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Aventuras pelo Mundo com Osmar e Analia II

por Osmar A Marques

 

(Istvan Szonyi, 1943, paisagem)

 

(Istvan Szonyi, 1935, Telhados de Zebegény)

 

István Szőnyi (1894-1960)

foi um premiado pintor húngaro cuja família, durante a II Guerra Mundial, abrigou muitos judeus. Por isso, em 1984, ele foi agraciado com o título de "Justo". Muitas de suas obras estão num Museu em Zebegény, aldeia onde ele morou nos seus últimos anos de vida. O Museu funciona na própria casa onde ele vivia e conserva parte do mobiliário original. Ele é considerado um dos mais importantes pintores europeus do século XX.

 

“Pogatcha...” – Hungria 1991
 

 

(Viagem a Hungria foi realizada como plano B. Cinco participantes na tripulação: dois casais e uma Senhora cujo Marido “deu o cano”. O objetivo inicial era, a partir de Strasbourg, conhecer a Grécia e toda a costa da então Iugoslávia. Entramos pela Áustria, onde fomos, na fronteira, devidamente avisados que havia riscos de guerra mas, assim mesmo seguimos para a bela Liubliana - capital da Eslovênia. Após conhecer a gruta de Postoina, alcançamos a Ístria (Croácia), visitamos Pula, Poran e Porec – cidades com influência de Veneza, e quando iniciamos a rota para o sul, a visão de tanques de guerra nas estradas indicava que poderíamos ter problemas. A guerra havia começado...)

Mapa. Nossa primeira atividade em Budapeste foi comprar um mapa. Nomes complicadíssimos. Sem ajuda do mesmo, avistamos um hotel e fomos verificar os preços. Bem acima do que pretendíamos pagar. Ainda na recepção, uma Moça nos perguntou se não nos importaríamos de ficar num B&B – Bed and breakfast! Ela teria uma ótima opção para nós, nas montanhas e com vista para toda a cidade. Um casal muito simpático que alugava quartos na sua casa para complementar renda mensal. Com entradas separadas. O preço, inúmeras vezes menor que o dos hotéis classudos. Se estivéssemos de acordo, bastaria seguí-la que ela nos levaria para conhecer o local. Mas teria outras opções mais baratas ainda.

Decidimos seguir a moça. Sempre preferimos nos hospedar em casas de família e gostaríamos de repartir esta experiência com os amigos. Era final de tarde. Nem lembramos do mapa. Seguíamos de perto, a prudente motorista que sinalizava com acenos de seta, todo o percurso. Conversávamos sobre como seria a nova residência. Primeiro, seguimos o caminho do bonde, viramos a esquerda na encruzilhada, passamos na frente de um Borozó – barzinho interessante, começamos a subida da montanha. Bosque à direita, chegamos no que poderia ser o ponto final de um bonde, continuamos subindo, passamos pelo cemitério e finalmente chegamos. O casal nos esperava com largos e simpáticos sorrisos. Antes de vermos os quartos já estávamos de acordo. Depois, não tivemos mais dúvidas. Confortáveis e com uma varanda enorme. Visual de toda a cidade. Deslumbrante. O café da manhã seria servido numa pousada próxima. Fiaríamos cinco dias e não tínhamos tempo a perder. Conversamos com o simpático casal – ambos médicos. Ela falava inglês. Ele apenas compreendia. Isto não impediu o nosso bom relacionamento. A vantagem maior deste tipo de hospedagem é o contato humano. Tem-se o conhecimento da situação local, das angústias e alegrias dos habitantes, das suas lendas e estórias. À noite, assistia jogos de futebol com o Senhor, tomava vinhos do país, conversávamos e “trocávamos idéias”, ele em húngaro e eu, no “macarrônico “ inglês. Nos entendíamos muito bem. O riso era solto... Quanto ao futebol, nunca soube quem jogou, quem marcou os gols, mas sei que a vitória foi da equipe que tinha uniforme em cor branca...
 

