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Assista Vídeo de 2 minutos com imagens da Jeannette de 1940 a 2015.

 

 

(Minha mãe, Wanda, a mais alta. Jeannete,

a primeira da esq p/a dirt, Carnaval 1930)

 

 

(Alvan, Jeannette, Alfredinho, Wanda, minha avó Carmen Fomm e minha bisavó Helena Jansen Fomm, 1945)

 

(Jeannette e minha mãe, Wanda, década 1940)

 

(Minha mãe Wanda, Alfredinho, Jeannette e Alvan, centro de São Paulo, 1948)

 

(Otto, Jeannette, Wanda e Alfredo, Castelo 1965)

 

(2002, Jeannete e Wanda, aniversário de 90 anos Wanda)

 

(2006, minha mãe e Jeannette no apartamento que ela tinha na Praia e cedeu para minha mãe morar, com meus irmãos, nos últimos anos da vida dos três - Alvan morreu em 2004, Alfredinho e Wanda em 2007)

 

(2004, minha mãe Wanda com Vera, sua afilhada, na praia)

 

(2004, Jeannette e eu na praia)

 

(2015, Monica e Jeannete no avião)

 

(2018, com o neto Vinicius)

 

(2016, com a filha Vera)

 

 

Minha Tia Jeannette memória

de Isabel Fomm de Vasconcellos

(Jeannette, hoje, com uma foto sua, dos anos 1960, by Vera Krausz)

 

Jeannette escuta o barulho das ondas do mar.Pensa: Ah... uma das fases mais bacanas da minha vida foi o tempo em que morei na praia. Lembra-se de que não foi sem dor no coração que ela se desfez da casa que Otto, seu marido, e ela haviam comprado lá nos longínquos anos 1950, para se mudar para um lindo apartamento na praia.

 

Quando se casaram, foram morar na Lapa, onde nasceu sua primeira filha, Elizabeth, mas logo Otto fechou negócio com aquele sobrado ótimo, dois quartos bem grandes, duas salas, cozinha espaçosa, no Brooklin Novo. À medida em que lhes foram nascendo os filhos, a casa espichou também, a sala de jantar engoliu a velha cozinha para que pudesse ter uma mesa bem grande que reunisse toda a família e uma nova cozinha surgiu.

 

No final dos anos 1960, Otto comprou o terreno ao lado da casa e esta cresceu mais ainda, com um enorme quintal, onde Jeannette tratou de ir plantando várias árvores e muitas e muitas plantas, trepadeiras e heras pelos muros, e logo foi construído, nos fundos do terreno, um espaçoso apartamento onde se instalou a sogra dela, D.Maria, que se mudara de Copacabana para São Paulo para ficar, na velhice, perto de seu único filho, Otto.

 

Naquela casa, Jeannette criou seus filhos: Elizabeth, Vera, Eduardo e Mônica, essa última temporona, nascida quando ela já tinha 44 anos. Claro que não  faltaram os agourentos de plantão pra dizer a ela que era perigoso ter filhos nessa idade. Ela apenas ria:

-- Quando eu estava no final da gravidez da minha segunda filha, Vera, em 1958, aos meus 35 anos, andava por São Paulo dirigindo meu automóvel, a barriga roçando na direção e todo mundo me chamava de louca. Só tenho 44 e vou ter esse filho, como tive os outros, com alegria e agradecendo a Deus!

 

Jeannette se casou bem tarde, para os padrões de sua época: aos 30 anos. Conheceu aquele austríaco que viera ao Brasil dirigir a fábrica de televisores Emerson, de propriedade da família dele, se apaixonou e pronto. Casou com ele sem dar a menor bola pros agourentos de plantão que diziam ser perigoso casar-se com um homem mais novo... em alguns anos ele poderia trocá-la por outra mais jovem...

Ela apenas ria: -- Não sou um carro, que se troca quando envelhece!

 

Religiosa, trabalhou bastante na paróquia de seu bairro, durante anos e anos, como catequista, como ministra da eucaristia para, por fim, três décadas depois, ver sua igreja dirigida por um padre que simplesmente não tinha nenhuma consideração para com ela. Foi embora e nunca mais voltou. Mas levou Deus em seu coração, deixando o ingrato do padre apenas com o sacerdócio, já que Deus se fôra com ela...

