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O Poder e as Estrelas

livro de Isabel Fomm de Vasconcellos

 

 

Capítulo 16 - O Paraíso Refeito

Lucas Cranach, Adão e Eva no Paraíso, Kunst Historisches Museu, Viena

 

A Rede de Tv Mulher tinha uma concorrente que a seguia de perto, a Rede Vitória, que se especializara em divulgar notícias boas, ao contrário do que a Imprensa fizera desde a sua fundação. Surpreendentemente e contraindo os prognósticos de muitos jornalistas ilustres que afirmavam que as pessoas só se interessam pela desgraça alheia, a Rede Vitória, em apenas cinco anos de atividades, alcançou o segundo lugar de audiência em todo o mundo, transmitindo apenas as boas notícias e os grandes feitos da humanidade. Assim como todas as redes de TV do planeta Terra, ela podia ser acessada por qualquer instrumento de captação da Web planetária e ser vista em quase todas as línguas. Agradar a quase todos era uma façanha ainda inédita até o surgimento dela.
 

O diretor da Rede Vitória viu em Cornos uma tremenda possibilidade de comprar, e ganhar, uma boa briga, com sua arquiinimiga, a TV Mulher. Assim, deslocou para o planeta uma equipe de repórteres e técnicos encarregada de trazer as melhores notícias do progresso da colonização, sempre mostrando os ângulos mais positivos da sociedade corniana e os progressos que estava aquele povo fazendo graças aos conhecimentos a ele transmitidos pelos preceptores terráqueos e ao imenso salto de qualidade de vida que dera, gozando da tecnologia e da ciência da Terra.
O resultado foi excelente, a reportagem bateu de longe a concorrente nos horários em que esteve disponível para sintonia e elevou novamente a Almirante Réa a condição de heroína.

