A geração nem nem

 

                   Maria José Silveira

             

...as consequências são terríveis para eles, para o país, e para todos nós, e mesmo para aqueles que se acham muito distantes ou acreditam que nada têm a ver com essa realidade que grita a seu redor.

A notícia do IBGE, no final de 2013, foi chocante: 9,6 milhões de jovens brasileiros de 15 a 29 anos nem estudam nem trabalham.

Desse número estarrecedor, cerca de 3, 1 milhões (32. 4%) são jovens que não terminaram o ensino fundamental; são os que estão em situação mais difícil. Outros 38.6% terminaram  o ensino médio, mas não ingressaram na universidade nem foram assimilados pelo mercado de trabalho. A maioria é formada principalmente por mulheres, muitas delas com filhos. Adolescentes de baixa escolaridade que abandonaram a escola, entre outros motivos, por terem ficado grávidas.

Muitas vezes as estatísticas com seus grandes números e porcentagens podem nos parecer abstrações, mas creio que todos nós podemos ter alguma ideia do que isso representa na população do país, e para ficar mais concreto, eis outro número: 1 em cada 5 dos nossos jovens nem estuda nem trabalha.

É muito provável que você conheça alguns deles.

Mas talvez não tenha pensado bem no que isso significa: uma geração já excluída, sem saber o que fazer da vida. Embora essa multidão comporte também os que conseguirão de alguma forma dar seu passo adiante e construir outra história, esses serão exceções. E ainda que seja uma situação temporária para muitos, é estarrecedora. “Nem nem” é um nome brutal que diz muito sobre uma geração que só conta consigo mesma. Uma geração que, desde o princípio, e apesar da inegável ampliação do acesso à escola e da crescente geração de empregos, tem poucas perspectivas de conseguir achar alguma saída.

O nosso é um país imensamente rico que, felizmente, vem passando por grandes e importantes mudanças. Mas uma notícia como essa nos faz pensar no descomunal esforço que ainda precisa ser feito para que todas as nossas crianças e jovens possam receber uma educação e uma profissão dignas desses nomes.  Quando isso não acontece, as consequências são terríveis para eles, para o país, e para todos nós, e mesmo para aqueles que se acham muito distantes ou acreditam que nada têm a ver com essa realidade que grita a seu redor.

E sinto muito. Não gostaria de ter começado este ano com essa notícia na cabeça. Muito menos que minha primeira crônica de janeiro fosse sobre uma situação assim.

 Mas aí está.

Não há como fugir desses números que estão a nosso lado, fazendo parte de nosso país. É preciso que nossos políticos trabalhem com eles em 2014. Que reflitam produtivamente sobre a questão e tentem o possível e o impossível para cumprir o papel para o qual foram eleitos: construir um país melhor para todos.

Não é para isso que votamos?

 

(Publicado em “O Popular”, em 18 de janeiro de 2014)

 
 

 

 

 

Picasso, 1903, La Vie

 

 

 

 

 

 

 

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