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Castro Urdiales
por Osmar A Marques

 

 

Castro-Urdiales é um município da Espanha na província e comunidade autónoma da Cantábria, de área 96,7 km² com população de 31.901 habitantes (2016)

 

 

(foto de folheto turístico)

 

 

CLIQUE AQUI (ou na foto)

para ouvir Horacio Guarany cantando

Si se Calla el Cantor,

sucesso também na voz de Mercedes Sosa,

com Horacio nessa foto.

 

 

(Picasso, 1937, Guernica)

 

Maravilhados por Madrid, partimos em direção ao Norte da Espanha, com a intenção de dormirmos em Santander – 400 km. Apreciamos muito a cidade, mas optamos por procurar um lugar mais aconchegante para pousar e buscamos possibilidades no nosso Guia Michelin. Aí estava, muito bem cotada, a pequena cidade que à época tinha cerca de doze mil habitantes.


(Angel Quintana, La Francesada en Castro Urdiales, 1813)

 

Castro Urdiales (cerca de 75 km de Santander e 25 km de Bilbao), foi um porto romano, fundado em 74 aC com o nome de Flavio Briga.

 

Tem entre seus pontos de interesse, datados do Sec. XIII, a Catedral gótica de Santa Maria da Assunção e um Castelo fortaleza. A tripulação da Nau Santa Maria, que partiu com a frota de Colombo em 1492, foi composta por marinheiros locais...
...Era um dia gostoso para viajar e chegamos à, Castro Urdiales no final da tarde.

 

Nenhum problema para encontrar um hotel, instalado num prédio de quatro ou cinco andares, de frente para o mar... Instalamo-nos, abrimos as duas grandes portas-janelas e ficamos na varandinha descansando e admirando o movimento de pessoas e os barcos que chegavam ao pequeno porto. Fixamos nossos olhares num barquinho com uns cinco ou seis pescadores.
 

Num impulso, descemos para ver sua chegada e se traziam peixes. Os pescadores cantavam e pareciam muito felizes. Logo que amarraram o barco e começaram a sair do barco, perguntei:
- Muchos pescados?
 

- No, Señor! Poco, pero estamos muy contentos. Ahora vamos a celebrar el aniversário de bodas de Juanito!
 

- Bueno! Es uma buena causa.
 

- Sí. De donde vienen ustedes? Tienen una tonada...
 

- Ella es Argentina y yo soy brasilero.
 

- Argentina? Aquí vivió un cantante Argentino que lo queríamos mucho! Su nombre es Horacio Guarany? Conocés?
 

- Si, respondeu Analía, que apreciava muito suas canções folclóricas.
 

- Perfecto! Ustedes vienen con nosotros para el aniversário y vamos contar a todos que es la sobrina a Horacio. Verán la cara de alegria de la gente!
 

- Donde será la fiesta? Donde está la Senõra. No hay problema si vamos? Perguntei meio inseguro.
 

- La fiesta será en muchos bares de la ciudad! Muchas picadas y muchos vinos, pero la Señora no puede ir... Sin problemas.
 

- Hei, Juanito? Vamos a tener una celebración internacional. Miren. Con una Argentina y un brasileño.
 

- Bueno! Bueno! Vamos.
 

Aí, já enturmados, deixamos o barco e as últimas luzes do dia para trás. A caravana de sete pessoas seguiu alegre pelas ruelas da cidade antiga e chegamos ao primeiro bar, que estava repleto. Rios, o mais animado entrou gritando:
 

- Dos motivos para celebrar. Primero, el aniversario de bodas de Juanito y segundo y ahora mas importante, la presencia de Analía, sobrina a Horácio Guarany y su marido brasileño.
 

- Viva! Gritaram todos e rapidamente vieram conversar conosco.
 

- Vino para todos!
 

- Saludos a Juanito y su señora, a Analía y Osmar y Viva Horacio Guarany! Vino! Mucho vino...
 

Duas ou três rodadas de vinho depois, muitos abraços, alegria e todos sabendo que Horacio estava bem e continuava com seu estilo boêmio, irradiando felicidade (do qual não fazíamos a menor ideia...), e eis que Rios, o comandante do grupo decreta:
 

- Vamonos! La noche es longa y aún tenemos muchos bares pela frente! Antes, vacíen sus vasos...
 

Percorremos mais uns cinco ou seis bares, todos cheios e em cada um a mesma história. Não nos deixaram pagar absolutamente nada. Cerca de três horas da manhã, Rios anunciou que iríamos ao bar mais pitoresco, onde terminaríamos a noite.

 

O Bar do Tchetchu! Muita gente, num ambiente escuro, luzes de vela, muita antiguidade, um imponente piano de cauda e sobre ele, pendurado no teto, um esqueleto completo, destacado e bem iluminado.

 

Na parede uma enorme cópia do quadro Guernica, com a inscrição: “Una declaración de guerra contra la guerra...” e, atrás do balcão - Ele, exótico, fazendo tipo de mal humorado, com roupas extravagantes e um enorme cálice graduado, destes usados em manipulação farmacêutica com a inscrição “TCHETCHU” em letras maiúsculas. No braço, tinha um relógio infantil, de plástico, com um dos ponteiros marcando quinze para...
 

