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Aventuras pelo Mundo, com Osmar e Analia I

por Osmar A Marques

 

 

 

 

(José Malhoa, 1910, O Fado)

 

Albufeiras – Portugal 2002
 

O mês de maio europeu é muito propício para viagens.

A temperatura é amena e pouco chove. Além disto, não coincide com férias escolares. É a primavera mostrando sua cara e suas cores. Tinha vendido pouco antes, o carro que me permitiu uma liberdade enorme e me levou à muitos lugares. Havia planos de volta à pátria, mas Analía chegou e mudou tudo. Resolvido: vamos conhecer Portugal e Espanha. No caminho aproveitaria para participar do casamento da Caroline – conhecimento feito na Inglaterra, com o Christophe. As festas aconteceriam no departamento Creuze, região do Limousin – centro da França e não poderia perdê-la, tamanha a amizade existente. Um novo veículo se fez necessário.

Fabien, alsaciano desenrolado, vizinho de apartamento e com o qual compartilhamos alguns projetos e algumas aventuras, entendedor de carros e seus mecanismos, foi acionado e se dispôs a ajudar na compra. O tempo passou e chegou o dia da viagem.

Mais ou menos às 10:00 hs, recebo telefonema, no Instituto de Hematologia do Hospices Civils de Strasbourg. Fabien informa que achou o carro.
- Não é nenhuma maravilha, mas é uma oportunidade interessante;
- Você gostou? Compraria para você? Fui breve.
- Pertenceu à um Pépé, que só o usava para comprar o jornal aos domingos. Tem 12 anos de uso, mas só 65.000 km rodados. Além disto, é econômico e está muito barato. Mas não compraria para mim, porque já tenho outro, respondeu irônica e francamente...
- Quanto?
- 3.500 francos (cerca de U$ 700). Muito barato... O dono da agência nos espera até 11:45 hs. Depois fecha para almoço e só retorna às 14:00 hs.
- Já andou com o carro? Posso pegar estrada hoje a tarde?
- Dirigi. O carro está bom. Não é carro para correr muito. 110 a 130 está bom. Você vem?
- Vou. Marque para 11:15 às 11:30 hs está bom?

- Ótimo. Ah! Se você for hoje à tarde, vou pegar uma carona com você até Besançon. Ok?
- Vou pensar... hahaha


Na agência, a transação não demorou 10 minutos. Cheque feito e eis que era proprietário da “Cocote”. O vendedor – dono da agência ficou muito feliz, principalmente por não ter tido atraso no horário do almoço, acho. Parti então para a Prefeitura do Bas Rhin (Baixo Reno) para passar a papelada para o meu nome. Às 12:30 hs já tinha todos os documentos. Detalhe que na Prefeitura, tudo não demorou mais que 20 minutos mesmo com a confusão inicial pelo atendente que chamou o Monsieur Dealmeidá e aparecemos dois. Um Português e eu...

Faltava ainda o seguro. Fabien havia me indicado o nome de 02 seguradoras próximas à Prefeitura e antes das 14:00 hs já estava com a apólice, inclusive a carta verde (seguro internacional exigido para fora da França). O susto foi apenas com o valor do seguro que foi superior ao do carro – U$ 800.

De posse do carro e do seguro, faltava só almoçar e encontrar com Analía no restaurante do hospital (onde combinamos local e dia para nos encontrarmos - porque ela ainda não estava de férias e começarmos nossa viagem), comprar o presente de casamento, arrumar malas para quase 40 dias de viagem e “botar os pés na estrada. Tudo feito. Às quatro da tarde, Fabien e eu estávamos a bordo da Cocote, rumo à primeira etapa da viagem: Besançon. Algumas cervejas, um jantar e pé na estrada. Tinha muito caminho e viajaria a noite toda e de madrugada. Tinha firmado o compromisso de chegar para o café da manhã, que segundo a noiva, teria início ás sete da manhã.

