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O Estresse da Dona de Casa

Dra. June Melles Megre

   

Existe um estresse que é típico das donas de casa. O que eu vejo muito hoje em dia nas mulheres é a queixa da não realização, da falta de informação, da frustração... Há algum tempo algumas americanas propuseram a volta para casa, ou seja, mulheres deixando suas atividades profissionais para se dedicar apenas aos filhos, à casa, à administração do lar. Mas, veja bem, isso acabaria com o estresse?

 

O mundo já não aceita mais essa rainha do lar. Então não dá mais pra ficar em casa e estar feliz, porque o mundo mudou e também porque existe uma enorme desvalorização do trabalho doméstico, não só pela sociedade em geral, mas pela própria família. Além disso todo esse trabalho do lar, desgastante, não produz resultados imediatos. Você vai ver o resultado a longo prazo: por exemplo, criei meu filho e ele é hoje um adulto bem sucedido. Mas ninguém vai valorizar a fralda que você trocou, a roupa que você lavou e passou, a comida que você preparou, a febre que você curou... Nada disso.

 

No cotidiano o trabalho doméstico é invisível. Se ninguém fizer, todo mundo vai sentir a falta. Mas o que se faz passa despercebido e é feito para ser logo desfeito.

 

Mesmo a mulher que tem uma carreira, que trabalha fora do lar, ainda tem toda a responsabilidade do trabalho doméstico: é ela quem instrui o eventual empregado de casa, é ela quem sabe o que tem ser comprado ou descartado, o que tem que ser trocado ou reformado, é ela quem determina o menu do dia e quem responde pelas contas relativas à manutenção de toda a estrutura da casa.

 

Então essa mulher está sempre dividida, sem poder estar inteira nas tarefas, seja do trabalho seja do lar. As mulheres precisam tomar consciência do estresse que isso causa. Precisam aprender a dividir não apenas o trabalho físico da casa, mas também as responsabilidades.

Paula Rego, Mulher dormindo

Hoje as famílias não podem prescindir do trabalho da mulher fora de casa. A carreira não é mais apenas uma questão de realização pessoal, de escolha. O dinheiro que a mulher traz para casa tornou-se uma parte importante do orçamento da família. É uma nova situação. E será que o homem está consciente dessa nova realidade familiar?

Poucos, talvez. O homem sai de manhã e, se a empregada não chegar, o problema é da mulher, é ela que vai ter que resolver como ir para o trabalho e, ao mesmo tempo, atender as demandas da casa, as crianças que sejam da escola, o almoço...

 

Então temos a necessidade de conscientizar a nossa família de que é importante que as responsabilidades do lar sejam mais divididas e que não caia tudo nas costas das mulheres.

 

Porém ainda há um outro detalhe: acostumadas pela cultura e pela sociedade a mandar e desmandar na casa, as mulheres relutam também em abrir mão desse papel.

 

Mas e quando não há com quem dividir?

Em São Paulo 25% das famílias são chefiadas por mulheres, na maior parte das vezes  porque os homens foram embora, se sentiram pressionados por uma mulher que está constantemente aflita e nervosa pelo acúmulo de exigências na sua dupla jornada, que acaba descuidando do sexo, que acaba não mais despertando o interesse do seu parceiro.

 

Felizmente já começam a surgir os casais mais jovens que dividem melhor as tarefas domésticas. Trata-se de um outro homem e de uma outra mulher, que não tem culpa alguma por não cozinhar ou de não ter a total responsabilidade sobre a casa.

 

A mulher do século XXI é a mulher que se sabe diferente do homem, que respeita essas diferenças que existem entre os sexos, diferenças biológicas, mentais, emocionais e culturais; ela não é mais como as primeiras feministas que confundiam a igualdade social – pela qual lutavam – com a igualdade absoluta.

 

É um caminho difícil, a constituição dessa nova família, desse novo casamento, que surge com a emancipação feminina. Mas não é mais possível para a mulher confundir o seu universo feminino com o universo do lar, da casa. Ninguém vai deixar de ser feminina, com suas características e sua cultura, capacidades e atribuições que são predominantemente da mulher dentro da família, como a diplomacia, a conciliação, o reconhecimento dos sentimentos e emoções em momentos delicados, tudo isso que é mais difícil para eles do que para elas.

 

A mulher sempre foi responsável pela harmonia dentro de casa. Mas, para tornar harmônico o lar, não é mais preciso por a mão na massa em tudo.