- Tchetchu! Bodas à Juanito! Venimos comemorar!
 

- No me importo con esto puto del Juanito ni con su respectable señora, que no conosco y no tendré ningún placer en conocerla...
 

- Pero Tchetchu! Acá tenemos Analía, la sobrina a Horacio Guarani y su marido brasileño. Un poco de respecto, por favor!
 

- Muy bueno! Ahora tenemos gente de honor en esta casa. Que van a querer?
 

- Vino para todos!
 

- Y para mí? Quién paga unas dosis de whisky?
 

- Yo, seguro! Falou alto e com entusiasmo Rios que viu Tchetchu colocar uma grande quantidade no cálice e anotar na sua conta. E o vinho veio para todos e de repente um grito:
 

- Todos afuera! Para casa! Paguen rápido y se ván de acá.
 

- Es temprano! Que horas tiene? Tchetchu deu uma olhada no plástico relógio e gritou, fazendo gestos com as mãos, para enxotar os fregueses.
 

- Menos cuarto! Es hora de dormir!
 

- Que bruto con nuestros invitados!
 

- Todos menos ellos y los que están con ellos.
 

Todos se foram! Às cinco da manhã, deixamos os amigos de celebração, todos muito etilicamente animados, mas sem antes fazer a promessa que nos encontraríamos ao final da tarde no cais, para continuar as comemorações.
 

Lógico que perdemos o café da manhã, mas tivemos que dormir pouco para conhecer a cidade, sua maravilhosa Catedral Gótica, sua fortaleza e imaginar como viviam os romanos, como foi o recrutamento dos marinheiros, a loucura de atravessar o Atlântico em 1492, as descobertas, as inúmeras taças de vinho tinto, nossas descobertas da véspera e a vontade de voltar ao último boteco...,
 

Voltamos ao porto no final da tarde e lá estava Rios, sozinho, que nos convidou para conhecer o Iate clube. Disse que os rapazes chegaram muito “borrachos” y tarde em casa e que era dia de ficarem em casa... Quanto a ele, se desculpou que a esposa não veio e também teria que voltar mais cedo, mas um compromisso destes não poderia perder.

 

Contou histórias e causos da cidade, como uma “máfia”, supostamente do ETA (exército de libertação basco), extorquia dinheiro dos pescadores com a “venda de proteção” e que ele saia com seus amigos pescadores, por diversão e lealdade aos seus amigos. Acrescentou que teve infância difícil, conseguiu montar um comércio e hoje estava bem, mas não se esquecia dos velhos amigos.

 

Propusemos voltar ao bar do Tchetchu o que ele aceitou imediatamente, pelo folclore e por apreciar o conhecimento e sabedoria do amigo. Chegamos, ouvindo um passante gritar para dentro do bar:
 

- Hola Tchetchu! Como estás? E ouviu como resposta:
 

- Yo, muy bien! Gracías a la Nuestra Señora de Assunción. Quién no debe estar muy bién es la puta madre que te parió y que debe estar, ahora, acostada con um marinero...
 

Risadas gerais, Tchetchu percebeu que chegávamos com Rios e acrescentou:
 

- Necesito de dos o três dosis de whisky. Paguelas...
 

- Ponga! Ponga quantas quisiera, habló Ríos.
 

- Bueno! Viva! Vino para todos?
 

- Si, respondemos.
 

-  Entonces, fuera todos! El Bar está cerrando. Van a quedar solamente los amigos sudamericanos, sobrinos de Horácio Guarani.
 

Acostumados com Tchetchu, todos se foram e ele fechou as portas. Ficamos bebendo vinho, comendo presunto, queijo e outros tira-gostos. Rimos muito! Rios despediu-se antes das onze horas e continuamos conversando, nós tomando vinho e ele com seu cálice e inúmeras doses de whisky. Recebemos a explicação de inúmeros objetos antigos, vimos sua coleção de postais enviados de várias partes do mundo, por fregueses e amigos.

 

Quando falamos que estivemos no Museu do Prado, e adoramos o quadro Guernica, nos convidou para sentar perto da cópia e nos foi explicando todos os detalhes, com um amor de adorador apaixonado pelas obras do grande mestre Picasso.
 

Infelizmente o sono e o cansaço vieram. Voltamos felizes e tranquilos para o hotel, com a certeza de termos encontrado a cidade certa, no dia certo, para descansar...

 

Só boas lembranças. Depois, enviamos postais para o Tchetchu. De Strasbourg, de Capilla del Monte, de Belo Horizonte...
 

Hoje, Castro Urdiales tem cerca de 36 mil habitantes... Talvez o pequeno porto, onde encontramos os amigos pescadores, não tenha sofrido muitas intervenções desde maio de 1982...
 

Eraclio Catalin Rodríguez Cereijo - conhecido como Horacio Guarany, faleceu aos 91 anos, em 13 de janeiro de 2017. Foi cantor e escritor argentino. De acordo com o Wikipedia, gravou mais de 80 discos e compôs mais de 600 canções. Exilou-se na Espanha durante o período ditatorial.
 

OAM - 29JAN18
 

Evaldice Maria
Bom dia ! Vinho no Tchetchu, boa pedida para segunda. Bjoss. Boa semana !!!!