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Senilidades e Rejuvenescências...

 

Abreugrafia

por Osmar A Marques

 

 

 

 

 

 

(Allejandro Ullo Gracia, A Morte de um Burocrata)

 

 

Formados estávamos. Conformados nem tanto. Muito discutimos e denunciamos em prol de uma profissionalização melhor. A realidade era que tínhamos um diploma e estávamos aptos para exercermos a profissão. Isto, de acordo com a Universidade. Aptos? Apitos soavam procurando alertar sobre as possibilidades de erros profissionais e suas consequências. Inconsequência era colocar no “mercado de trabalho”, jovens inexperientes.

 

Saímos em busca do reconhecimento do diploma, inscrição no conselho, a busca do primeiro emprego. Uma saga entre Secretarias de Educação, Saúde, faculdade, conselho de classe, consultórios médicos para os atestados devidos e... o pedido de Abreugrafia. Raio X.

Óh raios!

 

- Vamos fazer lá atrás do Parque Municipal? Tem um posto que faz de graça.

- Putz! Vai demorar prá daná. Melhor pagar e fazer na hora.

- Não estamos fazendo nada. Vamos lá.

 

Chegamos. Uma fila razoável nos esperava.

- Já que estamos aqui... Vamos ver como este povão é atendido.

 

Do outro lado do balcão, a funcionária, exemplo de bons serviços prestados e aos berros:

- Próximo! Próximo! Não está escutando não? Chega mais perto!

- Sim Senhora... Balbuciou o humilde usuário.

- Seu nome?

- zérmenegildo...

- HEIN? NUM SABE FALÁ NÃO? Fala direito. Alto...

- zérmenegildo...

- JOSÉ O QUÊ??? É cada um que me aparece... Falou se gabando para o colega ao lado.

- José Menegildo. Ousou falar um pouco mais alto.

- MENEGILDO? Desde quando isto é nome de gente? Deve ser ER... ME... NE... GIL...DÔÔÔ...

- Isto mesmo Dona! Quer ver minha carteira de identidade? Falou voltando à timidez inicial.

- Dá logo! Por que não me falou de cara, que tinha carteira? Tanto trabalho... Argh!!!

- Toma. E estendeu a mão, que quase foi arrancada pelos cinco dedos de esmalte vermelhão.

- Agora sim! Ainda bem que eu sou inteligente e tenho paciência... E completou:

- Endereço??? Bairro, etc... etc...

 

E assim prosseguiu, aos berros e desaforos, desrespeitando à todos que não podiam pagar e tinham necessidade de fazer e receber o resultado da Abreugrafia.

 

- Vamos embora?

- Vou não! Esta Senhora vai receber o troco. hehehe

 

- PRÓXIMO!!! Vociferou convicta de poder “faturar a próxima vítima”.

- Hein??? Respondi com muitos decibéis acima do tom usado pela “Servidora Pública”.

- O PRÓXIMO!!!

- HEINNNNNN??? Fala mais alto... Não estou escutandooooo...

- Eu não sou surdaaaa!!!!

- Meu nome é... berrei olhando o que estava escrito na ficha...

- Não precisa gritar... falou voltando a voz ao normal.

- E o sobrenome é... continuei gritando.

- O Senhor poderia falar mais baixo?

- Ah! Sim! Sou filho de... e de ...

- Por favor. Não precisa gritar.

- O Endereço? Rua Minas Novas... Sabe onde é?

- Vou chamar o meu Chefe.

- O Bairro? Cruzeiroooo... Cê ERRE ÚÚÚ Zeiiiirôôô... Igual ao time de futebol. A Senhora também gosta de EFE U TE Bóóó´llll???

- Pronto! Acabou. O Senhor pode aguardar alí. Vai ser chamado pelo nome.

Dito isto, percebemos que a Servidora, escondeu as nossas fichas e saiu para tomar ar, ou café, ou para desabafar das agruras de trabalhar com gente burra no balcão. Não demorou. Assim que voltou ao seu posto, voltamos e dissemos bem forte:

- Desistimos de esperar. Não temos mais tempo. Muito obrigado pela gentileza. A SENHORA É MUITO SIMPÁTICA E PACIENTE. Nós vamos embora. E EME BE Ó RAAAAAA. EMBÓOORAAA!!! TECHAU!!! TECHÁU...

 

A plateia, na fila, se deliciava. Os colegas de trabalho, com seus sorrisos marotos e olhar de “menesgueio” riam da jabiraca. Antes de sairmos, vimos que a respeitável Senhora, se retirou, com lágrimas nos olhos...

 

Acredito, que foi nossa contribuição para o choque de gestão! E a excelência no atendimento ao público. Mas cá prá nós. Que a “bestão” levou um choque, levou... hahaha