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Por que as mulheres tem mais depressão do que os homens?

por Prof. Dr. Kalil Duailibi

De fato, as mulheres são historicamente mais emotivas e mais sensíveis e também mais suscetíveis de vivenciar variações de humor. Mas essa é uma característica biológica, psicológica ou cultural?

 Munch, 1894, Cinzas

 


Para muita gente é assustador perceber que as mulheres tem muito mais depressão do que os homens. Na verdade, considerando a vida feminina e a masculina como um todo, a depressão acontece duas vezes mais no sexo feminino. No entanto, se consideramos apenas a vida da mulher entre os 12 e os 60 anos, o número dá um pulo: nessa faixa etária a depressão é quatro vezes mais prevalente nas mulheres do que nos homens. Já, antes do 12 e depois do 60, o sexo feminino e os masculino se igualam na prevalência da doença.
 

Assim, podemos perceber que é justamente na fase de vida das mulheres onde as variações hormonais são mais intensas e onde também pode ocorrer a gestação (com mudanças hormonais ainda maiores!!) que a prevalência da depressão na mulher dobra, em relação ao homem. Nesta fase feminina a depressão ataca 4 mulheres para cada homem.
 

Mas serão apenas os hormônios os responsáveis por esse incremento na incidência da doença?
Ou a nova condição feminina, com muito mais responsabilidades e pressões, agora não só familiares como também profissionais e financeiras, numa sociedade cada vez mais competitiva, também contribui para isso?
 

A mulher foi, ao longo da história, considerada “mais louca” do que o homem. Enquanto a nossa sociedade atribuiu, ao longo de séculos, aos homens a capacidade racional, relegou às mulheres apenas os aspectos emocionais. Só há muito pouco tempo, há coisa de quatro ou cinco décadas, o mundo começa a ver as mulheres com mais igualdade, com mais capacidade para executar qualquer tarefa ou exercer qualquer atividade com a mesma competência.

 

De fato, as mulheres são historicamente mais emotivas e mais sensíveis e também mais suscetíveis de vivenciar variações de humor. Mas essa é uma característica biológica, psicológica ou cultural? Sem dúvida, é uma mistura de todas. A mulher, no seu período fértil e reprodutivo, experimenta variações hormonais que podem interferir com o trânsito de seus neurotransmissores cerebrais, tornando-a mais sensível, ou mesmo chorona ou então mal humorada e/ou agressiva, por exemplo, no período pré menstrual. É uma tendência biológica que existe realmente mas que pode ser (e frequentemente é) minimizada ou agravada pelas condições de vida dessa mulher, seu grau de satisfação ou de insatisfação, o tipo de pressão a que ela está ou não exposta, a maneira como ela enxerga o seu papel no mundo e a sua condição social de mulher.
 

É exatamente com esse enfoque completo, que percebe a depressão na mulher, como a combinação de fatores culturais, biológicos e emocionais que o nosso livro “Mergulho na Sombra” analisa a depressão manifesta nas diversas fases da vida da mulher: infância, adolescência, maturidade, gravidez e pós parto, climatério e idade avançada.
 

A doença depressão é hoje considerada o “mal do século” XXI e é um problema de saúde pública em todo o planeta. Os estudos mostram que, em algum momento da vida, 15 a 20% da população apresentará episódios de depressão, o que torna a depressão um dos distúrbios que mereceriam prioridade de diagnóstico e tratamento pelos profissionais de saúde.
No entanto, a realidade mostra que a depressão é frequentemente sudbdiagnosticada e subtratada.
 

É fácil perceber um portador de Depressão Maior: sem vontade de nada, só chorando e com pensamentos suicidas, o diagnóstico será feito por todos: os familiares, os amigos, os colegas de trabalho... Mas a depressão apresenta um leque de sintomas muito mais amplos: a diminuição da energia e do prazer nas atividades, as dores mal definidas, as alterações de sono, a irritabilidade, a perda do interesse... E são estes sintomas, os de mais difícil detecção, que se apresentam com maior freqüência!
 

Muitas das consultas médicas realizadas por Clínicos, Cardiologistas, Geriatras, Ginecologistas, Neurologistas e várias outras especialidades são por queixas depressivas ou sintomas somáticos relacionados com depressão (muitas vezes é o corpo que “chora”). Ao longo do livro, inúmeras passagens relatam a proximidade tão importante entre médico e paciente para a formação de um laço de confiança e ajuda, e também para o diagnóstico precoce dos quadros depressivos.
 

Pacientes depressivos costumam ir quatro vezes aos consultórios médicos de não-psiquiatras, com queixas que variam de dores no corpo à falta de ar, problemas gastrointestinais e muitos outros, demandando uma batelada de exames onde “nada consta”, antes de receberem o seu diagnóstico verdadeiro, o da depressão. Isso acarreta custos para os sistemas de saúde, consultas com diferentes especialistas, exames e mais exames e consequente congestionamento inútil do sistema.
 

