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TPM e Depressão

capítulo do livro "Mergulho na Sombra" de Dr. Kalil Duailibi e Isabel Vasconcellos

Alberto Sughi, O sonho e aimagem

 

Embora tenha mais de 160 sintomas descritos na literatura médica, a síndrome pré-menstrual, ou simplesmente TPM, só começou a ser reconhecida e tratada pelos médicos brasileiros no final dos anos 1970. 

Hipócrates já observara, 400 anos antes de Cristo, que, antes da menstruação, podia acontecer dor de cabeça e fadiga.

Em 1873 um famoso médico inglês, Sir Maudsley, escreveu:“a atividade dos ovários, que tem início na puberdade, tem profunda influência sobre o corpo e a mente das mulheres”.

Em 1931 o médico americano Robert Frank batizou de tensão pré menstrual o conjunto de sintomas pré menstruais.

Em 1953 os médicos ingleses Katherine Dalton e Raymond Greene publicaram um trabalho no British Medical Journal mudando a denominação para síndrome pré-menstrual, pois diziam que era um conjunto de alterações muito abrangentes e que nem sempre havia a tensão.

Uma mulher com TPM pode ficar horrivelmente mal humorada, brigar no trânsito e com a família, gritar no trabalho, acreditar-se incapaz de realizar as tarefas cotidianas, ter taquicardia, dor de cabeça, cólicas e insônia.

Mas também pode vir aquela irresistível vontade de comer carboidratos e doces.

É que se acredita que, na segunda fase do ciclo, haja uma maior liberação de insulina, diminuindo o nível do açúcar no sangue e aumentando a vontade de comer doces e carboidratos. Se não comer, pode vir a dor de cabeça. Geralmente, depois da menstruação, a mulher percebe que engordou. Hoje em dia, socialmente, nada pior do que engordar.O tipo mais comum de TPM é a depressão clássica: dificuldade de sair da cama de manhã para começar o dia, um pessimismo crônico, pensamentos negativos, e o choro que vem por qualquer motivo banal. A vida a persegue. Todos estão contra ela, em casa ou no trabalho. Melhor morrer.

Existem aquelas em que predominam os sintomas físicos:

Cérebro, mamas e abdômen são os mais atacados pelo acúmulo de líquidos, que ocorre em todo o organismo. A maior parte do sal ingerido fica na corrente sanguínea, ela urina menos e ganha peso muito depressa.

Em todos os tipos, a concentração fica prejudicada.

Mas, quaisquer que sejam as manifestações da TPM, estas têm que cessar quando vem a menstruação.

Quando – o que é muito comum – a mulher pergunta se existe depressão pós-menstrual, então alguma coisa está errada e ela pode estar confundindo com TPM um eventual transtorno afetivo, como ansiedade ou depressão.

A TPM vai evoluindo lentamente. É mais leve na juventude, mais acentuada na maturidade e piora muitíssimo pouco antes da menopausa.

Muitas mulheres ainda não se dão conta de que sofrem com uma TPM. Se estas são de temperamento mais difícil, mais irritadiças, a mudança de comportamento causada no período pré menstrual pode ser atribuída apenas aos acontecimentos do cotidiano. “Briguei no trânsito porque levei uma fechada”. Mas, numa outra fase de seu ciclo, talvez a fechada resultasse apenas num pisar brusco no freio e no alegre pensamento: “Ops. Escapei dessa batida numa boa!”.

Está certo que os hormônios interferem na química cerebral e que pequenos desequilíbrios hormonais podem se traduzir em grandes mudanças de humor e de comportamento mas a isto somam-se as grandes pressões sociais sofridas pelas mulheres modernas.

Se a TPM ataca uma mulher por três ou quatro dias antes da menstruação, já terá um grande impacto sobre a vida dela. Mas existem aquelas que começam a sentir as mudanças de dez a quinze dias antes. O que pode significar ter que passar metade da sua vida com o comportamento e o humor alterados pelos hormônios.

Mudanças na dieta e antidepressivos podem ser prescritos pelo médico para o período de manifestação da TPM. Vinda a menstruação, suspende-se a medicação.

Desde a década de 1990 a fluoxetina (o princípio ativo do famoso Prozac) vem sendo usada para controlar as variações de humor nesta fase.

A TPM ataca 35% das mulheres. De 5 a 10% com sintomas muito intensos.

Os números são altíssimos e evidentemente geram altos custos sociais e econômicos.

Estudos realizados no México e na China mostraram que a TPM está presente tanto nas mulheres urbanas quanto nas camponesas. A diferença é que, no meio rural, a predominância é de sintomas físicos, como um certo inchaço e a dor de cabeça e, nos centros urbanos, predominam os sintomas de ansiedade e depressão.

Toda a pressão da vida moderna, a dupla jornada de trabalho, os sentimentos de culpa que muitas mulheres vivenciam por deixar os filhos para irem cuidar da profissão, os desentendimentos conjugais e uma infinidade de outras situações são fatores que alteram as concentrações dos neurotransmissores e podem agravar consideravelmente um quadro de TPM.

Existem muitos sintomas comuns entre os pacientes psiquiátricos de depressão e mulheres com TPM: auto estima baixa, distúrbios de sono, tristeza, pessimismo, alterações no apetite, isolamento, dificuldade de concentração.

Como é a serotonina que controla as alterações do humor e do comportamento, esta parece ser uma das mais importantes responsáveis pela alteração de humor na TPM, mas ela sofre tanto a influência do meio externo como do interno. Hormônios + problemas da vida.

Como a TPM começa no período ovulatório do ciclo, acredita-se que a progesterona tenha grande responsabilidade nisso, atuando indiretamente, alterando o nível das substâncias que regulam o humor e a retenção de água.

Pra piorar e complicar ainda mais, os chamados “transtornos afetivos”, as doenças químicas do cérebro, como a Síndrome do Pânico, a própria depressão ou ansiedade podem se confundir com a TPM. Por isso é muito importante que as mulheres conversem direitinho com os seus ginecolgistas para que eles possam diagnosticar e prescrever o tratamento correto.

 Não existem exames laboratoriais para se fazer estes diagnósticos. Tudo depende da relação médico-paciente. Uma conversa franca e demorada é o melhor mas, na maioria das vezes, é totalmente impraticável na absoluta maioria dos serviços públicos de saúde, onde não há tempo nem condições para se parar e se olhar os sintomas como um todo.

Então, como sempre, ficam prejudicadas as mulheres de menor poder econômico.