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Relatório: Um sonho bem vivido

por Osmar A Marques

 

(Edson Veras, dos Lençóis Maranhenses, 2016, O Padre de Barreirinhas)

 

 

Local: Lençóis Maranhenses – Entre Barreirinhas e Santo Amaro do Maranhão.
 

Período: 24 de Setembro a 3 de outubro
 

Protagonistas: Analia, Laura, Mariângela, Tânia e Osmar – MG e Bernard (Franco Ludovicense...)
 

Participação especial: Marília, Bruno, Tiago, Suzana da Pousada do Paturi – Caburé; Buna do Rancho do mesmo nome e Luzia dos Camarões - Atins; César o guia..., Neide da Pousada das Gaivotas – Santo Amaro...
 

24 de Setembro – Domingo
20h00 - Os protagonistas se encontram na Av. Álvares Cabral – Conexão Aeroporto. O primeiro e talvez único susto, se passou no momento do “chequim”. Analia quase foi impedida de embarcar, pois a TAM não estava aceitando o seu documento provisório (180 dias) emitido pela Polícia Federal. A alegação é que ela deveria embarcar com o “passaporte...”. Após a chegada do gerente, muito blá blá blá, foi resolvido e pudemos embarcar. Ufa!
O vôo, com escala no Rio e Fortaleza, teve pouca turbulência, mas o primeiro serviço de bordo foi prejudicado e não servido (pacotinho de amendoins...). A reabilitação aconteceu entre o Rio e Fortaleza onde foram servidas nada suculentas torradas. Duas...

25 de Setembro – 2ª Feira
Às 05h15 da manhã, Marília estava nos esperando com sua Hilux no aeroporto. O traslado inicial foi para sua casa-clube (inúmeras árvores frutíferas, piscina, duchona, campos de futebol e basquete, etc...) onde fomos amavelmente recebidos com um farto café da manhã. No final da manhã fomos para a Pousada Portas da Amazônia – no Reviver. Espaço turístico onde estão as construções antigas. Após almoço típico no “Antigamente”, caminhada pela parte histórica de São Luiz, seu mercado, o Palácio dos Leões, Praça Pedro II (1612), Igreja da Sé (Matriz – 1629), Teatro João do Vale, o centro comercial e o mercadão já fechado.
A noite terminou em pizza. Deliciosa, degustada na pousada.

26 de Setembro – 3ª Feira
Bernard e Seu Edson com sua “van Besta grande termo regulada” a postos, após o café da manhã, para percorrermos os 265 km que separam São Luiz do município de Barreirinhas. Devido a uma forte emissão de fumaça longuíssima ( entre 8 e 10 metros), mas imensa na visão do Seu Edson, a viagem foi interrompida por cerca de quinze minutos, devido ao alto grau de periculosidade que afetava a visão geral... Passado este enorme perigo, fizemos parada-xixi em Morros. Conhecemos a Zeca (casada com o Adenilson) que vive à beira da estrada em uma palhoça bem à maneira índia. Vida dura! Conhecemos quatro dos oito filhos. Vivem praticamente da cultura e beneficiamento da mandioca. Isolados de tudo. As crianças tem que andar quase uma hora a pé, para pegarem a condução para a escola. Terra de muitos Sarneys! Benvindas e merecidas sejam todas as bolsas: família, escola, etc.
Instalação em Barreirinhas, Pousada do Buriti, onde almoçamos. O Primeiro contato com os Lençóis, após a travessia feita em balsa pelo Rio Preguiça, foi de solavancos na carroceria da Toyota – 4x4. A primeira caminhada pelas brancas dunas, os banhos nas lagoas Azul e na do Peixe (Esmeralda), e o por do sol, deram uma pequena amostra ainda acompanhada de turistas, do que estava por vir... E, tudo isto já foi deslumbrante...
Á noite, às margens do Rio Preguiça, Camarões e Peixe com Buriti...Huuummmm!

27 de Setembro – 4ª Feira
Chuva fina e rápida na saída da Pousada. Preocupação passageira pois tínhamos 46 km de voadeira até Caburé, descendo o Rio Preguiça. Não conseguimos ver os jacarés nos mangues, mas fomos brindados com uma revoada de Guarás – pássaros que se tornam vermelhos quando adultos - num dos igarapés. Os que vimos, por serem jovens, ainda tinham sua plumagem escurecida. Na Vila Vassouras (cinco ou seis palhoças), fomos recepcionados por mosquitos (né, Anália?) e muitos macacos pregos (destaque para o Pepe que até deu uma voltinha no lombo do bode).

Subimos as dunas amarelo-douradas dos Pequenos Lençóis. Indescritíveis...mas ainda era só o começo...

