voltar para a Página-Site da doutora Stela

 

 

(Norman Rockwell, 1942, Freedom of Speech)

 

 

 

Em nenhuma ocasião vimos qualquer transgressão à Constituição, dita cidadã, por parte de nenhum destes perigosos comunistas e seus auxiliares.

 

 

Vera Krausz
Querida Stella, você relembra importante momento histórico, que também me faz relembrar, que eu trabalhava naquela época, no Ambulatório de Saúde Mental de São Bernardo do Campo... era enfermeira e tinha como funcionária direta a auxiliar de enfermagem, Miriam Cordeiro, mãe de Lurian, filha de Lula e Miriam, anterior ao casamento com Dona Marisa,  que, dias antes da eleição de Lula, me pediu uma saída para ir ao médico, e na realidade foi fazer uma gravação que expunha Lula com relação “a questão da filha "indesejada". Miriam retornou dizendo que íamos ver uma estrela cair ...
Ela teria sido paga por Collor de Mello ...
No dia seguinte à divulgação de seu vídeo no horário político, a imprensa estava toda no Ambulatório. Eu estava lá ...
Collor teria mandado o helicóptero que a retirou do ambulatório em segurança.
Miriam teria ficado por meses num flat em São Paulo, visto a eleição do Collor. Ainda tivemos notícias depois de que foi para Jundiaí, onde teria recebido ainda uma boutique...
A nossa história é muito sórdida.
Sei que dona Marisa pressionava Lula durante as eleições, para não mostrar a "filha bastarda" como era chamada Lurian. As duas mulheres e muita sabotagem sempre estiveram presentes na vida de Lula, com o qual me solidarizo e, como profissional de Saúde Mental, aplaudindo sempre, pela nova visão empreendida ...
Histórias que vivemos e que ficam em nossas retinas ...
 

Stela Maris Grespan
Muito obrigada, Vera, por este depoimento. Você nos trouxe os bastidores dos fatos que a imprensa explorou, a carta da manga do Collor a mexer com o falso moralismo de uma certa classe que é tão “pura”. O uso e o pagamento do ressentimento, no caso, das mulheres, mas que eu ouso dizer que é o que está na base de inúmeras ações humanas destrutivas. Boa quinta-feira, amiga!

 

 

Nos desvãos da memória

por Stela Maris Grespan

 

Que a história não se repita.
 

Corria o ano de 1989. Ano em que Lula, o deputado federal mais votado em São Paulo, candidatava-se, pela primeira vez, ao cargo de Presidente do Brasil.

 

Num daqueles intervalos para o café, enquanto trabalhava no antigo INAMPS, ouço de meu colega, ilustre cirurgião cardiovascular e morador do condomínio mais elitizado de São Paulo, nas bandas de Barueri, que seu filho de 9 anos estava muito agitado por conta das eleições presidenciais. Disse que seus amiguinhos lhe haviam dito que, caso Lula fosse o vencedor, ele tomaria todas as suas casas, que teriam que dividir as suas piscinas com os empregados, pois ele (Lula) era um comunista. Contava às gargalhadas e eu o interrompi com a pergunta, para mim óbvia:

- Você desmentiu e explicou, não ?

 

Ele, surpreso, talvez por minha falta de “humor” respondeu que não, que o candidato era comunista mesmo! Oi? Creio que no ano da graça de 1989, 53% da população acreditou na baboseira e elegeu Collor de Mello, de triste lembrança. E seguiram com o mesmo temor nas eleições seguintes, elegendo o sociólogo cuja obra mandou-nos esquecer. Não esqueço, por desobediência civil.
 

Lula foi eleito por duas vezes, em 2000 e 2004, e fez sua sucessora, a presidente Dilma, em 2008.

 

Em nenhuma ocasião vimos qualquer transgressão à Constituição, dita cidadã, por parte de nenhum destes perigosos comunistas e seus auxiliares.

 

As propriedades foram mantidas como reza o inciso XXII, artigo 5 da Carta Magna, mesmo que o Estatuto da Terra tenha sido desrespeitado inúmeras vezes e o MST tenha criado inúmeras situações de confronto por ocupação de terras irregulares. Poucas vezes a União tomou estas terras, indenizou os seus proprietários e as distribuiu entre os sem terra. Muito pelo contrário, foram os grupos de nossas elites secularmente ligados à propriedade rural, mas também urbana, que incomodados com o Bolsa Família,o Minha Casa Minha Vida e outras pequenas “delinquências “ sociais destes comunistas, os que desrespeitaram a nossa constituição e aplicaram o golpe de 2016, aquele da pretensa pedalada fiscal, que tirou Dilma da Presidência. O resto, já estamos vivenciando e não vou encher mais linhas.
 

Por que estas memórias voltam à minha consciência, em 17 de novembro do inimaginável ano da desgraça de 2020?

 

Certamente, por imaginar o netinho de meu colega, correndo para o seu colo, agitado, a dizer:

 

- Vovô, meus amiguinhos disseram que se o Boulos ganhar, ou a Manoela, ou a Marília (ou seja quem for que não seja palatável à nossa classe média e até aos nossos trabalhadores sem classe que não a de escravos assalariados, ou desempregados, ou subempregados, ou PJ) vão tomar o nosso apartamento de três dormitórios e uma suíte, aqui (do Sumaré, Perdizes, Lapa ou no raio que o parta!!) E que vamos ter que dividir o playground com os filhos de nossa empregada!!

 

O que espero de Boulos e Erundina e de nossos legisladores municipais, não é uma “revolução sampista”, mas que cumpram, da melhor forma possível, a Lei No 10.257 de 10 de julho de 2001 que regulamenta os arts. 182 e 183, o assim chamado Estatuto da Cidade. Que utilizem todas as prerrogativas legais para uma gestão democrática e de intensa participação popular, voltada aos reais interesses da população, especialmente a marginal e exilada nas periferias impolutas de nossas cidades.


Espero o dia em que os cidadãos, mediante uma educação digna, conheçam e, por conhecer, não se deixem levar por grupos fascistas ou ignorantes seculares e defensores da democracia desigual que hora vivemos, a ameaçar com o espectro de um comunismo, cheiroso a mofo e naftalina!
 

Que alguém me ouça e em me ouvindo entenda, e entendendo procure ler e se informar.
 

Bom segundo turno para todos!