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Reconhecendo a Depressão

por Dr. Kalil Duailibi

  Portinari, 1947, Mulher Chorando

A depressão poderia ser representada por um iceberg, a parte visível sendo a minoria diagnosticada, e a grande maioria invisível os pacientes não reconhecidos pelos médicos ou que não procuram auxílio.

Introdução

Os transtornos depressivos (TD) têm vitimado a humanidade desde as mais remotas documentações da experiência humana. Todos estes transtornos depressivos requerem uma observação prospectiva, pois sintomas subsequentes como mania ou psicose podem resultar em uma mudança do diagnóstico. Por exemplo, quando um episódio depressivo é seguido de um episódio maníaco (mania=euforia, para os psiquiatras), o diagnóstico é alterado para Transtorno Bipolar.

Os transtornos depressivos são caracterizados por maior vulnerabilidade a episódios recorrentes, envolvendo humor depressivo ou perda de interesse e prazer nas atividades cotidianas. Tipicamente faz-se uma distinção entre um estado de desânimo, tristeza ou infelicidade, que pode ser de breve duração, e uma síndrome clínica caracterizada por tristeza persistente, desencorajamento profundo ou desespero que pode durar duas semanas ou mais e é acompanhada de uma alteração no funcionamento prévio. As mudanças no humor são experimentadas pelo indivíduo como um sentimento de tristeza, irritabilidade , desânimo, desespero ou perda de interesse e prazer. Sinais biológicos e neurovegetativos de depressão incluem prejuízo do sono, do apetite, nível de energia, libido e atividade psicomotora. Sintomas proeminentes também incluem prejuízo na concentração com aumento da tendência à distração e a presença de sentimentos de culpa.

Os sintomas de depressão são evidentes em crianças e adolescentes, apesar do humor deprimido poder se manifestar como irritabilidade ou isolamento social. Por outro lado, adultos mais velhos mostram uma preponderância de queixas somáticas e prejuízo de memória. As definições atuais de TD enfatizam a ideação suicida, pensamentos de morte e tentativas de suicídio como critérios principais do transtorno. O suicídio é o padrão do transtorno que coloca risco substancial de mortalidade. A prevenção do suicídio, mais do que qualquer outra meta de tratamento, requer intervenção imediata e pode requerer hospitalização. O risco de uma nova tentativa apos um indivíduo ser hospitalizado por um episódio depressivo grave é de 15%.


Epidemiologia

Vários estudos epidemiológicos em diversas regiões do mundo documentaram uma maior prevalência de transtornos depressivos em mulheres, com uma media global de 2 mulheres para cada homem afetado.

Na faixa etária de 11 a 14 anos já se nota a diferença entre gêneros, que se manterá na idade adulta, o que sugere um papel hormonal na etiopatogenia da depressão. Há vários relatos de depressão em situações de variação hormonal, como período pré-menstrual, puerpério e menopausa, porém revisões sistemáticas confirmaram apenas o incremento no período pós-parto.

Os fatores de risco mais consistentemente associados à depressão são história familiar, adversidades na infância (principalmente morte de um dos pais antes dos 11 anos de idade), isolamento social e experiências de vida estressantes. O enfoque genético tem demonstrado hereditariedade equivalentes entre homens e mulheres em estudos com gemelares.

Em um amplo estudo de causas de morte entre mulheres brasileiras (Tuono e cols, 2007), com revisão criteriosa de declarações de óbito e prontuários, foi constatado transtorno mental como causa básica em 1% das mortes, e destas, 12,9% foram episódios depressivos, contra 37,1% com relação ao uso de álcool e 15,7% de nicotina. Entre os transtornos mentais como causa associada de óbito, os episódios depressivos surgem novamente em 3º lugar, com 9,3% de participação, ante 39,6% do uso de nicotina e 30,6% do álcool. Estes achados são compatíveis aos encontrados na literatura mundial, casos de suicídio associados à depressão e ao uso de substâncias psicoativas na faixa etária de 40 a 49 anos.

