voltar para a página-site do Osmar

 

O Empreitado

por Osmar A Marques

O bar restaurante estava lotado. De gente de todo tipo. Talvez, pela sua proximidade com a rodoviária, situada no centro de cidade grande, perto de rodovia importante. Talvez pelos baixos preços oferecidos. Apesar do nome restaurante, do Buffet de comida aquilo à disposição, o pouco espaço de suas mesas e cadeiras de metal, talheres e copos surrados e tal, tudo indicava mais a favor de um botequim. Dos bravos.
Um danado dum vai e vem... E o calor, prá lá de insuportável, convidava prá “loira que estava extremamente gelada - predicado”, mas confundia cheiros de comidas e corpos.... O da carne assada predominava. Dizia por quê a casa existia.

No meio da confusão, sem possibilidade de exaustão, uma enorme chapa, um montão de carne sendo rolada, por imenso facão. A habilidade do preparador era impressionante. Pegava as peças, temperava, batia o facão até deixar os pedaços no tamanho certo, cortava as cebolas, abastecia a chapa, preparava as porções, infindáveis porções e a cada momento gritava, por trás de seu avental de limpeza duvidosa e de sua vermelhidão sudorenta:

- “Lá vai mais uma “poção” beleza...

E o garçom que respondia:
- “Sórta’ mais duas...
E assim foi passando o tempo. A energia aumentando. O tom de voz também. A quantidade de cerveja saindo não ficava por menos.
De repente, a explosão, o facão movimentando em todas as direções:
- Tão pensando uquê? Qui eu sô escravo? Trabaiando tanto prá ganhar esta miséria? Neste calorão? Sem parar???
Atrás da caixa registradora, barba por fazer, há dias, o dono ou gerente, mau encarado, cara fechada, apenas levantou a cabeça e falou em direção ao preparador:
- Cála boca e trabáia. Atende os pedido. Não interessa quanto ta ganhando. Aceitou trabaiá, então trabáia e pronto. Chegou aqui chorano miséria, agora guenta... Se tivesse istudo, se soubesse fazer outra coisa, não precisava estar aqui...
E foi prontamente atendido. O efeito filosófico destas palavras, recolocou o ambiente em paz. Os pescoços, antes virados ou estendidos para o lado da chapa, voltaram á posição normal e as mãos se movimentaram em direção aos copos. Até um TIM- TIM se ouviu.... Porém, o barulho do facão contra a chapa continuava...
Aí, o indivíduo que aparentava ser um forasteiro na região se aproximou do chapeiro:
- Tá bastante calor hoje, né? Esta carne está com um cheiro muito bom. Deve estar ótima...
- Isto tá! Num tem ninguém que queima uma carne mió qui eu. O probrema é que trabaio mais qui cachorro. Isto num é vida... . Vai querê? Perguntou, fazendo um gesto com o facão levantado.
- A carne sim. Sem o facão, brincou o forasteiro.
- Discurpa moço. Vô fazê o mió pru Sinhô. Tô aqui tem treis mêis e é a primeira vez que alguém conversa cumigo. Isto num é terra não... respondeu abaixando o facão.
Seus movimentos e sua expressão facial se tornaram suaves. Sua comunicação agradável.
- Você é daqui?
- Sou não, mas vim muito cedo. Meio fugido de casa, procurando emprego... Saí da roça. Lá era bom e eu não sabia. Depois, foi a disgraça...
Um silêncio, outras porções saindo e aquela, especial, sendo preparada tranquilamente. E continuou...
- Briga entre famílias. Todos os meus morreram... Num tinha prá onde voltar.
- Aí, começou a trabalhar aqui? Em que?
- Bons tempos aqueles. Eu era empreitado. Tinha empreitada prá valer.
- Como assim? Fingiu não entender...
- Os home vinha, encomendava os serviço e nóis fazia a empreitada. Eu era o empreitado de maior respeito.
- E tinha muita empreitada?
- Tinha, até que mudaram o delegado. Tive que viajar. Fui para o Amazonas, porque me disseram que lá tinha muita empreitada...
- Ficou muito tempo lá? Trabalhou muito?
- Nada... lá tinha mucha concurrência e poca empreitada... Fiquei quase cinco anos. Para esquecerem de mim aqui.
- E por que voltou?
- Tinha a esperança de encontrar empreitadas. Muitas... Aí, o único trabáio que encontrei foi aqui...
Passou a manga do avental na testa, fez um gesto em direção ao caixa e acrescentou:
- Ele tem razão. Posso reclamar não. Num sei fazer outra coisa...
- Obrigado seu moço. Obrigado por conversar comigo, respondeu calma, afável e simpaticamente, entregando a caprichada e deliciosa porção de carne...
- Boa sorte e até a próxima!

(ilustração: PORTINARI, 1941)