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(foto da Autora)

 

 

"Não dá para esquecer tudo o que passamos, nem fingirmos que continuamos os de sempre."

 

Outonais

por Stela Maris Grespan

 

 
Depois de 14 meses, vendo apenas os prédios, janelas alheias, ruas pouco movimentadas, avenidas esvaziadas, em meio ao desgoverno, mortes, falência institucional, nenhum horizonte pareceu-me mais belo do que este à beira mar.

 

Hoje faz um ano. Senti uma forte emoção, de coisa sendo descoberta. Um deslumbramento.

 

Até hoje, ainda com a presença da Covid entre nós, mais atenuada é verdade, com tanta gente vacinada, saio de máscara e vou redescobrindo o mundo, do mesmo jeito com o qual comia a ambrosia de minha mãe, com colherinha, devagarinho, encantada, embora eu não seja a mesma.

 

Há um certo travar na doçura da redescoberta, como no reencontro de velhos amigos que há muito não se veem e intuem o que a vida fez em cada um e que o resgate do carinho, da palavra e da fraternidade é um enorme desafio.


Não dá para esquecer tudo o que passamos, nem fingirmos que continuamos os de sempre, nem que a miséria e a fome de tantos brasileiros não foi exacerbada e hoje exposta para quem tem olhos de ver, nem que não estejamos preocupados com as eleições de outubro cujos resultados podem perpetuar o Mal em nossa sociedade.

 

Mas, disse Drummond, e eu penso e repito como um mantra “as guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios, provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda… que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.”

 

E, na foto havia uma pedra no meio do caminho.
Bom final de semana a todos.