Neste horário, telefonei de uma pequena cidade à beira da estrada para pegar as últimas dicas de como chegar. Já estavam preocupados porque haviam calculado que eu chegaria mais cedo. Uns 20 minutos depois, estava à mesa com cerca de 60 convidados que haviam dormido na propriedade e que tomavam o seu café da manhã. Só depois, contei que parei para dormir uma meia horinha, que se prolongou por umas duas... aí, o atraso. Foi uma manhã de muito bate-papo, risadas e uma pequena caminhada para esperar o almoço.

O casamento.
O cansaço apertou depois do almoço. Agora, éramos mais de 60 pessoas à mesa. Uma pequena caminhada e uma grande surpresa: a noiva de bermudas, duas horas antes do casamento, lavando o carro.
- Não vai se preparar para o casamento? Cabelo, maquiagem, unhas...
- Já estou pronta: vou terminar de lavar, descanso um pouco, tomo um banho e me visto. Não vou atrasar.
- Então tá. Boa sorte! Acho que vou dar uma encostadinha.

Que durou pelo menos duas horas. Levantei, tomei um banho e achei estranho o silêncio. Vesti-me rapidamente, desci e achei uma Senhora, acho que do bufê, que me informou que todos já haviam ido para a capela onde seria celebrada a cerimônia. Saí e cheguei a tempo de ver a noiva entrando, pontualmente na Capelinha da região. O casamento civil foi feito pelo seu pai (por ser o prefeito da cidade) e o religioso, por um padre engraçado e muito rápido. Acho que estava com pressa para ir à recepção. Começou às quatro em ponto, sem atrasos da noiva que estava devidamente paramentada e que ao sair da cerimônia, foi colocada num carroção conduzido pelos seus amigos.

1ª Recepção – O Coquetel - Castelo de Guéret (pertenceu à George Sand* que foi amante do Chopin). Tive a informação que o coquetel era para 500 pessoas. Aperitivos e champagne (bien Sûr). O Senhor Padre lá estava sempre com os copos cheios e as bochechas se avermelhando. Me pediu desculpas porque não poderia ir ao jantar. Tinha outros compromissos...

2ª Recepção – O Jantar – Na frente do Castelo da Família – como os salões se tornaram pequenos para a ocasião, foi montada uma barraca enorme, toda fechada e com aquecimento, que comportava 300 pessoas.
Só para convidados especiais. No convite do casamento, está escrito para qual(is) cerimônia(s) você está convidado. O meu, era completo. Tudo delicioso, com o tempo bastante frio fora da “tenda”. Comilança geral, música, bate-papos e muita dança. À meia noite, queima de fogos de artifício à borda do lago. Um frio do cão... Voltamos para a tenda até o final da festa – 5 horas da manhã

3ª Parte – Acordei com a maior movimentação na casa. Entre 08 e 09 horas. Movimentação e euforia. O café da manhã já estava servido e os convidados – cerca de 60 pessoas se dirigiam entusiasmados para a sala. Croissants – bien sûr, geléias, cafés e chás. Os noivos, sempre gentis e sorridentes, anunciaram e convidaram para o almoço, lamentaram a partida de vários convidados e que viajariam depois do almoço.

4ª Parte – O Almoço. Catherine e Christophe disseram que iam viajar somente por quatro ou cinco dias e que tinham que retornar para cuidar da propriedade deles, onde criavam cavalos de raça, ovelhas e tinham algum gado para corte. Informei que iria partir depois do almoço e esperaria Analía em Clermond Ferrand. Fui convencido a permanecer na região. Ou no Château dos pais, com quem mantinha ótimo relacionamento ou na propriedade deles, a cerca de 20 km de distância. Seria muito melhor e etc e tal. Na realidade, não precisaram de muitos argumentos para me convencer. Optei por tomar conta da propriedade junto com Caroline – irmã da noiva. Passamos quatro dias e ajudamos ou fomos testemunhas do parto de pelo menos umas 20 ovelhas. Era período de nascimento das crias.

No momento de partir, novo convite: depois que voltássemos de Portugal e Espanha, poderíamos passar em Bordeaux para buscar Isabelle – irmã mais nova e participar no Château, de uma etapa do campeonato de “cross country” à cavalo. Fui convencido com muita facilidade, afinal além da nobreza da recepção, era caminho de volta... Mas, perdi a 5ª parte do casamento que foi um jantar oferecido para cerca de 500 pessoas da cidadezinha, quinze dias depois...

