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O Poder e as Estrelas

livro de Isabel Fomm de Vasconcellos

 Capítulo 3 - Nativos e Deuses

 

Portinari, Primeira Missa

O representante de Cornos tomou a palavra e sua voz era forte, firme, como deveriam ser as vozes dos homens habituados a desafiar a natureza com suas próprias mãos, pensou Reá, sem saber bem porque.
Tudo naquele ser era impressionante. Era moreno, quase passaria por um negro, na Terra, não fossem os traços de seu rosto, os cabelos lisos e compridos até a cintura. Ligeiramente azulados, os cabelos. Talvez um efeito da atmosfera de Cornos, um pouco diferente do ar da Terra. Ninguém em Cornos adquirira o hábito de usar roupas, já que o clima lá era sempre ameno e não havia muito do que se proteger. Mas enfeitavam-se. E a vista daquele homem enorme, com um sexo também enorme, musculoso, coberto de adornos e sem nenhuma roupa, falando ante a nata da Federação, humanos absolutamente bem fardados e membros elegantes dos Cinco Blocos Unidos, Réa sentia um estranho desconforto. Tutôr, era o som mais próximo do nome dele que a máquina de tradução conseguia emitir.

- É muito difícil para os nossos povos – começou ele – chegar a compreender que vocês não sejam deuses. Eu mesmo, que há tanto tempo venho me acostumando à vossa presença, ainda custo a acreditar que assim seja. Visitei o seu mundo e seu povo me mostrou maravilhas que eu só julgaria possíveis aos deuses, ou, para ser sincero, nem mesmo a eles. No entanto seu povo me mostrou a história de seu mundo e eu entendi que todas essas maravilhas são conquistas que custaram muito sacrifício e sofrimento e muito, muito tempo. Aprendi que estamos, todos os nossos povos em meu mundo, num tempo que para vocês seria um passado distante.

Nesse momento a mulher que estava ao seu lado, quase idêntica a ele, distinta apenas pelo formato estrogênico de seu corpo e pela presença das diferenças sexuais, exatamente como nos humanos, ergueu a mão para fazê-lo calar-se e começou ela a falar:

- Tenho a mesma impressão do meu companheiro e quero dizer aqui que vocês nos mostraram que, num passado ainda recente, havia entre vocês, no mundo maravilhoso que criaram, alguns seres que viviam como nós vivemos em nosso mundo. Vocês o chamavam selvagens e os mantinham a parte das conquistas maravilhosas que para nós são divinas, mágicas. Vocês mesmos chegaram à conclusão de que não seria justo manter algumas tribos naquele estado apenas com a desculpa de preservar-lhes os hábitos, a cultura, como dizem vocês (e aqui ela usou a palavra terráquea pois em sua língua não havia nada que expressasse esse conceito). Pois bem, eu acredito que os seus selvagens deram esse salto, há pouco tempo, como daríamos nós hoje se vocês nos ensinassem tudo o que sabem. Por isso, depois de pensar como vocês me ensinaram a pensar, eu cheguei à conclusão de que já que vocês descobriram o nosso mundo o certo é que ensinem ao nosso povo tudo o que vocês já sabem e não que simplesmente permitam que o meu povo continue vivendo primitivamente (como dizem vocês) e sem usufruir de todas essas maravilhas. Vocês fizeram isso com os seus selvagens durante muito tempo e não deu certo, vocês mesmos voltaram atrás e permitiram que eles se incorporassem à vossa maneira de viver.

Nesse instante, Réa reflete que aquela selvagem estava fazendo eco aos seus próprios pensamentos. Iala – esse era seu nome – dizia o que ela costuma dizer, argumentando favoravelmente à colonização completa e total assimilação dos cornianos.

- Se os seus povos chamados por vocês mesmos de selvagens, equivalentes a nós conseguiram se incorporar ao que vocês chamam de civilização (aqui ela usou de novo a palavra terráquea), nós também conseguiremos.
Então o líder religioso se ergueu para falar também:

- Sou Arvos, o sacerdorte. Não estive, como Tutôr, por tanto tempo entre a vossa civilização. Mas, a cada visita desse nosso líder, de volta à Cornos, no decorrer desse tempo em que ele era levado e trazido entre os nossos dois mundos, aprendi quase tudo o que ele sabe e, nos últimos dias, pude ver com meus próprios olhos as grandes conquistas dos terráqueos. Viajei no mar das estrelas, assustado no início por poder voar como os pássaros, emocionado até as lágrimas, depois, quando a nave mergulhou na escuridão. Entendi que nossos mundos são também bolinhas brilhantes como as estrelas, eu que pensava que elas fossem buracos no grande negrume que os deuses mandavam todos os dias para cobrir o céu, como cobrimos os nossos catres...Vi, no entanto, no mundo maravilhoso dos terráqueos que ainda existe guerra. Por mais que as tribos da Terra tenham se unido, como me explicaram, depois da conquista do espaço (que é o nome que vocês dão aos céus), as guerras e os desentendimentos ainda existem e existiram até muito pouco tempo, como me explicaram, em grande quantidade? Os terráqueos também acreditam, como eu, nos deuses. E são deuses diferentes de uma tribo para outra, exatamente como acontece com os povos do nosso mundo. Contemplei vossas armas e vosso poder e tenho consciência de que seria mais fácil para vocês, que precisam de algumas riquezas que existem no meu mundo, simplesmente nos matar. Vocês poderiam nos matar e se apoderar do nosso mundo, onde instalariam terráqueos e máquinas e tudo o que quisessem... No entanto vocês nos trouxeram aqui, a esse mundo artificial que criaram no céu, para discutir o que seria melhor para o nosso povo. Vocês são seres de bondade. Por isso, acredito que poderiam ensinar aos cornianos tudo o que sabem. E nós aprenderíamos com vocês. Nosso mundo deve ser grande, como vocês mesmo nos disseram. Nós não sabemos. Nunca ninguém tinha conseguido andar até o fim do mundo, antes de vocês chegarem e explicarem que o nosso mundo também é redondo e que andando levaríamos mais de uma vida inteira para fazer a volta completa. Se os deuses mandaram vocês para nós deve ser a vontade deles que vocês nos ensinem e, em troca, levem do nosso mundo o que quiserem e, mesmo, instalem lá povos terráqueos, construindo cidades de sonho como esse lugar ou as cidades que vi na Terra. Se vocês são bondosos, por que se recusariam a nos ensinar a viver a vida de sonhos que vocês vivem?


- Sim – quase gritou Tutôr – a nossa tribo merece viver como vocês e mesmo as tribos contra as quais um dia lutamos, porque, vivendo como vocês, nem precisaríamos mais lutar. Todos teriam tudo.
O Almirante Dionísio, que presidia a mesa do Encontro, levantou-se:

- Chefe Tutôr, Conselheira Iala, Sacerdote Arvos, creio que deixaram clara a posição dos senhores, falando em nome de suas tribos. Esse conselho aqui reunido representa legitimamente as nações da Terra, todos aqui são membros da ONU dos Cinco Blocos Unidos e todos nós, democraticamente, discutiremos nesta semana de trabalhos, as formas mais eficientes e menos traumáticas de colonização de Cornos. O Presidente acatará a decisão desse Fórum e o que ficar aqui estabelecido será posto em prática. Ninguém, em Cornos, será obrigado a adotar a maneira de viver dos terráqueos. Não é segredo que o pequeno contato que mantivemos com suas tribos já contaminou a muitos em seu planeta. Lá hoje já existem muitas das nossas máquinas e estas foram bem aceitas pelas tribos. A influência já ocorreu, Cornos não seria mais a mesma, ainda que nós, terráqueos, nunca mais pisássemos lá. E todos aqui sabemos que isso seria impossível. Por isso, o que se coloca em pauta aqui hoje é a maneira pela qual devemos conduzir a colonização de seu mundo e não mais se devemos ou não fazer isso pois, na prática, já o fizemos e não há como retroceder. Nesse momento, eu passo a palavra aos delegados das nações que queriam se manifestar.

O primeiro a falar foi o representante da América do Norte, nação que incorporara os antigos Estados Unidos, o Canadá e o México. Ele mostrou-se preocupado com o estabelecimento de uma moeda, coisa que considerava como o primeiro passo para o início da colonização, entre povos que jamais haviam tido qualquer coisa parecida com dinheiro e que viviam em comunidades exercendo papéis pré-estabelecidos e que provinham as necessidades de todos. Não havendo em Cornos o sentido de propriedade, como fazer? Sem moeda, sem o estabelecimento do valor, como iniciar a colonização? Como, sequer, retirar as riquezas naturais desses povos? Como torná-los produtivos no sentido que a Terra entende a produtividade? Eles seriam, então, tutelados e educados para que, nas próximas gerações, fosse se estabelecendo o conceito de valor?

Depois falou o representante da Índia. Que direito teria a Terra de impor seus valores materialistas a um povo cuja pureza imaginava que o céu era um manto com que os deuses cobriam a luz para que eles pudessem repousar? E mais: que esse manto teria pequenos furos, para garantir-lhes que a luz continuava lá? Faria parte da educação dos povos de Cornos a educação religiosa? E que religião lhes imporiam? Ou lhes mostrariam todas, deixando que cada um decidisse a sua crença? Mas quem garantiria que a espiritualidade deles não fosse superior a nossa? Destruiria-se essa espiritualidade para colocar o que em seu lugar? O deus dos ingleses?

