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(RG Mossa ilustra As Viagens de Gulliver)

 

 

 

 

 

 

 

- Que isto? Minas Gerais não é um país... Tá bêbado?
 

- Você que pensa! Temos a superfície da França e uma diversidade que dá gosto. E a nossa comida... Comida não, né? Culinária... é muito mais chique!

 

 

Sobre viagens!!!
por Osmar A Marques

 

Depois de um certo tempo no boteco, algumas cervejas e umas pinguinhas, o amigo perguntou:
- Você que viaja muito, quantos países conhece?
 

- Prá lá de dois... Muito né? E ri um sorriso de inspiração etílica...
 

- Deixa de zoar. Você já viajou muito. Quantos países?
 

- Bom! Conhecer mesmo acho que quatro.
 

- Quatro? Está brincando? Como assim?
 

- Pois é. Além de Minas Gerais, o Brasil, a Argentina e a França, só.
 

- Que isto? Minas Gerais não é um país... Tá bêbado?
 

- Você que pensa! Temos a superfície da França e uma diversidade que dá gosto. E a nossa comida... Comida não, né? Culinária... é muito mais chique!
Gargalharam e chamaram o Baixinho – garçom que imediatamente trouxe mais uma rodada...
 

- Se a gente vê por este ângulo, você tem razão. Mas porque, somente quatro países?
 

- Porque estes, conhecemos bem. Sou um privilegiado. Estive em praticamente todas as regiões de Minas, em 22 estados do Brasil, Argentina e França quase toda... Aí, já são 24 países... considerando cada estado como um país!
 

- E os outros países, não conheceu?
 

- Conhecer, conhecer, não, mas tivemos uma boa ideia deles.
 

- Num vem! Desembucha...
 

- Bom! Antes de viajar, procuramos mergulhar na cultura dos países a visitar. Um pouco de história, costumes, religiões, percursos, locais interessantes, comidas... e estudamos também mapas...
 

- Mapas? Prá que?
 

- Curiosidade! Adoro mapas. Quando estivemos em Havana, decorei o mapa do centro da cidade. Óbvio que há surpresas, mas sabia que para ir a um determinado local turístico, é claro, tínhamos que virar a esquerda e seguir por três quarteirões... e assim chegamos na Bodeguita para uns mojitos. Uns turistas que conhecemos, perguntaram se já tínhamos morado em Cuba...
 

- Ah! Nós compramos um pacote e fim. Eles fazem tudo por nós...
 

- Também viajamos em pacotes organizados. Em viagens curtas, ganhamos muito tempo.
 

- E nas viagens longas? Há o problema de língua, hotéis, comidas...
 

- Quando a viagem é um pouco mais longa, normalmente compramos o aéreo e as duas ou três primeiras noites de hotel...
 

- E depois? Não é arriscado?
 

- Depois, seguimos um roteiro que já traçamos antes da viagem. Pesquisamos locais interessantes e normalmente dá certo. Lá, definimos se alugamos carro, ou qual meio de transporte pegar para chegar aos destinos... Procuramos chegar aos locais no meio da tarde, para procurar hospedagem.
 

- E dá certo?
 

- Atualmente é muito mais fácil. Com internet, sites especializados em viagem e alojamento, é tranquilo.
 

- Quando você foi à Índia, foi por pacote?
 

- Que nada! Em 1982, na primeira ida, compramos o aéreo com chegada em Bombaim (hoje é Mumbai) e retorno por Nova Deli... Não tínhamos reservado nem a primeira noite, mas sabíamos a região onde eles se concentravam – acho que era Colaba e pedi ao motorista que me levasse a um hotel. Chique demais... Analía foi tomar o primeiro banho e ouvi um grito! Entrei no banheiro e com uma havaianada só, matei duas baratas de uma vez. Baratonas! Muito bem nutridas...
 

- Credo! E depois?
 

- Depois, decidimos sair de Bombaim de ônibus... e começou a aventura...
 