Após uma boa água de côco, continuamos nosso percurso até Caburé. Demos carona de barco para quatro crianças que “trabalham como guia” nestas dunas e que para retornar à suas casas teriam um percurso pela areia de pelo menos uma hora. Retornavam para ir à escola.

Caburé é uma península entre o mar e o Rio Preguiça. Na Pousada do Paturi – figura folclórica local que estava em São Luiz, fomos recepcionados pela Suzana, sua mulher. Nesta época do ano o vento forte e constante não pára e tivemos a impressão que a areia cobriria toda a pousada. Os proprietários colocaram barreiras (cercas de palha) para impedir a movimentação das dunas. Vimos o esforço da equipe de sete ou oito pessoas contratadas para removerem diariamente a duna que se formava entre o restaurante e nossos chalés, mas a quantidade de areia retirada parece inferior àquela transportada pelo vento. Parece que toda a península será coberta pelas dunas...
Óbvio que queríamos nos batizar no mar. Uma pequena caminhada pela areia quente desde a pousada foi necessária. No “caminho”, encontramos uma choupana e a curiosidade nos fez entrar. Dentro, com temperatura bem amena, estava quatro crianças, sendo que Luzia, oito anos, a mais velha, era a responsável pelos pequenos. Ela, sentada na mesa e os pequenos na rede. Os pais, empregados da pousada. No mar, só nós e a imensidão...
Terminado o almoço, fomos conhecer a Vila de Mandacaru (cerca de 1000 habitantes) e o seu Farol, que foi construído a 1940 por iniciativa de uma família que já havia visto muitos navios naufragarem. O curioso é que o farol está a cerca de 800 metros da praia, mas seus 36 metros de altura permitem que a sua luz seja vista a cerca de 40 quilômetros. Muito calor e subir os 160 degraus não foi tarefa fácil. Houve até ameaça de desmaio!
A paz total foi alcançada na Pousada do Paturi, depois das 22h30 hs, quando o gerador foi desligado.

28 de Setembro – 5ª Feira
Durante os preparativos para o embarque em direção à Atins (cerca de 30 minutos de barco), fomos brindados por uma forte tempestade (de vento e água). Tempestade horizontal! Meia horinha apenas... Como no barco só cabiam quatro pessoas, Laura, Mariângela e Tânia foram na primeira turma e os demais aguardaram na companhia da Suzana e do papagaio. Percurso pelo Rio Preguiça.
Suco de caju colhido na hora, foi a recepção oferecida pelo figuraça Buna, sua namorada Mônica e o braço direito, Sidney, na super agradável e interessante Pousada Rancho do Buna. Acordamos com o Buna e sua Toyota, que tomaríamos um banho de mar (caminhada de cerca de um quilômetro até a praia toda nossa), pela areia fofa e depois iríamos almoçar no Restaurante da Luzia e conhecer a Lagoa Tropical – sugestão local. Ótima opção, pelo fato do calor estar intenso, a dificuldade de andar na areia mole e pelo fato das grandes distâncias. Para a Luzia, deveríamos ter feito caminhada de cerca de duas horas só de ida e para a Lagoa, distância muito maior. Ganhamos tempo e energia. Na Luzia, Vila Canto do Atins, umas cinco casinhas dentro do Parque Nacional, degustamos ótimos camarões, um feijão de corda sem igual, peixes, um pirão..., e até uma salada de tomates. Caminhar até a Lagoa Tropical, conhecê-la totalmente nossa, um banho de purificação e um por do sol grandioso. Precisa falar mais?
Para terminar o dia, banho de piscina e jantar na Pousada. Elaborado pela Dona Augusta: Arroz de Tariobas com salada de rúcula... Tariobas são frutos do mar parecido com ostras ou vôngoles...

Obs.: Atins é um vilarejo de menos de mil habitantes. Só transitam veículos 4x4, pois não existem ruas. Apenas caminhos de areia.

