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Pretinha...

por Osmar A Marques

 

 

 

Fernando Kojo, 2007, O casal e o cachorro

(Percepções e diálogos de rua... Escutados no trecho da Av. Contorno entre Estevão Pinto

e dois quarteirões abaixo...).


Olhando de um lado para o outro sem parar, esperta, ela caminhava e rebolava à nossa frente. Esperta, mas tinha um ar de cansada. De quem ainda não tinha feito a primeira refeição do dia...
- Vamos Pretinha... Falou tranquilamente o homem, que não tirava os olhos, vermelhos e inchados, dela. Tinha o ar de quem se despertava de uma bebedeira das bravas.
- Vamos que já estamos chegando perto do café. Falou mansamente...
- Já vamos comer alguma coisa. Já estou sentindo o cheirinho do café. Quentinho... E do pão que você tanto gosta...
Continuaram andando, o homem falando e Pretinha, ora o acompanhava, ora ficava para trás, mas havia uma atração.
- Para de rebolar e ficar olhando para todos. Agora gritou e...
- Você tá muito dada! Tá agarrando e esfregando com todo mundo. Nunca vi ninguém dar tanta bola e com esta facilidade toda... Olha ontem à noite... Ficou com o Betão, se esfregou no Chico, e acabou a noite no colo do Arlindo.
Silêncio... mas notava-se ira e ironia nos seus gestos... Neste momento, ela se afastou.
- Vem cá fiádaputa, infiel, megera... Um dia ainda vou perder a cabeça e te cobrir de porrada. Num tem lei Maria da Penha que vai apartar nóis dois...
Viva, fingiu não ouvir. Sabia o que podia lhe acontecer...
- Você é assim mesmo! Eu faço tudo para lhe agradar. Reparto cama, cobertor, comida e você é totalmente interesseira. Desinteressada quando quer...
- Vem cá. Tô falando com você! Num me respeita mais? Começou berrando e foi se acalmando aos pouquinhos...
- Vem cá Pretinha... disse quase murmurando...
- Já vamos tomar nosso cafezinho. Seu cansaço vai acabar logo... falou baixinho diante da aproximação da Pretinha cúmplice.
- A vida é assim mesmo, meu senhor! Falou, respeitosamente após perceber minha aproximação...
- Das cachorras que já tive, Pretinha é a mais fiel... Sabe das dificuldades da vida errante, de não ter um teto, da dificuldade de conseguir comida, mas não me abandona...
- Eu te amo Pretinha... eu te amo muito! Você é demais.
Seguiram juntos, juntinhos, calmos e tranqüilos em direção ao café da esquina, na certeza da refeição matinal, com o dinheiro que acabavam de conseguir. O meu...

Ah! Pretinha era uma esperta cadelinha vira-latas, mas tinha uma coisa a mais, além da vivacidade e alegria... não era pretinha... No máximo, marronzinha...