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Sobrinhos e Sobrinhas ou “Sóbrinhas...”?
por Osmar A Marques

1. Vaca preta
 

Laura, linda moreninha espevitada, educadíssima, simpática e curiosa, filha da Sonia, vizinha do 6º andar, sempre cumprimentava e se comunicava educadamente com todos. 7 ou 8 anos, estudante do Colégio Arnaldinum.
Um dia, solicitamos autorização da Sonia para convidar a Laura para tomar um sorvete no nosso apartamento.
E lá veio Laura, faceira, feliz, e perguntadeira. A qualquer explicação, escutada atentamente, sempre tinha uma pergunta rápida.
- Prá que serve isto? Por que é assim?
E não se contentava com respostas imprecisas.
Aí, perguntei se ela conhecia “Vaca preta”.
- O que é isto?
- Sorvete com Coca Cola.
- Hum! Respondeu desconfiada. Dá certo os dois juntos? Minha mãe nunca me deu. Nunca comi. Sei lá!
- É gostoso.
- Você vai comer?
- Lógico. Vou preparar 03.
- Então eu quero, respondeu determinada.
Só de pegar as taças para a preparação, nada complicada, a observação:
- Nóóssa! Que chique...
E ao receber e provar o produto.
- Deliciosoooo. Vou contar prá minha mãe. É Vaca preta, né? Mas por que chama Vaca Preta? Nunca vi vaca preta deste jeito...
O telefone tocou. Comandante Sonia que convocava Laurinha para dormir. Me salvou de tentar uma resposta que jamais seria convincente...

2. Pai Postiço
O efeito vaca preta foi tão bom que Laurinha passou a nos visitar com mais freqüência. E o sorvete se tornou famoso, falado para todos, até na escola. Numa destas visitas, ela perguntou:
- Como vocês se conheceram?
- Foi na França, explicamos. Analía e eu estávamos estudando lá.
- Na França? Bacana! Legal! Mas, como vocês foram prá lá e se conheceram?
- Bom. Analía saiu da Argentina e eu do Brasil e fomos.
- Bem que eu notei que ela fala diferente. Que língua você fala?
- Espanhol.

- Eu também quero aprender a falar espanhol.

Bacana, né? Mas como vocês se conheceram?
- Ah! Teve um banquete do Centro de transfusão de Estrasburgo. Eu trabalhava lá. Convidei Analía para ir e começamos a namorar.
Buscamos um atlas e lhe mostramos onde ficava a Europa, a França e Estrasburgo.
- E como se fala o meu nome em francês?
- Os franceses pronunciam o seu nome como “Lorrá”.

- Lorrá. Gostei. Lorrá... Você vai me chamar sempre de Lorrá?

 

De acordo com a genialidade do Celinho da Sandra, a palavra sobrinho (a) tem como origem o verbo sobrar e que eles na realidade deveriam se chamar sóbrinhas...
 

Além disto, há um velho ditado popular que diz: “A quem Deus não deu filhos, o diabo deu sobrinhos...”
 

Sóbrinhas ou não, dedico este espaço a algumas abobrinhas, lógico que engraçadas, proferidas ou realizadas por alguns deles. Sem preocupação com a cronologia dos fatos.
 

 

 

Pocotó
 

Estávamos na loja Anel e como acontecia em férias e no período de Natal, os “sóbrinhas” aproveitavam bem do período para se divertirem no BH Shopping.
Loja cheia, muito cheia, como é desejável por qualquer comerciante e de repente, no meio dos clientes, estava Felipe – 08 a 10 anos, junto com primos, fazendo gestos de “ai se eu te pego” repetidamente e falando muito alto:
- Pocotó! Pocotó! Pocotó!
- Pocotó! Pocotó! Pocotó!
- O que é isto Felipe? Endoidou de vez? Ousei perguntar e recebi pronta e berrada resposta:
- Se tivesse uma “muié” aqui você sabia, né? Hahaha. E saíram correndo da loja...
 

 

 

Os Santinhos.
Véspera de mais uma eleição. A distribuição de Santinhos dos candidatos era farta. Maria Eduarda morava conosco. Esperta, muito esperta para os seus 7 anos de idade. Um dia, a vimos com um monte de Santinhos, de diversos candidatos diferentes. Ela lia, em voz alta, o currículo de cada um e nos perguntava o que achávamos e se votaríamos nele. A cada resposta negativa, ela separava os Santinhos daqueles que não aprovávamos.
Então, percebemos que estava desenhando barbas, bigodes, chifres, cabelos esquisitos, marcando dentes em preto, colocando batom e adicionando dizeres. Não vote nele! Ele não presta! Vagabundo! Sem vergonha! Safado! É ruim!
Passou vários dias trabalhando duro! Não demos mais atenção. Brincadeira de criança.
Ai, um dia ao chegarmos em casa, a vimos colocando os Santinhos debaixo das portas dos apartamentos do prédio.
- Oi Duda. O que esta fazendo
Correu, nos abraçou e disse alegre, sensação de dever cumprido.
- Estou distribuindo os Santinhos dos candidatos que não devem receber votos.
Pasmo, perguntei se podia vê-los. Me estendeu a mão com vários deles e percebi que havia algo escrito alem dos comentários já definidos: As reclamações devem ser feitas no apartamento 603.
- Duda, este não e o nosso apartamento.
- E você acha que eu sou boba para pedir para alguém reclamar no nosso apartamento
Pois é. Sabedoria infantil...