Ao delegado russo incomodava o fato de destruir uma sociedade que conseguira realizar, ainda que em moldes primitivos, a utopia socialista.
Não se deveria macular essa sociedade com o estabelecimento do princípio da propriedade que, hoje, era inexistente entre esses povos. E como colonizá-los sem fazer isso?

A discussão estendeu-se por toda a manhã. Como previra o Presidente, embora tivesse sido possível unir a terra, com todas as suas diferenças, pela causa espacial, seria muito difícil se montar uma expedição colonizadora que não esbarrasse nessas mesmas diferenças culturais, morais, sociais, políticas e religiosas.

A Terra, depois da Revolução Espacial, ficara reduzida a grandes blocos: A América do Norte (da qual se tornaram membros as distantes Austrália e Nova Zelândia), A América Latina, O Islã, A Euroniporússia (da qual fazia parte o antigo Japão, a China e a Índia) e a Grande Nação Negra. Nos últimos 20 anos, tinham ido toureando. Mas o Presidente temia que a questão corniana rachasse o tênue vínculo que a Revolução Espacial criara entre tão diferentes nações humanas. Estavam todos de olho nas riquezas inimagináveis que poderiam se esconder naquele planeta inexplorado pela mão do homem e entregue a pouco mais de mil habitantes, concentrados num único continente, divididos em tribos, tão distantes umas das outras que pouquíssimos contatos havia entre elas. Falavam línguas parecidas, o que indicava uma única raiz e suas culturas também eram, em quase tudo, semelhantes. Mas já houvera guerra entre esses povos, aparentemente por motivos fúteis.

Tutôr era o chefe da maior tribo, com 600 membros. Iala, a conselheira da tribo vizinha, com 150 e Arvos, o feiticeiro-sacerdote da terceira tribo. Se os humanos estabelecessem colônias lá, em uma única geração, os cornianos que sobrevivessem seriam completamente assimilados.

Arvos tem razão – refletia Réa durante as discussões daquela manhã – seria muito mais fácil matar todos eles e provavelmente nós acabaremos por matá-los mesmo. Certamente se miscigenação e o DNA deles será um leve traço nos futuros habitantes de Cornos. São pouco mais de mil, que espécie de colonização faremos lá, afinal? Vamos proibir humanos de fazer filhos com cornianos? Como isso seria possível?

Réa sabia agora, depois da conturbada manhã de debates, que a questão da autonomia da Vênus Platinada seria novamente protelada. Enquanto não se decidisse o destino de Cornos, ninguém queria nem ouvir falar no problema da estação espacial, embora houvessem ali muito mais gente nativa do que no planetinha recém-descoberto. Mais de 100 mil jovens, nascidos e criados na estação, contra mil habitantes de Cornos.

Sentou-se à mesa do almoço, realizado num enorme salão, para abrigar os mais de 500 representantes dos blocos presentes ao encontro, com o general Apolo, sua assistente e mais dois generais, um americano e um latino, todos devidamente acompanhados por seus assessores militares.
O mundo militarizara-se, depois da Revolução Espacial. Eles eram a nata, embora os cientistas também tivessem conseguido uma relativa força em toda a terra, graças ao milagre da união dessa classe, sempre tão individualista ao longo da História.
Réa conhecera Apolo pessoalmente na primeira missão enviada ao planeta recém-descoberto. Isso fora há três anos passados. O velho general não lhe parecera, então, tão velho. Está certo que a Medicina avançara a ponto de fazer com que os humanos atingissem, na maioria, aquela idade-limite de 144 anos e que já não se envelhecia como há apenas algumas décadas. Mas mesmo assim, era ainda impossível deter a decrepitude dos anos. Apolo parecia ter envelhecido 30 anos em 3. Quando serviram juntos, com o privilégio de serem os primeiros astronautas a posar em Cornos, a Réa surpreendera a juventude de Apolo, a quem os anos pareciam não ter tocado. Agora ele era definitivamente um homem próximo do fim, embora conservasse o porte altivo e o ar de herói que sempre cultuara.Tinham sido bons companheiros naquela missão.Ele, o mestre. Ela, a discípula. Mas agora, que era também general, Réa o encarava apenas como o adversário, o inimigo. Ele decerto a julgaria pretensiosa por querer, com apenas 45 anos, tornar-se uma almirante. Ela, no entanto, julgava-se mais que pronta para tal.
 

continua - capítulo 4 Visão do Paraíso                           Clique aqui para comentar          ver comentários