 

Agora, ouvindo as ondas que quebram na praia, Jeannette quer ficar apenas com as melhores lembranças. Naquela casa do Brooklin, criou os filhos, viu morrer a sogra e o marido, prematuramente, com o pâncreas corroído por um câncer, com apenas 56 anos de idade... Agora ela quer apenas as boas lembranças que lhe chegam em forma de sonhos e, como em todos os sonhos, se confundindo, em nossa alma, com realidade.

 

Otto, seu marido, havia montado uma empresa de assistência técnica de TV, quando a Emerson saiu do Brasil. Eduardo, seu filho, ficou encarregado de tocar o negócio, quando Otto se foi. Elizabeth se tornou advogada e funcionária pública. Vera, enfermeira e psicóloga. Mônica, jornalista.

 

Jeannette se orgulha dos filhos e, quando começam a aparecer os netos, ela tira do investimento um dinheiro que passou anos juntando, trabalhando como vendedora de um desses produtos americanos de grande aceitação pelas donas de casa e mais um dinheiro do seguro de vida que o Otto deixara, e manda construir, no quintal, uma grande piscina azul, um salão de festas com churrasqueira e banheiros. Teve que sacrificar algumas árvores, mas não o majestoso chorão, que passou a derramar suas folhas verdes sobre a água azul da piscina.

 

Por isso, hoje, ouvindo as ondas do mar, Jeannette ainda sente um aperto no peito ao lembrar do dia em que deixara aquela casa... Mas isso também fôra mais pelo bem dos filhos e netos do que dela própria. O bairro, no entorno da casa, crescera muito em quase cinquenta anos, o bairro se sofisticara e se valorizara. Jeannette recebeu uma proposta irrecusável de uma incorporadora que pretendia construir, no terreno da casa dela, um baita prédio de apartamentos.

Com bastante dinheiro no bolso e na conta dos quatro filhos, ela deu adeus à casa, ao jardim, às árvores, à piscina... e comprou um apartamento lindo, de frente pro mar...

 

Agora, ouvindo o quebrar das ondas na areia da praia, ela lembra-se dos anos felizes que passara no seu apartamento da praia até que a velhice a tornou tão dependente de outros que ela teve que ir morar na casa de sua filha, Mônica.

Mas Jeannette nunca foi dependente de coisa nenhuma.

 

Por isso, ouvindo as ondas do mar, ela pensa que fez muito bem, depois que a velhice a atacou, em refugiar-se dentro de si mesma para poder passar os dias sonhando com a vida bonita que tivera até então e que, afinal, estava tendo agora, cercada pelo carinho dos filhos e netos que vinham vê-la. Nesses momentos, ela acordava. Se dava ao direito de sair do sonho para receber o amor daqueles que ela própria ama.

Entre esses, estou eu!

 

Poderia eu escrever um livro de mil páginas, ou mais, sobre a vida da minha tia Jeannette, mas a minha intenção é apenas contar um pouco da minha própria história com ela. Quando eu nasci, em 1951, num casarão da Rua Vergueiro, Jeannette ainda morava lá, na casa dos meus pais. Seus irmãos já haviam se casado e lá moravam meus pais, meus dois irmãos então adolescentes, minhas avós, a Leca (a "cria" da casa) e ela.

Eu tinha 3 anos quando ela se casou e algumas das minhas primeiras lembranças incluem minha tia e meu tio Otto, quando ainda noivos, me paparicando. Eu costumava andar montada nos ombros desse meu quase-tio e adorava! Ele fazia estranhas caretas para mim e ela morria de rir; a risada da Jeannette acompanhou a minha primeira infância.

 

Quando jovem, a minha tia Jeannette, diferentemente da maioria das moças do seu tempo, trabalhou num banco até se casar. Afinal, creio que ela se acostumara com o trabalho, quando serviu, durante a II Guerra Mundial, na Cruz Vermelha, e minha mãe contava histórias muito engraçadas sobre os namorados dela e sobre ela ter se casado muito tarde para o padrão da época.
 

