orientação de minha filha. Fhaãyna adora festas!
Pepo sabia que estava entrando em um outro mundo, talvez que se assemelhasse ao mundo de seus pais, de sua infância, mas que agora pareciam tão longínquos...
Enquanto Sr. Rolphir se afastava, a palavra interesse, ficava bailando em seus pensamentos. Questionava-se de que interesse Fhaãyna, falava, e pensava como uma moça poderia tratar de tudo aquilo com tamanha desenvoltura e de maneira quase fria.
Não pode deixar de pensar em Judith, como se apaixonara por ela, como vivera um amor quente e cheio de volúpia, sua filhinha Hasnna e o destino que os separou.
Jamais imaginara se casar, sem sentir esta emoção ardente, apesar de perceber na futura mulher encantos que jamais percebera em outra, mas que o assustavam.
No dia seguinte preparou-se para o jantar, contando com o apoio do futuro sogro, que o dispensou mais cedo da lida para que pudesse comprar roupas que pudessem traduzir sua aparência, para a cerimônia de noivado. Foi levado com a carruagem da família, até a casa de um homem que confeccionava roupas finas. Nunca estivera num lugar assim e sentiu neste momento que a transformação seria muito maior do que imaginara, lembrou-se do Sr. Rolphir lhe dizendo que sua futura esposa gostava de festas e assim passaria a comprar muitas roupas naquele lugar. Srta. Fhaãyna vestia-se sempre com trajes finos e elegantes.
O jantar transcorreu com muita tranquilidade, brindes e formalidades. Era certo que estava muito nervoso, mas sabia como se comportar nestas situações. Seus pais, também promoviam festas em sua casa, com quem aprendera a principais etiquetas de convívio social e tinha certeza de que seu comportamento havia agradado a todos.
Marcaram o casamento para pouco mais de um mês, a partir daquele dia, tempo suficiente de acordo com a Srta. Fhaãyna, para se organizar a festa e providenciar as modificações naturais em seus aposentos.
A noiva deixou claro também para o futuro cônjuge, que gostaria que fossem arrumados dois quartos com comunicação entre si, visto que gostaria de manter certa privacidade em seus aposentos mesmo depois de casada.
Sr. Rolphir ficou constrangido e intrigado com a solicitação da filha, mas como era de costume, concordou com sua vontade.
Pepo não conseguiu entender este pedido, mas teve certa sensação de desconforto, como se a futura esposa lhe sentisse como um intruso ou mesmo invasor. Contudo não entendeu muito bem, visto que como ela falara, era de seu interesse, celebrar as núpcias o mais rapidamente possível.
O tempo passou muito rápido naqueles dias, envolvido com o trabalho no mercado, quando se deu conta, já estava na ante véspera de suas núpcias com Fhaãyna e os preparativos estavam seguindo com muita intensidade. Nestes tempos, seu futuro sogro, Sr. Rolphir, quase não aparecia no mercado, o que por sua vez aumentava suas responsabilidades, sobrando-lhe pouco tempo para pensar em tudo o que estava acontecendo e o que estava por acontecer em sua vida.
Na manhã do grande dia, o mercado não abriu as portas por determinação do Sr. Rolphir que convidou pessoalmente todos os homens que trabalhavam lá para comparecer na cerimônia.
Pepo sentia-se muito entusiasmado e era grande sua expectativa... Procurava não pensar, mas imaginava como seria a noite de núpcias com Fhaãyna, como seria aquela mulher em sua intimidade e como seriam os primeiros contatos com sua esposa, visto que até então não tinham tido nenhuma aproximação.
Estivera depois do noivado para jantar na residência do Sr. Rolphir, por duas vezes, mas em nenhum momento esteve a sós com sua noiva, sempre rodeada de empregadas ou mesmo com a presença do pai.
Realmente Fhaãyna sabia como organizar uma festa. A cerimônia esteve magnífica, muitas flores e ornamentos no suntuoso salão, ricamente decorado, pratarias e porcelana inglesa. O menu com certeza de grande categoria, assados diversos, salmão, trutas, diferentes vinhos e muitas frutas vermelhas, tudo com muito requinte.