É claro que, ao contrário do que acontecera com a matéria da concorrente, a Rede Vitória contou com a extrema boa vontade de todos os que trabalhavam na Área Neutra e a Frota Espacial colocou seus inúmeros recursos à disposição da equipe para que fizessem todas as imagens e entrevistas que desejassem.
Com três horas de duração, o documentário sobre a Área Neutra de Cornos mostrava o alto nível de urbanidade que havia, em dois anos, adquirido as aldeias, antes um amontoado primitivo de casas toscas e pequenas plantações. Trazia ainda imagens do interior das novas habitações cornianas, todas absolutamente asseadas e dispondo dos mais modernos equipamentos domésticos, inclusive com acesso à rede mundial de computadores (que agora deveria ser chamada rede interespacial). Mas mostrava principalmente o caráter dos cornianos. Um povo absolutamente pacífico e cordial, com uma incrível capacidade de adaptação e aprendizado. Enfatizando a ausência de espírito competitivo e, ao contrário, uma maravilhosa tendência para a cooperação, enfocava inclusive engraçadas passagens da reação corniana ante à manifestação de raiva ou desagrado dos terráqueos. Os habitantes da Terra, escolhidos para preceptores e funcionários administrativos da Área Neutra, possuíam todos uma personalidade tranquila e calma e isso fora absolutamente intencional para evitar grandes conflitos com os nativos. Mas, mesmo assim, diante de dificuldades e imprevistos, às vezes perdiam a calma. A reação dos cornianos, nessa situação, era sempre cair na risada. Era impensável para eles que qualquer tipo de manifestação negativa pudesse colaborar para a resolução do problema que se apresentava. Mesmo as poucas lutas que houveram, no passado, entre as tribos, não tinham exatamente um objetivo bélico, eram mais como jogos onde eles testavam a sua força. Os cornianos, mostrava a reportagem, desconheciam o ódio ou a raiva.
O ponto alto do documentário, que teve inúmeros desdobramentos, reproduções, críticas e comentários em toda a mídia terráquea, foi a entrevista com o líder Tutôr.
- Antes de se iniciarem os trabalhos de colonização em Cornos, o senhor passou três anos na Terra e voltou de lá vestido como um terráqueo, não é verdade? – começou perguntando a repórter.
- Sim.
- O seu povo não teve dificuldades, então, para continuar aceitando a sua liderança, ao constatar que o senhor se tornara mais parecido conosco do que com eles?
- Ah – riu Tutôr – eles acharam muito engraçado. E gostaram tanto que, como a senhora pode ver, todos, quase sempre, estão vestidos à maneira da Terra. A diferença é que não damos tanta importância aos trajes, como vocês. Aqui o que realmente importa é todo esse sonho maravilhoso que estamos vivendo depois da chegada de vocês. Já não sofremos com doenças, compreendemos e estamos todos os dias aprendendo com os terráqueos, a compreender muito mais dos fatos da vida no Universo.
- Mas quando do primeiro contacto com a Terra, seu povo julgou que fossemos deuses. Ainda pensam assim?
- Vocês certamente foram enviados pelos deuses para nos tirar da ignorância em que vivíamos. Sozinhos, levaríamos milhares dos nossos anos para chegar a um estágio parecido com o da sociedade da Terra. Quando fui levado para lá, ainda pensava que estava indo para o mundo dos deuses mas, a medida em que, no seu planeta, fui aprendendo e observando e percebi que vocês, a despeito do seu enorme conhecimento da realidade, também não tinham uma explicação para as questões fundamentais da vida, como o nascimento e a morte, entendi que não eram mesmo deuses, mas seres viventes como nós, apenas com muito mais tempo de vida e que, nesse tempo, tinham adquirido conhecimentos e técnicas que nós nem sequer sonhávamos possíveis.
- A expectativa de vida dos cornianos subiu muitíssimo e a mortalidade infantil diminuiu. Os computadores calculam que, se for mantida a Lei dos Cem Anos, que proíbe a miscigenação, os cornianos lotarão esse continente onde estão hoje as Aldeias da Área Neutra. O senhor acredita que, em contato com os valores terráqueos e diante do boom de crescimento populacional, a sua sociedade manterá essa pureza de sentimentos em relação ao bem comum e aos demais cidadãos? Em apenas mais dois anos será introduzida nessa sociedade a moeda. Isso não modificará os sentimentos comunitários dos cornianos? Haverão diferenças sociais e de posição e até de acesso à tecnologia? Isso não destruirá essa generosidade e esse sentido comunitário de seu povo?
- Eu sinceramente não sei. Teremos que pagar para ver. Mas acredito que toda competição e a briga pelo poder que existe na Terra tenha se desenvolvido como consequência da imensa luta que vocês travaram ao longo de sua evolução. Nós, cornianos, ganhamos a tecnologia e o conhecimento sem ter que sofrer para conquistá-los. Mesmo submetidos às regras do dinheiro talvez, por isso, possamos nos manter mais solidários que os terráqueos.
- Mas a introdução da moeda e da hierarquia social não despertará nas futuras gerações o sentimento de posse?
- Não sei – respondeu Tutôr, com uma expressão de certa preocupação no rosto. - Mas acredito que mesmo que aconteça não será uma coisa tão violenta como é entre os terráqueos.
- Os cornianos nunca são violentos?
- Nos jogos de guerra e nas nossas competições há algo parecido com a violência de vocês, mas não existe o sentimento de ódio ou revolta que leva os terráqueos à violência.
- O senhor vê, portanto, o futuro com otimismo?
- Existe outra maneira de ver?
- Há quem diga, e não são poucos, na Terra, que a introdução da moeda vai tornar os cornianos tão competitivos quanto os terráqueos.
- Isso só o tempo nos mostrará.
- Outra crítica feita na Terra, como deve ser de seu conhecimento, é à Lei dos Cem Anos, que muitos consideram uma mera utopia. Como será possível impedir, por uma centena de anos, que os cornianos procriem com terráqueos?
- Também não acredito que seja possível. Devemos evitar que o nosso DNA se dilua e, por isso, essa lei. Mas evidentemente acontecerão casos em que as pessoas desejem ter um filho, como fruto do amor, e elas acabarão fazendo isso, mesmo contrariando a Lei.
- Como é de amplo conhecimento público, o senhor está vivendo um caso de amor com a Almirante Réa. Desejaria ter um filho com ela?
- A Almirante nunca teve interesse em ser mãe. Ela não teve filhos, por opção, com o seu companheiro, Major Narciso. Não vejo porque gostaria de ter um filho comigo.
- O senhor tem filhos com sua companheira. Como ela e a sua família encaram esse caso de amor com a Almirante?
- Com alegria. Todos sabem que eu sou mais feliz realizando o meu amor pela Almirante.
- Mas não existe ciúme? Não existem reclamações pelo tempo que o senhor dedica à Almirante e fica afastado de sua família?
- Por que existiria? Amo a minha companheira, amo meus filhos e amo também a Almirante.
- É verdade que existe sexo grupal entre vocês?
- Os cornianos consideram o sexo, e aqui até concordam com os terráqueos, uma questão individual. Cada qual é livre para fazer o que quiser, desde que todas as partes estejam de acordo.
- Na Terra muitos consideram que o que a Almirante tem celebrado em suas declarações com relação ao amor livre dos cornianos é apenas mais uma atitude primitiva e denota ausência de moral.
- Nós realmente não temos códigos de conduta amorosa ou sexual. Quando alguém ama alguém basta que seja correspondido e o problema é exclusivamente dos amantes, não diz respeito à sociedade. É, como dizem vocês, uma questão privada. Mas ninguém é obrigado a fazer amor contra a sua vontade, isso é impensável para o povo corniano.
- E o companheiro da Almirante? Ele é terráqueo. Como reagiu ao caso de amor de vocês?
- Nunca tive oportunidade de perguntar a ele. O major passa muito pouco tempo em Cornos, pois tem suas ocupações profissionais e sempre que ele está aqui, como é natural, a Almirante dedica seu tempo livre a ele.
- O senhor acredita que esse conceito de amor livre de Cornos pode influenciar os terráqueos, como quer fazer parecer, em suas declarações, a Almirante Réa?
- Os terráqueos que vivem aqui conosco não parecem dar importância a essa questão.
- Já aconteceram outros casos de amor entre cornianos e terráqueos?
- Pode ter havido, mas ninguém reparou e eu não sei responder a essa pergunta.
- Outra coisa que surpreendeu os terráqueos foi a ausência de diferenças, na sociedade, entre homens e mulheres. Como o senhor deve saber a terra considerou, por milênios, as fêmeas como sendo inferiores aos machos e só nos últimos 150 anos as mulheres do nosso planeta começaram a conquistar posições de igualdade social com os homens.
- Nós, em Cornos, sempre achamos as mulheres privilegiadas porque a elas era dado gerar as nossas crianças. Mas nem por isso as colocamos em posição de superioridade. Sempre nos achamos iguais, somos todos seres viventes.
- Mas e a paternidade?
- Só com o conhecimento que adquirimos com os terráqueos é que compreendemos que as crianças não são apenas dons dos deuses e que nós, homens, temos um papel importante na concepção. Antes os nossos filhos eram daqueles, homens e mulheres, que viviam com eles na mesma casa e que os criavam. Hoje sabemos que uma mulher pode até descobrir quem é o seu parceiro na geração daquele filho determinado. Mas continuamos não dando muito importância a isso. Todas as crianças são benvindas entre os cornianos. E todos, de uma maneira ou de outra, contribuem para que elas se tornem adultos fortes e sadios.

