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Anjo anunciador
por Juvenal Azevedo

(Casa Grande, desenho de Gilberto Freyre)

 

 

2a. edição - Global Editora, 2009

1a. edição - Editora Record, 1987

 

Gilberto de Mello Freyre  (Recife, 15 de março de 1900 — 18 de julho de 1987), historiador, ensaísta e sociólogo, revolucionou a historiografia com o lançamento, em 1933, de "Casa Grande e Senzala".

 

Foi uma coisa estranha, muito estranha,
pra dizer o mínimo.
Gilberto Freyre, oitenta e sete anos,
estava lançando seu último livro.
Se não me engano,
Modos de Homem e Modas de Mulher,
em sua casa no Recife
- no "Solar de Apipucos" - como ele gostava de dizer.
Muito doente, entrevado, em cadeira de rodas,
já havia perdido a lucidez
e a capacidade de dar autógrafos,
substituído na tarefa por seu filho.
Quando chegamos ao solar, eu e dois amigos,
um deles Pedro, o cineasta espírita,
caminhamos pela sala imensa
em direção ao alquebrado mestre.
Foi quando ele, a quem eu nunca havia visto mais gordo
(por sinal, ele estava tão magrinho, coitado!)
levantou-se de súbito, erguendo-se das trevas,
e com olhos brilhantes me abraçou dizendo:
"Que bom que você veio!", pra meu profundo espanto.
Disse e sentou-se novamente,
com os olhos baços e sem mais erguer-se,
novamente feito vegetal vivente.
Morreu dias depois e segundo Pedro, o cineasta espírita,
ele vira em mim o Anjo Anunciador.
Prefiro crer que, em meio a seus delírios,
ele apenas se confundira — e me confundira —
com, digamos, o poeta Augusto Frederico Schmidt.
Que já o esperava nas alturas.