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 O Poder e as Estrelas

livro de Isabel Fomm de Vasconcellos  

 

 

- Não acredito que seja fácil, nem para o major e muito menos para o povo da Terra aceitar isso. O meu povo poderia entender se eu trocasse o major pelo chefe Tutôr...Mas os dois! – e Réa caiu na risada – Vão me chamar de Dona Flor e Seus Dois Maridos!
 

 Capítulo 14 - Liderança

 

- Mestre Arvos, há dois anos atrás, você sugeriu que, se eu cedesse à atração que sentia por Tutôr, esse fato poderia ser usado para que seu povo não perdesse a generosidade no amor e até mesmo para que os terráqueos compreendessem melhor esse sentimento corniano de liberdade. – começou Réa, assim que Arvos instalou-se em seu gabinete naquela tarde chuvosa. – Como exatamente você acredita que isso tudo se processaria?
- Fico feliz em ver que a Almirante já não traz, nos olhos e na postura, o estigma do amor não realizado.
A resposta do curandeiro surpreendeu Réa. Serei assim tão transparente, pensou ela, ou esse homem enxerga além dos outros?
- Reparei – continuou ele – que na Terra os governantes frequentemente são vistos em solenidades públicas junto de seus cônjuges. Se a Almirante e o Chefe Tutôr aparecessem juntos nos eventos públicos importantes de Cornos, a imprensa da Terra certamente se interessaria por esse fato, a Almirante seria procurada para dar entrevistas e poderia, em seus depoimentos, explicar a diferença da visão do amor que os cornianos tem em relação aos terráqueos.
- Mas, Mestre Arvos – respondeu ela – eu tenho um companheiro, estamos juntos há 22 anos.
- No entanto – argumentou ele – o major Narciso poucas vezes está presente em seu cotidiano, sempre tão ocupado com missões espaciais, e nunca participou de solenidades ao lado da Almirante. Seria bom, minha cara, que você deixasse claro à opinião pública, que ama Tutôr mas que isso não faz com que você não ame o seu companheiro. Exatamente como acontece com o chefe e sua Marla. E isso é verdade, não é?
- Sim. É exatamente isso. Mas eu não acredito que seja fácil, nem para o major e muito menos para o povo da Terra aceitar isso. O meu povo poderia entender se eu trocasse o major pelo chefe Tutôr...Mas os dois! – e Réa caiu na risada – Vão me chamar de Dona Flor e Seus Dois Maridos!

- Conheço o clássico da literatura de seu país. É Jorge Amado, não é?
- Sempre me surpreende, Mestre Arvos, a cultura que você adquiriu em apenas cinco anos.
- Isto me foi mais fácil do que será a sua missão de explicar o amor corniano aos terráqueos. Porém é justamente pela dificuldade que se justifica o seu poder. É sua responsabilidade.
- Devo isso aos cornianos, na sua maneira de ver?
- Não. Penso que deva aos terráqueos.
- Acredita mesmo que eles mudarão sua maneira de pensar, apenas por eu dar divulgação ao amor generoso de vocês?
- Não. Eu seria ingênuo se acreditasse. Mas é uma semente. E haverão outros casos, entre terráqueos e cornianos e, saiba, o meu povo não aceitará o sentimento amoroso de posse dos terráqueos. Mesmo que se desenvolva entre nós, pela adoção do conceito de trabalho e de posse das coisas, o egoísmo da Terra, ainda assim será difícil fazer os cornianos renunciarem à liberdade de amar.
- Aprendi a aceitar a realidade do amor de vocês. Agora me parece natural que eu ame Tutôr e que não tenha deixado de amar o major. Mas sei que, assumindo publicamente esse fato, ficarei muito mais vulnerável ao ataque de meus inimigos políticos, que não são poucos. Além disso, você sabe, as mulheres são livres na Terra há apenas cem anos, contra milênios de dominação que sofreram. Se eu fosse um

 

Clerck, Marte e Vênus surpreendidos por Apolo

homem e tivesse duas mulheres, todos os meus conterrâneos aceitariam esse fato como natural. Mas eu sou uma mulher e a primeira a ser Almirante na Frota Espacial.
- Todas as atitudes de vanguarda tem um preço, não é verdade, minha cara? Em matéria de amor, e só nela, os cornianos são mais adiantados que os terráqueos. Ou talvez também na questão das mulheres. Nunca houve, entre nós, qualquer diferença de posição na sociedade entre machos e fêmeas.
- É por isso, então, Mestre Arvos, que o amor é realmente livre em Cornos, não é? As mulheres nunca foram seres dominados pelos homens. Sem dominação não há posse, não há porque existir o amor exclusivo.
- Você não acredita então, Almirante, que terá o apoio maciço das mulheres terráqueas?
- De algumas sim. Mas às vezes eu penso que a maioria gosta de sua posição ainda subalterna na sociedade. Como se milênios de dominação as tivessem feito amar a condição submissa por não ter como lutar contra ela.
- Mas lutaram, não lutaram? Ou não teriam chegado onde estão.
- Como sempre, a grande maioria delas usufrui as conquistas de umas poucas que se martirizaram e até morreram por essa luta.
- Já lhe disse: é o preço da liderança. E você é uma líder.
- Parece que só me resta, então, assumir publicamente o meu amor por Tutôr, mesmo que isso magoe o meu companheiro, mesmo que até o perca, que ele me deixe, e mesmo que dê munição aos meus inimigos.
- Se o seu major amasse outra mulher, como reagiria?
- Hoje eu acharia normal. Há uns anos passados, sofreria muito.
- Peça a Deus que ele também encontre um outro amor. E não tema os seus inimigos, você nunca os temeu.
- Um deles, meu maior inimigo, Apolo, acabou vencendo, mestre Arvos. Ele tinha razão em muitas das criticas que fez à condução da colonização de seu planeta.
- Para você ver, cara Almirante, que os inimigos também têm lá a sua utilidade prática. Por isso mesmo não devemos temê-los. Mas, voltando ao nosso assunto, creio que uma boa oportunidade para Tutôr e a Almirante aparecerem juntos será o anúncio da instalação da moeda e das atividades produtivas.
- Sim. Isso acontecerá dentro de 10 dias, no máximo. Já reformulamos os currículos escolares dos cornianos adultos para iniciar os primeiros cursos profissionalizantes e, em oito meses, iniciaremos os estágios. Em um ano, instauraremos a moeda, em lugar dos vales-escola, remunerando também os estudantes desses cursos. É uma ótima oportunidade.
- O major estará em Cornos antes disso? Seria bom conversar com ele, antes que ele saiba pela imprensa.
- Ele chega amanhã – respondeu ela, sentindo um calafrio percorrer-lhe os ossos.
- Posso ser útil em mais alguma coisa?
- Obrigada, mestre Arvos. Vamos descer e tomar um café juntos, no restaurante, antes que se vá.
E, no elevador, ao lado de Arvos, Réa pensou que aquele selvagem que ela vira pela primeira vez há apenas cinco anos passados era agora, para ela, claro, objetivo e generoso como um bom pai.

 

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