- E o resto? Como se viraram com hotéis, a língua, costumes, comida...?
 

- Língua? Sabíamos rudimentos de inglês? Nunca tivemos problemas com a comunicação. Um sorriso largo e uma maneira gentil de pedir abrem todas as portas.
 

- Hein? E daí... como se hospedam?
 

- Depende! Na Índia, procurávamos os serviços de informação e íamos para “Tourists bangalows”, hotéis que eram do governo, a baixo custo e interessantes.

Na Europa, gostamos de ficar em B@B ou similares. São apartamentos que alugamos em residências. Normalmente independentes, com a vantagem de ter contato com gente do país.
 

- B e B?
 

- Sim. Bed and Breakfast! Na França é “Chambre a louer”. No Brasil, pousada.
 

- Tiveram alguma experiência interessante?
 

- Várias. Na região dos Castelos do Loire, ficamos na casa de criadores de coelhos. Conhecemos todo o processo da criação. Em Insbruck – Áustria, ficamos hospedados numa torre medieval – primeiros hóspedes deste apartamento. Em Budapeste ficamos na casa de um casal de médicos, nas colinas de Buda, com varanda de frente para a cidade. Ficamos tão amigos que fizeram um maravilhoso jantar para nós. O interessante é o contato com a população local. Hotéis são impessoais.
 

- Já passou algum perrengue?
 

- Alguns! Viajávamos, de ônibus, entre Salta e Cachi. São cerca de 180 km e na época, a estrada era quase toda de terra e o ônibus teve três pneus furados. Na última troca de pneus, tive uma dor de barriga brava. Estávamos no meio de um deserto de altitude e nenhuma vegetação. Apenas um Cardón (cactos existente no norte da Argentina), a cerca de 50 m do ônibus. Nada mais. Olhei para Analía e disse que seria atrás dele e pedi que ela não deixasse ninguém sair em direção ao vegetal salvador... Foram quase seis horas de viagem...
 

- Hum? Encho o copo?
 

- Lógico.
 

- Teve algum lugar que você não gostou?
 

- Nenhum. Sempre encontramos algo interessante onde quer que estejamos. Não precisamos ir longe para isso.
 

- E com comidas?
 

- kkkkkk. Experimento quase tudo! Tenho o hábito de pedir coisas típicas do país e sem perguntar o que é. Analía se horroriza sempre. Agora, sou mais cuidadoso e evito comer coisas na rua... mas...
 

- Mas?
 

- Mas, nas Salinas Grandes situadas em Jujuy, nordeste da Argentina, agora, no mês de maio, tinha uma Senhora vendendo umas tortillas super cheirosas e apetitosas. Ao gesto de pedir uma de “jamón y queso”, Analía olhou-me com total cara de reprovação. Não aguentei o apelo olfativo e mandei ver...
 

- E?
 

- Me lasquei! Tive dores horríveis no cólon ascendente que duraram quase uma semana e prejudicou um pouco o passeio... kkk
 

- E qual o lugar que mais gostou?
 

- Todos! Cada viagem é uma emoção diferente. É preciso entrar de corpo e alma...
 

- Inesquecíveis?
 

- Pois bem! Lençóis Maranhenses, Diamantina, Tallin (Estônia), Estrasburgo (França), Postoyna Caves (Eslovênia), Ajanta Caves (Índia), Atacama e Salar de Uyuni, Machu Pichu e Salinas de Maras (Peru), Patagônia (Argentina e Chilena), Rota dos vinhos na Álsacia (França), sol nascente em Pokara (Nepal), pôr do sol em Puskar (Índia), Amazônia, Cataratas do Iguaçu, a região de Meteora (Grécia), as Pirâmides do Egito e... e... e... tudim...
 

- E arquitetura?
 

- Moderna? Dubai sem dúvidas...
 

- A próxima?
 

- Vai mais uma? perguntou o Baixinho.
 

- Não. Obrigado. A conta por favor!
 

- Tim! Tim! À próxima...
 

 


oam – 17 JUL 18