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Idade Avançada é sinônimo de razão prejudicada?

por Dr. Kalil Duailibi  

 

No começo do século XX a expectativa média de vida era de 50 anos; no ano 2000 passou a ser, nos países europeus, de 78 anos, ou seja, a população envelheceu muito no século passado. A perspectiva para o século XXI é maior ainda, hoje se imagina que as pessoas terão uma expectativa média de vida de 110 anos ao longo desse século. Isso significa que nós estamos tendo a necessidade de conhecer aspectos fisiológicos do envelhecimento do nosso corpo e do nosso cérebro que não conhecemos até agora, aspectos que só se revelaram com a nossa maior longevidade.

Então nós estamos acompanhando toda uma evolução de conceitos e precisamos pensar que este envelhecimento traz muitas benesses, mas também traz muitas dificuldades, principalmente no aspecto físico. Envelhecer é lidar com limitações. A visão fica alterada, a audição fica alterada e aparecem, por exemplo problemas digestivos que não se tinha até então e muita coisa começa a sofrer alterações.

Saindo do plano físico, o entorno também se modifica: os amigos estão passando por esse mesmo processo, as relações ficam mais difíceis, o aspecto econômico, infelizmente, tem uma tendência a deteriorar-se também e então hoje nós temos um processo de uma sociedade que envelhece, um corpo que envelhece.

Mas lidar com um cérebro em idade mais avançada é lidar com duas grandes preocupações de saúde: por um lado os quadros depressivos que tem uma incidência muito maior com o passar do tempo e segundo os quadros demenciais. Essas duas patologias são muito frequentes. Afinal, o cérebro também envelhece, assim como o resto do corpo.

O cérebro vem, no processo natural de envelhecimento, perdendo neurônios e principalmente em algumas regiões que são mais ligadas aos quadros depressivos, principalmente uma região chamada hipocampo. Mas hoje nós já sabemos que nós temos também uma pequena produção de neurônios acontecendo, não é apenas a perda. Antes se acreditava que nascíamos com um número determinado de neurônios e morríamos com um número menor. Mas não é isso que ocorre. A perda é maior do que a nova produção, embora exista a nova produção.

Há ainda algumas particularidades. Sabemos que uma pessoa intelectualmente muito ativa tem uma produção maior de neurônios e também sabemos que quem não está deprimido produz mais neurônios do que quem está deprimido porque os deprimidos perdem velocidade na reprodução de neurônios.

A incidência maior de depressão nas pessoas de mais idade não está apenas ligada a todos esses fatores emocionais, ao entorno, a deterioração gradual do físico, mas está ligada também a algumas vitaminas, com alterações de neurotransmissores e com alterações vasculares, pois acontecem alguns pequenos entupimentos de vasos, que não são percebidos, mas se configuram como lesões cerebrais.

Importante também é destacar que os tratamentos malsucedidos da depressão vão deixando resquícios e alterações anatômicas e na idade mais avançada haverá um quadro depressivo muito arrastado e muito difícil de ser tratado.

E ainda é preciso perceber que, com o passar dos anos, o idoso vai somando medicamentos: colesterol, pressão alta, diabetes e outros. Muitos desses remédios são causadores de depressão. Há que se estar atento para usar alternativas a medicamentos que possam estar causando a doença depressão.

Às vezes pequenas doenças, como um leve hipotireoidismo, está causando a depressão e passa despercebido. Por isso o clínico tem que estar atento a todos esses aspectos ao fazer diagnósticos nos idosos.

Existem também, com já foi citado, os quadros demenciais. Demência é uma grande grupamento de doenças. São várias alterações orgânicas caracterizadas pelas de memória, de cognição, de atenção e isso pode ter várias causas.

Pode ser por uma alteração de vitaminas, que, inclusive é frequente, não é raro como se possa pensar; pode ser por uma alteração vascular; pode ser por lesões cerebrais, das quais a doença de Alzheimer é um exemplo, onde uma proteína afeta o neurônio e o mata. É preciso chamar atenção para o tratamento dos quadros demenciais. Muitas vezes se chama de Alzheimer doenças que nem sempre são Alzheimer, então o diagnóstico precisa ser correto. A ida a um clinico, a um neurologista que faça esse acompanhamento, que diagnostique qual é o tipo de demência, pois cada tipo tem o seu tratamento adequado. Isto feito, hoje nós conseguimos estancar a evolução de muitos quadros demenciais.

É importante ainda que o idoso não perca seus contatos sociais e, caso os tenha perdido, volte a tê-los. Existem os centros de convivência do idoso onde se pode participar de pequenas oficinas, de clubes de leitura (já que a leitura é tão decisiva para que se evite dessas doenças), atividade física, música e até os jogos de cartas, que exigem atenção e raciocínio. Tudo isso estimula as funções cognitivas que são as mais alteradas nos casos depressivos e demenciais.

Pode-se viver a idade avançada com saúde e disposição mas o preço disso, como o da liberdade, é a eterna vigilância
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Francisco Rebolo,

em três auto retratos.

 

"A gente envelhece quando deixa de se divertir" (anônimo)