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Analia

vai às compras...
por Osmar A Marques


Uma das tarefas de um bom turista é sair às compras. Em local exótico, melhor ainda. Chegamos de ônibus, provenientes de Jaipur. Muitas horas de viagem e pouquíssimos quilômetros percorridos. As viagens sem guias e feitas com planejamento próprio são ótimas, mas às vezes muito mais cansativas. Cansaço compensado pelo contato com a população e o conhecimento da cultura popular. Ter que subir na jardineira para colocar as bagagens e, óbvio, amarrá-las muito bem para se assegurar que chegarão ao destino, é apenas o início. Ah!

 

Antes, quase me esquecia da luta para comprar passagens. Fila enorme, composta só de homens – mulheres não fazem fila –, quinze minutos para a partida e, no interior do guichet, os vendedores tomando tranquilamente o seu chá. A qualquer pergunta sobre o horário, a informação serena:
– Sairá às 08h30min. Em ponto. Sem problemas...
 

Se o seu sotaque é notado, a pergunta e o convite:
– What country? South America? Aceita um chá?
Se a resposta for positiva, seguramente indicarão o caminho para o interior do guichet e estalarão os dedos, forma de chamar um subalterno, e a xícara ou copo de chá estarão à sua frente. E a fila aumentando, e de tempos em tempos o funcionário responde alguma coisa ininteligível e acrescenta o famoso “no problems ...”. Ao dizer que é brasileiro, um desfile de nomes de jogadores de futebol, começando por Pelé, Falcan-ô, alguns nomes não muito conhecidos, etc. ...

 

Aí, faltam só cinco minutos e os “no problems” continuam. Saímos e voltamos à fila. Onde só havia homens, agora se formou uma segunda fila de mulheres, à direita, com prioridade de atendimento. No guichet onde só cabia uma cabeça para perguntar, agora se vêem inúmeros braços e mãos mergulhados, e todos falando ao mesmo tempo. O interessante é que o vendedor atende a todos os braços, femininos prioritários, ao mesmo tempo. Infernal! Ou seria genial? Uns pedindo uma passagem, outros, duas; outros, informações, trocos e emissões de passagens – tudo ao mesmo tempo e por uma pessoa só! SERIA O FUNCIONÁRIO NÚMERO 01 DA MINHA EMPRESA. Eficientíssimo! E que memória!
 

Às 08h30min, britanicamente em ponto, o ônibus saiu... Até hoje me pergunto como Analia conseguiu comprar aquelas passagens na fila prioritária, comigo gritando para ela o que dizer ao indiano vendedor, em péssimo “ingrêis”, receber bilhetes e troco corretíssimos, com lugares marcados – e o melhor: embarcamos! Quanto ao horário de chegada, ninguém ousava informar uma previsão...
Lá estávamos nós. Felizes, assentados e esmagados por uma multidão. Pergunto-me se não havia excesso de passageiros, mas pelos moldes e tamanho da população local, seguramente era uma viagem tranqüila e confortável. E, assim foi. Conversamos muito, oferecemos biscoitos e balas que eram bem aceitos e aceitávamos tudo que era oferecido. Comemos bananas e tomamos chás feitos em águas duvidosas nas paradas. “Black tea”! Felizmente, nada de diarréias. E o comandante motorista nos conduzindo com os seus pelo menos três braços. O direito, para se apoiar na janela. Não esquecer que o volante é do lado direito. O esquerdo para passar as marchas. O terceiro, para a buzina. O tempo todo, a viagem toda. Para facilitar poderiam instalar uma buzina automática. Oh! Já ia me esquecendo do braço do volante. Precisa? Não tinha piloto automático? Acrescente-se a isso que as estradas são muito estreitas, muitíssimo movimentadas, servem ainda para descascar o arroz que é espalhado ao longo da via, para secar outros grãos, e ainda são frequentadas por camelos, caravanas puxadas por bois, búfalos, vacas sagradas, muita gente – e tome novidades! As cores são maravilhosas, a paisagem, apaixonante; as emoções, constantes; os cheiros e sabores, exóticos e imperdíveis! Incenso por toda parte. Fumaceira e adrenalina. Muita adrenalina. Acrescentem-se aí sons que aparecem de todos os cantos. De flautas, roncos do motor, buzina e estômagos, passando por choros infantis, flatos e “eructos” bem adultos...
 

