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O dia em que choveu prata

Por Juvenal Azevedo

símbolo do IV Centenário de São Paulo,por Oscar Niemayer

Estrelas por Suely Pinotti

 

 

 

 
 

Eu estava na sala de espera do centro cirúrgico do Hospital Leão XIII, no Ipiranga, aguardando terminar a operação de bexiga do meu pai, o velho Manoel, na época com 65 anos.
Prédio antigo, bonito, o hospital resiste até hoje, Em 1954, de uma de suas janelas, enquanto esperava terminar a cirurgia, eu ouvia o rádio do bar em frente: “Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou, com uma carta na mão...”,entoava tristemente Isaurinha Garcia, o que só serviu para aumentar a sensação incômoda no peito, um certo quê de angústia, da incerteza .

 

Porém, logo em seguida, o que se ouvia no rádio do boteco era o dobrado de Mário Zan, o sanfoneiro “Salve o IV Centenário, que a história consagrou, foi em ti, meu São Paulo, que o Brasil se libertou...” A música alegre, vibrante, embora muito chata, serviu no entanto para desanuviar a alma e afastar os pensamentos negativos.Serviu principalmente para me lembrar dos passeios e lugares a que meu pai havia me levado desde bem pequeno.

 

Lugares como o Parque da Água Branca e suas exposições de cavalos, pra tomar chá na Avenida Paulista. O estádio do Pacaembu, onde três anos antes havíamos visto o glorioso Sport Club Corinthians Paulista sair de uma fila de quase dez anos, goleando o Guarani por 4 a 1 e conquistando o título com duas rodadas de antecedência. O Jardim da Luz e seus encantos que existiam na época. Bem pertinho a Pinacoteca do Liceu de Artes e Ofícios, onde me apaixonei por literatura e artes de qualquer gênero.
 

O Mercado Municipal e suas frutas deliciosas ou Mercadão, na Cantareira, com seu mundo de cores, aromas e sabores tentadores. Onde sempre saímos cheios de sacolas com esperança.

 

Cozinhar com meu pai era uma das melhores coisas que já experimentei na vida. Sr. Manoel fazia o melhor bolinho de bacalhau com notas de azeites que ele temperava a sua própria maneira.
 

E os cinemas então? Os da Cinelândia, na Av. São João, onde vi um filme pela primeira vez, a inevitável Chata de Neve e os 7 anões, quando morri de medo da bruxa estampada em big close e pedi pra ir pra casa, no que fui atendido depois de algumas tentativas de me fazer ficar.
 

Engraçado que quando levei minha filha pra ver a Bela Adormecida aconteceu a mesma coisa, quando surgiu em big close a Malévola minha filha sussurrou as mesmas palavras, vamos pra casa papai? No que atendi prontamente seu pedido.
 

Antes ou depois dos passeios, geralmente depois, era de lei irmos a um restaurante, leiteria para almoçar ou tomar um bom lanche, estando entre os favoritos lugares como o Guanabara na Rua Boa Vista, com sua imbatível coxa-creme. Ou a deliciosa comida chinesa desbravando pequenos restaurantes nas ruas da Liberdade.
 

Enfim, aos ali sentado com os meus pensamentos com 14 anos de vida, as lembranças eram tantas e tão boas que passei a ter uma confiança maior no futuro, tanto no meu quanto no dele, me fazendo sonhar do mesmo modo que eu sonhava com a posse dos produtos e serviços anunciados nas revistas Seleções, O Cruzeiro e Manchete, as camisas McGregor, os carrões da Ford e da GM, as viagens de navio da Moore McCormack, uma temporada no “paraíso do inferno verde”, o Hotel Amazonas, na remota Manaus . E por ai afora.
 

Alguns desses sonhos consegui realizar, outros não, mais a vida continuou, meu pai graças a Deus, recuperou-se da cirurgia e viveu mais 13 anos, e até hoje lembro-me da simpática e amorosa freira que meu deu a notícia de que ele estava passando bem, ao mesmo tempo em que me entregava três pequenas lâminas prateadas de papel aluminizado:

 

eram as estrelas da chuva de prata que foram jogadas na cidade, enquanto eu estava de vigília no quarto do velho Manoel “Pra você guardar de lembrança desse dia”, disse ela.
 

Guardei a “lembrança” por algum tempo, mas acabei perdendo-a, assim como ganhei e perdi tanta coisa pela vida.

 

Mas vem ai a prometida chuva de prata dos 450 anos. E embora eu não tenha mais pai, tenho 3 filhos incríveis, todos prontos pra festejarmos juntos.

 

Chove chuva, limpa essa cidade que precisa de mais verde e amor.
 

 

Juvenal Azevedo,

 

jornalista, publicitário e excelente cronista

nos deixou a 13 de Junho de 2013,

mas seus textos permanecerão conosco

para sempre.

 

 

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Madalena Demasi

11 de junho às 07:34

 

Texto muito bom . Recordei como fosse hoje ,eu com minha mãe ,na A enida Nove de Julho, lindo os aviões "fazendo chover "

Daisy Azevedo

 

Isso eu lembro...tenho uma bandeirinha até hj....    

 

   

Adriana Azevedo

11 de junho às 11:13

 

   

Um texto inédito do meu amado pai Juvenal Azevedo que há dois anos partiu rumo ao desconhecido. Obrigada Isabel Fomm de Vasconcellos Você é muito importante na minha família.
Aos poucos estou escrevendo as crônicas dele no computador. ele era um amante da maquina de escrever. E muito dos seus textos estão datilografados impecáveis e bem guardados.
Porém eu ainda me sinto muito frágil pra ficar remexendo nessa papelada toda hora. Um beijo e gratidão.

 

 

 

   

Lusimar Monteiro Alvares

11 de junho às 11:46

   

Lembro vagamente da chuva triangular e prateada. Por muito tempo minha mãe guardou alguns, mas se perderam.