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O Poder e as Estrelas

livro de Isabel Fomm de Vasconcellos

Capítulo 2 A Base e O Planeta

 Vitor Meirelles 1861, A Primeira Missa


Naquela manhã, Réa acordou muito cedo. O céu ainda tinha o avermelhado do amanhecer e algumas poucas estrelas foram visíveis por alguns minutos. Sua missão a obrigaria a deixar sua base e voar até a estação espacial n.1, a mais próxima da Terra, e visível no céu, em noites claras. Era uma enorme estrutura, quase um quinto do tamanho da lua, onde viviam centenas de milhares de pessoas, conhecida por Vênus Platinada. A estação possuía gravidade artificial e até firmamento artificial, além de atmosfera e clima controlados para reproduzir as quatro estações do ano. Lá existiam plantações, algumas fábricas centros urbanos. Era como a Terra num outro planeta, com a diferença que não se estava sobre a superfície da estação, mas dentro dela.
 

A assessora pessoal de Réa, major Mel, acordara cedo também e encontram-se na sala exclusiva para café da manhã e ginástica, pouco depois do sol levantar-se no horizonte. Enquanto faziam seus exercícios cotidianos, Mel perguntou:
 

- É simpático o presidente, não?
- Você está querendo saber se eu falei com ele ou não? – perguntou Réa bem humorada e adivinhando as intenções da major. – Não falei. De qualquer modo, tenho certeza que Apolo ganhará o almirantado. Afinal, deve ser uma razão piedosa: ele só tem mais 9 anos de vida.
- A política do quadrante alfa é importante demais para ser entregue por piedade, general, creio que sabe disso, é claro. Você tem mais chance do que ele. Apolo é conservador e a Vênus Platinada precisa realmente de uma maior autonomia – disse Mel, com a voz alterada pelo esforço do exercício que realizava naquele momento.

- Apolo votará contra a autonomia da Vênus. Ele é de opinião que a base não deve ser considerada como um Estado independente, que deve continuar sob as antiquíssimas regras das colônias espaciais. No entanto, essa situação pode perdurar por mais 9 ou 10 anos, uma vez que apenas 20% da população da Vênus se importa com a questão.
- A vida lá é realmente melhor que a da Terra. Estão livres da maioria dos nossos problemas, eles têm razão em não se importar com o que lhes parece um mero detalhe administrativo.
- Mas nós sabemos que não é bem assim. A Vênus funciona de fato como um estado independente mas não possui a autonomia política necessária. É um pouco absurdo isso! – disse Réa.
- Não é menos absurdo do que a situação de Cornos, ou é? – provocou Mel.
- Cornos vai ser terrível hoje! – explodiu Réa, jogando de lado os pesos e dirigindo-se para o chuveiro.
Mel a seguiu.
- Você quer repassar a pauta da reunião?
- Não obrigada. Acho que já decorei essa pauta.
- Desculpe dizer. Mas continuo acreditando que se você cedesse em alguns pontos, teria mais chance de conseguir o apoio de algumas lideranças que, justamente por causa da sua inflexibilidade, acabarão apoiando Apolo.
- Já discutimos isso antes, Mel. Eu não vou ceder nem um centímetro. No fundo, ambas as questões, a de Cornos e a da Vênus, são as mesmas, embora os contextos dos dois sejam muito diferentes. E fiz minha carreira sempre acreditando na autonomia de cada indivíduo dentro do Cosmos e do direito do indivíduo ao conhecimento, em cada nação, em cada planeta. Não vou ceder apenas porque isso me facilitaria o acesso ao poder que anseio. Eles vão ter que me dar o poder me aceitando exatamente como sou.
- Não é politicamente ideal, você sabe.
- Mas é o meu ideal, Mel – disse Réa abrindo o chuveiro e encerrando a discussão.
 

Cornos era um planeta ridiculamente próximo da terra, que passara desapercebido de todos os astrônomos por tantos séculos. Orbitava muito próximo a uma estrela de 9º grandeza, solitário. Era habitado por seres humanos, um pouco diferentes dos da Terra, em um estágio de civilização mais ou menos o equivalente aos antigos índios da América . Possuíam alguns instrumentos, uma escrita rudimentar e uma sociedade organizada em tribos.
Quando a Federação pousou lá sua primeira nave foi evidentemente confundida com manifestação de deuses. Os tripulantes, idolatrados. A nave, cultuada.
Em vão tentavam os terráqueos explicar (depois de três anos já haviam decifrado as línguas rudimentares das tribos) a realidade aos povos de Cornos. Para aquelas pessoas, os humanos eram deuses e pronto. A grande questão que se levantara na Federação era o nível de interferência que deveriam exercer naquele povo. Uns diziam que se deveria deixar que a evolução desses povos ocorresse naturalmente e que a Terra deveria se retirar de Cornos antes que o desastre cultural fosse maior. Afinal, naquele povo, ficaria para sempre a tradição de deuses que desceram dos céus. Outros acreditavam que a Terra deveria educar aqueles povos, levando o conhecimento científico, ignorando as tradições e crenças locais, fazendo, enfim, com que Cornos desse um salto de milênios em sua evolução natural.
 

Réa era partidária da segunda hipótese. Costumava dizer que bastava o que os americanos haviam feito aos seus índios, segregando-os em reservas que se assemelhavam, de fato, a zoológicos, com a hipócrita desculpa de que estavam preservando uma cultura que, na verdade, já era passado. A partir do momento, pensava ela, que Cornos entrou em contato com a superior civilização (superior em conhecimento, é bom explicar) da Terra, já dera o salto evolutivo e tinha, sim, todo o direito de usufruir do conhecimento que os terráqueos lhes poderiam proporcionar. Havia, é claro, o problema econômico, nunca declinado claramente, mas sempre presente. Quanto custaria para a Terra educar Cornos? Menos, pensava Réa, do que as riquezas naturais daquele planeta que a Terra exploraria e, na verdade, já estava explorando, contrabandeando, em tantas naves piratas, as riquezas minerais lá existentes. Seria preferível então, no entender da general, que houvesse menos hipocrisia. Os contrabandistas acabam contaminando culturalmente os nativos de Cornos e de uma maneira mais perversa se a interferência humana naquele planeta fosse direta, limpa e honesta. Poder-se-ia então calcular os custos e “cobrar” dos nativos retirando de lá as riquezas que fossem estritamente necessárias para remunerar o trabalho dos colonizadores e as despesas dessa colonização. Essas riquezas, evidentemente, gerariam, na terra, ainda mais riquezas e, desta maneira, Cornos pagaria muito bem pela aquisição do conhecimento e, em três gerações, sem dúvida, os habitantes de Cornos estariam equiparados, em way of life e conhecimento, aos habitantes da Terra. Mas é claro que, dentro da Federação, existiam muitas ideias contrárias ao pensamento de Réa, ideias essas movidas por interesses mercenários, por pensamentos religiosos ou até mesmo por ideais.
 

Esta era a briga que ela estava se preparando para enfrentar hoje. A colonização de Cornos era a pauta principal, além da discussão sobre a autonomia da Vênus Platinada, daquela reunião na base espacial, que reuniria os representantes dos cinco grandes Blocos da Terra e alguns generais da Federação, de origens e pensamentos tão diversos.
Com tudo isso na alma, Réa embarcou na nave que a levaria à estação.

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