A noiva parecia uma princesa, seu vestido ricamente bordado com fios de prata, sob um branco perolado, em tecido trazido da França. Em seus cabelos uma coroa com delicadas pedras que cintilavam. Sua pele morena, e o grande véu que escorria sobre seus cabelos, proporcionavam um ar jovial e encantador...
Jamais Pepo vira tamanha formosura e sua entrada, ofuscava a visão de todos os presentes...
Pepo também estava vestido de acordo. Com uma túnica azul marinho com galardões em ouro que traduziam a nobreza da cerimônia.
Tudo correu como se esperava, todos os presentes manifestaram sua alegria com a realização das bodas e felicitaram o casal.
Madrugada adentro e os noivos se recolheram para os aposentos nupciais.
Pepo mostrava certo constrangimento para aproximar-se de sua noiva, mas como haviam dançado durante os festejos e percebera o olhar de sedução de Fhaãyna em sua direção, e mesmo porque havia tomado alguns goles a mais do que o habitual, dos vinhos saborosos que foram servidos durante a festa. Disse-lhe:
- Fhaãyna, irei até os meus aposentos trocar de roupa e assim lhe possibilito que troque estas lindas vestimentas. Em poucos minutos retornarei...
- Como assim Sr. Pepo? Por acaso pensa que pretendo me deitar com o senhor?
- Sim senhora, agora és minha mulher.
- Não, Pepo, agora o senhor tornou-se oficialmente o administrador de meus bens, e deverá zelar por eles.
- Como assim Fhaãyna? Não lhe entendo?
- Tratamos de um desejo de meu pai e de meus interesses, visto que realmente não poderia carregar sacas de batata nas costas, quando o velho morrer...
Pepo ficava aturdido mais uma vez com a jovem esposa que lhe falava coisas que jamais pensara ouvir de uma mulher. Dizia da morte do pai com tamanha frieza, e agora ele não podia deixar de se lembrar da fala do Sr. Rolphir, de que sentia que a filha desejava sua morte.
- Fico surpreso com sua fala, não havia entendido que seus interesses eram somente de ordem material, pensei que estaria unindo nossas vidas, em legítima comunhão.
Uma forte gargalhada ecoou no quarto, Fhaãyna, mostrava-se cruel, como alertara seu pai, tal qual fazia com seus serviçais, parecia feliz em humilhá-lo!
- Pepo, como poderia me deitar com um homem que mal conheço os hábitos e pelo qual não nutro nenhum sentimento além da gratidão de ter desatolado minha carruagem numa manhã fria de inverno?
- Pensei que começaríamos a nos conhecer a partir desta noite, pensei que a senhorita conseguisse me ver como homem, da mesma forma que posso vê-la como uma encantadora mulher.
- Engano seu Pepo, talvez um dia possa compartilhar de meu leito com o senhor até porque meu pai espera de mim um herdeiro para gerenciar nossos negócios, mas para tal espero conhece-lo melhor daqui para frente.
Pepo saiu do quarto sem nem ao mesmo olhar para Fhaãyna. Pensou em descer as escadas e procurar o velho amigo Sr. Rolphir e lhe contar tudo e dizer-lhe de seu desejo pela anulação do casamento. Entretanto imaginou qual desgosto daria para o ancião que justamente há poucos minutos quando subiam para o quarto, lhe apertara a mão e lhe dissera que este sem dúvida era o dia mais feliz de sua vida.
Mais uma vez Fhaãyna retirou-lhe o sono, mas infelizmente desta vez as perspectivas não lhe eram favoráveis como nas anteriores, intuía que dali para frente beberia de um cálice amargo junto de sua jovem esposa.
Mas quando o dia já estava para amanhecer, exausto de tanto pensar, Pepo adormeceu profundamente e quando acordou já passava do horário em que costumava almoçar. Ficou assustado, não sabia de sua esposa, e ficou pensando o que seu sogro deveria estar pensando. É certo que haviam combinado dele não ir novamente para o mercado, nesta manhã.
