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O Poder e as Estrelas

livro de Isabel Fomm de Vasconcellos  

 

Emanuel Leutze, Colombo ante o Grande Conselho

 

Capítulo 13 Independência ou Morte

Enquanto, na Terra, Apolo desfiava seu rosário contra os privilégios dos cornianos e o desempenho da Almirante Réa, Tutôr, Arvos e Iala reuniam-se com os conselhos de suas aldeias para discutir a necessidade de uma atividade produtiva para o povo, antes que todos descambassem para os males da indolência e da ausência de sentido para suas vidas.

- É muito engraçado – protestou uma conselheira – Eu pensei que as riquezas de Cornos que os terráqueos estão levando para o seu planeta já fossem suficientes para pagar pelos conhecimentos e pelas máquinas que eles nos legaram. Agora teremos que dar a eles também preciosas horas dos nossos dias? Quem me garante que eu vou gostar disso que eles chamam de trabalho? Por mim, estou muito bem como estou. Gosto de ir às escolas deles, aprendo coisas, gosto de assistir filmes holográficos e de usufruir todo o conforto que hoje têm as nossas casas. Não está me faltando nada. O que eu acho é que eles agora querem se aproveitar de nós. Como eu já disse, não bastam as riquezas que eles estão tirando do planeta? Por que teríamos que dar-lhes também o nosso trabalho?

- Os terráqueos não precisam do nosso trabalho – explicou pacientemente Tutôr – Nós, como força produtiva, fazemos pouca ou nenhuma diferença para eles. Veja bem: ao todo, contando as crianças, somos mil e poucos seres humanos. Na terra, eles tem isso trabalhando num edifício médio e existem centenas de milhares de edifícios. Existem onze bilhões de pessoas na Terra, que é um número acima da imaginação de muitos de nós. Nosso trabalho será um bem para nós mesmos, para que não nos tornemos um povo sem sentido, sem razão para lutar. O que será de nossas crianças, num futuro próximo, crescidas numa aldeia em que não é preciso fazer absolutamente nada para ter garantidos a sobrevivência, o conforto e até o luxo? Nós não deixaremos de usufruir os impostos que a Terra paga às aldeias pela exploração de nossos recursos naturais. Apenas teremos uma vida produtiva e cada corniano, como acontece com os terráqueos, será pago numa medida equivalente ao que ele produzir. Com essa paga poderá adquirir todo o necessário para a sua vida, tudo o que hoje adquirimos com os nossos vale-escola.

- E mais ainda – explicou Iala – Deveremos pagar também pelos serviços que a aldeia nos presta: a luz que ilumina nossas casas, a energia que faz funcionar as máquinas, a água pura e livre de doenças que sai das nossas torneiras, os transportes que nos levam rapidamente aonde queiramos ir, os serviços de saúde que nos livraram de tantos sofrimentos... Todos esses são chamados serviços públicos e são administrados hoje pela Frota. Depois, nós mesmos elegeremos pessoas que serão responsáveis por arrecadar esses valores – que fazem as coisas funcionarem - e também por administrar todos esses serviços. Nós mesmos faremos tudo e os terráqueos, aos poucos, se afastarão das nossas aldeias. Seremos donos de nossos próprios narizes. Seremos adultos e não essas criancinhas tuteladas que somos agora, deu pra entender?

- E as escolas? – perguntou um conselheiro – Quem será responsável pelas escolas?
- Os adultos que quiserem continuar estudando e aprofundando seus conhecimentos poderão ser os mestres daqui a alguns anos – explicou Arvos - Ainda não sabemos nada, embora para muitos de nós esse nada já pareça uma infinidade de coisas. Na educação ainda dependeremos dos terráqueos por alguns bons anos. Ainda há muito que aprender. Mas as nossas crianças, que já crescerão estudando, terão grande chance de adquirir o mesmo nível de conhecimento dos terráqueos cultos. Eu insisto em lembrar a todos que a Terra não precisa de nós. Já disse e vou repetir: eles, com o poder que têm, seriam perfeitamente capazes de explorar o nosso planeta sem que sequer desconfiássemos disso. Poderiam eles ter nos mantido como estávamos e descer em nossos outros continentes, fazendo o que bem entendessem com o nosso mundo. Poderiam até ter nos matado, nos exterminado. No entanto, nos deram todas essas coisas maravilhosas: a saúde, o conhecimento, o bem estar e as máquinas.