Todos os cidadãos cornianos ouvidos pela reportagem, pareciam estar de acordo com as posições de seu chefe e suas breves declarações em nada contradiziam a fala de Tutôr. Todos pareciam também satisfeitos com a radical mudança que estava acontecendo em suas vidas. Muitos se mostraram orgulhosos com suas novas atribuições profissionais e com os ofícios que estavam aprendendo. Arvos também foi ouvido:
- O senhor, como o maior sacerdote das tribos, não ficou sem função devido aos novos conhecimentos adquiridos por seus povos e que desmente quase a totalidade de suas crenças anteriores? – perguntou o repórter.
- Quem ficou sem função, meu jovem – respondeu Arvos com tranquilidade – foram as nossas antigas crenças. Ao sacerdote prossegue a função de cuidar da espiritualidade de seu povo e guiá-lo no sentido de promover o encontro com os desígnios de Deus.
- De um único Deus?
- Nosso povo ainda crê que sejam muitos deuses mas eu, que vivi três anos na terra e até hoje sou um estudioso das religiões de seu planeta, estou chegando à conclusão de que todos os deuses são um único e que a sua essência está acima da compreensão de nós, seres viventes, assim como acima da nossa compreensão estão os fenômenos do nascimento e da morte. Mesmo o seu povo, com toda a sua sabedoria e conhecimento, depois de milênios de cultura, ainda não chegou a nenhuma conclusão sobre o mistério de estar vivo.
- O senhor diria que o conhecimento proporcionado pelos terráqueos afastou os cornianos da religião?
- Sim. Da religião, como a compreendíamos, evidentemente. E também um pouco da espiritualidade, porque há ainda muito deslumbramento e muito a aprender com vocês. Mas as coisas do espírito estão presentes em todos nós e, aos poucos, o povo retorna à busca de Deus e eu tenho recebido mais gente do que recebia antes, em minha casa, gente cheia de novas indagações que procuramos responder juntos.
- Surgirá então uma nova religião em Cornos?
- Já está surgindo, graças a Deus.
- Como se processa a influência das religiões da terra nessa nova religião que o senhor diz estar surgindo entre seu povo?
- Tenho dividido com nossos irmãos os conhecimentos que venho adquirindo todos esses anos através dos meus incessantes estudos de vossas crenças. A Bíblia dos cristãos ainda nos é bastante incompreensível. As teorias islâmicas ainda não encontraram nenhuma aceitação entre os nossos, bem como os conceitos budistas e indianistas. No que concerne à imagem de Deus, nos identificamos melhor com os evangélicos. Muitos de nós acreditam que Deus possa ter mandado um filho seu, o Cristo, à Terra, assim como acreditam que foi Deus quem fez com que os terráqueos trouxessem a nós a grande benção do conhecimento e toda a melhoria inegável de nossas vidas. Já naquilo que diz respeito ao que Deus espera de nós, também estamos mais de acordo com o que dizem as muitas religiões evangélicas. Para os cornianos é inconcebível um Deus que pregue a privação e o sofrimento, como no catolicismo. Acreditamos mais num Pai Celeste que quer bem aos seus filhos e que quer vê-los viver em harmonia com a natureza, com liberdade, felicidade e prosperidade.
- O senhor diria, então, que os cornianos se tornarão cristãos?
- Talvez. Embora muito do que diz o Novo Testamento seja para nós ainda de difícil compreensão. Nas escolas terráqueas também temos representantes de todas as religiões da Terra mas, como eu já disse, a tendência da maioria do nosso povo é de uma maior identificação com os evangélicos.


