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Revista UpPharma n.169 outubro 2017

Artigo de Isabel Fomm de Vasconcellos

 

(busto de Margaret Sanger no Smithsonian)

 

 

 

“ Virgem Maria, tu que concebeste sem pecar,

ensina-nos a pecar sem conceber. ” - Dito popular profano.

 

 

Margaret Louise Higgins nasceu em 14 de setembro de 1879, no estado de Nova Iorque, nos EUA. Era filha de irlandeses e, quando sua mãe morreu, com apenas 50 anos de idade, Margaret, que tinha 11 irmãos, atribuiu a morte da mãe ao excesso de gravidezes e partos a que esta fora submetida.

Naquele tempo, as mulheres tinham como única perspectiva de realização, a constituição da família. É claro que já existiam aquelas que exerciam alguma outra atividade ou profissão e, no começo do século XX, muitas e muitas mulheres se dedicavam à luta sufragista (pelo direito de votar) e pela igualdade social entre os sexos. Mas eram todas exceções.

 

Em 1900, Margaret já era enfermeira. Em 1902, casou-se com William Sanger e, com o sobrenome dele, passou para a História: Margaret Sanger. Na década de 1910, o casal Sanger vivia na cidade de Nova Iorque e frequentava seus altos círculos intelectuais.

 

Em 1912 ela começou a escrever para um importante jornal uma coluna intitulada “O que toda mulher deveria saber”, onde falava da necessidade da educação sexual e das práticas (poucas, é verdade) disponíveis para se controlar a natalidade. Ela acreditava que nenhuma mulher poderia ser livre se não controlasse seu próprio corpo. A partir de 1914 iniciou a publicação de um panfleto intitulado “Mulher Rebelde”, onde enfocava temas como a luta pelos direitos femininos e também a contracepção.

 

Foi perseguida, acusada de divulgar a pornografia, presa e condenada. Até o dono da gráfica, que ousara imprimir tais panfletos, foi também duramente castigado. Margaret precisou se exilar na Inglaterra, para fugir à prisão e passou um longo ano longe do marido e dos filhos.

 

Ora, o movimento feminista, nessa época, era realmente muito forte na Inglaterra, berço de Mary Wollstonecraft (a mãe da Mary Shelley, autora de Frankstein, e considerada também a mãe do feminismo moderno) e Margaret logo se uniu às militantes inglesas, aprendendo ainda mais com elas.

 

Quando voltou aos EUA foi imediatamente presa. Mas seus escritos tinham alcançado uma aceitação tão grande entre as mulheres de todo o país, que a própria primeira dama, Mrs. Woodrow Wilson, escreveu ao promotor, interferindo em favor de Margaret. Resultado: ela foi absolvida de todas as acusações.

Mas foi presa outras vezes depois. Em 1916 fundou uma clínica de controle da natalidade. E, por toda a sua vida, lutou para que as mulheres tivessem o direito de decidir se queriam ou não ter filhos.

 

Fez uma grande discípula inglesa, que reproduziu suas ideias e seu trabalho na Grã-Bretanha: Marie Stopes.

 

Mas, sem o auxílio (e o montão de dinheiro) de outra amiga conquistada em sua trajetória militante, Katherine McCormick, Margaret não seria a mãe da pílula.

 

É engraçado, a gente sempre pensa nas grandes conquistas, em matérias de pesquisa de moléculas e consequente criação de novos medicamentos, como inciativas da indústria farmacêutica. No entanto, a pílula anticoncepcional, surgiu da persistência e da busca de Sanger e McCormick. Essa última era bióloga. E foram os conhecimentos científicos e o dinheiro dela que viabilizaram a pesquisa de Pinus para a criação da revolucionária pílula.

 

A pílula anticoncepcional surgiu no começo dos anos 1960, quando Margaret já tinha mais de 80 anos de idade. Mas só em 1965 os americanos reconheceram legalmente o direito ao planejamento familiar.

 

Margaret Sanger morreu em 5 de setembro de 1966, poucos meses depois de ver suas ideias finalmente reconhecidas. Ela estava com 86 anos de idade.

Se hoje podemos ir tranquilamente ao ginecologista e escolher um, entre os muitos disponíveis, método contraceptivo; se hoje podemos ser donas de nossos corpos e não precisamos mais, como as nossas mães, recorrer aos abortos clandestinos e cruéis, devemos isso também às mulheres corajosas e idealistas que muito lutaram, como Margaret Sanger.

 

As primeiras pílulas – as mesmas que o Dr. César Eduardo Fernandes, presidente da FEBRASGO, chama de jurássicas – continham uma dose muitíssimo superior de hormônios, comparadas às pílulas de hoje. Hoje, há uma grande diversidade de fórmulas e cada uma delas pode ter lá o seu benefício adicional, como o de melhorar a acne, por exemplo. Assim, para cada tipo, e cada idade e cada histórico médico de mulher, há a pílula certa (ou o contraceptivo em outra forma, seja injetável, transdérmico, implante, anel).

 

Por isso, melhor não confiar na sorte, nem na pílula da vizinha. Exerça o direito que conquistamos e planeje sua contracepção, com a assistência de bom (ou boa) ginecologista. Mrs. Sanger agradece.

 

Isabel Fomm de Vasconcellos é escritora e jornalista especializada em saúde. isabel@isabelvasconcellos.com.br