O primeiro restaurante e seus violinos inesquecíveis...
Logo após nossa instalação nos novos aposentos resolvemos sair para ter os primeiros contatos com a cidade e aproveitar a luz do dia. Pegamos o endereço, acertamos todos os detalhes com a moça e o casal e fomos. Nada passava desapercebido. Íamos descobrindo de carro, as maravilhas citadas no guia e que voltaríamos para conhecer nos dias seguintes. A noite se fez. Era tempo de caminhar. E assim foi feito até a fome chegar. Tinha que ser num restaurante gostoso. Tínhamos que comemorar. Os ventos eram todos favoráveis. Encontramos o local. Diferente. No meio e debaixo de uma praça. A entrada parecia uma estação de metrô. Uma escada descendente conduzia a um corredor, 30 degraus abaixo, usado como recepção. Decoração estilo medieval com teto arqueado. Ambiente bastante agradável, encaramos o primeiro Goulash. Os que tentaram enfrentar a páprica, se deram mal.... Pessoas elegantes, a maioria casais. Na mesa ao lado, um japonês sozinho, rodeado de incontáveis copinhos de alguma aguardente. No final da noite, se rendeu aos efeitos etílicos e saímos o deixando dormindo no meio dos copos vazios...

Aí, quase me esquecia que o jantar era musicado. Músicos desfilavam entre as mesas tocando músicas típicas e pedidos nostálgicos dos fregueses. Nas cordas dos instrumentos, acintosas notas verdes impunham que recebiam e gostariam de receber mais ainda, as famosas verdinhas. Chegaram à nossa mesa. Comíamos e aproveitávamos as músicas dos outros. Era nossa vez.
- De onde são?
- Brasil e Argentina, responderam, porque continuei mudo e desconfiado...

E eis que surge um tango, seguido de músicas brasileiras e a insistência do violinista que entre uma nota e outra, mostrava insistentemente as cordas repletas de notas. De dólares. Insistia e fingíamos a famosa não compreensão. A insistência do violinista constrangedora. E o japonês bebendo. O fato foi desagradável, porque estávamos no meio de uma refeição, aliás bastante saborosa. Num restaurante de padrão alto. Para não cometermos atos não diplomáticos e procurando respeitar costumes locais, fiz um gesto com a mão ao mesmo tempo que falei para o músico mais próximo, que deixaríamos o nosso dízimo após terminar o jantar. Tocaram como abandono de mesa, o resumo de uma música. E o tempo foi passando e as pessoas saindo, o japonês já dormindo, os músicos nos esperando no corredor recepção da entrada – de tempos em tempos um mostrava a cara e pedimos a conta. Quanto deixaremos? Vocês viram que tinha notas de cinquenta? Dez tá bom. Por 03 músicas e um resumo. Peraí. Tenho algumas verdinhas brasileiras. Vamos misturar e deixar de lembrança? Além dos dez é claro... Só para fazer volume. Conta paga, tínhamos que encarar o corredor de saída e a longa escada.
Ao entrar no corredor, percebemos duas coisas. A primeira é que os três músicos esperavam, sentados, ao final do mesmo. Após a longa escada de saída. A segunda é que havia um órgão aberto a nossa frente. Depositei entre as teclas, nossas verdinhas. Nossos passos, lentos e tranqüílos no início da subida se aceleraram logo que percebemos que os músicos saltaram dos seus lugares e correram ao mesmo tempo em direção ao instrumento. Daí prá frente, a escolha de um restaurante dependia exclusivamente da existência ou não de violinos...

O mapa!
Rimos muito e estávamos satisfeitos com a nossa peraltagem. Era tarde e tínhamos de voltar para casa. O mapa! Logo que aberto, descobrimos a terra de palavras compridas, raras vogais e consoantes de sobra. Aonde estamos? Impossível ler qualquer nome. Então soletre.
- Tenho certeza que estamos aqui, disse um olhando o mapa e a rua;
- Eu também tenho, outro completou. Tem consoante demais.
- Qual o nome desta rua no mapa?
- Não coincide. No mapa tem duas vogais. Na placa nenhuma. Vamos andar mais um pouco.
- E o nome desta rua?
- Não está no mapa.
E continuamos andando, por ruas, avenidas e praças desertas. Ninguém para perguntar e nenhuma placa coincidia com os nomes do mapa. A sensação de já ter passado antes naquele local impregnava a todos. Porém, uma coisa é ver de dia. A outra de noite. E pior ainda: depois de uma certa hora, as luzes dos letreiros se apagam. Perdidos na noite. E cansados.
- Lá está o hotel de hoje a tarde.
Iniciamos o percurso tentando refazer o que tinha acontecido ao seguir a moça. Não foi fácil no início, mas após encontrar o caminho da subida da montanha, chegamos. No dia seguinte comentamos o fato com o casal.
- Há cerca de um mês, mudaram todos os nomes de rua. Seguramente não tiveram tempo de mudar os mapas...

