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CRIANÇA TAMBÉM TEM DEPRESSÃO

Por Dr. Kalil Duailbi com Isabel Fomm de Vasconcellos

Frantisek Dvorak, Pureza e Paixão

Os sintomas da depressão nas crianças são quase iguais aos dos adultos.

Da mesma maneira que estes, diante de um acontecimento muito triste ou traumatizante, os pequenos podem apenas passar por fases de tristeza profunda ou até desespero para, depois do chamado “período de luto”, voltar ao normal. Mas existem também nas crianças os transtornos de humor persistentes, caracterizando a doença afetiva.

Antigamente os médicos acreditavam que a depressão infantil se manifestasse principalmente através dos sintomas somáticos, como dores ou distúrbios gastrointestinais. Hoje se reconhece que a agressividade, a delinquência ou a recusa em ir à escola podem ser consequências de uma depressão.

Nas crianças muito pequenas, o percentual de deprimidos não chega a 1%.

Na idade escolar, chega a pouco menos de 2% para subir para 5% na adolescência.

Não existe diferença na incidência de depressão entre meninos e meninas na infância. Apenas as meninas parecem mais suscetíveis e vulneráveis aos problemas familiares, ao abuso sexual ou ao bulling. Essa diferença pode ser, como muitas vezes o é nas mulheres adultas, creditada aos fatores socioculturais. As meninas, desde bebês, são educadas de maneira diferente dos meninos. Delas se espera e se incentiva a delicadeza, a meiguice, a fragilidade. A eles ensina-se a agressividade, a competição, o revidar de qualquer ofensa ou violência.

 

Não adianta muito os pais terem consciência dos nem sempre bons resultados desse tipo de educação diferenciada e tentar evitá-la porque a mídia, a internet, o cinema, as babás, algumas escolas e, enfim, grande parte da sociedade, ainda repete à exaustão essa ideia equivocada de que homens tem que ser agressivos e violentos e mulheres tem que se passivas e dóceis.

Existem diferenças evidentes entre os sexos. Os próprios hormônios sexuais determinam diferentes padrões de comportamento e a natureza prepara a mulher para a maternidade na predominância do hormônio chamado “progesterona” (pró gestação) que a torna mais receptiva, mais suave, mais meiga.

A testosterona faz dos homens seres mais agressivos.

No entanto, as diferenças comportamentais entre os sexos, moldadas pela influência hormonal, biológica, são apenas tendências. Foi a cultura que transformou as tendências em dogmas e inventou a feminilidade e a masculinidade em termos absolutos quando, de fato, são relativas. As características da feminilidade não tornam as mulheres incapazes ou irracionais assim como as da masculinidade não tornam os homens insensíveis.

Treinadas para esse padrão de comportamento chamado de “feminilidade”, é natural que as meninas sofram mais que os meninos diante das adversidades e da violência.

É na puberdade (exatamente quando começa a dança dos hormônios femininos e quando a tal da “feminilidade sociocultural” já se consolidou) que a depressão passa a atingir mais as meninas dos que os meninos.

Estudos mostraram também uma incidência muito maior nas crianças internadas em hospitais: 20% delas apresentam quadros de transtornos do humor, confirmando a suposição de que a tristeza faz o corpo adoecer, mesmo quando ainda não se vive no meio adulto.

As crianças de hoje são muito diferentes do que foram as crianças de todas as gerações passadas.

 

 

Nos anos 1970 profissionais que lidam com a infância começaram a falar sobre a “agenda cheia” das crianças e sobre a necessidade que se tem de simplesmente brincar, sem planejamento prévio. Nessa época, com o crescimento da competição por um lugar ao sol (ou na empresa multinacional), os pais de classes sociais em ascensão perceberam a necessidade de preparar o melhor possível seus filhos para o mercado de trabalho. Daí, a agenda cheia. Fora do período escolar as crianças ficaram com o dia lotado por obrigações, como cursos de línguas estrangeiras, aulas de judô ou outro tipo de luta para os meninos e balé ou ginástica rítmica para as meninas...

Logo, vieram os casos mais gritantes de estresse infantil e suas nefastas consequências.Salvo por empreendimentos imobiliários de maior padrão, cada vez mais as crianças foram sendo criadas dentro de pequenos apartamentos com pouca área de lazer. Nos anos 70 e 80 passavam o dia vendo TV. Nos 90 e 2000, jogando videogame e navegando na internet. E outro fantasma veio assombrar os pequenos: a obesidade, consequência desses novos estilos de vida e de uma alimentação muito menos natural, muito mais industrializada.Detentoras de bem maior quantidade de informação do que as gerações que as precederam, as crianças das duas últimas décadas se tornaram ainda seres menos ingênuos e mais difíceis de dominar ou iludir.

As meninas, por sua vez, desde cedo são bombardeadas pelas exigências da moda e passaram a decidir, desde muito pequenas, o que vestir e o que calçar e a roupa passou a ser mais um fator gerador de angústia.

Desde muito pequenas também já estão preocupadas com a ditadura da forma corporal e, vítimas dos fatores que estão levando ao crescimento da obesidade infantil, passam a viver a mesma angústia e a mesma contradição das mulheres adultas que, para atender o padrão vigente de magreza, precisam se privar do prazer de comer e até passar fome, paradoxalmente numa sociedade onde a oferta de alimentos saborosos é cada vez maior e a maioria dos programas de televisão ensina a fazer pratos estupidamente calóricos e gordurosos.

Apesar das novas liberdades conquistadas pelo sexo feminino, o machismo ainda é muito forte em nosso meio e as meninas ainda sofrem uma educação não só diferenciada mas também preconceituosa, que não as prepara adequadamente para a vida sexual que se inicia cada vez mais precocemente.

Nas famílias, muitas vezes são preteridas quando o orçamento familiar não permite que todos os filhos estudem. Os pais, nesse caso, optam por prolongar os estudos dos meninos em detrimento das meninas, como se estas ainda fossem destinadas apenas à vida doméstica.

Todas essas circunstâncias fazem crescer o estresse infantil.

A tudo isso se soma a genética. Crianças cujos pais têm transtornos de humor estão mais predispostas a tê-los também. Pai e mãe com a doença depressão multiplicam por quatro as chances da criança também ser mais uma vítima desse mal.

A infância do “eu era feliz e não sabia”, ao menos por enquanto, não é mais regra geral. Nossas crianças sofrem o mesmo estressante bombardeio de exigências sociais e de consumo que seus pais. No entanto estão mais livres, mais informadas e informatizadas, mais competentes, menos ingênuas e isso as fará, certamente, adultos diferentes de seus pais.

Uma dessas diferenças, infelizmente, pode ser uma maior predisposição à doença depressão.

 

 

 

 

 

Texto do livro

Mergulho na Sombra

do Dr. Kalil Duailibi e Isabel Fomm de Vasconcellos

 

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Capítulo "A Gravidez e Seus Mitos"

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