Foi até os aposentos de Fhaãyna e ela não estava lá. Arrumou-se e desceu às escadas e encontrou o velho Sr. Rolphir que parabenizava-o pelas núpcias.
- Muito bem meu jovem, faz muito tempo que minha filha não amanhece tão feliz e radiante. Ela saiu para passear, cantarolando e pediu os serviçais que preparassem um reforçado desjejum para o querido esposo.
Pepo não podia acreditar no que ouvia. Quis dizer-lhe que isso era uma grande fraude de sua filha, um grande engano, mas não conseguiu dizer. Agradeceu a homenagem e disse que sua filha se mostrava uma esposa maravilhosa.
Começaram a conversar sobre o mercado e quando Fhaãyna chegou do passeio, aproximou-se do marido e lhe deu um afetuoso beijo na testa.
Pepo sentiu um arrepio subir-lhe no corpo, aquela mulher manipulava-o, e despertava agora a fúria do homem.
Nas noites que se seguiram, Pepo tentava chegar ao quarto de sua esposa, mas sempre encontrava a porta do quarto fechada, trancada, impossibilitando sua entrada.
Retornou para o trabalho e os dias e semanas foram se passando, sem muitas vezes trocar sequer uma palavra com sua esposa. Somente em presença do pai, é que ela lhe dirigia a palavra demonstrando muita felicidade e ternura.
Entretanto certa noite foi acordado com alguns sons no aposento de sua esposa que lhe pareciam que ela estava a vomitar. Bateu na porta:
- Fhaãyna, abra a porta, está precisando de ajuda?
- E depois de um longo tempo percebeu que a porta foi destrancada.
Fhaãyna estava deitada na cama, em finos lençóis de cetim branco, usando uma roupa branca em cetim que insinuava sua silhueta. Pepo não pode deixar de perceber como era bonita e sensual sua esposa, mas que jamais em todos aqueles meses tivera possibilidade de tocar ou mesmo de falar-lhe a sós depois da noite de núpcias.
Fhaãyna ofegante com o rosto ruborizado dizia:
- Não me sinto bem, creio que minha temperatura está elevada.
- Preciso urgente de um médico, por favor, me ajude.
Imediatamente Pepo desceu as escadas, procurou um de seus serviçais, que conduziu a carruagem até a residência do Dr. Marwis. Em poucos minutos de consulta e traz a alarmante notícia de que Fhaãyna estava gravemente enferma e teria que ser submetida a prolongado e doloroso tratamento.
Pepo acompanhou Fhaãyna por dias e noites, acompanhando a elevação de sua temperatura, momentos em que falava da mãe morta e que gritava para que ela acordasse da morte.
Confirmava as idéias do pai de que aquela situação em sua infância marcara profundamente sua personalidade.
Contudo depois de quase uma semana, em que não foi trabalhar no mercado, Fhaãyna amanheceu melhor e o médico explicou que ela agora estava fora de perigo. Pela primeira vez, Pepo observou no olhar de sua esposa um sentimento de carinho quando ela tocou em sua mão e disse-lhe:
- Obrigado Pepo, demonstrou ser digno de se deitar comigo e ser o pai de meu filho.
Na verdade Pepo se sentiu feliz com aquela fala, pois desejava muito se deitar com esta mulher. Entretanto mais uma vez sua fala humilhava-o, não havia feito tudo àquilo com este interesse, que ela mais uma vez lhe apontava. Fazia-o sentir-se vendido.
Mas alguns dias depois, numa noite em que estiveram proseando após o jantar com o Sr. Rolphir, Fhaãyna pediu ao marido enquanto subiam as escadas que viesse ao seu aposento logo a seguir. Pepo foi até seus aposentos, arrumou-se e logo a seguir dirigiu-se ao quarto de sua esposa que estava com a porta sem trancas.
- Pois não, Fhaãyna, aqui estou.
De maneira insinuante se aproximou do marido e pediu que soltasse os seus cabelos.
