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Margarida, a de Coimbra (1982)

(Mário Silva, 2006, Coimbra)

 

(Mário Silva, sd, Igreja de Santa Cruz de Coimbra)

 


Margarida flor. Flor personificada. Gentil, solícita, hábitos simples, sempre vestida com trajes, meias, sapatos e casacos escuros, semelhantes a bons hábitos. Pesados. Freira? Religiosidade? Muitos assim pensavam e nada mais ousavam. Nem perguntas indiscretas, nem piadas apimentadas, nem cantadas sutis. Em nome da sua santidade. Por onde circulava, deixava a aura de monastério no rastro. Nem muito ria, nem dava muita confiança, seguia sua vida. Sua baixa estatura impunha respeito. Pelo profissionalismo, pela atenção a todos, pela reclusão, pelo mistério. Pouco saía. Pouco conversava. Nos horários de refeição do hospital, cedia lugar à sua mesa, ou compartilhava a de outros, em conversas monossilábicas e sorriso de “meia boca”. Sentava e saía em discrição absoluta.

Um dia, o convite.
- Quando forem a Portugal, venham conhecer Coimbra. A cidade é linda, animada, tem uma vida noturna espetacular. Ir a Portugal e não ir a Coimbra... Estou para lá a retornar na semana próxima. Meu contrato acabou e não o renovarei. Sinto falta dos meus pacientes, dos meus amigos, do meu apartamento, dos meus livros. Foi uma fase ótima. Aqui está o meu endereço e faço questão de recebê-los. Escreverei. Deem notícias... Adeus.
E, se levantou. Ninguém sabia dizer se Margarida escutou o “tchau” de todos. Afinal, ela apenas partiu. Questões foram levantadas. Falta dos amigos? Será que ela os tem? Vida noturna espetacular? Nunca tinha saído com ninguém daquela mesa, nem tinha sido vista nos lugares comuns. Mistérios...

E a primeira carta chegou. Saudosa. Saudosíssima. Enaltecendo os bons tempos que tínhamos passados juntos. As conversas, os risos, a cumplicidade. E muitas outras a sucederam. Sempre simpáticas e saudosas. Remetidas a todos e perguntando por todos. Insistindo no convite.
- Por que ninguém nunca a tinha visitado? O apartamento era grande, bem localizado, não precisaríamos de carro, pois o dela ficaria à disposição, conheceríamos muita coisa, a vida noturna...

As interrogações eram múltiplas de ambas as partes. Dos que ficaram e da Margarida. Os que ficaram, se impressionavam a cada carta. Gentilezas e referências a fatos importantíssimos citados que sinceramente, passaram desapercebidos à todos. Mas que ao ler, percebíamos o significado. Mistérios...

Daí a planejar uma viagem e incluir a visita à Margarida Flor Freira, foi um passo. E cada passo planejado requeria uma angústia. Há um hotel que não é longe da casa da Margarida. Como dizer para a Margarida? Será que a Margarida??? O que levar para a Margarida??? Mistérios com a Misteriosa Margarida. A carta informando e a pronta resposta.
- Não ficarão em hotel. Posso hospedar a todos. Será um insulto para mim, passarem por Portugal, não virem a Coimbra e não ficarem na minha casa. Pelo menos uma semana. Já estou preparando o cardápio para o período. Meus amigos já estão sabendo da vinda.
Imperativa e impositiva. Mudança de hábitos? Do convento ao palácio? A viagem se aproximava e agora além das cartas, dos postais, também telefonemas entraram no circuito de sedução.
 

Na segunda quinzena de abril, ainda sobre o ar fresco do inverno que terminava, os primeiros brotos nascendo nos caules quase secos, começou a viagem. Travessia da França, uma semana de festejos de casamento num castelo fazenda na região chamada Creuze, depois Carcassone, Pirineus, Andorra, Barcelona, Valência, Córdoba, Granada, Sevilha, Santo Antônio de Vila Real, Albufeiras, Lisboa, Fátima e o Papa João Paulo II que lá estava etc... e etc... e eis que Coimbra se aproxima num final de tarde. Ainda na dúvida do ficamos-ou-não-ficamos na Margarida. Não será muito penoso? Um saco? Vamos telefonar antes.
- Alôôô???
- Margarida?
- Sim. Onde estão? Estou aflita. Venham rápido. Estamos esperando...
- Não será muito incômodo?
- Ora Cacete. Não demorem. Tens um mapa? Sim? Sigam por esta via e depois por esta, estão cerca de casa. Tchau e desligou.

A chegada não precisou ser anunciada porque Margarida estava na porta. Margarida Flor? Que nada. Havia cheiro de transformação no ar. Metamorfose total e irrestrita!. Roupas coloridas, sorrisos de “boca plena”, alegria incontida, “porraloquice geral...”. Margarida Capetona. Transformação geral. Honras feitas, malas carregadas, quartos designados, vinhos, cervejas, licores e tira-gostos servidos e o brado da Margarida:
- Vamos à luta. Não temos tempos “à perdeire...”. A noite está aí e temos muita coisa a “conheceire”. Vamos. Levem roupas de frio porque a temperatura vai cair. Meus amigos estão esperando no Bar da Catedral.

