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Aspectos da Saúde Mental das Mulheres

 (texto baseado no terceiro capítulo do livro "Mentes Femininas", do Dr. Joel, ed. Ediouro)

 

 

www.ediouro.com.br/mentesfemininas

 

A saúde mental da mulher é influenciada por fatores biológicos, psíquicos e sociais, o que torna a abordagem dos problemas e os tratamentos distintos aos dos homens.

O metabolismo da mulher e do homem transforma e elimina os medicamentos (e toda e qualquer droga) de maneira diferente. E só elas, é claro, sentem os efeitos do ciclo menstrual, da terapia de reposição hormonal, da gravidez ou do uso das pílulas anticoncepcionais e esse efeitos podem alterar alguns sintomas da ansiedade ou da depressão.

Quanto aos fatores psicossociais, acredito que papéis profissionais, sociais e familiares inferiores impostos a muitas mulheres por uma cultura machista defasada e ainda hoje reforçada e enfatizada por muitos estão entre os principais responsáveis. A perda de papéis familiares coincidentes com o período da menopausa, o não questionamento dos valores culturais ainda vigentes, enfim, as submissões aos padrões masculinos de nossa cultura podem funcionar como gatilho de um transtorno mental, como, por exemplo, a depressão. No caso da mulher, também nunca podemos nos esquecer de que abusos físicos e sexuais na infância e adolescência são grandes fatores de risco para a depressão e sempre devem ser pesquisados.

De forma geral, transtornos de humor e de ansiedade são mais comuns em mulheres. Transtornos como pânico, fobias (medos persistentes, irracionais e incapacitantes), depressão maior e distimia (humor levemente deprimido, porém de forma crônica e até incapacitante por pelo menos dois anos) são frequentes em mulheres.

Do mesmo modo, é comum o transtorno obsessivo-compulsivo, caracterizado por pensamentos intrusivos e repetitivos, como, por exemplo, medo de contaminação por algumas doenças, acompanhado de rituais como o excessivo e insistente ato de lavar as mãos.

A proporção aproximada, na maior parte dos transtornos de humor (depressão) e ansiedade (fobias, transtorno do pânico), é de 2-3 mulheres afetadas para cada homem.

Ainda há poucas explicações biológicas consistentes para tais diferenças. Hoje em dia demonstra-se que o estrógeno (hormônio feminino) possui várias ações no cérebro, alterando a morfologia dos neurônios (células nervosas) e seu funcionamento pela ação nos neurotransmissores

(substâncias químicas por meio das quais as células nervosas se comunicam entre si) e receptores cerebrais.

Isso pode ser responsável pela melhora do humor e até da memória quando há reposição hormonal na menopausa em determinadas mulheres, embora os fatores psicossociais devam sempre ser levados em consideração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Já a depressão nas mulheres pode ter sintomas atípicos isolados, como irritabilidade e aumento de apetite. E é mais freqüente e grave, com maior risco de suicídio. Na minha opinião, eventos estressores e do ciclo reprodutivo da mulher também devem sempre ser analisados criteriosamente como possíveis desencadeantes do quadro. Isso porque, como enfatizo, é muito comum haver exacerbação de sintomas depressivos e até intensa irritabilidade no período pré-menstrual.

Devido a essas diferenças biológicas e psicossociais, defendo que haja necessidade de diferentes e específicos tratamentos de distúrbios mentais femininos, inclusive do transtorno disfórico pré- menstrual (TDPM) - forma mais grave de tensão pré-menstrual, ou TPM -, hoje incluído na classificação dos transtornos mentais. Há uma ampla constelação de sintomas emocionais incapacitantes que envolvem esse período como o humor deprimido, a impulsividade e a irritabilidade), que pode ser mais perturbadora que os próprios sintomas físicos relatados: dor de cabeça, inchaço, dores musculares, dornas mamas e cólicas intensas.

Para o tratamento eficaz dos sintomas de TDPM, é recomendada a ajuda de psiquiatra devidamente habilitado, além do acompanhamento ginecológico. O trabalho deve ser sempre multiprofissional, para otimização do tratamento, com equipe constituída de psicólogos, ginecologistas e psiquiatras. Apesar dos avanços, ainda temos muitas barreiras à interdisciplinaridade.

Pela minha experiência clínica, ressalto também a importância de desmistificar a figura do psiquiatra. Não é justo alguém ficar sofrendo com suas angústias apenas por questões preconceituosas que vêm de um pensamento coletivo e conceitualmente errôneo - imposto pela sociedade. Em algum momento da vida é normal estarmos frágeis do ponto de vista psíquico. A depressão, com certeza, será a grande doença do século XXI, já que atinge cerca de 15% das pessoas do mundo todo e é duas vezes mais frequente nas mulheres. É, comprovadamente, a doença que mais causa incapacitação nas mulheres.

Ressalto ainda o cuidado que as pessoas leigas e em busca de "milagres” ou soluções mágicas, por desespero, devem ter com técnicas alternativas e ditas "naturais". Os riscos existem principalmente porque muitas dessas técnicas não possuem comprovação científica quanto à eficácia - podendo retardar o diagnóstico correto para o tratamento adequado de doenças mentais.

Canso de receber pacientes que teriam outra trajetória de vida pessoal, profissional e familiar se tivessem procurado, anos atrás, auxílio médico e psicológico adequado. Quando nos procuram, lamentavelmente muitos transtornos mentais estão cronificados e já causaram enormes prejuízos sociofuncionais.