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Aquela folha de papel almaço...
(Fato ocorrido entre os 11 e 13 anos de idade, após ter lido o livro “Sete anos no Tibete”. A narração e a descrição das paisagens, hábitos, costumes deixaram marcas muito fortes...)
 

 

(Nicholas Roerich, 1933, Himalaia, Tibete)

por

Osmar A Marques
 

A leitura não era um hábito marcante. Lia, gostava demais, mas não era a primeira preferência. Antes estavam o bente-altas (não sei se é assim que se escreve), o futebol, o vadiar com amigos na rua, o estar sentado no murinho da frente de casa jogando conversa fora, o descer a rua sentado em tábuas, o andar sobre muros, o “colher” frutas nos quintais dos vizinhos e outras atividades infantis da época.

 

 

(filme, baseado no livro, 1997)

Um filme de

Jean-Jacques Annaud

estrelado por Brad Pritt, com David Thewlis, B.D Wong e Victor Wong

 

 

  De calças curtas. Não eram bermudas.
Tudo isto na Minas Novas. Rua bastante inclinada do Bairro Cruzeiro. No meio destas atividades, os estudos no Estadual da Serra e os deveres de casa. Quase sempre estudos. Como os deveres nem sempre eram feitos, era necessário usar de subterfúgios como “matar aulas”. Para isto, saíamos de casa dissimuladamente vestidos com calção debaixo do uniforme. Aí, era um pulo para desbravar a Serra do Curral e entrar nos domínios do Clube dos Caçadores. Aventura total. Os vigias, conscientes de suas obrigações, tentavam aos gritos, nos expulsar da área. Alguns usando espingardas carregadas com sal grosso. Felizmente a busca as cachoeiras nunca foram interrompidas por nenhum acidente ou incidente. Havia também entre o domicílio e a escola, sítios onde, de tempos em tempos, cavalos eram “pedidos emprestados” aos seus donos e devidamente devolvidos ao final da aula. Após a “bomba” no primeiro ano ginasial – sagrada matemática, o juízo baixou e obter notas boas era ponto de honra. Mas as aulas continuaram e as “matadas” também. Vida sadia, de rua, sem violências. Despreocupada.

E o Sete anos no Tibete apareceu. Não me lembro como. Grosso. Muitas páginas. Daqueles que dá desânimo antes de se começar a ler. A primeira página foi aberta. A curiosidade foi aumentando. Páginas ficando para trás. Foi preciso abrir o Atlas e descobrir onde estava o país. Os caminhos do Himalaia. A neve, o frio, as aventuras de fugitivos. A torcida para o escape. Impossível deixar de ler. Impossível ficar longe do livro. Do livro e do Atlas. Se tornou obsessão. A partir da metade do livro, havia a tristeza da coisa boa que poderia terminar. E terminou fisicamente. Foi fechado, mas não esquecido. Permanecia nos pensamentos, não saia da mente. As aventuras lidas eram lembradas de casa para o colégio, nos caminhos das cachoeiras, durante as aulas. O Tibet, o Himalaia, suas paisagens imaginadas se tornaram objetivo. Objetivo não objetivo. Sonho puro. Sonho que precisaria ser escrito para se tornar meta futura.

Este sonho desejo precisava ser registrado. Como? Papel almaço e lápis. Por que? Para ser perseguido. Mas apenas este sonho? Que nada. Todas as ambições, vontades, coisas lidas, ouvidas, desafios, “doiduras e inventices”, vida profissional, tudinho deveria estar escrito no papel almaço. E as “besteiras” foram desfilando. Li que existiam 300 países no mundo. Este número se tornou 150 países e estados brasileiros no papel almaço. Esportes radicais como rapel, paraquedismo, escalada e outros menos, mas inóspitos para a época como esqui aquático, alpino e de fundo. Línguas estrangeiras, estudos, livros a ler, término do ginásio, do científico, a faculdade, música, morar em outros estados e países, conviver com outros povos, etc... Uma miscelânea e lá no meio as duas palavras Mágicas: Tibet e Himalaia. Teto do mundo. Pertinho do céu...

Quando? Grande parte das prioridades não necessitavam de recursos financeiros e o início foi imediato. E o lápis, sempre de plantão ia riscando as metas cumpridas... Metas dinheiro dependentes? Uma das metas principais era conseguir recursos suficientes para viajar muito, aproveitar ao máximo e levar uma vida com excelente qualidade. A base?. As sábias palavras do primo Júlio: “O importante não é ser rico. É viver como...” em sintonia com os dizeres Socráticos: “Nada em demasia”. Princípios seguidos à risca! Com poucos recursos as coisas foram acontecendo. Viagens de carona, aventuras, “bicos” para sustentar os sonhos, a implantação da empresa familiar – Anel. Sociedade somando às habilidades do artista joalheiro ourives Seu Osvaldo – Vadico, pai, a ousadia inconsequente de dois filhos. A família toda trabalhava: Dona Maria mãe secretária, irmãos, cunhados, parentes, amigos e agregados. Nepotismo geral e irrestrito. Muita luta no princípio, pouca fartura, mas todos sobreviviam. Administração empírica, mas de resultados. Decisões participativas, tomadas com apoio dos funcionários. Muito do que se prega atualmente era realizado sem se “conhecer o nome dos bois”. O principal era o respeito ao cliente e a marca pegou: Anel!

Foi a sustentação para a faculdade. Tudo estava escrito naquela folha de papel almaço e o caminho precisava ser seguido. Novos horizontes a vista. Quotas da Anel vendidas à irmã advogada administradora para esta busca. A mudança. Novo continente. Vida radicalmente nova. Imprevistos burocráticos romperam laços financeiros com a raiz. Laços comprovados no imposto de renda. Foi preciso “fazer bicos” e mágicas para se chegar ao final do mês. Façanhas não previstas no papel almaço. Que naquele momento já era imaginação. Na mudança ficou. Com o tempo passado se perdeu. Fisicamente. Ficou e resta presente a fotografia na memória. Hoje, é lembrado em todas as correções de rota. Foi um verdadeiro Projeto de vida. Ainda é a certeza de novos rumos...
 

Sete Anos no Tibete, de

Heinrich Harrer

 

 

Leia um trecho do livro

 

Sieben Jahre in Tibet 

O alpinista Heinrich Harrer, a partir de sua experiência no Tibete, quando tenta escalar um dos picos mais altos do Himalaia, registra no livro o período histórico (1943-1950) em que a recém-nascida República Popular da China propôs "libertar" o Tibete. A pequena nação protestou dizendo que já era livre, porém, a China enviou o seu Exército Popular de Libertação e o pequeno contingente militar tibetano não resistiu. O Dalai Lama, líder secular e espiritual do país, então com 15 anos de idade, pediu - em vão - ajuda às Nações Unidas.

O livro foi relançado e prefaciado pelo Dalai Lama (1982), "Fico feliz que seu livro Sete Anos no Tibet, que fornece um quadro vívido e verdadeiro do Tibet antes de 1959, esteja sendo relançado"

      Fonte: Wikipedia