Cerca de 15% dos pacientes com transtorno depressivo grave com pelo menos 1 mês de duração tentam suicídio, mais de 50% dos pacientes que se suicidaram passaram por um clínico geral no mês anterior, e mais de 30% procuram um serviço de saúde ou pronto socorro 7 a 10 dias antes com queixas somáticas. As queixas são variadas e abarcam diversas especialidades clínicas, constituindo o que chamamos de Sintomas Somáticos Funcionais (SSF), ou seja, sintomas clínicos para os quais não se encontram diagnósticos correspondentes. Na ginecologia cerca de 17% das mulheres tem sintomas não-diagnosticáveis, principalmente dores pélvicas e síndrome pré-menstrual (acima de 50% na gastroenterologia e na neurologia, e acima de 30% na cardiologia, reumatologia, ortopedia e otorrinolaringologia).
 

Diagnóstico

A depressão poderia ser representada por um iceberg, a parte visível sendo a minoria diagnosticada, e a grande maioria invisível os pacientes não reconhecidos pelos médicos ou que não procuram auxílio.
Os sintomas específicos da depressão são:

- perda de interesse,
- perda do prazer,
- desesperança,
- sentimento de inutilidade,
- culpa,
- ideação suicida.
Porém os sintomas que aparecem com maior freqüência são:
- perda de energia,
- perda de apetite,
- insônia,
- dores.

Episódios depressivos podem ser definidos em 3 graus: leve, moderado e grave, este último com ou sem sintomas psicóticos, quando acompanhado de delírios e alucinações, geralmente congruentes com o humor, ou seja, de conteúdo negativo como ruína, culpa, etc., mas não obrigatoriamente. O grau leve é definido pela preservação das atividades cotidianas, o moderado quando o paciente experimenta muita dificuldade para o desempenho, e o grau grave quando os sentimentos de desvalia são profundos e idéias de morte surgem. O transtorno depressivo pode ser recorrente, quando o episódio atual não é o primeiro, e também pode ser definido nos três graus. Os transtornos de humor persistentes inclui a distimia, que é um rebaixamento crônico do humor, que persiste por vários anos, mas sem gravidade suficiente para os critérios de episódio depressivo.

Várias patologias ginecológicas e situações podem estar relacionadas à depressão, p. Ex.,

- Síndrome dos ovários policísticos,
- Endometriose,
- Dispareunia primaria,
- Abuso sexual,
- Per e pós-menopausa,
- Disforia pré-menstrual,
- Gestação e puerpério,
- Per e pós-histerectomia e ooforectomia,
- Neoplasias de mama.

O uso de alguns medicamentos também podem desencadear um transtorno depressivo.
 

Custos Sociais e Diretos

A depressão usualmente torna-se uma condição crônica incapacitante, pois debilita o indivíduo em várias esferas, levando a comprometimentos sociais (isolamento, solidão, divórcio), físicos (doenças associadas, mortalidade, aumento do uso das redes de saúde) e psicológicos (má qualidade de vida, declínio cognitivo, suicídio). Estima-se que nos EUA são realizadas quase 14 milhões de consultas/ano por lombalgia, 12 milhões por dor abdominal e 9,5 milhões por cefaleia. Os pacientes deprimidos custam 2 vezes mais para o sistema de saúde (Simon GE et al, 1995), e a depressão teve um impacto econômico estimado em US$83 bilhões no ano 2000 naquele país, deste valor 62% por perda de produtividade, 31% por custos diretos e 7% por custos relacionados aos suicídios.
 

Comorbidades

Os transtornos de ansiedade apresentam uma relevante intersecção sintomatológica com os transtornos depressivos, por exemplo: medo, dores crônicas, ataques de pânico, preocupação excessiva, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e gastrintestinais, agitação e apreensão.

 

Porém, ao contrario da depressão, os pacientes apresentam hipervigilância (atenção aumentada), agorafobia (medo de ambientes públicos) e rituais compulsivos. A depressão tem caracteristicamente os já citados humor deprimido, perda do interesse, perda ou ganho de peso e anedonia (falta de prazer).

Outros quadros também aparecem associados à depressão como comorbidades, p. Ex., a fibromialgia, a dependência de álcool e substâncias psicoativas e distúrbios alimentares. Condições clínicas gerais podem apresentar-se como episódios depressivos e o diagnóstico diferencial impõe-se, principalmente entre afecções dos eixos tiroidiano e adrenal, anemias e doenças neurológicas como Parkinson, demências, doenças cerebrovasculares e tumores.

 

 

Referencias Bibliográficas

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