Mas chegamos. Em Mathura. Na hora. Hora qualquer, mas no final da tarde. Cidade do Lorde Krishna.
No Serviço de Informações ao Turista, presentes em todo o país, após muitos “no problems”, conseguimos um simpático hotel, nos instalamos e avidamente, partimos ao reconhecimento da cidade e compras, antes do anoitecer.
As ruas, iguais às das demais cidades. A maioria estreitas, becos, super movimentados, mas como não se tratava de cidade grande, mais tranqüila. Vacas, cachorros, de tempos em tempos um camelo, trânsito caótico tendo como figura central um guarda sempre tentando organizar o caos. Sempre tentando... O comércio, constituído de pequenas lojas de doze a quinze metros quadrados, às vezes menos. As lojas se encontram a cerca de sessenta centímetros a um metro acima do nível da rua, e o acesso é feito por dois ou três degraus. O comerciante fica sentado no chão, na frente do cliente – Analia, na mesma posição. Loja de tecidos. Milhões de cores, de tecidos diferentes, cheiro de incenso no ar e “black tea” no copo. A cada estalar de dedos, o subalterno retira um pano diferente e estende sobre os joelhos do comerciante e do comprador. Dezenas de tecidos. A cada pedido de “chega”, um “no problem” e mais diversos modelos esparramados.
 

E, do lado de fora, eu. espectador privilegiado de uma cena que se desenrolava no palco situado a um metro acima do nível da rua. Eu e um milhão de indianos. Crianças e adultos assistindo a tudo. Congestionamento formado. A sensação do macaco na jaula e a multidão satisfeita. Mas eu era o macaco. Conformadamente símio. A meninada beliscava os pêlos dos meus braços e puxava os meus cabelos, os poucos que ainda existiam. Ganhei e comi macacamente, muito amendoim de origem duvidosa. Ótimos, porém. Analia, entretida e maravilhada com a beleza dos desenhos. Até descobriu uma roupa e a vontade de comprar a levou a tentar experimentá-la. Óbvio que não havia local para prova e quando ela fez o sinal de que queria colocar por cima da roupa que ela vestia, apenas fiz um discreto gesto mostrando a multidão em delírio. Assentiu com a cabeça, mas, muito cabeça dura, ainda queria se ver no “mirror”.
– “One mirror, please!” Solicitou.
Ouviu-se um estalar de dedos do comerciante, o ajudante sai correndo da loja, salta e desaparece no meio da multidão que abriu passagem para o mesmo espantadíssima e... Enquanto isto, a meninada “deitava os cabelos” em cima de mim. Beliscões, puxões de pêlos, questionamentos diversos, risos, comentários entre eles, até que na sacanagem gritei:
– Bobo, fédaputa, tománocú...
Surpreendentemente, se formou uma extensa fila indiana da gurizada, que com as mãos nos ombros uns dos outros saiu gritando pela rua:
– Bobo fédaputa tománocú... Bobo fédaputa tománocú... Bobo fédaputa tománocú....
 

Aí, me lembrei da facilidade que eles têm de ouvir, gravar e repetir qualquer coisa que você fale ou responda. Pensava na possibilidade de voltar uns vinte anos depois e encontrar um grupo de rapazes gritando o refrão: Bobo fédaputa tománocú... E então, o adjunto de comerciante aparece com o famoso “mirror”. Redondo, com cerca de seis centímetros de diâmetro. Ai – pensei! Analia me olhou com ar de socorro, “que queu faço?” e fiz o gesto de que ela deveria se olhar, aprovar e comprar o mais rapidamente possível. Se é que isto seria possível... Colocou a roupa por cima da outra, sem se vestir, virou o “mirror” em todas as direções e assim foi feito, para delírio da multidão. E a compra foi realizada, e a noite instalada. Pagamos e, pacotão debaixo do braço, resolvemos passar no meio da platéia que não se dispersava e dos meninos que não paravam de gritar e dançar freneticamente: “bobo fédaputa tomanocú... Ufa! Conseguimos! Mas, uns quatrocentos metros depois – de ruelas e muita gente – perguntei:
– A máquina fotográfica?
– Esqueci na lojinha.
Continuamos a caminhar lentamente e começamos a refletir que nunca mais conseguiríamos retornar à loja, e muito menos reaver a máquina, que valeria muitos meses de um salário-mínimo indiano – talvez anos – quando senti um toque no ombro:
– “Sir! Sir!” O Senhor esqueceu esta maleta...
Virou-se e saiu correndo. O tempo só nos permitiu agradecer em voz bem alta ao garoto. Ficou a certeza que a recompensa maior que aquele garotinho poderia ter recebido era o fato de nos ter reencontrado e devolvido o que não lhe pertencia...

 

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Solange Malamud Muito interessante!

 
Madalena Demasi Boa noite!!!muito bom,interessante!!!!