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Casa de Farinha e docinhos...
(Viagem aos Lençóis Maranhenses, uma das maiores maravilhas da natureza...)

Por Osmar A Marques
 

 

(Edson Veras, 2014, Bronze, Prata, Ouro)

 

 

 

 

 

Some-se a isto o sol. Inclemente! Senhor da claridade e das sombras. Brinca com as nuvens, enviando sombras sobre as dunas e lagoas, mudando suas cores, sua perspectiva e fornecendo crepúsculos apaixonantes.

 
 

Foi uma das viagens mais belas que já fizemos. E muitos caminhos já foram percorridos. Viagem feita na simplicidade, seis pessoas amigas, incluído o guia francês. Ora a equipe era aumentada por um motorista, ou barqueiro, ou outro guia conhecedor das dunas e ora por um recepcionista de hotel, desorientado, mas de ótima índole, que convidamos para participar de um trecho desconhecido para nós. E para ele.

 

Assim, seguimos. Visitamos casas de moradores nativos em suas palhoças e precariedades. Sempre bem recebidos, conversamos muito e procurávamos deixar algum alento. Nas palavras, nos olhares e mesmo monetários. Quando a percepção e a situação exigiam. Entre dunas, manguezais, praias convidativas, povoados inusitados, barcos, caminhadas a pé, veículos 4x4, revezávamos o foco entre a paisagem e o ser humano.

A natureza é exuberante. As dunas, em sua constante mutação, impressionantes. O vento e a areia constantemente brincando com a paisagem e impondo limites e respeito ao homem. Que é obrigado a se proteger, criar barreiras, lutar incessante para não ser encoberto, ou mesmo ter a pele queimada, o pé estropiado e os olhos afetados.

 

A água, normalmente intrusa num deserto, teima em estar presente. E acrescenta um diferencial. De frescor, de verde, azul, transparência ou marrom. Mesmo com sua insistente sazonalidade. Nos lagos, na preguiça do rio ou mesmo na sua alegria.

Preguiças de Barreirinhas a Caburé e Alegre em Santo Amaro.

No surrealismo das areias movediças... E tem as queimadas. A dos Britos é a mais importante. Oásis plantados no meio do deserto. No meio do nada. Nada interrompido por cabras e porcos que aparecem do nada. E deixam suas pegadas. Logo apagadas pela areia e vento.

 

Some-se a isto o sol. Inclemente! Senhor da claridade e das sombras. Brinca com as nuvens, enviando sombras sobre as dunas e lagoas, mudando suas cores, sua perspectiva e fornecendo crepúsculos apaixonantes. Anunciando fim de jornada, hora de descanso, meditação e reflexão, início da escuridão. Hora de incertezas, recolhimentos e medos.

De Santo Amaro até o espigão, enorme duna rodeada de água por quase todos os lados, o percurso em areia que só veículo tracionado desbrava, atravessando riachos e areões e paradas para apreciar o caju nativo. Da árvore ao consumidor. Pequenos e enormes. Suculentos e saborosíssimos ou bem menos. Quase uma hora no sertão deserto. Que o homem é obrigado a fazer a pé ou em lombo equino se o tiver. O tempo aumenta para três horas e as dificuldades de andar na areia e no calor do sol são somente imaginadas. A possibilidade de alcançar a cidade de barco a remo existe no período que o Alegre rio é navegável e os 180 minutos devem ser tão suados e penosos quanto a caminhada.

 

O pensamento vaga na possibilidade de uma emergência e na necessidade mensal da compra de víveres... Escola? Sonho impossível para cidadãos que desconhecem ações de preservação da saúde. O alto do Espigão foi alcançado após a travessia, a pé, do rio. Maravilha da natureza. A prova da capacidade do arquiteto aí estava presente. Mais uma vez. Duna que termina na confluência do rio, de um lado, com nascente de afluente do outro e tudo isto em areia movediça no meio.

Perto, avistamos a Casa de Farinha. A curiosidade nos levou a aproximação. Palhoça. Troncos de árvore servindo de parede externa, pois internas não há, palha no teto. Convidados a entrar e conhecer não titubeamos. Fora calor. Muito calor. Dentro frescor. Convite a não sair. Pelas frestas se vê o mundo do outro lado.... A vida da casa seguindo seus rumos, seus afazeres. Roupas e redes penduradas no teto. Na rede esticada, deitado, o pai. Com um filho deitado no peito. Indolente vai e vem. A filha e a mãe descascando mandioca. Os dois menores, ralando. No fogão aquecido a preparação para torrar a farinha. Do lado de fora, parentes que chegaram do mandiocal. O mais velho cortando lenha. Outro consertando a rede de pesca. Muito próximo do rio e da hortinha.