 

- Você gostaria?
- Lógico. É chique.
E o bate papo sempre era longo e agradável. Muito disciplinada, perguntava seguidamente as horas, pois não gostava de contrariar a mãe. Um dia nos perguntou se a gente gostava de viajar e se viajamos muito e satisfeita com a resposta, o brilho no olhar foi instantâneo.
O tempo passou, e passou o dia dos pais. Um dia fomos abordados pela Sônia, aparentemente constrangida, indagando se poderíamos ler uma composição escrita pela Laura na escola e alusiva ao dia dos pais. Está guardada nos nossos corações e dizia mais ou menos o seguinte:
“Hoje é dia dos pais e a professora pediu para escrevermos sobre eles. Eu não tenho contato com o meu pai, mas não me aperto. Adotei um pai adotivo, conversamos muito, me chama de Lorrá e faz excelentes vacas pretas, que eu adoro e tomamos sempre juntos. Osmar, Analía e eu”.
A composição está bem guardada. Laurinha Lorrá, se formou em jornalismo, após morar cerca de 02 anos em casa, estudou teatro, aprendeu dança flamenca e a última notícia via facebook é que estava em apresentação pela Alemanha – Berlim, mas já tinha passado pelo Marrocos, Espanha...
 

A Injeção.
 

Precisando receber uma injeção, levamos Ricardo, com idade aproximada de 7 anos e sempre muito reservado, à Farmácia Ipanema - do amigo Zé Ronaldo.
- Benzetacil... falou o Zé após a leitura da receita e completou:
- Melhor aplicar no bumbum.
Ricardo estático, fisionomia séria, não deu uma palavra. Sabia que tinha que se submeter.
- Pode baixar a calça. Solicitou o aplicador e começou a preparar a seringa sob olhar atento da vítima.
- Vai doer nada. É só uma formiguinha.
Aplicou. A dor estava evidente na expressão facial. Nenhuma palavra. Injeção terminada, falou:
- Num falei que era só uma formiguinha?
- Formiguinha é a PUTA QUE O PARIU!!!!! E se calou sério, olhando para a parede, no canto da sala...

 

 

 

O Côco
 

Por ocasião de umas de nossas idas à Córdoba – Argentina, Analía telefonou aos sobrinhos Guillerme, Vanessa (afilhada) e Bruno, entre 08 e 11 anos, para saber o que gostariam de ganhar do Brasil. Educados, simpáticos e bem adestrados pela Mama Míriam, sempre respondiam que nossa presença é que era importante. Bruno, diplomata nato, do alto dos seus 08 anos e após muita insistência da Tía, respondeu:
- Traeme un côco Tía, com significado claro que ficaria feliz com qualquer lembrança e que não deveríamos nos preocupar e nem gastar “plata” com presentes para eles.
Pedido feito, lógico que o desejo seria realizado. Compramos no EPA o maior côco encontrado, que foi devidamente embrulhado com papel colorido e vistoso, aparentando um grande ovo de Páscoa. Alusão ao período que vivenciaríamos no momento da entrega das lembranças, que obviamente eram esperadas pelas crianças.
E a Tia animada convocou. Regalos! Regalos! Vengam! Vengam! E começou...
- Para a Vanessa! E entregava os embrulhos que eram avidamente abertos.
- Para o Guille!
- Para Mirian! Para o Ruli! Para o Luiz (até cunhado merece presente)
E agora, para o Bruno. Pegou o enorme e pesado embrulho, que foi seguido de Ohhhhhh por todos. Bruno feliz rasgou o belo papel e num susto disfarçado disse:
- Muchas gracias Tios, mas sem muito entusiasmo.
E Analia continuou a farta distribuição de presentes e poucos momentos após, Bruno pergunta?
- Tio? Como hago para abrir mi coco?
Coco aberto, canudinho instalado e antes que tomasse o primeiro trago, ofereceu e fez questão que todos o provassem. Só então degustou, manifestou que estava delicioso e o guardou na geladeira. De 5 em 5 minutos abria a geladeira e dava um novo trago.
Presentes distribuídos e ao final Analía anunciou que tinha outros presentes para Bruno e os entregou. Recebeu, mas com o côco nas mãos.
Finalizada a cerimônia, percebemos que Bruno saiu de casa com o côco, o canudinho e o vimos compartilhando com amigos. Deixava provarem pequenos tragos, pois todos los amigos teniam que aprovechar deste regalo raro, que los tios traeram de Brasil.
Só conseguimos convencê-lo a jogar o coco fora, mais de 01 semana depois de aberto. Quantas bocas passaram pelo canudinho, jamais saberemos.
Também descobrimos que o coco era reabastecido, varias vezes por dia, com água da torneira, um pouco de açúcar e sal, para que mais companheiros pudessem aproveitar... Presente extemporâneo, de longa duração
.
 

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Maria Eduarda Marques
 Adorei! Muito obrigada!!!

Elizabeth Krausz Adorei. Não perca Maria Eduarda Marques, Felipe Marques, Vânia Marques, Maria Amelia Almeida. Parabens, Osmar e Isabel Fomm de Vasconcellos.

De: Osmar de Almeida Marques
Enviada em: terça-feira, 29 de setembro de 2015 15:29
Para: Isabel Vasconcellos <isabel@isabelvasconcellos.com.br>
Assunto: Crônicas de Osmar A Marques e novo conto publicado na Revista Portuguesa CEN

Só você mesmo Prima.
A página ficou maravilhosa. Nusga! Com Portinari e muita arte. Parabéns! Gostei prá caramba!!!!
Abraços,

Osmar
 

"Eduardo Dolabella Cesar" <edcesar.bhz@terra.com.br> Beleza, Osmar. Algumas histórias das muitas que já compartilhamos. Abraços, o Duda.