Lembro-me de uma dessas histórias: num dia de chuva, telefonou um rapaz lá pra casa da minha mãe, convidando a Jeannette e uma amiga para sair com ele e o amigo à noite. E a minha mãe:
-- Jana, você já reparou que esse sujeito só convida você pra sair quando está chovendo? (veja filme da Wanda e Jana conversando na década de 1940)
 

Mas a melhor época que eu passei com a minha tia foi no começo dos anos 1990, final dos 80. Eu já morava aqui na Paulista e no meu prédio é proibido tomar sol (como no século XVIII) e eu comecei a ir todos os dias tomar meu solzinho na piscina que a Jeannette construíra pros netos no quintal da sua antiga casa.

 

Durante um bom tempo, acho que de 1989 até 1994, todas as manhãs de sol eu passava na piscina da Jeannette. Levava um bom livro, sempre tinha uma cervejinha me esperando, às vezes algumas das minhas primas estavam lá. Mas, na maior parte do tempo, era só eu mesmo. Lá pela uma da tarde eu vinha embora, tomava meu banho e trabalhava até umas 9 da noite, quando o Mauro chegava da Brahma. Meu trabalho, nessa época, exigia apenas gravações num estúdio e reuniões com clientes, sempre depois da uma da tarde. Produção a qualquer hora.


Nesses dias de piscina, lá pelas 11 da manhã, a Jeannette vinha sentar-se comigo sob o guarda sol e tomávamos juntas a nossa cerveja. E rolava um bom papo por uma hora, uma hora e meia. Nos tornamos muito mais íntimas do que sempre fôramos.

 

Nessa época, em 1989, Mauro e eu perdêramos nossa produtora, quando a TV Record nos tirou do ar sem mais essa nem aquela. Mauro fôra trabalhar como diretor da associação dos revendedores Brahma e eu fui fazer a videoteca científica da APM - Associação Paulista de Medicina - (importante na reciclagem médica em todo o Brasil, na era pré computador)

 

Perder a TV me fazia pensar que tudo estava perdido... Nunca mais eu voltaria... Mas voltei, em 1994, e só saí da TV em 2014. Foi a Jeannette, com sua sábia tranquilidade que me fez ver que as perdas, na vida, não são algo definitivo. Foi ela quem me ajudou a superar o que eu então julgara uma tragédia. (Todo mundo que trabalha em TV vive essas "tragédias" entre um programa que acaba e outro que começa...)


Em 1994, com a inauguração da Rede Mulher de TV, eu passei a fazer 3 programas lá. Produzia os 3, apresentava um deles (Condição de Mulher, diário, ao vivo, ao meio dia com reprise às 9 da noite) e não tinha mais tempo para ir à piscina, exceto em alguns fins de semana, quando grande parte da família se reunia lá.
 

Acredito que tanto a minha mãe quanto as filhas da Jeannette possam ter tido leves ciúmes dessa nossa amizade de verão. Mas foram alguns dos melhores verões da minha vida. Melhores do que os da represa, do esqui, da praia, dos barcos. Porque a convivência com ela me fez muitíssimo bem.

 

Em 2003, meu irmão Alvan estava triste e desempregado (síndrome dos Sem-TV)Eu alugara, em 1998, um apartamento aqui no prédio para morarem minha mãe e Alfredinho, perto de nós. Alfredinho, meu irmão doente mental, estava há 15 anos em casa, sem precisar de internação. Alvan morava em Belo Horizonte, mas acabou vindo morar com eles em 2002 e, em 2003, minha mãe não segurava mais as despesas e eu também estava na TV, mas com poucos patrocinadores. Assim, foi a minha tia Jeannette, por inspiração da sua filha Vera, que resolveu o problema, cedendo um apartamento de férias que também era dela, na praia, para os três morarem. Então, as irmãs, minha mãe e ela, passaram a viver, em prédios diferentes, mas na mesma praia.

