voltar para a página "Meus Livros" - ir para capítulos: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 13

 

 O Poder e as Estrelas

livro de Isabel Fomm de Vasconcellos  

 

 Capítulo 12. Amor Livre

Christine Wu

- Então você está correndo o risco de perder um amor só por ter assumido seu desejo por mim?


Réa e Tutôr amaram-se com fúria, tanta era a sede que tinham um do outro. Depois, ele perguntou:
- Por que você me fez esperar um tempo tão longo por algo que você também desejava?
- Não queria ferir o meu companheiro.
- E hoje não o feriu?
- Certamente. Se ele souber, e eu sei que vou ter que contar, vai ficar magoado.
- Eu não consigo, por mais que conviva com vocês terráqueos, entender como alguém pode se magoar com a alegria do outro e mais ainda quando esse outro é alguém que a gente ama, quer bem.
- O amor dos terráqueos é exclusivista, Tutôr.
- Isso eu sei há bastante tempo. Mas continuo não compreendendo. E por que você mudou de idéia agora? Não vai magoar do mesmo jeito o capitão?
- Eu não sei. Talvez porque eu gostaria que os cornianos pudessem ensinar aos terráqueos essa maravilhosa e generosa maneira de amar, sem o sentimento de posse.
- Você me ama?
- Sim, eu amo você. Mas também amo o meu companheiro. Só que são coisas diferentes.
- Porque estou aqui com você, e sou feliz por estar, não significa que deixei de amar a Marla.
- Sim, eu entendo. Ela é a sua companheira e o que vocês viveram juntos não se pode apagar. Talvez eu não fosse para você a companheira que ela tem sido. Talvez você não fosse para mim o que o capitão Narciso, major – corrigiu-se ela – ele agora é major, tem sido para mim. No entanto, me parece tão natural que estejamos juntos e que amemos também outras pessoas.
- Quando o capitão, major, chegar ele vai querer duelar comigo?
Réa caiu na risada.
- Não, Tutôr. Claro que não. Eu não vou poder esconder dele, nós não temos segredos um para o outro. Mas ninguém mais usa duelar.
- Quando eu estava na Terra ouvi muitas histórias, para mim incompreensíveis, de gente que matava por amor.
- Isso são extremos, é doença. Mas Narciso vai ficar magoado e talvez até me deixe.
- Então você está correndo o risco de perder um amor só por ter assumido seu desejo por mim?

- Talvez não. Talvez ele possa viver com isso, embora tenha dito que não queria me dividir. Mas temos passado tantos períodos longos sem nos ver que eu duvido que ele não tenha feito amor, também, com alguma outra mulher. Narciso não é homem de ficar sem sexo.
- Então?
- O problema não é o sexo. É o amor. O que mexeu com ele foi pensar que eu poderia amar você, que é mais do que sexo puro e simples.
- E você me ama?
- Amo. – respondeu ela sem pestanejar – Agora mais do que antes.
- Também amo você – disse ele com singeleza – Amo você desde o primeiro dia em que a vi e que pensava que você era uma deusa. Nunca pude tirar sua imagem de minha mente e hoje estou me sentindo completo de novo. Durante todos esses anos me faltava um pedaço. Faltava você. Eu não quero mais viver sem vir aqui, sem fazer sexo com você. Como vai ser quando o major chegar?
- Não sei – disse ela com sinceridade – Realmente, não sei.
- Não poderíamos estar todos juntos?
- Como assim?
- Você, eu, Marla e o major. Será que ele gostaria dela?
Réa riu de novo:
- Vocês fazem sexo grupal?
- Quando todos querem. Será que o major gostaria de Marla?
- E Marla, gostaria dele?
- Acho que sim. O seu companheiro é um homem forte e atraente. Talvez ela goste da idéia.
- Não sei como ele reagiria a isso – respondeu Réa, ainda rindo. – Mas eu gosto da idéia.
- Que bom! – exclamou ele, puxando de novo para junto de si.

Quando Réa entrou no QG da Frota no dia seguinte, Mel não pôde deixar de notar a alegria de sua chefe e permitiu-se perguntar, com alguma malícia:
- Está um belo dia, não Almirante?
Lá fora, chovia a cântaros.
Réa riu:
- Sem dúvida, cara major.
E entrou na sala, cantarolando baixinho, sem perceber.
Pediu um café completo e, enquanto o saboreava, pôs-se a pensar. Na Terra, na década de 1920 e na década de 1960, ela sabia, muito se falara em amor livre e, quando ela nasceu, no ano 2000, as pessoas já não tinham tantos preconceitos sexuais. Ela mesma vivera o sexo, independente do amor, com muita liberdade. Mas, reflete ela agora, tudo isso levara aos terráqueos apenas a liberdade sexual, e, mesmo assim, uma liberdade relativa. Muitos ainda faziam do sexo, moeda. E muitos exerciam essa liberdade sob o manto da hipocrisia, freqüentemente escondendo suas aventuras de seus parceiros fixos. Amor livre era aquilo: era o que havia em Cornos. Os terráqueos nem sequer sonhavam com uma situação semelhante a dos cornianos. Em matéria de amor, todos na Terra, eram escravos e dependentes. Arvos tinha toda a razão em temer que o conceito de propriedade, a moeda, a posse, contaminassem a extrema generosidade daquele povo. Ela mesma, agora, temia as conseqüências de ter aceito o amor e o sexo de Tutôr. Ele era bem capaz de sair contando para toda a aldeia que amava a Almirante Réa. Marla também era capaz de comentar que seu companheiro, afinal, conseguira o que tanto queria. E como a Frota veria a sua principal mulher em Cornos envolvida com um nativo? O que diria a imprensa da Terra? E Apolo, seu arquiinimigo, usaria isso em suas bombásticas declarações à mídia? Se tentassem usar seu caso com Tutôr contra ela, deveria então se defender? Falar do amor livre que encontrara em Cornos e de como acreditava que esse era um valor corniano que não deveria se perder no contato com os terráqueos? Deveria seguir o conselho, dado há tanto tempo, por Arvos? E, ainda, com seu caso de amor tornado público, como reagiria seu querido companheiro? Sentir-se-ia humilhado e traído? Separaria-se dela? Eram muitas questões nas quais ela teria que pensar. Sentia-se, no entanto, tão feliz, tão realizada e jovem, que podia refletir sobre tudo, até sobre a eventual separação de seu amor de tantos anos, sem angústia. Mas precisaria conversar sobre todas essas questões. Com quem? Mel, talvez. Mas seria dar muita corda a uma subordinada, elas eram amigas, mas isso poderia ser intimidade demais. Com quem conversar? Com sua mãe? Não. A mãe era sábia, mas estava velha e tinha lá suas próprias atribulações, além disso acabaria aconselhando-a a renunciar a Tutôr e isso ela não estava disposta a fazer. De repente, a resposta atingiu-a como uma raio: Arvos. Era isso.
- Major Mel – disse ela ao comunicador – peça ao Mestre Arvos para vir conversar comigo quando for possível, mas com uma certa urgência.
Tinha certeza que os conselhos de Arvos seriam os mais sábios que ela poderia ter agora.

 

ir para o capítulo 13

 

Clique aqui para comentar          ver comentários