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O que o bebê sente?

por Vera Krausz

 

(Joseph Brickey, O Menino Deus)

 

 

Hoje tenho as palavras... Aprendi a cuidar com o coração!

 

 

Certamente este enunciado traduz a busca e o sentido que tenho tentado transmitir em minha trajetória profissional, em todos os cursos e palestras que venho ministrando. Recordo-me que esta pergunta me ocorreu pela primeira vez, quando ainda estagiária de Enfermagem pela Escola de Enfermagem da USP, na área de pediatria.

 

Teria que aplicar uma injeção, num corpo muito frágil e debilitado, de um bebê com pouco mais de 2 meses, que com múltiplas fraturas, procurava sobreviver as torturas a que tinha sido submetido em sua casa por seus pais. O Serviço Social do hospital, tomara as providencias com relação a questão do espancamento e maus-tratos, contudo naquele momento, frente a fragilidade daquele pequenino ser, também me senti muito frágil e impotente. Por alguns minutos pensei que não conseguiria aplicar aquele medicamento, que naquele momento me parecia agredir ainda mais aquele ser tão indefeso e frágil, muito embora consciente de que eram cuidados fundamentais para o seu restabelecimento.

 

Razão e coração se contradiziam... Tratava-se de uma enfermaria com bebês vítimas de maus tratos, em sua maioria situações familiares de agressão aos pequeninos. Não poderia imaginar sequer que existisse um lugar assim, afinal bebes entre 2 meses e 1 ano de idade. Foi com muito esforço que prestei a assistência planejada, mas em minha mente surgia uma questão... O que será que ele sente? O que será que tudo isso irá repercutir em suas vidas? Será que irão se lembrar um dia? Aquela agulha adentrando sua pele, feria-me muito, profundamente, a ponto de pensar em desistir do curso.

 

Não poderia ser enfermeira! Como uma enfermeira poderia sentir a dor de seu paciente? Aliás tudo o que ouvia dentro da Escola de Enfermagem, naquele momento era que não devíamos nos envolver, ou sentir ... Com o tempo nos acostumaríamos, nos esfriaríamos diante do sofrimento. Esta “minha sensibilidade” não parecia estar de acordo com a escolha profissional. Não dormi a noite... Tremia ao pensar que no dia seguinte ele, o pequenino bebê estaria lá novamente, e eu teria que dar sequência ao seu “tratamento”. Na realidade foi assim que pela primeira vez pude efetivamente compreender o real significado da palavra “empatia”.

 

Colocar-se no lugar do outro. Como é fácil falarmos sobre isso! Como é difícil e profunda a tentativa de ocupar o lugar do outro... Olhar e sentir com os olhos do outro, com a pele do outro! Naquele momento, ainda muito nova e inexperiente profissionalmente, pensava que algo de errado estava acontecendo comigo. Que a incapacidade, a dificuldade era minha. Sentia-me frágil e com muita vontade de chorar, simplesmente. Como se fosse um bebê! Passaram-se muitos anos até que eu pudesse efetivamente significar aquela experiência, que eu pudesse compreender que efetivamente, a minha possibilidade de me colocar no lugar daquele “outro” que era o bebê, se relacionava com a minha própria história, com aquilo que me possibilitava identificar-me com aquele bebê, que ‘transferencialmente”, eu sentia o que ele sentia, mas que ao sofrer com ele, a dor que era dele, eu contra transferia e daí a “minha”/”dele” impotência.

 

Pedi ajuda, e tive a continência e o amparo necessários por parte da equipe de professoras da disciplina de Enfermagem Pediátrica, que souberam acolher a “minha dor” e certamente de muitos “bebes”. Uma equipe de professores sensíveis! Tinham sua referência teoria pautada em Carls Roger e a aprendizagem centrada no aluno! Um diferencial teórico dentro da Universidade! Uma benção...

 

O verdadeiro Mestre é aquele que participa de nossa formação, nos viabilizando sermos nós mesmos! Passei a observar os bebês... Seu comportamento, suas reações frente aos procedimentos dolorosos, diante do aconchego e do acolhimento materno ou profissional. Pude perceber o brilho de seus olhos, a intensidade de seu choro, suas mãozinhas afastando, segurando, aproximando... O prazer quando recebiam amor! O desprazer por não recebe-lo ....

 

O amor e a dor, presentes desde o início da vida e participando do direcionamento da própria trajetória da vida. Não mais uma pergunta! E sim a reposta fundamental era que eles sentem! Estão vivos em plenitude e registram experiências e os afetos vividos. Arquivos constitutivos do ser. E eles os bebes me ensinaram que eu não apenas poderia, mas deveria ser enfermeira, justamente por ter a capacidade e a sensibilidade profunda de se colocar no lugar do outro.

 

Foi transformador em minha história profissional. Transformar a dor em amor... Mesmo sem palavras para expressar o que se sente, o saber que se sente... Pois o sentir antecede a compreensão cognitiva e a própria palavra! Hoje tenho as palavras ... Aprendi a cuidar com o coração!