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Pouso... no Jardim Azul, por Vera Krausz
 


E derrepente, quando terminava de atender a última paciente, passadas 21 horas, e me preparava para sair do consultório, eis que ela adentrou sorrateiramente pela janela parcialmente aberta...
Quem?
Uma borboleta azul !!


Linda parecia perdida, provavelmente veio na direção da luz...
E em minha sala que é toda azul, fiquei meio tonta, sem saber o que fazer com aquele pequeno ser que voava de um lado para outro e, em alguns momentos, fazia pequenos pousos.
Mas voava assustada, quando tentava me aproximar!
Não poderia fechar a porta e ir embora simplesmente, muito menos tentar captura-la.
Apaguei a luz, pensando que ela poderia procurar a luminosidade externa. Acendi novamente, não se moveu.
Abri bem as janelas, persianas, indicando-lhe a direção de saída.

O tempo passou, e eu intrigada comecei a pensar...

Porque esta borboleta teria entrado em minha sala, naquela hora?
Hora tardia de minha vida...
Sentei-me no chão do consultório e instintivamente lembrei-me que já me sentara ali.
Uma ligação um dia.
Pontos, linhas...
Queria tanto ouvir-te e falar.
O sinal muito fraco! Recebi um convite...

Absorta meu pensamento vooou... ou ou ou ou

Outras salas, outros telefonemas!
Quantas vezes em minha vida, recebi convites,
Meu coração pulou de alegria,
Senti a adrenalina aquecer meu corpo.

Algumas vezes sentei-me naquele mesmo chão...

Brinquei de bola, dominó, joguei palito, dei banho nas bonecas!
Alegres borboletas de meu consultório, sapecas.
Minhas crianças, sempre parecem voar nas asas da imaginação!

Certa vez traída, estive caída, neste mesmo chão...

Foi quando pensei em poesia e borboleta.
Mario Quintana, veio me acudir!
“O segredo é não cuidar das borboletas e
Sim do jardim, para que elas venham até você”
Lembrei-me de ti. Meu poeta a aplaudir
E enamorada, fiquei olhando a flor-borboleta

Contei-lhe meu segredo.
Afinal o máximo que poderia acontecer seria ela sair
E contar para outras borboletas.
Se é que elas, as borboletas trocam confissões!
Confidenciei minha paixão por ti,
Que tenho o porquê gostar de você.
Ela pousou no Taj Mahal azul... (Um quadro índigo cintilante na parede)
Sussurrei sobre meu amor
Tive muito medo de espanta-la, nesta hora!
Afinal para amar, tem que ser apesar de...

Entretanto, como agora ela detinha meu segredo,
Já não queria que partisse
Temia que ela simplesmente fugisse...

Mas as borboletas têm no voo a sua magia
Fecharia a porta de minha sala?
Abriria a janela de meu coração?
Se voasse, agora a sala ficaria mais vazia!
E as demais flores do jardim como ficarão?

Vinicius de Moraes se fez presente*, e me lembrou que existem tantas
E de todas as cores, que eu não me preocupasse.
Que me acalmasse.

O tempo passou...
Ela ultrapassou minha janela!
Corri até o gradio...
Era noite lá fora!
Não tinha como vê-la
Ela tinha ido embora...
E uma lagrima rolou em minha face.
No mesmo lugar do sorriso de outrora
Sabia agora que o meu segredo voava em desenlace
Tonta de tanto prazer, de tanto temer e gemer
Fiz do pranto o meu riso...
E de minha borboleta um motivo
Para estar perto de ti, preciso
Cognitivo, emotiva, afetivo!
 

 

(Dali, 1956, Paisagem com Borboleta)

 

 

 

(Dali, 1950, decada)

 

 

"É preciso que eu suporte duas ou três larvas, se quiser conhecer as borboletas"

Antoine de Saint Exupéry em "O Pequeno Príncipe"

 

 

(Frida Khalo, 1949, Auto Retrato com Colar de Espinhos)

 

A principal mensagem das borboletas é a transformação de si mesmo.

Está em suas mãos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*As Borboletas

VINICIUS DE MORAES

Rio de Janeiro , 1970

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas.

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

As amarelinhas
São tão bonitinhas!

E as pretas, então...
Oh, que escuridão!

 

 

 

 

 

 

 

A Lenda da Borboleta Azul

 

Aconteceu há muitos anos, no Oriente.

Um jovem ficou viúvo e a esposa lhe deixou duas filhas. Meninas inquietas, mentes inquietas,

perguntavam ao pai sobre tudo.

 

O pai, julgando não ter a sabedoria suficiente para atender à fome de saber das próprias filhas, mandou-as morar por algum tempo com um sábio, no alto de uma montanha.

 

Um dia, percebendo que o sábio tinha respostas para tudo, decidiram inventar uma pergunta que ele não pudesse responder.

 

Assim, capturaram uma borboleta azul e a irmã mais velha escondeu-a em sua mão. Pretendia perguntar ao sábio se a borboleta estava viva ou morta. Se ele respondesse que estava viva, ela apertaria a borboleta na mão até matá-la. Se ele respondesse que estava morta, ela simplesmente abriria a mão e a borboleta voaria.

Dessa maneira, qualquer resposta do sábio estaria errada.

 

Foram até ele e a menina perguntou, mostrando-lhe a mão fechada:

-- Sábio, a borboleta azul, que está aqui, está viva ou morta?

 

E o sábio respondeu:

-- Isso depende de você. Ela está em suas mãos.

 

(nota da editora: adaptação de Isabel Fomm para uma lenda anônima)