Quatro dias muito bem vividos e agora me encontrava em direção à Clermond Ferrand, onde me encontraria com Analía, na Gare. Cheguei exatamente na hora que o trem de Strasbourg estava chegando. Tomamos um cafezinho e decidimos iniciar nossa viagem rumo a Espanha. “Massif Central’ até Sète – pequena cidade à beira do Mediterrâneo, depois Béziers, Narbonne, Carcassone – cidade medieval conhecida pelas suas muralhas, Foix, Pirineus com neve e Andorra. Daí, até Lérida e Barcelona.

Pausa em Barcelona depois de alguns dias de viagem. Catedral com inúmeros grupos dançando no adro, Ramblas, obras de Gaudi, e Parque Guel. Interessantíssimo. Até que resolvemos descer uma pista individual, em forma de canaleta, dentro de uma espécie de carrinho. Velocidade alta, mas o freio de mão permitia um bom controle. Analía numa pista e eu noutra. Apostando corridas. Aí aconteceu. Numa curva, um cara resolve parar o carro, sair do mesmo e ficar de pé e de bobeira na pista. Na pista da Analía, que não queria perder a corrida e portanto não poderia frear.
- La puta madre que los parió... gritou o gajo no momento que estava sendo lançado “prá riba e prá fora da pista”.
Nada mais soubemos a respeito do acidente. Rimos muito do imprudente, porque todos foram muito avisados da proibição de parar ou sair dos carrinhos. Não respeitou! Dançou!

Tarragona é uma cidade interessante. Na bela parte histórica, conhecemos dois meninos que ficaram encantados com nossos equipamentos fotográficos. Espertos, simpáticos, simples, olhos vivos, dez a doze anos de idade
- Las fotos salem em colores?
- Si. Quierem que los saquemos en foto?
- Si señor?
- Cómo se llamam?
- Mi nombre es Pablo, respondeu o Magrinho e o dele - se referindo ao Gordinho, é Jesus.
- Jesus? Perguntei. Bueno como El que está em la Iglesia?
- Non. Non. Mui distinto. El gordito és mas malo que la ostia...
E saíram rindo e felizes por terem saído numa foto. E colorida! Agradeceram muito...

Valencia. O trajeto até a praia de Gral, de bonde, onde comemos uma deliciosa paella, uma gostosura. Daí, em direção à Portugal, sempre pela costa. Na região de Almería, a procura pelo lugarejo do avô Chico: Cuevas de Vera. Estivemos próximos, mas não encontramos as origens.

Cordoba, a cidade antiga e sua fabulosa mesquita catedral. Gaspacho: sopa gelada! Granada, cidade de covas e o Castelo dos Mouros - . No hotel, a reclamação de turista que deixou envelope lacrado na recepção e o recebeu aberto e faltando dinheiro.
Em Sevilha, muitas surpresas aconteceram. Época de Semana Santa e muitas procissões acontecendo ao mesmo tempo. Congestionamento de gente e andores. Além da multidão nas ruas, a presença de muitos, pesadíssimos andores carregados por pelo menos 20 pessoas que se colocam debaixo dos mesmos. Destes sofredores, só se viam os pés, mas nos momentos de descanso, quando saiam da “armação”, podia-se notar a felicidade e honra de poderem transportar os seus Santos. Aí, numa esquina, apareceram dois meninos. Um com uma caixa de papelão tampando a cabeça, e sobre a caixa, uma vela acesa com alguns adereços. O outro, o conduzindo.
- À direita, à esquerda, em frente.
- O que estão fazendo, perguntamos ao que conduzia.
- Hacemos nossa procession. Como los grandes.
- Mui bien. Pero mire que tu amiguito se foi caminando...
Craptbum... Escutamos o barulho do menino que trombara contra uma vitrine de uma loja.
- Hijo de puta! Yo trabajando y manejando nuestro altar y vos hablando com los otros. Me voy...
- Pardon. No se enorre. Disculpá-me, falou o condutor ao amigo que se foi envergonhado e chorando.