- E agora querem nos dar a independência! – exclamou Tutôr.

- Como independência? Vamos ser escravos desses relógios, teremos que dar seis horas do nosso dia para o trabalho? Que espécie de independência é essa? – exclamou outro conselheiro.

- Veja bem – respondeu Tutôr – Nós, hoje, somos totalmente dependentes dos terráqueos. São eles que nos ensinam, são eles que fazem funcionar todas as coisas em nossas aldeias. Se, por absurdo, eles nos abandonassem, de nada serviriam as nossas casas, nossos computadores não funcionariam e nem mesmo a luz acenderia porque nós não saberíamos fazer nada com os objetos deles. Nós vamos, aos poucos, aprender a fazer funcionar tudo, através do nosso trabalho. Cada um poderá escolher uma atividade, de acordo com as suas aptidões e seu gosto. É claro que vai demorar um pouco. Tentaremos isso e aquilo até encontrar o nosso trabalho ideal. Mas, todos juntos, faremos tudo funcionar e, como já foi dito aqui, um dia, não precisaremos mais dos terráqueos para nada. Seremos responsáveis, novamente, pelos destinos das nossas aldeias e pelo nosso próprio destino como povo. Isso é independência. Antes, também tínhamos que trabalhar e vocês hão de convir que trabalhávamos o dia todo para ter uma vida muito inferior a que temos hoje.

- Dependíamos – disse uma conselheira – da vontade dos deuses. Hoje sabemos que os deuses não existem e eu mesma já aprendi na escola que uma boa colheita depende das condições de plantio, do alimento que se dá às plantas e dos remédios que combatem as doenças da plantação e não dos deuses. Hoje já sei que a nossa saúde ou doença não é um capricho dos deuses mas depende do que comemos ou desses bichinhos invisíveis que estão no ar e, ainda, de outros fatores, além das nossas próprias emoções. Hoje dependemos da bondade dos terráqueos. Portanto, acho uma boa idéia que, um dia, possamos usufruir tudo isso que eles nos trouxeram dependendo apenas de nosso trabalho. Acho que Tutôr tem razão. É o trabalho que nos tornará independentes.

- Mas ainda dependeremos de Deus para nascer e morrer – acrescentou Arvos.

- É verdade – disse uma conselheira. – Nem os terráqueos podem explicar porque se morre um dia e porque ninguém passa dos 144 anos deles e muito menos o que acontece depois da morte.

- São os mistérios de Deus – disse Arvos. – Por isso não devemos também nos afastar da religião, do culto ao Deus.

- Mas que Deus será esse? – desafiou o mais velho conselheiro – Na escola aprendemos que os nossos deuses não passavam de fenômenos naturais e aprendemos ainda que, entre os terráqueos, também existem vários deuses e embora muitos digam que, no fundo, Deus é um só, eles, lá na terra, também não se entendem sobre isso.

- Estávamos realmente enganados quanto à natureza dos nossos deuses – disse Arvos – mas não estávamos enganados quando acreditamos que tudo o que existe no mundo, a terra, o céu, a água, os animais, as plantas, nós mesmos e até os terráqueos e as estrelas, foram criados por Deus e só Ele pode nos dar a vida e a morte.

- Bom, estamos nos desviando do assunto principal desse encontro – interrompeu Tutôr. – A proposta da Frota é começar a treinar, nas escolas, os cidadãos de Cornos para que possamos, aos poucos, ir assumindo posições produtivas e nos tornemos, por fim, responsáveis pelas nossas próprias aldeias. Mais alguém quer fazer alguma observação antes de votarmos?

Todos votaram pela adoção do trabalho. Foi a primeira votação unânime na história dos conselhos da aldeia.
Tutôr ficou radiante de alegria e não via a hora de poder contar a Réa que seu povo queria sim aprender a ser independente.


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