29 de Setembro – 6ª Feira. Santíssima...
Despertar tranquilo e chuvisco. Sendo os únicos hóspedes, o contato com todos foi excelente. Convidamos o Sidney para seguir conosco, mas dizia da impossibilidade de deixar a pousada. Café da manhã supimpa, enquanto aguardávamos a chegada da Toyota que nos transportaria pelas areias da praia e pelas dunas. Dependíamos somente da maré para fazer o caminho da praia. César, o guia, informou que só seria possível passarmos após as 13h00 . Decidimos tomar um banho de praia no Canto do Atins, perto da Luzia (cozinheira engraçadíssima, com seus dois maridos e o plano de abandonar um deles quando a filha mais nova completasse 15 anos...) onde almoçamos novamente camarões, peixes à escabeche, pirões, feijão de corda... e farinha, naturalmente. Maravilha. Como éramos os únicos, ela se superou no seu fogão à brasas.... Tudo isto na presença de cervejinhas e Jesus (o refrigerante cor de rosa com gosto de chicletes e canela, de propriedade da Coca Cola). Nota interessante do restaurante é o sanitário situado no fundo do quintal e cujas paredes são feitas de palha numa espécie de labirinto. Sem teto. E, no final do labirinto, virado para os céus, uma privada. Branca e sem assento. Surrealismo à moda da casa. Descarga? Aos baldes. Ah! Quase me esquecia. Na saída da Pousada, Sidney manifestou interesse em viajar com a gente. Buna incentivando. Desorientado correu de um lado para outro, enchendo sua mochila até que conseguiu embarcar.
Pela praia, inteiramente nossa, percorremos 35 quilômetros até entrarmos no “caminho” das dunas. Lençóis brancos branquíssimos, movimento e mudança constantes, tudo nosso! Ninguém... Areia finíssima, vento forte e contínuo. Cores, tons, sombras, geometrias e assimetrias. Curvas e retas. O arquiteto é muito bom! Ótimo! Não existe monotonia no olhar nem no observar. É coisa única. Deserto e água. Dunas e lagoas. Branco e azul, verde, cinza e etc.... Principalmente etceteras. O silêncio? Da imensidão. 155 mil hectares... O barulho? Do vento. Raramente de pássaros. Vida? Presente nas lagoas Muitas lagoas. Há peixes em algumas. Porcos e cabras de vez em quando. Banho nas Lagoas da Sonda (a Petrobrás já fez exploração nos Lençóis), antes de conhecermos a Queimada dos Britos e nas Emendadas após. Queimada dos Britos é um “oásis” no meio dos lençóis. Aí vivem cerca de 30 pessoas em quatro ou cinco palhoças. Dormem em redes. A qualquer hora. Tem todo o tempo para esta nobre atividade. Dona Joana, espécie de matriarca do clã dos Britos, nos recebeu oferecendo um licor de caju e ervas. Ao ser perguntada por banheiro pela Analia, questionou se seria “líquido ou sólido”. Diante da líquida resposta, indicou um “labirinto” de palha, onde no interior, só havia areia... Prático! Para sair da Queimada dos Britos, só a pé ou a cavalo. Este percurso é feito mensalmente pela Dona Joana que demora cerca de nove horas a pé até Santo Amaro do Maranhão. Não há transporte oficial para o local. Há uma professora para os pequenos. Da família. Os recursos são poucos. Sobrevivem da plantação de mandioca e criação de cabras e porcos. Conhecer uma comunidade como esta é uma lição. Todos se respeitam. Deveriam fazer palestras sobre comportamento de equipe e convivência. São pobres, mas sábios. Muito tranqüilos. Solícitos e com um sorriso contagiante. Transmitem paz. Qualquer bolsa alimentação, escola, será sempre bem vinda. Mais uma vez e com frequência muito alta!
O banho nas Emendadas seguido pela visão de um novo por do sol, coroou este dia Santíssimo. Santa 6ª Feira!
A chegada em Santo Amaro, depois de um percurso de cerca de 25 quilômetros de dunas e areias, aconteceu à noite. Pousada Solar das Gaivotas às margens do Rio Alegre. As surpresas não terminaram. Na Pousada Água Doce, o camarão da Malásia (parecem lagostins) fizeram a festa! Ah! Conceição.