Pepo puxou-a pelo braço e de maneira viril arrancou-lhe a roupa, encontrando certa oposição em seus movimentos, mas não lhe deu atenção, nada falou, e como se já se deitasse com ela há muito tempo, tocou seu corpo com segurança e desenvoltura impossibilitando-a de qualquer reação.
Sabia que agora ela nada poderia fazer, pois ostentara para todos que era feliz com ele como marido. Esta era a oportunidade que esperava e pensava:
- Esta cadela vai me pagar por tudo o que me fez sentir nestes meses. Fez de mim um animalzinho, como se pudesse me dominar e subjugar, agora, ao menos nesta noite saberá tudo o que um homem faz com uma mulher, e não digo com sua mulher, mas com todas aquelas com as quais ele se deleita durante a vida. As mais sujas, as mais imundas, aquelas que os homens usam apenas uma vez e depois pagam pelo serviço.
Fhaãyna tentou gritar e fugir, assim que percebeu a fúria de Pepo, mas percebeu que nada poderia fazer naquele momento.
Pepo continuou por toda à noite, experimentado o gosto e o sabor de cada parte do corpo de sua mulher, como se saciasse um desejo que fora por muito tempo reprimido, cheio de mágoa e rancor. Não teve dó nem piedade e somente parou de assediá-la quando percebeu que estava desfalecida sobre o leito.
Sabia que talvez nunca mais se deitasse com Fhaãyna, mas estava ciente de que agora nem ele mesmo iria desejá-la mais, pois havia esgotado toda a sua volúpia de uma só vez e dali para frente seria ele a representar um papel.
Na manhã seguinte Fhaãyna não saiu de seus aposentos, mas Pepo foi trabalhar logo cedo e elogiou sua esposa para todos, inclusive para o velho amigo Sr. Rolphir, dizendo que se sentia o homem mais feliz do mundo por ter se casado com sua filha.
Algumas semanas depois Fhaãyna em jantar familiar, comunicou aos presentes que esperava um filho. Pepo sorriu e se direcionou até sua esposa dando-lhe um beijo na testa, parabenizando-a, sabia que ela iria se recordar do beijo da manhã após a noite de núpcias.
Sr. Rolphir brindou o acontecimento e demonstrava grande felicidade
Nos meses que se seguiram, toda a casa girava em torno da criança que traria novamente a alegria para aquele lar. Até mesmo Fhaãyna estava diferente e dizia para o pai que agora chegaria o verdadeiro herdeiro de sua fortuna e que lhe daria um neto, um macho para no futuro gerenciar os bens da família.
Entretanto o destino foi diferente do que pretendia Fhaãyna...
Uma criança ao ser concebida... Foi amada...
E sua graciosidade foi sendo implantada...
Foi lentamente gerada...
Todos os órgãos de seu frágil corpo...
Passo a passo...Como todas as sementes, que germinam... Olhos, nariz, orelhas...
Todo o seu corpinho ia sendo cuidadosamente formado... Ligação célula a célula se estabelece no ventre materno...
Até que num momento sublime...
Este ser veio ao mundo...
E todos se alegravam, com a vinda daquela vida...

E em meados de agosto, nasceu uma menina, de cabelos claros e olhos verdes que Pepo fez questão de chamar de Anne, nome da mãe de Fhaãyna, procurando homenagear o sogro que tanto afeto depositara pela avó materna de sua pequena filha.
Anne fazia Pepo lembrar-se de Hasnna, sua pequena e muitas vezes em suas noites de solidão lembrava-se de Judith, que apesar da miséria e das dificuldades que haviam passado, havia sido uma verdadeira mulher, enquanto estiveram juntos.
Com o nascimento da pequena Anne, Fhaãyna inicialmente apresentou crises de profunda tristeza, não querendo nem mesmo amamentar a menina dizendo-se traída. Olhava para Pepo com rancor e para a filha com ódio, como se sentisse que fora amaldiçoada pelos céus, pois precisava de um filho varão para poder romper definitivamente com Pepo.
