Depressão Não é Novidade

(Segunda parte da História da Depressão – da Antiguidade ao Renascimento)

Por Prof. Dr. Kalil Duailibi

 

 

Galileu diante do Santo Ofício, pintura do século XIX de Joseph-Nicolas

Hipócrates

 

Hipócrates é simbolicamente designado como o pai da medicina, representando mais do que o seu ser, toda uma escola que retira do centro da discussão o sobrenatural e lida com a doença em termos científicos.

Com Hipócrates e seus seguidores, o cérebro foi eleito o centro das funções mentais e de suas patologias, superando a postura cardiocêntrica de Aristóteles que considerava o coração o centro das emoções humanas.

 

A teoria hipocrática da doença inspirada em critérios puramente materialistas está baseada no conceito dos 4 fluidos essenciais – bile, fleuma, sangue e a bile negra que, em proporções corretas, ditariam a saúde humana, enquanto na doença, ocorreria um desequilíbrio entre elas.

A importância dessa teoria consiste na substituição da superstição pela biologia e na adoção de um modelo de observação clínica.

 

As doenças mentais parecem ter sido um de seus maiores interesses, ao formular a primeira classificação nomeando melancolia, a mania e a paranoia. Sua descrição do quadro clínica da melancolia é clássica “aversão à comida, falta de ânimo, insônia, irritabilidade, inquietação...”, “se o medo ou a tristeza duram muito tempo, tal estado é próprio da melancolia”.

O termo melancolia (melan, negro, e cholis, bilis) citado anteriormente, baseia-se na teoria dos 4 humores propondo uma “intoxicação” do cérebro pela bile negra.

 

Aristóteles

 

Igualmente contemporâneo a Hipócrates a quem também, assim como Platão, tece elogios, Aristóteles, embora filósofo, merece ser incluído na história da medicina, dado que suas ideias sobre a melancolia, e não apenas sobre ela, terão profunda influência na medicina durante séculos.

 

Em Problemata, Aristóteles questiona-se por que todos aqueles que se tornam eminentes filósofos, políticos, poetas ou artistas têm claramente um temperamento melancólico. Essas pessoas teriam um anormal excesso de bile negra, que as tornaria mais profundas em suas emoções e percepção da vida e predispondo-as a desenvolver melancolia.

 

Grécia x Roma

 

O século II a. C. marca a ascensão do poder romano e a submissão total das cidades gregas à vassalagem e à abolição da democracia. No entanto, a cultura grega fascina e impregna profundamente seus conquistadores. O interesse pela medicina, porém, não acompanhou essa “heleno filia” e a visão romana pode ser constatada na frase do xenófobo Catão:

“A medicina, como a tragédia, é uma arte grega”

 

É possível lembrar de uma verdadeira legião de médicos gregos bem-sucedidos que instalam-se em Roma, destacam-se Areteus da Capadócia e Galeno.

Areteus da Capadócia diferencia a melancolia causada biologicamente de outra, ocasionada por “reação depressiva” psicologicamente determinada.

 

Galeno foi profundo conhecedor dos textos hipocráticos, reafirmando com exatidão a descrição da melancolia e realçava que embora os pacientes fossem diferentes uns dos outros, todos apresentavam medo e falta de ânimo como sintomas cardinais.

 

O misto de médico e filósofo da época, pensaria no tratamento da melancolia de maneira predominantemente somática e com recursos obviamente muito limitados.

 

Algumas das plantas mais usadas eram o heléboro, meimendro, mandrágora e a beladona, além de purgantes recomendados para eliminar a bile negra.

 

A Idade Média

 

A queda do Império Romano do Ocidente, em torno de 400 d.C., marca o fim da Antiguidade e começo da Idade média.

Durante quase praticamente toda a primeira metade da Idade Média há um abandono dos textos clássicos e um consequente esquecimento do pensamento greco-romano sobre ciência, medicina e, por extensão, das primeiras ideias psiquiátricas.

 

O estudo da medicina era exclusividade de monges, particularmente, dominicanos e franciscanos, os quais tentavam manter a tradição e o conhecimento do médico da Antiguidade.