Iala também teve o seu espaço no documentário e, mais do que suas declarações, a Terra comentou suas maneiras elegantes que, em nada, lembravam aquela mulher nua e enfeitada que aparecera na mídia da terra, pela primeira vez, há cinco anos. Iala hoje era uma perfeita terráquea, de cabelos bem cortados, maquiagem e trajes clássicos, usando sempre uma flor de seda na lapela de seus bem cortados blazers.
- A senhora resolveu, então, tornar-se médica?
- Sei que terei longos anos de estudo pela frente, mas tenho me esforçado. Quero saber tudo o que os humanos sabem sobre o funcionamento dos corpos dos seres viventes e sobre a cura das enfermidades. Antes da chegada dos terráqueos eu só tinha algumas ervas, pouco eficientes. Hoje temos um verdadeiro arsenal de drogas para devolver a saúde aos que sejam vítimas de qualquer doença. É maravilhoso!
- Muitas das infusões usadas anteriormente pela primitiva medicina corniana foram consideradas nocivas à saúde pelos técnicos terráqueos, inclusive o hábito de fumar.
- Sim. Os cornianos sempre fumaram usando instrumentos que chamamos Cornos (daí, o nome do nosso planeta) e que fabricamos com chifres de animais. Lá dentro colocamos uma mistura de ervas que nos faz mais alegres. Mas fumar, para nós, é uma atividade coletiva, o fazemos em grupo e os cornos circulam de mão em mão. Não é uma atitude individual como acontece com os cigarros, charutos e cachimbos dos terráqueos. Aprendi que, até muito pouco tempo atrás, esses instrumentos de fumo dos terráqueos continham drogas também muito prejudiciais à saúde deles e que foram lentamente sendo substituídas por outras menos nocivas. Mas os cornianos ainda fumam as antigas ervas. É um hábito arraigado que esperamos que não seja mais transmitido às nossas crianças.
- E vocês usam agora o fumo e as drogas da Terra?
- Para nos alegrar ainda temos preferido o nosso fumo nos cornos. Mas podemos beber vinhos, cervejas e uísques, que são fornecidos nos bares que os terráqueos instalaram e sempre com quantidades limitadas. Não nos é permitido consumir bebidas alcoólicas em casa. Alguns terráqueos chegaram a plantar uma erva parecida com o nosso fumo, que vocês chamam de maconha ou marijuana, mas foram proibidos pela Frota Espacial, que destruiu as plantações. Eu mesma experimentei, mas ainda prefiro o nosso fumo.
- Mas a senhora está consciente dos malefícios desse hábito?
- Estou e tenho evitado participar das reuniões onde se consome o fumo nos cornos. Mas às vezes participo. Como eu já disse, é um hábito arraigado entre nós e realmente só nos traz alegria e, repito, uma alegria coletiva.
- Está sendo realizado algum estudo sobre os efeitos do fumo nos cornos?
- Sim. Os terráqueos estão pesquisando o princípio ativo das substâncias e logo terão resultados conclusivos.

Além das entrevistas, depoimentos e imagens da vida nas aldeias, o documentário trazia ainda inúmeras paisagens naturais do planeta, com seus rios de água límpida, seus oceanos majestosos, suas florestas intocadas.
E prometia uma próxima edição sobre a vida dos terráqueos nas colônias extrativas fora do continente onde ficava a Área Neutra.
Pela absoluta ausência de problemas graves, os editores resolveram chamar o programa de O Paraíso Refeito e prometiam grandes revelações, no próximo documentário, sobre o resto do planeta.


próximo capítulo

 

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