Seu pai percebia-lhe a indiferença com a neta e suas crises de irritação tornaram-se cada vez mais frequentes. Percebia que algo acontecia entre o jovem casal até que numa noite pediu para conversar com o genro.
Pepo abriu seu coração com o velho amigo, que chorou amargurado ao saber de toda a história que vinha se desenrolando até então.
Não podia imaginar tudo aquilo, todo aquele sofrimento. Questionou Pepo como ele tão jovem, pode se abster das necessidades da carne. Este lhe relatou o quanto era difícil tal situação e concluiu pedindo o seu consentimento enquanto amigo e pai de Fhaãyna para que pudesse a partir daquela data, frequentar esporadicamente alguma casa de mulheres da vida, explicando não ter tomado tal conduta anteriormente em respeito ao amigo, mas que como percebia seu entendimento profundo da questão, agora podia pedir-lhe sua aprovação.
Sr. Rolphir ficou perplexo com tal solicitação, mas disse que não poderia negar-lhe tal rogativa, mas pedia que respeitasse sua filha, jamais permitindo que soubesse de suas andanças nestes lugares. Pepo concordou prontamente.
A menina Anne crescia na verdade sob os cuidados dos serviçais e com o aconchego do avô, mas sua mãe distante e fria muitas vezes a humilhava com palavras duras, impunha-lhe castigo cruel e repetia sempre que ela era fruto do pecado.
Pepo absorvido com o trabalho nem mesmo percebia o crescimento da filha. Uma jovem linda de cabelos dourados e olhos muito verdes... Menina alegre e divertida, muito inteligente, mas diferente de sua mãe, Anne era muito doce e meiga com todos que a rodeavam.
Pepo, nos momentos de folga frequentava a casa de Edith, uma mulher da vida, que o recebia muito bem e que sempre procurava propiciar-lhe bons momentos, visto que pagava regiamente e sabia ser galanteador com todas as moças.
Os anos se passaram e certa noite encontrou a porta do quarto de sua esposa novamente aberta, desta vez por descuido de sua parte, e mais uma vez subjugou-a na cama, contudo agora entre gritos e gemidos, que todos puderam presenciar na casa.
Mais uma vez e Fhaãyna ficou grávida, mas agora com uma tristeza interminável em seu semblante, apresentava frequentes acessos de raiva e dizia que caso não fosse um menino, mataria a infeliz logo ao nascer.
Carollinne nasceu. Sr. Rolphir evitou a tragédia da morte da neta, levando-a embora dali para ser criada por uma parenta sua que não pudera ter filhos, mas que desejava muito um bebê.
Natelie era moça simples, mas muito direita, apegou-se logo a pobre menina, rejeitada pela mãe e que demonstrava grande fragilidade, adoecendo constantemente. Pepo ia visitar a menina algumas vezes, mas sentia forte emoção cada vez que via seu frágil corpo se desenvolver. Percebia que na verdade aquela criatura não tinha os cuidados necessários e culpava-se, pois tinha consciência que ele de alguma forma, era o responsável por tão triste situação. Agradecia Natalie, por sua dedicação pela menina, mas questionava se ela conseguiria sentir-lhe como se fosse realmente sua mãe. Inquietava-se também com sua saúde que notoriamente muitas vezes inspirava cuidado...
Em dezembro de 1277, Sr. Rolphir veio a morrer com fulminante ataque de coração. Pepo chorou muito a morte do querido sogro, que lhe fora tal qual um substituto de seu pai.
Fhaãyna não derramou nenhuma só lágrima durante todo o sepultamento. Mas seus desequilíbrios aumentaram após sua morte, e a convivência tornava-se cada vez mais difícil.
Pepo somente não saía de casa pelo compromisso assumido com o velho Rolphir e por sua filha Anne, que nesta época já demonstrava também apresentar fortes crises de dores de cabeça, permanecendo por longos períodos, trancada em seu quarto. Preocupando-o sobremaneira.
Somente a estalagem de Edith conseguia tirar-lhe deste lugar, e do sofrimento que experimentava naquela casa, pois lá encontrava alento para seu coração...