O primado absoluto da Fé cristã desestimulava qualquer estudo não-relacionado às Escrituras, afinal tudo estava aí, diziam.

 

Assim, esse conhecimento médico misturava-se na prática a toda espécie de procedimentos mágicos locais e à subserviência à teologia.

O mundo ocidental mergulha, então, numa nosologia que abandona órgãos e humores e que se baseia na culpa, no pecado, nas bruxas e em todas as formas que o demônio pudesse assumir. A medicina como profissão desintegra-se.

 

Nos séculos iniciais do Cristianismo, atitudes e pensamentos divergentes da doutrina oficial eram punidos com a excomunhão, ou seja, apartados da comunidade eclesiástica, desagradável, porém ainda não doloroso. Quando, no entanto, o Cristianismo é instituído por Constantino religião oficial do Império Romano e, posteriormente, Teodósio proíbe totalmente os cultos aos antigos deuses pagãos, a religião passa a ser também um fator de coesão e união política, bem como um mecanismo de dominação do papado, tornando qualquer divergência muito perigosa.

 

Os poucos conhecimentos psiquiátricos e o vasto e asfixiante domínio clerical faz com que pouca distinção se faça entre heréticos e doentes mentais, merecendo ambos a mesma punição. De fato o melhor e mais difundido tratamento psiquiátrico na Idade Média era a fogueira.

Depois da queda do Império Romano do Ocidente, quase todo o conhecimento grego na Europa ficou recluso ou se perdeu e os hospitais das ordens monásticas passaram a ser quase apenas depósitos de doentes à espera da cura ou mais frequentemente da morte, “caso fosse o desejo de Deus”.

 

O Mundo Árabe

 

Enquanto isso ocorria, a Medicina era a primeira ciência grega estudada profundamente nas escolas islâmicas. Numa época em que aprender e pensar transformara-se em heresia na Europa, pensadores encontraram refúgio no mundo árabe.

 

A medicina árabe aceitava e aplicava a teoria galênica dos 4 humores, e acreditava na ideia grega de que sua suposta mistura em várias proporções levaria a diferentes temperamentos, bem como a melancolia.

 

Averrois Ibn Sina ou Avicenna, escreveu mais de 450 trabalhos dos quais 240 sobreviveram. Influenciou profundamente a medicina europeia medieval e renascentista, discute em 3 capítulos diferentes aspectos da vida mental, como a sexualidade, a paixão amorosa, as alucinações, os delírios, as insônias, os pesadelos, a demência, a epilepsia e a melancolia.

 

Sugere possível efeito de traumas emocionais sobre a saúde física e recomenda a música para a melhoria dos sintomas melancólicos.

 

Maimonides Nasceu em Córdoba, na Espanha, e estabeleceu-se no Cairo, onde foi nomeado médico da corte do rei Saladino.

 

Possuía uma visão holística da doença e sugeria uma séria de procedimentos que englobavam desde orientações dietéticas até ênfase na importância de hábitos, realçando o papel do “ar fresco”, Sol, alimentos saudáveis, banhos e vida sexual, o que hoje chamaríamos de qualidade de vida.

 

Averrois Desde cedo um apaixonado por Aristóteles, passou praticamente toda a vida discutindo e escrevendo comentários sobre temas aristotélicos.

Profundamente religioso, Averrois acreditava que a completa felicidade e bem-estar psicológico do homem só podem ser alcançados pela crença em Deus

 

A Melancolia no Renascimento

 

Paulatinamente em meio à Inquisição, a Peste Negra (que dizimou mais de 1/3 da população europeia), a Guerra dos 100 anos, os Papas e outras catástrofes, há uma revalorização do homem como centro e medida de tudo e um retorno aos valores gregos. Uma crescente perspectiva secular toma conta dos círculos intelectuais, não propriamente um ateísmo, mas uma insubordinação às regras impostas pela Igreja. Uma libertação dos dogmas teológicos e das autoridades eclesiásticas, que haviam submetido os clássicos da Antiguidade à ordenação cristã.

Mas isso fica para a nossa próxima conversa.                                                                                                                                                                  VOLTAR PARA A PÁGINA DO DR. KALIL