O diagnóstico, no entanto, nem sempre é simples. Se fosse, não causaria tantas consultas e exames em outras especialidades médicas. Sim, porque é preciso lembrar ainda que a depressão está intimamente relacionada com Ansiedade, Alterações de Sono, Estresse Crônico, Alterações da Sexualidade e Dores crônicas. Todas estas condições cursam com depressão e... depressão geralmente cursa com todas elas... As dificuldades financeiras, as relações interpessoais cada vez mais “impessoais”, e ameaças permanentes à segurança do indivíduo aumentam, em muito, toda a “moldura” desta nossa sociedade atual.
 

Coloque agora a nova mulher no contexto que acabamos de descrever. Uma mulher que ainda está em busca de seu verdadeiro papel social, uma mulher que deixou de ser apenas a Rainha do Lar, ou a prostituta de plantão, para descobrir que poderia ser as duas coisas: aquela que cumpre suas obrigações maternas e domésticas e ainda consegue dar e ter prazer sexual e, mais, realizar-se econômica e profissionalmente.
A ansiedade, o estresse, a pressão social, são fatores muito presentes na vida feminina de hoje e tem um papel, evidentemente, no desencadeamento da doença depressão.
É o estresse crônico, aquele de baixa intensidade, porém constante, tão comum nas grandes cidades, que traz consequências mas sérias para a saúde, alterando todos os sistemas orgâncios através de sua influência na modificação de cortisol e noradrenalina. Isso acaba resultando em quadros que vão favorecer o aparecimento do diabetes tipo II, hipertensão arterial sistêmica, baixa resposta às infecções, inibição de interleucinas, enfim, tão variadas condições clínicas que interferem no curso e no prognóstico de diversas condições médicas.
 

Embora ambos os sexos estejam sujeitos ao sofrimento do estresse crônico, nas mulheres o quadro é ainda pior. Consideradas inferiores aos homens, em capacidade, competência, raciocínio, por séculos e séculos, as mulheres ainda estão expostas ao preconceito tanto no ambiente profissional quanto doméstico.
É comum que, nas famílias, os companheiros e os filhos homens, desvalorizem cotidianamente as mulheres, duvidando de sua capacidade e/ou bom senso. Uma pessoa constantemente desvalorizada acaba com o prejuízo de sua autoestima. Isso sem contar que, nos lares brasileiros, uma mulher é agredida fisicamente a cada 15 segundos.
No ambiente profissional, as mulheres ainda ganham, em nosso meio, cerca de 30% a menos que os homens na mesma função. Muitas vezes são preteridas, embora reconhecidamente competentes, na hora das promoções e, sem creche na maioria absoluta das empresas, enfrentam grandes dificuldades quando tem crianças pequenas para amamentar e frequentemente se sentem culpadas por deixar a criança em casa para ir ao trabalho.
Isto tudo ainda se soma à cultural dificuldade que grande parte das mulheres ainda têm de delegar o trabalho e as preocupações domésticas a profissionais ou mesmo distribuir essas atribuições a outros membros da família. Com a necessidade de aperfeiçoamente profissional, reciclagem, ou mesmo de estender os estudos, a famosa dupla jornada feminina acaba se tornando tripla.
 

Para completar o quadro, muitas mulheres renunciam e/ou adiam sua maternidade com medo de perder o emprego se ficarem grávidas ou de se tornarem desatualizadas depois de cumprido o período da licença maternidade. A gravidez e o planejamento de sua prole se tornam assim mais um fator gerador de angústia e estresse.
 

As mulheres solteiras parecem menos sucetíveis a depressão do que as casadas, muito embora o imaginário popular possa julgar o contrário. O contrário (casados com menos depressão que solteiros) ocorre com os homens, pois o casamento parece protegê-los da depressão.
 

Por todas essas razões a depressão, portanto, é um transtorno crônico que impossibilita substancialmente a vida ocupacional e psicossocial do paciente. É caracterizada por inúmeras variações psicopatológicas ao longo do seu curso. Geralmente, é caracterizada pela cronicidade, com muitos pacientes ficando por muito tempo completamente assintomáticos. Existem, ainda, os pacientes que experimentam contínuas flutuações sintomáticas e outros que vivem os sintomas mais severos na maior parte do tempo.
 

Porém, com custos psicossociais tão elevados, com a perda da produtividade (o que eleva muito o risco de se perder o emprego em um mundo competitivo como o que estamos vivendo) e o esfacelamento dos relacionamentos, o reconhecimento da Depressão e de seus sintomas, mesmo os mais “camuflados”, é de extrema importância.
Está mais do que na hora de fazermos com que a depressão deixe de ser subdiagnosticada e sub tratada.

 

 

Nesse sentido, esperamos contribuir com a nossa obra

“Mergulho na Sombra”, que traz o assunto médico mais importante dos últimos 20 anos, sob a ótica da mulher, com todas as suas situações de vida, conflitos e expectativas, contados pela jornalista, com os dados científicos do médico.
Isabel Vasconcellos é escritora (com 12 livros publicados), jornalista e apresentadora de rádio e TV.
Kalil Duailibi é médico, psiquiatra, professor de psiquiatria e palestrante internacional.

O livro “Mergulho na Sombra, a Depressão nas Fases da Vida da Mulher” é uma publicação da Editora Cultrix.