 

Alvan morreu em 2004. Em 2006, minha mãe pediu que nós, Mauro e eu, internássemos o Alfredinho em algum lugar porque os vizinhos do prédio pediam para que eles se mudassem. Com a morte do Alvan, Alfredinho piorara e incomodava a vizinhança, compreensiva e solidária. Conseguimos uma ótima clínica, para recuperação de drogados, que aceitou o Alfredinho e minha mãe veio morar numa excelente residência de idosos em Moema.

 

Também foi Jeannette a única mulher da família que compreendeu que eu fizera, pela minha mãe, no fim da vida dela, o que era melhor para ela e o que estava ao meu alcance. Quando todas as primas e tias me crucificavam, pela Internet, como uma filha desnaturada e monstruosa, ela me compreendeu, assim como meus primos homens -- Dr. José Reynaldo e Cel. Luiz Fernando -- compreenderam.

 

Havia um amor enorme entre essa irmã da minha mãe e a minha mãe.

 

Em meio a tantas lembranças, que dariam um livro de mais de mil páginas, lembranças de tantos amores, filhos, netos, sobrinhos, cunhados,  tios... tanta gente...  Em meio aos sonhos de recordações em que Jeannette está mergulhada agora, às vésperas de completar 97 anos de idade, estou eu. Faço parte dos sonhos dela e me orgulho disso. Sou grata por isso.

 

-- Mãezinha, acorde -- diz uma das filhas ao ouvido da Jeannette -- vamos voltar para sua casa agora.

 

-- Mas eu estou em casa -- responde ela, subitamente lúcida -- Ouço as ondas do mar...
 

Jeannette é agora a grande matriarca da família, como foram minha mãe e nossa avó, Amélia. Mulheres de fibra. Sábias e corajosas. Orgulho-me delas. O mundo seria muito melhor se todos fossem iguais a elas. Por isso, no filme de 80 anos da minha mãe, a trilha sonora era "Se Todos Fossem Iguais a Você/ Que maravilha, viver!" de Vinicius de Moraes.

 

Tanto minha mãe como a Jeannette tiveram que carregar suas cruzes na vida, pisaram na bola de vez em quando, erraram em algum momento da educação de seus filhos, como todo mundo erra e pisa na bola. O que as faz diferentes é a honestidade, é a sinceridade, é a generosidade e é, acima de tudo, a coragem. O mundo não é para os covardes nem para os fúteis.

 

O automóvel da minha prima sobe a serra, levando sua mãe de volta ao planalto, onde hoje ela mora, na casa de sua caçula. Por um breve momento ela acorda, para se despedir do mar, ainda visível na paisagem, lá embaixo, pela janela do carro. Logo volta, porém, a trancafiar-se em si mesma, a desfrutar de seus lindos sonhos.
 

Minha tia Jeannette passou a vida dizendo que a minha mãe (afinal uma irmã tão mais velha) sempre fôra sua "segunda mãe". Mas eu também, se pudesse escolher uma segunda mãe, escolheria minha tia Jeannette.

 

Enquanto ela se despede do mar, eu cá, no alto da serra, também sonho com ela e com sua maravilhosa risada.

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(Minha Tia Jeannette nasceu em São Paulo, capital, no dia 26 de janeiro de 1923, filha de José Basílio de Almeida -- o segundo marido de nossa avó Amélia Gonçalves, portuguesa da Ilha da Madeira. Minha mãe, Wanda,  nasceu 11 anos antes, em 1912, e ajudou a criar os seus meio-irmãos)

 

A Costela de Adão da Jeannette

 

Em 2003, Jeannette vendeu sua casa no Brooklin. Havia uma Costela de Adão que tomava todo o muro que ficava em frente à piscina. Um dia, pouco antes de vender, ela me deu uma muda dessa planta, um galho que ela colocara num vaso com água, porque ele simplesmente caíra, e ele brotara, dera raízes. Eu o plantei. Em 2014 ele era tão grande que eu -- não sem antes tirar uma muda -- dei-o ao jardineiro do nosso prédio para que ele o plantasse onde bem entendesse. Aqui estão as fotos da Costela de Adão que o jardineiro plantou: subiram pela parede lateral do prédio e já estão na altura do quarto andar. A primeira foto à esquerda é a da minha segunda muda, que cresce num vaso aqui no apartamento.