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La Gravière (ou Três Momentos com os Naturalistas)

                                 por Osmar A Marques

 

(Picasso, 1903, três nus um com violino)

 

(Gravier Significa algo como areia misturada com cascalho. Seixos. Gravière é o nome do local onde se retira este material)
 


Após a exploração do local, pela indústria da construção, restou um buraco. Cheio de água. Formou-se um lago de cerca de 200 metros de comprimento. Oval. Mais ou menos 150 e 200 metros no menor e maior diâmetros. As análises demonstraram que havia condições para uso esportivo. A população se apoderou como área de lazer. E nudismo... . Gratuito. Tudo isto a cerca de 900 quilômetros do mar mais próximo e a apenas 6 quilômetros do centro de Strasbourg – Alsácia. França fronteira com Alemanha.

Para quem não tem o costume de praticar naturalismo, uma curiosidade. Para os aficcionados, um paraíso nos cerca de quatro meses de benção do astro rei. Todo mundo nu? Não. Os espaços foram democraticamente divididos. Na entrada, permitida qualquer opção. Vestidos, semi-nus e peladões. Inclusive barracas de bebidas e alimentação. Cerca de 150 metros em frente, próximo à primeira curva do lago, predominância de semi-nus. Peito less representando a maioria, mas os demais aceitos. Do outro lado, reduto dos peladões. Possibilidade de encontrar outros frequentadores. Tudo com muito respeito. Todos os espaços utilizados. Por idosos e jovens. Múltiplas nacionalidades. Operários, executivos, estudantes e professores. Colegas de trabalho nos horários de almoço. Carrões, motos e bicicletas. Famílias inteiras. Local de encontro. De apaixonados levando suas pretendentes para um conhecimento prévio do terreno. Sondagens! Prática de esportes. Petanque – espécie de bocha, jogos de bola: vôlei e futebolzinho. Bolas ao ar, ora bolas.... De curiosos, às vezes de países mais reprimidos, que de paletó, gravata e óculos escuros, passeavam “despistadamente”, olhando para todos os lados, sem querer perder nada e, com as mãos nos bolsos... Distraídos, mas percebidos de longe. Muito longe.

 

Situações inusitadas causando espantos. Na lembrança:
 

1 – O Casal vendedor de cachorro quente. Ela deliciosamente vestida com um aventalzinho que nada escondia. Os seios apoiados na parte de cima. Sorriso profissional e gracioso. Sempre vinha a dúvida na hora do pedido. Entre gaguejos e olhares furtivos. Comprar na mão do cara, nem pensar. Também tinha um avental, mas vai que trocava as salsichas..., ou pelo menos coçava a salsicha errada...

2 – A primeira vez – Era um grupo. No local dos semi-nus. Uns sim, outros não. Muito bate papo, cevejinhas e sol forte. Muito forte. Dispersão da turma. O livro aberto. Nenhuma página, nem linha, nem letra lidas e a sombra. Olhar levantado e a deusa lá estava. Bem à frente. Magnífica no seu vestido cor de rosa e chapeuzinho de palha. Loura de subaquinhos não depilados. Finos pelos. A toalha estendida no chão, os primeiros movimentos para a retirada das roupas. Ah! Movimentos! Lentos. Streap tease único. Reação imediata. Solução? Deitar de bruços. O movimento dos quadris para a passagem do vestido foi fatal. Nada debaixo. Inevitável levitação. E o monumento lá. Indiferente e se posicionando na toalha. Lindíssima. Certeza de inúmeros sonhos eróticos e fantasias.... Fotografia que não se apaga. À cores. E a advertência do Ministério da Saúde: “Levitar em local público pode ser prejudicial à saúde”. Solução? Fechar os olhos. Sonhar. E o sonho veio. Sono profundo. E o sol, batendo inclemente. Rindo do protetor solar não passado. O chamado do grupo. Acorda. Vamos? Cadê a loura? Nem sinal. O ardor nas costas. O olhar para a parte de trás da perna. O susto. Vermelho total e incandescente. Bundas que nunca haviam visto nem sentido a luz solar. Uma semana de óleo Johnson...

3 - A família do jantar da véspera. Coisa de europeu. Jantar marcado com um mês de antecedência, horários, trajes e menu precisos. Impecável. Diversos brindes, diversas bebidas diferentes, diversos pratos, convidados cuidadosamente estudados para que tudo se passasse corretamente inclusive a posição de cada um a mesa. Casais mesclados com demais convidados, grupos de interesses e ou de afinidades linguísticas comuns próximos. Chique! Elegância requerida. Champagne à vontade. Dia seguinte, gravière para curar ressaca. Sol e céu azul total. O passeio de reconhecimento para descobrimento do pouso ideal. De repente e do nada, um apelo.
- Monsieur? Monsieur?
A busca, o olhar à direita e à esquerda. Nada.
- Monsieur? Monsieur?
O abaixar do olhar e... o casal anfitrião da véspera. Ontem soberbamente vestidos como requeria a situação. Agora, sentados e totalmente pelados. Monsieur também pelado. Logo, os olhares familiares estavam exatamente á altura... Madame com um porte muito interessante, se levantou e abraçou o Monsieur. No pescoço. Contato total e gelo geral. Medos e receios. Arrepios. Olhos fechados para esquecer a situação. Pensamentos para um chiqueiro bem porco. Para dar nojo e evitar acontecimentos levitativos. Separação de corpos e a filhona que se levanta. Desejada por muitos, corpo sadio, sem nenhuma ação da lei da gravidade. O abraço recebido fora sonhado, ansiado, ensaiado, mas não... não neste momento. Na frente de todos. Da Madame, do Pai, de um mundão de gente. E o chiqueiro voltou aos pensamentos. Para esfriá-los. Suor geral...
- Ça va Monsieur?
E o abestado sem saber o que responder. Ça va o que?
- Est ce que vous avez aimé la fête? (Tradução: O sr. Gostou da festa?)
Rapidamente Monsieur se sentou. De lado, mas para conversar tinha que virar o pescoço e aí, novamente estava de frente. Cara a cara. Loirinhas! Ahhh...

E a efervescência continuava a cada final de semana na disputada gravière...

28 AGO 07
OAM