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(Michele Marieschi, sec 18, Grande Canal de Veneza)

33.

Giuliana Salvagno,

de Veneza
 

por Juvenal Azevedo


Meu amigo e hermanito Federico Spitale, recém-retornado de Milão, me contou uma história onírica porém real, de uma passagem vivida por ele em um castelo na fronteira da Áustria com a Itália.

Estavam, ele e sua mulher, em visita ao tal castelo austríaco, quando ficaram conhecendo um casal de conterrâneos dos Strauss.
 

Foi uma centelha que incendiou ao Spitale e à moça que, apesar da dificuldade de comunicação, enlouqueceram-se um ao outro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trapaças da Vida

(para Juvenal e Giuliana) 

 

Existem na vida

Uns poucos encontros

Que são só magia.

Encontros,

Mas parecem sonhos,

Os melhores.

 

Encontros,

E parecem

Reencontros.

Nostalgia

De recuperados amores.

Sabor

De memórias perdidas.

 

Talvez lembranças

De outras vidas

-- outras andanças—

-- outras histórias --

Que jazem escondidas

Nos genes, nos neurônios,

Na alma.

Ou

Na manga da camisa.

 

poema de

Isabel Fomm de Vasconcellos

2013 06 13, quando da morte de Juvenal.

 

 
 

Como o castelo tinha jardins, alamedas, escadarias e diversos aposentos, não demorou para que o Spitale conseguissse se juntar a ela em alguns desvãos, dando início a uma relação que, segundo ele, lhe deu vontade de jogar tudo pro alto, fugindo com sua eleita para algum lugar onde pudessem ligar-se de modo perene, sem, no entanto, que nenhum dos dois conseguisse falar italiano ou alemão.
 

A visita ao castelo levou horas e, quando viram, os dois admiravam o pôr do sol, observados pela sua mulher e pelo marido da austríaca, um tanto aturdidos, perplexos com o que não chegaram a ver mas intuíram.
 

Cada casal aproximou-se dos carros quando, e ele jura que ouviu isso mesmo, sua eleita aproximou-se e lhe disse, em claro espanhol: “Los sueños, sueños son”, entrando no carro e partindo para nunca mais se verem.
 

Bem. História parecida aconteceu comigo no aeroporto de Veneza, quando minha mulher e eu aguardávamos o vôo para Paris. Ela estava sentada num dos bancos de espera, enquanto eu, em pé, lia um jornal italiano.
 

Aproximou-se de mim uma jovem que me perguntou sobre um detalhe qualquer do vôo e começamos a conversar em um italiano bastante razoável, pois na época eu fazia dupla com um diretor de arte italiano, o Ângelo Scavuzzo, e trabalhava com bastante frequência com o fotógrafo e diretor de cinema Ezio Vitale, um torcedor roxo da Roma e um restaurater digno dessa denominação.
 

Para minha surpresa, Giuliana pensou que eu era italiano, apresentei-lhe minha mulher e continuamos a conversar até que fomos chamados a embarcar.
 

Minha mulher sentou-se junto à janela, eu fiquei no banco do meio e, como o vôo estava lotado, havia sobrado o lugar a meu lado. Logo depois Giuliana pediu licença e sentou-se, continuando o papo que havíamos iniciado. Aí, durante todo o vôo para a França, conversamos animadamente, descobrindo aquela mesma centelha que incendiara o coração do Spitale e de sua musa austríaca.
 

Naquela curta viagem a Paris, cheguei também a pensar em jogar tudo pro alto, apesar de termos tido apenas um leve roçar de mãos, mas nossa troca de olhares e a intensidade das nossas palavras me fizeram agir como o desatinado Spitale no castelo da Áustria.
 

Giuliana me deu seu endereço e telefone, hospedando-se numa estalagem da avenida Foch, onde iria depois fazer um curso rápido. Despedimo-nos na saída do aeroporto Charles de Gaulle, fomos para o hotel Louvre Concorde e aí começamos uma briga infernal, que culminou com minha mulher rasgando em pedacinhos o telefone e o endereço da Giuliana em Paris.
 

Claro que eu já tinha decorado o endereço, mas não havia como memorizar o número da linha, além do que sentimentos contraditórios se permeavam. Dias depois, já no Brasil, fui com meus filhos mais velhos passar uma temporada numa casa alugada em São Sebastião, voltei para minha agência e acabei me dividindo em escrever ou não para a Giuliana. Quando o fiz, minha carta voltou, pois seu curso e sua hospedagem em Paris já a tinham levado de volta a Veneza.
 

Mas nunca mais, durante todos estes anos, esqueci aquela conversa em que um homem e uma mulher tinham se descoberto no aeroporto de Veneza e, durante um curto vôo para Paris, foram levados por um sentimento que, naquele momento, poderia ter sido, talvez, o mais importante das suas vidas. “Los sueños, sueños son”.

 

Linda Naufel de Freitas Li, gostei!

José Eduardo Pereira Lima Grato pela dica.