30 de Setembro – Sábado
Véspera de eleições. O juiz liberou bebida alcoólica em Santo Amaro do Maranhão. Medida inteligente. A cidade está a 56 quilômetros do asfalto. Estrada de areia. Acesso só para 4x4. Na cadeia não há presos. No máximo, prendem alguém que bebeu, até acabar a “Tiquirada”, destilado feito de mandioca (coloração anil corante). Da Pousada, avistamos o Rio Alegre. É ponto de encontro de lavadeiras, local de lazer da população. Ambiente democrático. Porcos, cabras, vacas e humanos compartilham o espaço aberto.
Mas, as Dunas do Espigão nos esperavam. Só nós! No caminho, travessia de córregos e lagoas feita na Toyota. Cajueiros e seus suculentos cajus nos esperando. O Espigão, branco e imponente. De um lado, o Rio Alegre atravessado a pé, a subida da duna e do outro o Ribeirão Vai quem quer. Na confluência dos dois rios, areia movediça. Mariângela ficou presa e tivemos um pouco de trabalho para libertá-la. O segredo para não se deixar prender é sempre movimentar as pernas. Senão, a areia parece que agarra a pessoa e a suga.
Visitamos uma Casa de Farinha. Cerca de 15 pessoas aí vivem em comunidade. Semelhante à Queimada dos Britos. Só três horas a pé para chegar a Santo Amaro. Nesta época do ano, não é possível o acesso em canoa. Laura aconselhou à família a fazer o tratamento do lábio leporino de um garoto de sete anos. A família não faz nem idéia das medidas a serem tomadas. O agradecimento, por meio de um saco de farinha, discretamente passado ao César para ser entregue posteriormente à Laura. Simplicidade, gentileza e discrição. Laura fotografou. Bernard e César se responsabilizaram por tentar algo. Tânia, com engulhos, foi salva do seu bolo de farinha. Goma. Não precisou comê-lo todo. Muitas fotos, como sempre!
Para encurtar caminho de volta, atravessamos o Rio Alegre na sua parte profunda, de canoa. Éramos nove na canoa. O naufrágio foi frustrado, mas quase aconteceu. Pequena inconseqüência de viagem! Seguimos areia e cerrado à dentro, passamos pela Vila Betânia e fomos para o merecido banho no Rio Alegre. Nós e alguns meninos do povoado que nos alegraram pulando de árvores para dentro do rio. Depois do almoço no Restaurante Cajueiro - Santo Amaro, fomos conhecer a Lagoa da Gaivota. Desta vez, tínhamos a companhia de habitantes locais. Nada que incomodasse, visto a extensão da lagoa. Vimos o pôr do sol, na duna que dizem ser uma das mais altas (entre 35 e 40 metros). Uma lagoa de cada lado, proporcionando “aquele” visual.
Antes do jantar, passeio pela cidade com ênfase na praça principal. Término do dia em pizza, no Cajueiro.

01 de Outubro – Domingo
Sidney partiu antes do amanhecer. Após diversas “ameaças”. Dia de eleição. Assunto do dia. Atravessamos a cidade até o “embarcadouro”. Ronei e o seu pai, Sr Juvenal nos esperavam para atravessar os Alagados no seu barco de pescador. Nos Alagados, vimos vacas que pastam dentro d’água e porcos que chafurdam e revolvem às suas margens. Ligada aos Alagados está a Lagoa das Gaivotas. Devido ao forte vento na lagoa, as marolas eram transformadas em ondas que nos deram um banho geral. Desembarcamos em uma de suas margens e fizemos um percurso de trinta minutos entre as dunas (parte do percurso com areia muito quente), até a Lagoa do Espelho. Magnífica! Soberba! Águas verdes e azuis, transparentes. Temperatura nota 10! Note-se que a grande maioria das dunas, são feitas com os pés descalços. O vento leva a areia quente e as caminhadas são confortáveis. Ronei “desapareceu” durante um bom espaço de tempo. Ao voltar trazia Mirins (frutas de sabor adocicado, do tamanho e coloração de azeitonas verdes e negras). O retorno foi feito pelo mesmo caminho, mas secos!
Apesar das filas para votação, fomos atendidos com gentileza e prioridade. Privilégio para quem justificou a impossibilidade do voto. Comprinhas. Artesanato local à base de palha de buriti. No final da tarde, o almoço. Novamente no Cajueiro. Não há muita opção. Na verdade, só dois restaurantes. Os camarões da Malásia ensopados, foram batizados de Camarões das Princesas e o nome foi aceito e incorporado ao cardápio pela simpática Dulce. Não podemos nos esquecer do doce de caju. Ahhhhhhhhhhh.
Noite na Pousada, reservado ao bate papo e cervejinhas. Mariângela passou um novo susto!

02 de Outubro - segunda-feira
A saída de Santo Amaro é super pitoresca. Tem-se que atravessar o Rio Alegre de Toyota e durante a travessia, navega-se dentro do leito durante um bom trecho. Depois, 56 quilômetros de areia até a localidade chamada Sangue. Interessante que neste trecho, vimos até pontes. Duas ou três. Poucas localidades, mas paramos em uma que havia um ‘puteiro”. Casa do Amor! Demos carona para duas meninas e uma senhora. Cafetina? Em Sangue, Jesus (Pet, lata e vidro) nos refrescou até embarcarmos na “Van do Seu Edson”. Durante o trajeto, Seu Edson também piloto, recebeu telefonema informando acidente aéreo com piloto conhecido. Três vítimas, incluído o piloto. Havíamos pensado em conhecer a cidade de Raposa (palafitas e artesanato de renda em “bilro”), mas após eleições gerais e irrestritas, ficou decidido que as Estimadas Senhoras, todas, queriam fazer comprinhas. E, é o que foi feito, após um super almoço no Antigamente. Da mesma maneira que no primeiro dia. Antes do aeroporto, Casa do Bernard e família, piscinada e super lanche. Retorno TAM sem alterações, com suave cansaço e bem estar geral. Agora, pensar na próxima...

 

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José Eduardo Pereira Lima Gostei.