“Pogatcha”, finalmente!
Não sei se é assim que se escreve, mas é o que a escrita mais se assemelha ao som. Durante os cinco dias que estivemos em Budapeste, o conhecimento com o casal se tornou amizade, nos levaram para conhecer uma unidade de saúde, depois um passeio as margens do Danúbio e a cidadezinha histórica. E a cave medieval. Muito vinho e comidas típicas. Como tínhamos uma caixinha única, sempre tinha alguém de plantão para pagar todas as contas. Ao tentar fazê-lo neste dia, ficamos sabendo que nosso anfitrião havia se adiantado sem percebermos e já havia quitado o valor das despesas. E chegou o último dia. Estávamos íntimos também da cidade. Íamos de carro até a estação de bonde e fazíamos o percurso de ida e volta até o centro nele. Ao sairmos pediram que não voltássemos muito tarde porque gostariam de tomar um vinho conosco. Com a descoberta que gostavam de música clássica, conseguimos comprar um disco do Villas Lobos.

Antes de voltar, resolvemos comemorar nossa estadia. Um novo restaurante, sem violinos, onde comemos, e comemos muito bem, um delicioso goulash. Acompanhado de inúmeras cervejas apesar dos conselhos de não bebermos, pois um simples chocolate com licor não passava nos testes locais de condução de veículos.

Voltamos cedo. Cedo e alegres. Ao chegarmos, fomos recebidos com festa. E alegria. Estávamos todos alegres. Um olhar para a sala de jantar e o pânico. A mesa mais lindamente bem posta, com talheres belíssimos e cristais reluzentes. No centro, também de cristal uma garrafa de vinho envelhecido. Tokay.
- Fizemos um jantar de despedida. Uma especialidade do nosso país: Pogatcha. Para que vocês nunca se esqueçam do nosso país, falou a Senhora nos convidando a tomar um aperitivo;
- E o vinho? São garrafas da adega da família, abertas somente em ocasiões muito especiais, acrescentou a Senhora, traduzindo as palavras do marido.
E indicou o lugar de cada um. Aperitivo tomado, na esperança que até o início da refeição, algum espaço fosse formado nos nossos estômagos. Não houve tempo. Uma travessa enorme foi colocada no centro da mesa e aí, descobrimos a famosa “Pogatcha” (ou um “Pogatcha”): uma espécie de esfirra, recheada de carne, com um cheiro convidativo. Imediatamente, pedi desculpas porque não tínhamos, Analia e eu, o hábito de comer à noite. Mas, devido a importância da data, não deixaríamos de provar uma “Pogatcha”.
- Pequenas, por favor! Oh! São ótimas Senhora. Hum... Delicia.
E todos fomos servidos e nos entreolhávamos. Comíamos mui calmamente. Mais de 100 mastigações a cada deglutição. A nobreza à mesa? Nada. Empanzinação.
- Huns, ohs, ótimos, deliciosos...
Mas quando estavam quase no final, nova pergunta super gentil:
- Posso servir-lhes mais uma?
Imediatamente, elogiei a qualidade da “Pogatcha”, novamente falei que não tinha o hábito de comer à noite, agradeci e acrescentei e olhando para o companheiro de viagem e para a Senhora:
- Ele quer...
Antes que a Senhora o servisse, com um dos bens grandes, percebi uma lágrima escorrendo no rosto do colega e ainda tive tempo de acrescentar:
- Pode por mais uma...
O que aconteceu... . Demoramos muito a terminar o jantar. Na varanda do quarto, bebendo reforçadas doses de uísque digestivo e apreciando a beleza da noite, não contivemos nossos risos.

Manhã e despedida! Muito choro, muita emoção. O casal agradeceu a boa música do Villa Lobos e a Senhora entregou ao companheiro de viagem, um embornal cheinho de “Pogatchas” e uma bela garrafa de vinho, para ser tomada pelo grupo.
- Há um costume na Hungria que quando o(s) filho(s) partem, os pais entregam o que comer e beber para que não tenham fome nem sede durante o caminho...
Mais lágrimas e as lembranças que iam ficando no retrovisor.

As “Pogatchas” foram devoradas entre o Lago Balaton e a fronteira com a Áustria. Mas o sabor daquela despedida jamais será esquecido.


Obs.: “Pogatcha” foi escrito como o som chegava aos nossos ouvidos. Deliciosamente maravilhosos!
 

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Luiz Fernando Walther de Almeida Legal!!!!!

Elizabeth Krausz Adorei Osmar. Me senti lá com vocês. Beijos.