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O Conto do Natal

por Osmar A Marques

 

Ninguém sabia muito sobre ele. Só o que contava e, quando tinha vontade. O que era raro. Passava o tempo puxando o seu carrinho cheio de tralhas e materiais a serem reaproveitados e reciclados. Vivia das coisas que vendia e algumas doações. Sempre seguido pela fiel cachorrinha Rena. Descansava em algumas pracinhas e aproveitava para tocar as suas flauta e gaita. Belas melodias de culturas diferentes. Falava bem, demonstrava ter estudos e ser conhecedor de muitos cantos.
- Aprendi com meu pai. Tocava vários instrumentos. De ouvido. Homem que não existe mais. Me ensinou princípios que não tem mais valor hoje em dia: palavra, honestidade, lealdade e bondade.
Um dia foi questionado sobre o nome.
- Ele, Seu Jesuíno, teimou com Donana e me batizou com o nome de Natal. Mãezinha queria não! Dizia que nunca tinha visto um Natal nascido em junho. Pai Jesuíno dizia que Natal é o ano todo. Bondade não tem limites...
E se calava...
Aí, sumia uns tempos. Quando reaparecia, a barba mais branca trazia também ar de mais sabedoria. E calma. Parecia um guru em sua serena meditação.
- Saí de casa, sem brigar com ninguém. Apenas saí, para conhecer o mundo. Meus pais pouco disseram, mas sabiam dos meus sonhos e que também não havia volta. Ainda me lembro de suas corajosas lágrimas. Meus irmãos eram muito pequenos...
Sabe-se, pelo próprio Natal, que foi contratado num navio e embarcou em Santos. Viajou pelos 05 continentes. Incontáveis países e regiões. Contato com povos, tribos, religiões diferentes, muitos amores e muitas recordações. Filhos? Nunca teve coragem... Aprendeu artes diversas: artesanatos, canções e culinárias. Origamis, pipas, jogos de tabuleiros, brinquedos atrativos, passíveis de serem feitos à mão. Sushis, “mômôs”, pizzas, empanadas, comidas vegetarias, temperos e aromas sem fim. Canções, lamentos e danças de povos diversos
Houve momentos de paradas, longas, e até de um curso superior quase completo. Quase sociólogo! Parou por que não era aquilo que queria. Entendeu que não se ajustava à sociedade que lhe era apresentada. Aprendeu muitas línguas e noções de outras tantas. Mas se recusava a falá-las...
Depois do navio, virou “trecheiro”. Desembarcou no Rio e seguiu a pé para muitos rumos. Seguia de acordo com a intuição. Cada entroncamento trazia a angústia da decisão. Para onde não ir? Dormia ao relento e comia quando o estômago gritava. Momento de procurar alguma coisa. Raízes, restos e qualquer improvisação eram possíveis. Achava ótimo porque não precisava conversar. Apenas fazer sua arte. Não parou de caminhar a esmo por vontade. Problemas do tempo.

Um dia foi flagrado recebendo umas moedas, espontaneamente dadas por uma Senhora, que lhe perguntou:
- Está bom?
- Minha Senhora: se cada passante me desse um pouquinho, eu, que já sou super feliz, seria o homem mais rico do mundo. Mas não peço não...
Natal não tinha nem praça, nem viaduto fixo. Muito menos gostava dos albergues. Os procurava sim, quando o desejo de banho era grande. Pousava onde era bem recebido e retribuía.
- Ontem à noite fiz um super jantar no viaduto. Prus meninos e pra Rena. Consegui um dinheirinho, comprei uns vegetais e uma ração especial. Precisava ver a carinha deles. E quando dei os presentinhos?
Sua última reaparição foi no final de novembro. O carrinho continha, como dizia, o seu tesouro. O tesouro das bondades. Era um saco de lixo preto, cheio de surpresas. Não o abria com facilidade. E quando dormia, o amarrava em seu braço para que não fosse roubado. Era muita preciosidade e segredo demais. Agora revelado, com imensa tranqüilidade.
-
Durante minhas folgas, quando não estou catando, tocando ou meditando, faço minhas obrinhas para serem distribuídas às pessoas que percebo estarem com alguma infelicidade. De noite, passo onde moram: suas casas, viadutos, praças ou marquises e vou deixando meus presentinhos. Feitos do nada. Deixo uma pequena mensagem e sigo tocando minhas músicas. O ano todo... No Natal? Improviso velas e vivemos, Rena e eu, tempos de infinitas luzes...
 

 

Paul Gaugin( 1848 - 1902)  Natal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obs.: a maioria dos fatos são reais. Observados em conversas com “trecheiros”, andarilhos, caminhantes e outros que fizeram opção por estar sempre às margens...