voltar para a página do doutor

 

Tratamento da Depressão - considerações

por Dr. Kalil Duailibi

Edgard Mueller, o Amanhecer

“Nem era dor aquilo que doía;

ou dói, agora, quando já se foi?”

Carlos Drummond de Andrade

 

Não se pode desconsiderar o tratamento chamado “de manutenção” mesmo para aqueles pacientes que tiveram um episódio único de depressão porque, entre 50% e 80% dos casos, acontecerá de novo.

Para todas as diferentes manifestações da doença a meta é acabar com o problema. Mas nem sempre é possível. Algumas pessoas precisam de doses maiores de medicamento, psicoterapia e tratamentos alternativos e precisarão para sempre. Outras reagem muito bem e, medicadas pelo período mínimo de seis meses, passam a ter uma vida perfeitamente normal.

 

Infelizmente, no Brasil, o cálculo  é que apenas 5% das pessoas deprimidas pela doença são tratadas adequadamente.

O diagnóstico muitas vezes leva anos para ser feito. A somatização faz com que a pessoa ande de especialista em especialista sentindo os mais variados sintomas, dores pelo corpo, dor de cabeça, desarranjos gastro intestinais e outros, até que alguém perceba que, por trás de tudo aquilo, está a grande sombra da depressão.

 

Os antidepressivos, nas últimas cinco décadas, tiveram uma fantástica evolução.  Os efeitos colaterais mais importantes dos primeiros medicamentos foram eliminados. Hoje, no curtíssimo prazo de duas a três semanas de medicamento, a melhora é enorme, a pessoa se livra dos pensamentos trágicos, da melancolia, e começa a recuperar rapidamente a alegria de viver.

Mas aí também mora o perigo. Sentindo-se bem, existe a tendência a abandonar o medicamento. Caso isso aconteça, fatalmente a sombra retornará.

Existem ainda muitos mitos com relação aos antidepressivos. Uns dizem que engorda, outros, que emagrece. Para alguns o desejo sexual desaparece. Para outros, aumenta.

Alguns remédios, em algumas pessoas, podem ter alguns desses efeitos. Nesse caso, o médico troca a medicação por outra e troca novamente, se for preciso, até que não haja mais nenhum efeito indesejável. Existem muitas alternativas de tratamento medicamentoso hoje. Uma é a certa para aquela pessoa. Outra, para outra pessoa. Por isso, automedicação, nem pensar! (Os remédios são controlados, mas no país do “jeitinho”...)

 

Quem sofre de pressão alta, ou hipertensão, se não quiser ter um derrame ou um infarto, vai tomar remédio para o resto da vida. A mesma coisa acontece com os diabéticos. No entanto, quando se trata de antidepressivos, se a proposta é tomar o remédio por muito tempo ou mesmo por toda a vida, muita gente acha estranho. Não é diferente das outras doenças citadas.

Outra razão para fugir do tratamento é a história preconceituosa de que o remédio, vicia, causa dependência. Não vicia nem causa dependência.

Para muitas pessoas que estão sofrendo, estragando suas vidas e as da sua família, a solução está muito próxima, num consultório de psiquiatria e numa caixinha de remédios.

Infelizmente, a despeito de toda a visibilidade que a depressão tem hoje na mídia, pouca gente percebe.