Primeiro foi a Praça da República. Local onde professores e estudantes, inúmeros, elegantemente vestidos com suas tradicionais capas pretas e portando livros debaixo do braço, conversam, passeiam e circulam a praça. Para quem conhecia Margarida, este deveria ser o seu local preferido e o mais adequado para sua convivência. Fim da metamorfose? Total engano.
- Vamos. Aqui está um saco. Só trouxe vocês porque o local é tradicional. Vamos para o bar.
Até o bar, o caminho não foi longo, mas sacudido. Pelas vielas de piso de pedras, transformados em pista de corrida, a agora piloto, sentada sobre uma almofada para melhorar a visão, ora acelerava e fumava, ora ria e acelerava, mostrando todos os detalhes. Um monumento que ficava para trás, era descrito com gestos de mãos e dedos e o consequente acompanhamento da cabeça. Enquanto isto, algum obstáculo se aproximava. E era driblado. E as ruas estavam escuras, todas as casas e sobrados tinham toalhas brancas dependuradas de suas janelas e eram iluminadas por luzes de velas. Coimbra é linda, mas estava impecável.
- João Paulo II está em Portugal. Amanhã de manhã, rezará uma missa no estádio de futebol. Depois vamos lá. Já está cheio. Agora vamos para o bar.
Talvez, graças as graças concedidas por Sua Santidade, monumentos, muros, postes, árvores, meios fios, o veículo e seus ocupantes conseguiram chegar ilesos ao Bar da Catedral. Antes porém e, logo após a saída do carro, havia uma multidão e ouviu-se gritos:
- Pula, pula, pula, pula, pula, pula...
Um olhar para o alto e apareceu o gajo que estava no telhado de um prédio de 05 andares, em frente à escadaria da Catedral. Encostado, contra uma parede, ameaçava saltar diante dos gritos:
- Pula, pula, pula, pula...
E o gajo não pulou. E vamos ao bar. Inédito, único, magnífico, imponente! Tiveram a capacidade de dividir a Catedral em duas partes. Uma para ofícios religiosos propriamente ditos e a outra para o Santuário: “O Bar da Catedral”. Convivência pacífica. Respeito mútuo. Água benta de um lado, bentas águas do outro. Paz nas alturas. De ambos os lados. Entre colunas e arcos, uma taberna lotada estava montada. Ocupação total. De noite e de dia. Serviços perfeitos. Religiosos e profanos. Coroinhas ou garçons a servi-lo. E a sacristia? Sabiamente dividida. Vestiário e depósito para os serviços do Padre e toaletes para serviços dos compadres... Bagaceiras, vinhos e água benta em convivência pacífica. Relógios e sinos também compartilhados. Ora chamando para os cultos, ora chamando os cultos. Para chegar ou para partir. E a madrugada chegou. E o assunto geral era a visita do Papa. Margarida contava casos e casos de brasileiros:
- Era uma vez um brasileiro... hahahahaha
Os amigos se despediam, o movimento do bar diminuía. Hora de continuar a Via Sacra.
- Allons enfants de la patrie... gritou Margarida com a mão levantada como se espada fosse e completou:
- Sigam-me aqueles que forem brasileiros. Ou não... Enfim. Qualquer um...
Com a língua enrolada. Seis seguidores... Uns lusos, outros não.
- Margarida? Você era tão tímida. Recatada.
- Tímida era a puta que os pariu... hahahaha Era reprimida, distraída, abalada e etc... principalmente etceteras...
Todos pensavam que você era uma Santona, uma freira mal resolvida. Era banzo, Pá!....

(Pá é uma palavra que se fala em Coimbra, pá, ao final de qualquer frase, Pá!)
- E vamos lá. Vamos para o estádio. Entrem.
Foi feito com alguma dificuldade. Colocar lusitanamente seis pessoas sob efeito etílico em uma viatura, não é fácil. E inesperadamente, talvez por inspiração do templo recém frequentado, a velocidade decaiu para segurança de estacionamento. Bem devagarzinho... E de repente:
- “Voi a mijaire”. Alguém me acompanha?
- Margarida? Por que não fostes na Sacristia?
- Heresia, respondeu se agachando em frente a calçada, afastando a saia e abaixando os calções....
Tssssssss e o fio amarelo lavando a rua... e todos baixaram da viatura e quase todos se puseram a “mijaire”. Nova dificuldade para acomodação geral e fechar as portas e o carro seguiu lenta e tranquilamente até o estádio. Eram cerca de 03:30 horas da madrugada e o estádio estava iluminado e bastante cheio. De gente de todas as ideias e idades. Enrolados em cobertores, enluvados e encapuzados. Estava frio. Conversando ou dormindo. E o Papa ia celebrar a missa às 10:00 h. Muito tempo e muita gente chegando. Hora de seguir em frente.
- Vamos tomar vinhos em casa?
Aprovação em massa. Chegamos. Melancólicos fados e MPB4 tocavam ao fundo. Velas foram acesas e vários brindes para saudar a chegada do novo dia. Vinhos da terra foram abertos e servidos em belos cristais.
- Então, Meninos? Estão gostando, pá, da nossa Coimbra, pá? Lembra Ouro Preto? Hoje foi só uma amostra. Daqui a pouco temos que conhecer a cidade dos pequenitos, a Universidade e sua biblioteca, ver as lavadeiras, caminhar pela cidade velha... muito a ver, pá! E completou:
- Quem fica, fica. Vamos dormir. Quem não fica que aproveite o dia. Até mais. Vamos dormir...
 

Osmar A Marques - 08 de agosto de 2007