 

Todos respeitam o trabalho de todos. Provavelmente quem se embala na rede e teima em assim permanecer, já cumpriu o seu dever. Pouco muda com a nossa presença. Olhares tímidos às fotos consentidas. Víveres não foram notados. Come-se apenas mandioca e rapadura? Acrescentada de algum verde da horta? E alguma penosa, das existentes e criadas em liberdade? Peixes? Como faria bem uma cesta básica ainda não recebida. O conversar nos apresentou ao menino tímido, cabisbaixo, escondido e com a mão tapando a boca.
 

- É tímido porque é avergonhado, a mãe protegeu e acrescentou:- O probrema da boca.
 

O “problema” da boca? A percepção do lábio leporino tão exposto gelou nossos falares. Imediatamente decidimos que precisávamos encontrar uma solução. O francês guia e o desorientado recepcionista agora parte da expedição tinham muitos conhecidos em São Luiz e poderiam fazer algo. Nossa fonoaudióloga agiu prontamente e sob permissão familiar fotografou os sofridos lábios infantis de sete a oito anos de idade. Fotos que foram posteriormente mostradas para políticos que estavam hospedados na mesma pousada e para os quais solicitamos providências. Soubemos depois do nosso retorno, que os primeiros passos haviam sido dados para se chegar à cirurgia, que foi realizada.


Voltemos à Casa de Farinha. “Nativos vivendo primitivamente”, mas pós graduados em simplicidades, gentilezas e anfitrionismos, nos convidaram para comer um docinho. Provavelmente, a iguaria mais preciosa da casa.

 

De longe, o conteúdo da gamela de madeira parecia de quadradinhos escuros e tinham uma ótima aparência. Bolo? Rapadura? Percebi que outra coisa não poderia ser que derivado de mandioca. Mas nem todos pensaram assim. Diante da possibilidade de ser derivado “grudento” de mandioca, de sabor desconhecido e indesejado e não podendo cometer deslizes diplomáticos, aceitei o menor pedaço que vi. Repetição, somente se possível fosse.

 

Mas nem todos pensaram assim. Madame Tê, por exemplo, associou a cor, a algo proveniente da cana de açúcar. Rapadura ou outro derivado. Pegou um “nacão”. Percebemos quase ao mesmo tempo. Eu, minha confirmação e ela, o seu engano. Mastigávamos o que não conseguíamos engolir. Não havia como. Não havia saliva que fizesse a “coisa grudenta” dissolver. Pedaço malandramente pequeno e, acostumado a provar iguarias exóticas em várias etapas da vida, não me foi tão difícil acabá-lo.

 

Mas nem todos agiram assim. Estava eu, perto da porta principal. Deslumbrado com tudo o que acontecia, não podia perder nada. O aprendizado era enorme. Minha visão 360 graus fazia com que todos os meus sentidos estivessem atentos. Então, percebo Madame Tê, discretamente se retirando do recinto. Tentando engolir o ingolível. Com uma cara... Boca cheia, olho esbugalhado, engulhos...
 

- Tá difícil? Perguntei...
Resposta sinalizada com um gesto da cabeça de cima para baixo, várias vezes., seguida de:
- Hum rum...
- Não consegue engolir? Continuei sadicamente...
Resposta idêntica à anterior.
- Há algo dentro da mão fechada? Maldosa questão...
Tentativa de resposta idêntica às anteriores, mas acompanhada de engulhos e vontade suprema de vomitar... Bondosamente então, abri a palma da minha mão e disse:
- Deposite... Seguido de uma risadinha sarcástica, porém salvadora. E acrescentei:
- E cuspa lá fora rápido, porque não tem ninguém olhando.
 

Nunca vi um depósito tão rápido. Aí como depositário fiel da coisa grudenta, não tive outra alternativa a não ser engoli-la vagarosamente. Quanto a horta, recebeu uma cusparada enorme, meio pastosa, percebida pela minha visão 360 graus.... O que foi motivo de muita risada logo depois que não víamos mais a Casa de Farinha.

Resta registrar o quase naufrágio da equipe, devido a gentileza do componente remador da Casa. Para evitar que fizéssemos cerca de 500 metros e tivéssemos que atravessar o rio a pé para alcançarmos o nosso jipão, ofereceu a canoa para a travessia. Não tivemos como recusar tamanha bondade. Fomos entrando na canoa. Com o canoeiro, nove pessoas mais equipamentos fotográficos raros. Tínhamos uma fotógrafa na equipe e a bordo. Aí percebemos que entramos “numa canoa furada”. Furada, com água no alto da borda externa e nos fundos. Não podíamos respirar que a água entrava por cima da canoa. E o pior. Não dava pé!

 

Olhávamos para a fotógrafa que segurava sua mochila de equipamentos raros e caros, além do acervo das centenas de fotos já feitas. Para nós, havia salvação...

Mas chegamos a boa margem, contrariando todas as forças contrárias...