Dia seguinte, saímos para conhecer melhor a cidade. A Plaza de los Toros, a Catedral e aí a cena engraçada. Parado numa esquina, um carro funerário, com um caixão. Dentro do bar, o motorista que tomava uma taça de vinho. Nos aproximamos e começamos a conversar. Concluímos, que apesar da demora, o cliente que aguardava no carro, não tinha pressa. Apesar do calor...

Hora de pagar a conta. Notamos que o Guia Michelin sobre a Espanha havia desaparecido do nosso quarto. Fomos à recepção e falei para a gorda proprietária:
- Señora. Desapareceu uma coisa no nosso quarto. A resposta foi pronta, bufante e furiosa:
- Aquí somos todos honestos. Não roubamos nenhum livro asqueroso.
- Como a Senhora sabe que foi um livro asqueroso, se não lhe dissemos o que foi roubado???
- Non sabemos de nada. Hasta luego.
Passando para o outro lado do balcão, peguei o telefone e disse que ia chamar a polícia, porque se eles não sabiam de nada, seguramente a polícia saberia. Irritada, a gorda saiu da recepção e foi engolida por uma porta. Menos de cinco minutos depois, voltou com dois ou três sacos de lixo nas mãos, os colocou sobre o balcão e disse:
- Vamos procurar o livro. Abriu o primeiro saco e lá estavam nossas “asquerosidades”: um mapa e o Guia Michelin.
- Que sorte, disse. A Senhora achou os meus livros asquerosos com muita facilidade...
- Salgam de acá.
- Lógico. Sairemos e não voltaremos mais.
VAPTTTT... Escutamos a porta de vidro, batendo com força atrás de nós e a blasfêmia tentando intimidar:
- Non precisam volver aca nunca mas. E entrou na recepção.
Não contente, voltei, abri a porta de vidro e disse:
- Señora!!! Señora!!! Queda-te tranquilla. Non volveremos nunca mas... Muchíssimas gracias... e saímos rindo. Ainda tivemos tempo de ouvir algumas imprecações e o barulhão da porta de vidro batendo pela segunda vez. Pena que o vidro não se partiu...

Santo Antônio da Vila Real foi nossa porta de entrada em Portugal.

A estrada, sobre as falésias permitia a visão de um panorama maravilhoso. Albufeiras foi alcançada no final da tarde. Encontramos um simpático hotel na parte alta da cidade e prontamente nos dirigimos à parte baixa. Vontade de caminhar, aproveitar a brisa marítima. No calçadão, tivemos a certeza que muita gente teve a mesma idéia. De repente, uma pessoa caminhando em nossa direção, a impressão do conhecimento, a falta de coragem da abordagem, a curiosidade no momento que a pessoa passou pela gente, a olhada prá trás e o rompante:
- Marcelo?
- Não. Eu não sou o Marcelo, mas você é o Osmar...
- Sou o Graciano.
- Puxa vida! Que coincidência. Eu sabia que você estava em Gonnesse, perto de París, mas o que está fazendo aqui?
- Analía e Graciano. Fiz as apresentações.
- Cheguei agora. Pus a mala no hotel e resolvi caminhar.
- Nós também.
- Vim para decidir minha vida. Tenho que pensar muito. Aqui, vou decidir se me torno monge ou não.
- Grande decisão. O Marcelo, que foi colega de faculdade também pensa seguir o mesmo caminho. E o interessante é que vocês tem o mesmo biotipo, por isto a confusão. Acho que deveríamos nos sentar, tomar um vinho, para ajudar nesta importante decisão.
Escolhemos um local agradável, e um vinho português. Cuja garrafa foi seguida por inúmeras outras, uma bela bacalhoada, muitas horas de agradável “bate-papo” até o fechamento do estabelecimento. De madrugada!
Pouco tempo depois, Graciano decidiu pela vida monástica. Nunca nos perdemos de vista. Foi nos visitar em Strasbourg, nos visitou em Belo Horizonte e agora nos contatamos pela internet. Sempre com a promessa de nos rever...
Deixamos Albufeiras com uma sensação agradável...

Oam 01/02/10                    *
nota da editora: George Sand foi bem mais que apenas amante de Chopin... hahahaha... saiba mais.